segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Estória com gatos

Estavam três gatos no beiral do telhado: um gato filósofo, um gato artista e um gato comum.
O gato filósofo foi o que miou primeiro. Dissertou detalhadamente sobre o significado da vida de gato, e o modo como ela contribui para o equilíbrio do universo. Tinha feito um retiro espiritual num mosteiro zen, e tinha aprendido sobre o yin e o yang, e o desprendimento, e a iluminação que se atinge depois de muito meditar e se conseguir ver para além das ilusões.
Em seguida miou o gato artista, e disse da suprema beleza da noite com o luar a brilhar sobre os telhados, de como o miar de uma gata com cio representava, para ouvidos artisticamente treinados, música das esferas, do prazer estético que se podia fruir observando um salto bem preparado do ramo da árvore para cima do muro.
Miou por último o gato comum, que disse que tinha apreciado os miados dos seus distintos colegas, mas que todos os seus considerandos eram vazios de sentido se ao escutá-los ele não tivesse já um pardalito ou pelo menos um ratinho a aconchegar-lhe o estômago. Filosofia e arte muito bem, mas não de barriga vazia!
Ouvindo isto, os dois distintos colegas não puderam deixar de miar longamente, expressando a mais profunda concordância.

2 comentários:

Luís N disse...

sorrindo aqui. sugiro a substituição de "pensar sobre as coisas" por "meditar" no que ao gato zen se refere. :)

João Ventura disse...

Olá, Luís
De facto, fica mais "zen"...
Arrematado!