segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Singing and Voice

Mais um conto publicado no site Bewildering Stories:

http://www.bewilderingstories.com/issue881/singing_voice.html

Agradecimentos devidos a Don Webb e à restante tripulação. 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Welcome to Our Hotel

Bewildering Stories acaba de publicar a minha estória com o título acima:

http://www.bewilderingstories.com/issue879/welcome_hotel.html

Agradecimentos a Don Webb e à restante equipa.

 


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

EU,  AQUI  FECHADO

 

As portas

A porta principal está sempre fechada. Nos primeiros dias costumava tentar abri-la, mas já parei de fazer isso há muito tempo. É sólida, parece carvalho francês. A superfície é castanha, envernizada.
A outra porta dá acesso a uma minúscula casa de banho. O básico: lavatório, sanita e chuveiro. Um frasco com sabonete líquido preso à parede. Toalhas que de vez em quando são mudadas, não sei por quem. Não há nada para poder fazer a barba. Não há espelho.

As janelas

Não há. Tirando as portas e o postigo de que falarei adiante, não há qualquer abertura nas paredes. O compartimento é permanentemente iluminado com uma luz crua. Não há candeeiros, a luz difusa parece vir do tecto.

A mesa, a cadeira e o relógio

A mesa é minimalista. Um tampo de madeira e uns pés metálicos. Cadeira do mesmo estilo, o mobiliário parece ter vindo directamente de um catálogo do IKEA. Em cima da mesa, um relógio. De plástico preto, dígitos vermelhos, grandes, em fundo também preto. A caixa é completamente lisa, sem quaisquer botões.
Quando me trouxeram, a meio da noite, o relógio marcava 3:27. A precisão da memória para pormenores irrelevantes foi uma coisa que sempre me espantou. Com períodos de sono e vigília totalmente irregulares, e como não há janelas, neste momento não sei se quando o relógio marca 12:00 é meio-dia ou meia-noite. Questão aliás totalmente desprovida de interesse.

A cama

Estrutura metálica, simples, presa ao chão. Colchão de espuma, lençóis de algodão, um édredon. Almofada. Tudo branco.

O postigo

Ao lado da porta, a uma altura do chão de aproximadamente um metro e meio, há um postigo com cerca de 40 X 40 centímetros. Normalmente também não o consigo abrir, mas de vez em quando – parece ser aleatório, ou ainda não consegui descobrir o padrão – o relógio emite um som agudo e os dígitos piscam durante alguns segundos. Nessa altura sei que posso abrir o postigo e tenho acesso a um pequeno compartimento, onde está um prato de comida simples, mas nutritiva, um copo de água e uma colher. Levo tudo para a mesa, sento-me e como. Quando termino, coloco o prato, o copo e a colher no compartimento e fecho o postigo. Daí a algumas horas repete-se o ritual.

Passo a maior parte do tempo que estou acordado deitado na cama a olhar para o tecto. Ou sentado à mesa a olhar para o relógio. Às vezes fecho os olhos e tento descobrir o tempo que leva a passar um, ou dois, ou cinco minutos. É raro acertar. Umas vezes falho por defeito, outras por excesso.

Não tenho nada para ler, nem papel nem lápis para escrever. Relembro vezes sem conta a sequência de eventos que aqui me trouxe, na esperança de encontrar algum pequeno detalhe, qualquer indício que lance luz sobre tudo isto.

Dormia no meu apartamento quando acordei com a campainha da porta. Dois toques firmes, imperativos. Acendi a luz, calcei os chinelos e caminhei com passo incerto até à porta. Terceiro toque. “Estão com pressa!”, pensei.

Espreitei pelo óculo e vi três homens, de sobretudo preto e óculos escuros. Se não lhes abrisse a porta, de certeza que a arrombavam. Abri a porta.

O que estava à frente segurou um cartão uma fracção de segundo à frente do meu nariz, e disse:

- Vista-se rapidamente, tem de nos acompanhar.

Parecia uma cena tirada do “Men in Black”. Obedeci, o que é que eu podia fazer?

Meteram-me num carro, vendaram-me os olhos, e o carro andou durante o que me pareceu uma eternidade. Quando parou, fizeram-me sair, subir uns degraus, entrar num elevador, andar mais uns passos e chegámos aqui. Tiraram-me a venda, e enquanto eu olhava em volta, meio aturdido, sem dizer uma palavra saíram fechando a porta.

E é isto. Por vezes questiono-me: “e se tivesse resistido à detenção?” Mas contra aqueles três homens, a minha resistência teria sido fútil. Estaria na mesma aqui, eventualmente com algumas equimoses.

Tento imaginar as consequências do meu desaparecimento no mundo exterior.

A senhora que duas vezes por semana faz a limpeza do meu apartamento. Na primeira vez não deve ter estranhado nada, limpou, arrumou e saiu. Na segunda estranhou não haver nada fora do lugar, estar tudo tal qual tinha deixado. Como irá reagir quando no dia habitual de pagamento não encontrar em cima da mesa da cozinha o envelope com dinheiro que lá costuma estar? Irá queixar-se a alguém? Ou vai encolher os ombros e pensar “Má sorte a minha, vir trabalhar na casa de um aldrabão”?

O meu chefe no escritório onde trabalho, estranhará a minha primeira falta sem aviso, liga-me para o telemóvel e a chamada vai para a caixa do correio, no segundo dia fica mais preocupado e no fim do dia, imagino, telefona à polícia. Acho que há um prazo legal para uma pessoa ser dada como desaparecida. Provavelmente irão depois à minha casa, entrevistam os vizinhos, é um condomínio pacato, ninguém dá conta de nada, perguntam no quiosque dos jornais, no minimercado ao fundo da rua, no café da esquina, levam uma foto, conhece este senhor? Quando foi a última vez que o viu? Isto sou eu a imaginar, é o que vejo nos filmes. Mas pode acontecer que não façam nada disto, a polícia tem muita coisa que fazer, e o caso é simplesmente arquivado.

Na faculdade onde estudo à noite não tenho propriamente amigos. Há alguns colegas com quem costumo fazer os trabalhos de grupo, mas os trabalhos deste semestre já foram todos entregues, estamos (estávamos) a estudar para os exames, essencialmente trabalho individual, ninguém irá estranhar a minha ausência. Um eventual telefonema a pedir uns apontamentos emprestados que não seja atendido não é motivo para alarme. Liga-se a outro colega e resolve-se o problema.

Ponho-me a pensar se isto não fará parte de uma experiência sociológica, sobre as consequências do desaparecimento de um cidadão no tecido social mais próximo. Assim como o equivalente de atirar uma pedra à água e observar as ondas que se propagam a partir do ponto de impacto. Se não houver obstáculos na superfície os círculos concêntricos vão alargando com pouco amortecimento, é um fenómeno relativamente trivial, mas quando há rochas a aflorar na superfície líquida ou um canavial, as ondas que se propagam interferem com estes obstáculos, são reflectidas ou refractadas, ocorre uma dinâmica muito mais complexa.

Cada um de nós faz parte de uma teia invisível, mas nem por isso menos real, que nos liga aos familiares, aos amigos de infância, aos amigos mais recentes, à escola onde andámos, ao café que frequentamos, ao restaurante onde vamos às vezes jantar… De vez em quando há fios que se partem, outros novos que se incorporam na teia, uns mais grossos que resistem mais, outros finíssimos que desaparecem à mais leve brisa. Alguém disse que estamos vivos enquanto alguém se lembrar de nós. Mas quando desaparecer o centro desta teia, os fios agora soltos que nos ligavam aos outros poderão ainda chamar-se uma lembrança?

Ao mesmo tempo, isto é também uma experiência em psicologia. Modificações induzidas no comportamento de um espécime humano quando submetido a privação sensorial severa. Deve haver microfones embebidos nestas paredes, câmaras escondidas nestes painéis translúcidos que forram o tecto, a registar o mínimo som ou gesto, o mais pequeno enrugar da testa, todos os movimentos que faço, mesmo enquanto durmo. A forma como mastigo, como bebo água, como lavo os dentes… Um catálogo completo do comportamento de um homem em confinamento solitário…

Certamente haverá outros (provavelmente muitos mais) como eu, em quartos semelhantes, observados segundo os mesmos protocolos. Uma amostra estatística tem de ter uma certa dimensão para ser representativa da população. Cada um deles terá a sua teia de relações, maior ou menor consoante a sua “visibilidade” social. Essa teia será examinada cuidadosamente, aferindo o impacto do desaparecimento dessa pessoa. E até haverá, ocasionalmente, interacções entre algumas das teias.

Isto é provavelmente um projecto que se vem desenrolando há bastante tempo. Se assim não fosse, o desaparecimento de muita gente em simultâneo causaria alarme social. E uma operação desta dimensão tem de manter o tecido social inconsciente do que se está a passar. O observado não pode estar consciente dessa observação, se não o seu comportamento deixará de ser natural… Recordo agora, do tempo em que lia jornais (há quanto tempo?), pequenas notícias como “Desapareceu de casa de seus pais (…)”, “Desapareceu da casa de família (…)”, referentes a jovens, adultos, idosos, em geral acompanhadas de uma fotografia, que surgiam com alguma frequência nas páginas dos anúncios pessoais, eu em geral não ligava, a menos que a fotografia me lembrasse alguém conhecido… Mas já devia ter a ver com isto…

E chegará um dia em que o projecto terminará. Não por falta de financiamento, como às vezes acontece com os projectos mais comuns, mas porque já foi adquirido o conhecimento que era o seu objectivo.

E o que se faz às cobaias quando se encerra um projecto? Deixando de ter qualquer utilidade, a conclusão só pode ser uma: são descartadas!

Parece-me ouvir passos do lado de lá da porta. Apuro o ouvido. Sim, agora tenho a certeza! E o ruído de uma chave a entrar na fechadura. E vejo o manípulo a rodar…

A transferência

A porta abre-se e por ela entram os gorilas que me foram buscar a casa, séculos atrás. Ou os seus irmãos gémeos. Vestidos de preto, óculos escuros. Um deles entrega-me uma peça de roupa, dobrada.

“Vista isto, vamos sair.”

Desdobro a roupa. É um macacão de cor laranja. Visto-o. Reparo que as mangas têm uma banda que as torna justas nos pulsos.

Vendam-me os olhos, fazem-me entrar num carro, e circulamos de novo durante o que me pareceu quase uma hora. Paramos, saímos do carro, entramos nalgum tipo de edifício. Sinto que estou num local com mais gente à volta. Tiram-me a venda.

Um choque! Estou numa espécie de hangar, com algumas dezenas de outras pessoas, todas envergando macacões semelhantes. O meu primeiro pensamento foi: quem quer que sejam, estes tipos devem ter andado a ver doses massivas da Casa de Papel! À volta, encostados às paredes, vários dos gorilas, todos de igual, parecem ter todos saído de um ginásio de body building…

Dos altifalantes instalados junto ao tecto sai o som de um gong, como no fim do intervalo numa sessão de cinema. As conversas que se tinham iniciado a meia voz morrem.

“Olá a todos. Por esta altura já devem ter percebido que são participantes, se bem que involuntários, num estudo sobre confinamento. Terminou a Fase 1 desse estudo e vamos iniciar a Fase 2.

Devem seguir todas as indicações que vos forem dadas. A desobediência às ordens recebidas terá consequências que podem ser desagradáveis.

Vão ser separados em grupos de dez. Cada grupo viverá numa sala, onde será exposto a emissões de televisão. Os membros do grupo estarão em permanência sujeitos a observação, que será totalmente passiva, não interferindo com o vosso comportamento.

Enquanto durou a Fase 1 do estudo, muita coisa mudou no mundo exterior. Em breve se aperceberão dessas mudanças.

Vamos chamar grupos de dez nomes, que devem juntar-se no portão de saída, para ser conduzidos às salas respectivas.

Alberto… Francisco… Elisa… Henrique… Isabel…”

Quando alguém era chamado, piscava uma luz na banda do pulso esquerdo do macacão. Chegou a minha vez e com o resto do meu grupo, fomos dirigidos ao longo de um corredor, um dos gorilas à frente e outro atrás, para uma sala grande onde nos fizeram entrar, fechando depois a porta.

Numa metade da sala, um plasma gigante preso à parede e sofás posicionados de forma conveniente. Na outra metade uma mesa redonda, de tamanho adequado para o grupo se sentar à volta.

Olhando em redor da sala facilmente localizámos as câmaras que nos iriam manter sob observação contínua. Ninguém procurou os microfones que certamente estariam dissimulados nas paredes e tecto. Continuando a explorar o espaço, verificamos que a sala tem uma segunda porta que comunica com um dormitório com dez camas. Na parede do fundo do dormitório há duas casas de banho, para homens e mulheres.

O grupo

Alguém sugeriu que nos apresentássemos, sentámo-nos à volta da mesa e cada um de nós disse quem era e forneceu alguma informação sobre a sua história pessoal até ao ponto em que estávamos. Parecia uma sessão dos Alcoólicos Anónimos. Mas ficámos a saber que todos tinham tido uma experiência de confinamento solitário semelhante à minha.

O grupo constituía uma interessante amostra em termos de profissões. Dois administrativos, um engenheiro, um técnico de vendas, um empregado de mesa, uma caixa de supermercado, uma enfermeira, um mecânico de automóveis, dois estudantes. E de estados civis: Três solteiros (a viver sozinhos), mais dois solteiros (a viver com os pais), um divorciado, dois casados, dois a viver com namoradas.

Quando terminou a ronda de apresentações, já devíamos estar já a ser observados, porque ligaram a TV.

Às primeiras imagens ficámos todos em silêncio. O que o ecrã nos mostrava era a cidade de Lisboa, em pleno dia, deserta! A câmara percorria a Rua Augusta, o Terreiro do Paço, imagens ao longo do rio, zonas onde habitualmente se vêm filas de tuk-tuks e montes de turistas de mochila e garrafinha de água na mão, nada. Corte para o Porto. A Ponte D. Luís, zoom sobre a Ribeira, a zona dos Clérigos, a porta da livraria Lello, sem o enxame habitual de turistas e nativos. Quando (muito raramente) se via uma pessoa, caminhava apressadamente, como se quisesse fugir da rua quanto antes. Agarofobia, foi a palavra que me veio à cabeça, o medo dos espaços abertos.

O facto de a gravação não ter som acrescentava ainda mais estranheza às imagens.

Olhámo-nos sem saber o que dizer, quando a transmissão mudou, agora era o interior de um supermercado, respirámos de alívio, aqui pelo menos havia pessoas, mas quando a câmara se aproximou vimos que todos usavam uma máscara que lhes tapava a boca e o nariz. E havia algo estranho na forma como se movimentavam, parecendo que procuravam manter-se afastados uns dos outros.

Ou comentários dispararam no nosso grupo.

“Isto é de algum filme, só pode!”

“Olha, é o supermercado onde eu costumo ir. Mas nunca lá vi ninguém mascarado!”

A emissão mudou de novo. Agora era a imagem de uma rua com um grupo de mascarados a partir montras, a saquear lojas, a incendiar caixotes do lixo. À entrada em cena da polícia de choque, muitos dos manifestantes começaram a atirar tudo o que tinham à mão às forças da ordem, que ripostavam com gás lacrimogéneo, mas só com o aparecimento de uma viatura com um canhão de água a polícia conseguiu pôr os manifestantes em fuga.

A meio deste clip o Tiago exclamou: “Atenção, malta, isto não é em Portugal!”

Vários olharam para ele: “Como é que sabes?”

“Olhem para as tabuletas das lojas, pá! Acham que “Pâtisserie” ou “Orfèvres” são nomes portugueses?”

E a sessão continuou, sequência após sequência, algumas delas retiradas de filmes sobre catástrofes que um ou outro de nós conseguia identificar, outras que poderiam passar por legítimas reportagens, imagens reais de locais reais. O que não quer dizer que o fossem. Ao fim de algum tempo, entre preocupados e saturados, levantámo-nos dos sofás e fomos sentar-nos à mesa. Tomás começou a falar.

“Malta, primeiro uma pergunta: Quem é que está preocupado?”

Duas ou três mãos levantaram-se, hesitantes. A minha foi uma delas.

“E assustado?”

Mais quatro mãos que se levantaram.

“E quem é que está borrado de medo?”

Houve risos à volta da mesa quando duas mãos se ergueram, acompanhadas de dois sorrisos meio envergonhados.

“OK, eu tenho uma ideia para explicar estas cenas. Acho que fazemos parte de uma experiência sobre o medo.”

“Explica lá isso melhor.”

“Fazem-nos ver filmes preocupantes ou assustadores para nos fazerem ter medo. E o facto de não sabermos se são imagens reais ou falsas aumenta a ansiedade.”

“Mas para quê? Qual é o objectivo?”

“Bem, isso não sei… Mas acho que além de nos filmarem e gravarem o que dizemos, também estão a medir os nossos parâmetros vitais… Esta banda no nosso pulso esquerdo, onde acendiam as luzinhas quando nos chamaram, deve transmitir a pulsação, a tensão arterial e sei lá o quê mais! Assim quantificam as nossas reacções ao que nos está a ser mostrado. Isto é big data! Tem muito valor para os tipos do marketing!”

“Há meses vi um programa de televisão sobre isso”, acrescentei eu. “Alguns governos tentam instalar o medo nas pessoas para dessa forma conseguirem um controlo maior sobre elas. Vocês não se lembram da história do Trump com a construção do muro entre os Estados Unidos e o México? Criar o medo aos mexicanos para obter apoio para a construção do muro!”

O dia a dia

Em pouco tempo adaptámo-nos à rotina. Às horas das refeições traziam-nos embalagens com comida quente, como nas viagens de avião de longo curso, e faziam rolar uma mesa com dois jarros, café e chá. A um canto da sala havia em permanência um bebedouro com copos plásticos.

Quando terminávamos, o pessoal que nos trazia a comida levava a mesa de volta, recolhiam embalagens vazias e demais lixo e saíam. Nunca falavam connosco, nem nos respondiam quando nos dirigíamos a eles.

No terceiro ou quarto dia, saltou a tampa ao Tiago.

Tiago

Se fôssemos psicólogos, poderíamos ter-nos apercebido a tempo. Notámos que ele andava cada vez mais calado, já não falava tanto sobre o filho bebé que estava em casa com a mulher, mas nada nos preparou para a sua reacção explosiva. Ao jantar, atirou a comida ao chão e começou a dar murros e pontapés na porta, enquanto gritava “Deixem-me sair! Quero ir-me embora!”

Todas as nossas tentativas para o acalmar foram infrutíferas.

Alguns segundos depois a porta abriu-se, dois gorilas agarraram nele e levaram-no.

Isto foi há dois dias. Não tornámos a vê-lo nem tivemos qualquer notícia dele.

A fuga

As luzes do dormitório tinham sido apagadas, preparava-me para pegar no sono quando senti a presença de alguém junto à minha cama. Uma voz sussurrou:
“Não te mexas! Ouve com atenção!”

Era o Joaquim.

“Vou tentar sair daqui, e preciso de ajuda. Aquela abertura de ventilação na parede do fundo deve dar acesso a uma conduta que espero leve ao exterior, à entrada de ar fresco. Mas antes quero tapar a câmara que está ali ao canto, em cima. Preciso de subir aos teus ombros para chegar à câmara, e tapá-la com um retalho de pano, que cortei do meu lençol. Alinhas?”

Deslizei da cama e rastejámos os dois até ao canto do dormitório. Agachei-me, ele subiu para os meus ombros, levantei-me lentamente e alguns segundos depois ouvi-o murmurar: “Já está! Podes baixar-me.”

Dirigimo-nos para a abertura de ventilação. Continuávamos a falar em voz muito baixa, porque além da câmara agora neutralizada devia haver também microfones nas paredes.

“Precisamos de outra ajuda, porque depois de eu entrar na abertura é necessário tornar a aparafusar a grelha, para retardar o mais possível a descoberta da fuga.”

Acordámos o Nuno, e explicámos rapidamente a situação.

“E tens uma chave de parafusos?”, perguntei ao Joaquim.

“Fui cortando pedaços de alumínio das embalagens de comida, e fiz uma chave Philips, ficou um bocado tosca, mas deve servir.”

Repetimos o procedimento, com ele aos meus ombros. Desta vez demorou um pouco mais, porque ele precisou de desenroscar os quatro parafusos de fixação, e o trabalho foi feito praticamente às escuras. Quando terminou, Joaquim passou-nos a grelha e os parafusos, içou-se para dentro da abertura e desapareceu no interior da conduta.

Subi para os ombros do Nuno, coloquei de novo a grelha no local e aparafusei-a. Não ficou tão bem apertada como estava antes, mas o suficiente para não levantar suspeitas quando vista do chão. Desci e voltámos a deitar-nos, no máximo silêncio.

O que o Joaquim contou mais tarde

Quando se apanhou no terraço do edifício, Joaquim respirou fundo. Olhou para o céu estrelado, felizmente era lua nova, a última coisa de que precisava era um luar brilhante.

As prioridades de actuação estavam claras na sua cabeça: sair do terraço e ver-se livre do macacão laranja.

Depois de ter rastejado ao longo da conduta de ventilação, que como ele supunha ia dar ao terraço, conseguira sair da conduta arrancando a grelha, que estava presa por molas relativamente fracas. Uma pesquisa rápida no terraço levou-o à descoberta de um casinhoto usado pela manutenção para armazenar ferramentas e equipamentos, cuja porta não resistiu a um empurrão. Entre utensílios diversos, Joaquim descobriu uma corda, que levou até ao bordo do terraço. Prendeu uma ponta da corda a uma das chaminés, passou-a por cima do pequeno muro e desceu, os pés apoiados na parede, até chegar ao chão. Benditas as sessões de montanhismo nos escuteiros da sua adolescência!

O edifício tinha uma envolvente arborizada, que Joaquim percorreu rapidamente até chegar ao muro exterior. Uma das árvores tinha um ramo grosso que passava por cima do muro. Subiu à árvore, deslizou pelo ramo até passar o muro, pendurou-se do ramo e aterrou de pernas flectidas no passeio da rua.

Foi andando sempre pelas zonas mais sombrias da rua. Entrou num bairro de vivendas, moradias só com piso térreo, e viu algo que o encheu de alegria: uma dona de casa tinha deixado roupa num estendal. Saltar o muro do jardim, tirar uma camisa e uns jeans do arame, despir o macacão, vestir a roupa “emprestada” e dobrar o macacão foi feito num ápice.

Um camião do lixo apareceu no início da rua, a lâmpada avisadora pulsando azul e branco. Joaquim pegou no macacão dobrado e colocou-o num contentor do lixo. Ficou escondido até ver os funcionários da câmara recolher esse contentor e esvaziá-lo no camião. Assumindo que a banda do pulso esquerdo conteria um dispositivo de localização, eventuais perseguidores iriam seguir o camião. E se fossem lentos a reagir, iriam até à incineradora da ValorSul em S. João da Talha!

Agora vestido de forma muito menos chamativa, Joaquim orientou-se e iniciou a caminhada, de forma cautelosa, para onde tinha de ir.

O resgate

Era madrugada quando acordámos com uma explosão. Saltámos das camas e passámos para a sala. Sentámo-nos à volta da mesa, esperando o desenrolar dos acontecimentos. Alguns roíam as unhas.

Ouvimos ainda o que nos pareceram disparos, abafados pela distância e pelas portas fechadas. Até que a fechadura da porta da sala foi rebentada com um tiro.

Três homens vestidos de preto e com as caras cobertas por máscaras entraram de súbito, varrendo o espaço com os feixes de luz das lanternas acopladas às armas.

“Somos da polícia! Viemos libertar-vos! Mantenham-se tranquilos e quietos por mais algum tempo.”

Ouvíamos agora mais passos apressados no corredor.

“Aqui estão oito, todos bem!”, disse um dos polícias para alguém no exterior.

Dois deles saíram e na sala ficou apenas um. Víamos agora melhor, parecia ser das Operações Especiais e vestia um colete à prova de bala. Mantinha-se junto à porta, nunca deixando de empunhar a arma.

Ao fim do que nos pareceu uma eternidade, vieram comunicar ao polícia que nos guardava: “Ordens para os juntar a todos no hangar.”

Minutos depois estávamos todos no local onde nos tinham juntado à chegada.

“Peço a vossa atenção! Sou o superintendente Martins, do Grupo de Operações Especiais da PSP. Vocês têm estado prisioneiros de uma organização criminosa, cujos contornos se apresentam ainda um pouco difusos. Mas o importante é que conseguimos neutralizar a sua actividade e vocês estão livres.

Tenho a certeza de que gostariam de regressar rapidamente às vossas casas. Mas peço um pouco mais de paciência, porque vamos ter de vos identificar e tomar nota dos vossos depoimentos. Depois deste procedimento iremos levar-vos a casa. Existem limitações à movimentação no espaço público, devido ao facto de haver uma pandemia à solta. A situação de saúde pública está muito diferente da que era quando vocês foram raptados.”

Fez uma pausa e com um gesto chamou alguém que estava ao canto da sala. Quando a pessoa se aproximou vimos que era o Joaquim, já vestido com roupa normal.

“Esta operação cumpriu os seus objectivos, que era libertar-vos e capturar os responsáveis pelo vosso sequestro. Para o seu êxito foi fundamental a actuação deste vosso colega de cativeiro, que conseguiu fugir e alertar as forças policiais para o que se estava a passar aqui.”

O pessoal da nossa sala começou a bater palmas e em breve toda a gente aplaudia. O Joaquim sorria, timidamente.

“Mais um pormenor. Encontrámos o colega que foi retirado há dias de junto de vós, fechado num quarto com isolamento acústico. Aparenta estar bem, mas já seguiu numa ambulância para o hospital, para ser submetido a exames médicos.”

A conferência de imprensa

Uma semana mais tarde, o director da Polícia Judiciária convocou uma conferência de imprensa. Eu e o Joaquim fomos assistir. Disse-me que tinha sabido que o Tiago estava bem e já em casa. Ainda me parecia estranho ver uma sala com todos os ocupantes de máscara a tapar nariz e boca.

“Há alguns dias, na sequência da resposta a uma operação de sequestro que teve lugar na cidade de Lisboa, foi possível descobrir que esta operação fazia parte de outra muito mais vasta, de âmbito internacional. Em colaboração com a Europol e a Interpol foi possível uma actuação célere que levou à detenção de um número elevado de pessoas em vários países da Europa e das Américas do Norte e Sul, bem como ao resgate de um número considerável de pessoas sequestradas.

O objectivo desta rede era obter informação para aperfeiçoar os algoritmos de Inteligência Artificial que são usados para monitorizar, seguir e prever o comportamento dos cidadãos. Desta forma poderiam melhorar a fabricação de fake news e de um modo geral tornar mais eficientes todos os procedimentos de controlo dos cidadãos. Os beneficiários últimos desta actuação seriam grandes empresas multinacionais, interessadas em criar o consumidor perfeito, que compre sem se questionar, e organizações políticas de extrema-direita, a quem interessa injectar o medo nos cidadãos, que os leva a aceitar medidas de controlo social que normalmente não apoiariam. Juntem a isto enormes fluxos financeiros entrando e saindo de paraísos fiscais e ficarão com uma ideia do que está em jogo.

Os governos nacionais e as instituições internacionais parece terem levado a sério esta ameaça, e creio que assistiremos nos próximos tempos a medidas efectivas no sentido de controlar e combater com eficácia este tipo de actividades ilícitas e criminosas.

Estou à vossa disposição para responder a perguntas, pedindo desde já a vossa compreensão para o facto de que, como há ainda investigações em curso um pouco por todo o mundo, algumas perguntas poderão ficar sem resposta.

Eu e o Joaquim caminhámos lentamente em direcção à saída. Já na rua, virei-me para ele e perguntei-lhe:

“Ouve lá, como é que conseguiste que a polícia acreditasse em tudo o que lhes contaste e actuasse tão rapidamente?”

Com um sorriso irónico, respondeu-me:

“Bem, o facto de ser irmão de um Inspector da Judiciária ajudou um bocado!”

terça-feira, 14 de julho de 2020

A PERSISTÊNCIA DAS GRALHAS

Para o Rogério Ribeiro, que sabe a razão deste conto 


A revisão do capítulo 3 tinha levado mais tempo do que o esperado (’como tudo na vida’, pensou Alfredo. ‘Bem, nem tudo’, respondeu mentalmente a si próprio, num diálogo interior em que frequentemente se comprazia. ‘Só as coisas chatas, as agradáveis até levam menos tempo’...)

Antes de passar ao capítulo seguinte, resolveu dar uma última leitura ao que tinha terminado. E na terceira página, o seu olhar treinado detectou uma que tinha a certeza de ter corrigido: a palavra “inçerteza” (sim, há escritores que cometem erros “de palmatória”). Como diabo a gralha tinha tornado a aparecer?

Corrigiu e continuou a leitura. Até ao fim do capítulo descobriu mais duas gralhas, que corrigiu, e que novamente estava seguro de ter corrigido na revisão.

Imprimiu o capítulo e guardou as folhas impressas numa gaveta. E abriu o ficheiro com o capítulo 4, para continuar a trabalhar. Cerca de duas horas mais tarde tinha terminado o trabalho. Mas antes de ir dar uma volta para espairecer, obedecendo a uma leve sensação de desconforto, abriu de novo o ficheiro do capítulo 3, tirou as folhas impressas da gaveta e começou a comparar o que tinha no écran e no papel, página a página, palavra a palavra. E quando chegou à terceira página a sua respiração ficou suspensa: a palavra “inçerteza” estava de novo no ficheiro. Tal como as outras duas gralhas mais à frente! Fechou o computador e pegou no telemóvel.

Deixou tocar durante algum tempo e desligou. ‘Deve ter o telemóvel sem som, é o costume’. Ele e o Zé Luís tinham sido colegas no secundário. O amigo sempre tinha sido um entusiasta dos computadores, tinha optado por Ciências e Tecnologias e seguido para Engenharia Informática. Alfredo, mais interessado nas letras, escolhera Línguas e Humanidades e terminara com um mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos. Ainda se encontravam com alguma frequência, em particular quando havia algum evento sobre ficção especulativa, de que ambos eram ávidos consumidores.

‘Preciso falar contigo! Podemos almoçar hoje?’

Mensagem curta e concisa, premiu Send e ligou a televisão para ver mais um episódio de Devs. Ainda não tinha acabado o genérico, chegou a resposta.

‘Almoçar não dá, já tenho uma reunião marcada. Uma bejeca ao fim da tarde?’

‘OK’

E Alfredo voltou ao visionamento da série.



--- xxx ---


Pouco passava das seis e a cervejaria enchia lentamente. Alfredo entrou, pediu uma imperial ao balcão e sentou-se numa mesa com vista para a porta. Minutos depois chegou Zé Luís.

“Viva! Deixa-me ir buscar combustível e já falamos”. E desandou em direcção ao balcão. Voltou daí a pouco com uma cerveja na mão.

“OK, então o que é que se passa?”

Alfredo explicou-lhe detalhadamente o que se tinha passado com a revisão do texto. Quando terminou, o amigo ficou calado alguns segundos.

“Tenho de olhar para as entranhas do teu computador, mas só posso ir a tua casa depois de amanhã. Mas, entretanto, podemos ir fazendo alguma coisa.” E enquanto dizia isto, foi tirando o portátil da maleta onde o trazia, abriu-o e ligou-o, de uma bolsa no interior da maleta tirou uma pen, e copiou para lá qualquer coisa. Entregou a pen ao amigo, desligou o portátil e arrumou tudo.

“Quando chegares a casa, instalas o programa que vai aqui na pen. Este programa vai monitorizar tudo o que entra e sai do teu computador. Podes continuar a trabalhar, porque se os gajos te quisessem lixar todo o trabalho já o tinham feito. Quando acabares um bloco de trabalho guarda uma cópia numa pen ou num disco externo, mas desligas esse suporte assim que acabares de copiar. Depois de amanhã à noite passo na tua casa e aí já devemos ter alguma coisa mais objectiva para trabalhar.”

E ditas estas palavras acabou de beber a imperial, apertou a mão a Alfredo e zarpou.

No dia seguinte, Alfredo enviou uma mensagem a Zé Luís.

‘A que horas estás a pensar chegar amanhã? Vou encomendar pizza.’

A resposta foi sucinta: ‘8’.


--- xxx ---


À hora combinada, Zé Luís estava a tocar à campainha. Alfredo fê-lo entrar para a cozinha e abriu as caixas de pizza que o estafeta da Glovo tinha trazido dez minutos antes. Tirou duas cervejas do frigorífico e sentaram-se a comer. Quando terminaram, Alfredo disse:

“Deixa isso, que eu depois arrumo. Vamos para a sala e enquanto começas, vou fazer dois cafés.”

Ligou a máquina, pegou em duas cápsulas, e minutos depois levava os cafés para a sala, onde Zé Luís já estava a trabalhar.

Ainda tentou acompanhar o que ele estava a fazer, mas só via linhas de código a deslizar pelo écran, enquanto os dedos de Zé Luís saltavam no teclado. Não lhe disse nada, porque sabia que os informáticos quando engrenam num trabalho não gostam de ser interrompidos. Pegou no último livro que tinha começado e sentou-se no sofá a ler. Passada quase uma hora, Zé Luís levantou-se da cadeira e espreguiçou-se.

“OK, já tapei os ‘buracos’ por onde eles entraram. A partir de agora já não vais ter mais brincadeiras com as tuas revisões. Agora queria ver se percebo quem estes tipos são. Mas para isso vou ter de usar o meu computador, que está artilhado com umas ferramentas que o teu não tem.”

Desligou o computador de Alfredo e abriu o seu. Novamente durante largo tempo o único som na sala era o martelar do teclado. Ao fim de algum tempo Zé Luís levantou-se e soltou um “Uauuu!”

“Não vais acreditar donde isto veio!”

Perante o olhar interrogativo de Alfredo, continuou:

“Já ouviste falar em Deep web ou Dark web? Não são a mesma coisa, mas muita gente pensa que sim. Não interessa agora os pormenores, mas é uma parte da web que não é acessível através dos motores de busca. Uma espécie de catacumbas numa cidade onde a generalidade das pessoas anda por ruas e estradas. Encontra-se lá de tudo! E com um bocado de sorte e de pensamento lateral, e com as pegadas que eles deixaram no teu computador, consegui chegar ao grupo responsável pelo que te aconteceu. E ouve o nome: ‘Exército Divino contra a Perfeição Humana’.

Alfredo fez uma cara de incredulidade que levou o amigo a soltar uma gargalhada. Este continuou:

“O racional é muito simples. Primeiro: Só Deus é perfeito. Segundo: Tentar fazer algo perfeito é pretender ser igual a Deus, o que é, sem mais considerações, uma atitude blasfema. Terceiro: Os membros do Exército Divino têm como missão introduzir imperfeição nas criações humanas.”

“Nota que não se propõem destruir o que fizeste. Apenas introduzir o grãozinho de imperfeição que faz com que a tua criação nunca possa aspirar à perfeição divina.”

“E o que vais fazer?”

“A eles? Nada, deixá-los em paz. Estes ainda são dos tipos mais inofensivos que podes encontrar na Dark net. O teu problema está resolvido. A partir de agora, gralhas num texto revisto por ti só as que tu próprio deixares passar.”

Deu outra gargalhada e acrescentou: “Vamos dar uma volta para desmoer a pizza!”

domingo, 7 de junho de 2020


Coisas do Cérebro

(Com uma Grã-referência à magnificência de João Galamba de Almeida)

Era um leitor omnívoro. Lia tudo o que lhe caía nas mãos. Romance, poesia, biografia, viagens, ensaio, teatro, correspondência… Mas também lia jornais, revistas, panfletos publicitários, guias turísticos, boletins da Junta de Freguesia…
E, perguntará o leitor, a que se devia essa obsessão compulsiva pela leitura? Porque muito cedo tinha descoberto que a sua esperança de vida aumentava na proporção daquilo que lia. Lendo, ia conseguindo afastar o desenlace final.
Mas um dia descobriu que tinha esquecido completamente o primeiro livro que tinha lido. E depois outro, e outro…
E pouco a pouco ganhou a certeza de que, por cada novo livro que lia, havia outro livro que esquecia.
E assim não ficou na história por conseguir adiar a Morte através da leitura, facto que continua a ser universalmente ignorado, mas por ser o primeiro caso documentado de que a capacidade do cérebro humano é limitada. E quando enche, para entrar mais qualquer coisa, alguma outra coisa tem de sair.

terça-feira, 5 de maio de 2020

O GATO DUPLICADO


Há alguns dias, a Eugénia Oliveira chamou-me a atenção para este post no blogue de um amante de gatos, pensando que tinha potencial como início para uma história. E tinha...

a

E assim, com agradecimentos ao autor Stanislav Zak, cujo texto utilizei no início, saiu

O GATO DUPLICADO

No mês passado, o meu gato desapareceu. Há uma semana encontrei-o e trouxe-o para casa, Hoje o meu gato regressou. Agora tenho dois gatos idênticos.

Isto intrigou-me. Primeiro, o desaparecimento. O Blackie é muito caseiro, dá a sua voltinha pelo jardim, mas nunca tentou saltar a cerca.

De súbito, lembrei-me de, há cerca de dois meses, estar a trabalhar no escritório, junto à janela, ter olhado para fora e ver o meu vizinho, Erwin Schrodinger, a brincar com o Blackie: tinha passado por cima da cerca um pequeno peluche preso por um fio, e movia-o de um lado para o outro para atrair a atenção do gato. Considerei aquilo uma excentricidade de um físico, e desliguei do assunto.

Hoje li o artigo de Schrodinger na Naturwissenschaften e de repente tudo se me tornou evidente. Ele descreve uma experiência conceptual com um gato numa caixa, não se sabendo se o gato está vivo ou morto até abrir a caixa. “Conceptual” uma ova! O tipo fez mesmo a experiência e usou o Blackie para tentar provar uma teoria. Podia tê-lo matado. Não lhe vou perdoar isso!

Comecei a analisar em profundidade o artigo. Para além de um erro grosseiro na construção da matriz hamiltoneana, que não percebo como escapou aos revisores, considerou só dois termos na série de Felinowsky que, truncada desta forma, tinha necessariamente que o levar a conclusões erróneas. Vou continuar a análise.

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Ao fim de um mês de trabalho, parece-me ter chegado a conclusões sólidas. A principal é que o acto de abrir a caixa faz com que o gato que está dentro emita um gato e um anti-gato, idênticos em tudo, excepto no spin dos pêlos do bigode. O anti-gato (feito de anti-matéria, obviamente) fica sujeito a uma força repulsora que o deslocaliza, segundo os meus cálculos, para lá da órbita de Plutão. Por outro lado, o gato emitido fica numa vizinhança delta épsilon da caixa, que eu estimo entre 1 e 10 metros. Com este afastamento entre gato e anti-gato, fica excluída a aniquilação mútua dos gatos gerados na experiência, o que seria expectável se a distância fosse menor.
O gato original sobrevive incólume.

Não sei se o gato que encontrei na rua era o meu gato original, ou se era o que foi gerado na experiência. Uma questão pouco relevante, porque tenho de tratar dos dois.

Já verifiquei minuciosamente todos os meus cálculos, e não encontrei falhas. Vou preparar um artigo para submeter à Naturwissenschaften, apresentando a minha teoria, refutando as conclusões de Shrodinger e denunciando a sua experiência conceptual como uma fraude. A sua carreira científica já era!

E depois de o ter arrasado como cientista, vou pôr-lhe um processo em tribunal (que estou seguro de ganhar), requerendo que seja condenado a pagar uma pensão de alimentos para o segundo gato que agora tenho em casa!

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Os contos e os cantos

Naquele país, os contos contavam e os cantos cantavam. E sempre assim tinha sido.
Mas um dia - devido talvez a uma mutação genética - houve um conto que começou também a cantar. E pouco depois, um canto começou a contar.
Isto causou ao princípio uma certa estranheza, que foi desaparecendo à medida que mais contos começaram a cantar e mais cantos a contar.
Os concertos e recitais, que até aí eram apenas, e respectivamente, de canto e de conto, ganharam vivacidade quando passaram a misturar contos e cantos. E, pouco a pouco, os cantos que também contavam e os contos que também cantavam começaram a identificar-se como c@ntos.
A sociedade ganhou diversidade, embora continuasse a haver contos e cantos mais velhos que resmungavam entre si: "Nunca se viu isto! Onde é que isto vai parar?"
Mas poucos lhes davam atenção.

quarta-feira, 20 de março de 2019

ULTIMA HORA!

Segundo uma fonte anónima bem informada, afiliada à CMTV, a cimeira que reuniu recentemente  Donald Trump e Jair Bolsonaro deveria ter contado com um terceiro participante, Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, que em cima da hora foi obrigado a cancelar a viagem para gerir a crise na Europa, onde querem expulsar o seu partido Fidesz do PPE.
"Esses retardados do Parlamento Europeu meteram-se comigo, esperem até eu fundar o PUPE (Partido Ultra Populista Europeu)!", declarou Viktor Orbán à nossa fonte anónima.
A notícia da não-presença do primeiro-ministro húngaro foi acolhida com enorme alívio pelos cientistas do Instituto de Broncologia Política, que tinham feito uma simulação, usando o último modelo de computador quântico, das consequências de uma tal reunião tri-partida.
Confirmando as previsões da Teoria da Cretinologia Geral, se essa reunião tivesse tido lugar, a concentração de qualidades negativas num mesmo local teria ultrapassado o ponto crítico, gerando um buraco negro que sugaria em pouco tempo todo o planeta Terra, fazendo-o reaparecer noutro local do Universo, mas na Idade da Pedra. Lascada.

domingo, 28 de outubro de 2018

Para além da Internet das Coisas

Um obrigado à Eugénia, que me deu a ideia.
 
Quando a Internet das Coisas chegou em força encontrou em Flávio Ramos um dos seus mais ardentes apoiantes. Começou imediatamente um activo programa de substituição dos objectos que tinha em casa por dispositivos inteligentes, muitas vezes contra a opinião da mulher, Adozinda de sua graça, que não ia muito à bola com as modernices do marido. Flávio chamava-lhe com frequência infoexcluída e, semana sim semana não, lá entrava mais um objecto inteligente na casa dos Ramos. Foi o ar condicionado que se podia ligar e desligar pela internet e que fixava a temperatura e humidade tendo em conta as condições exteriores, o roupeiro com ligação directa ao site do IPMA e que cada manhã lhe apresentava o vestuário apropriado para aquele dia, uns sapatos que o avisavam quando precisavam de ser engraxados, o frigorífico que perguntava muito educadamente: “O leite está a acabar. Posso encomendar ou traz quando vier do trabalho?”

A tendência para a generalização da Internet das Coisas foi-se acentuando, até porque o grosso dos oponentes eram as pessoas mais velhas que, pela ordem natural das coisas e apesar do aumento contínuo da esperança de vida, iam, lenta mas definitivamente, saindo do mercado…

Mas quando a situação parecia ter atingido uma certa estabilidade, surgiu uma inovação que a curto prazo faria fechar a maior parte das escolas de formação profissional.

A empresa responsável por essa alteração radical foi a Wireless Skills, uma spin-off de um consórcio formado pelos departamentos de neurologia das cinco mais importantes universidades americanas, que realizaram um projecto cujo resultado foi, ao fim de cinco anos de intensa pesquisa, um modelo operacional do modo de funcionamento do cérebro humano.

Com base nesse modelo, a Wireless Skills desenvolveu um aparelho que permite implantar no cérebro de uma pessoa as capacidades e aptidões de um profissional. O processo através do qual fazem isso é super secreto, mas consta que gravam os padrões cerebrais dos melhores profissionais de cada ofício que são depois descarregados pelos seus clientes. As aptidões a descarregar podem ser escolhidas de um catálogo que dia a dia vai sendo ampliado.

Quando Flávio soube da existência desta invenção num fórum geek que subscrevia, logo encomendou uma unidade, e dez dias depois recebia por Express Mail um pacote da Amazon com o seu aparelho. Foi com um sentimento de feliz antecipação que rubricou o nome no tablet do transportador.

Abriu a embalagem e retirou cuidadosamente todo o conteúdo, pondo de lado a caixa para o caso de alguma coisa não estar em condições e ser necessário devolver. Conferiu com a lista que acompanhava a encomenda: um capacete (provido na superfície interior de vários eléctrodos), uma unidade de processamento e cabos de ligação. Flávio leu atentamente o manual de instruções - era uma pessoa muito meticulosa em tudo o que se referia a tecnologia - e fez as ligações de forma cuidadosa: do capacete à unidade de processamento e desta ao computador através da porta USB.

Como tinha planeado convidar o seu chefe e a mulher para um jantar, que teria lugar no fim de semana, resolveu testar o aparelho recém-adquirido fazendo download das aptidões de um chefe de cozinha e preparando uma refeição requintada. Encomendou pela net os ingredientes necessários - percorrer os corredores do supermercado a catar produtos das prateleiras era, segundo Flávio, um claro identificador dos infoexcluídos, pelo que nunca o apanhariam a fazer isso - e três horas depois um funcionário da grande superfície da qual era cliente estava a tocar-lhe à porta com a encomenda.

Flávio montou a câmara de vídeo num tripé, para ficar com um registo do seu desempenho, colocou o capacete, e usando a password que vinha com o equipamento, acedeu ao site da Wireless Skills e após 2 ou 3 cliques, a lista das aptidões disponíveis começou a correr no écran. Carregou na linha que dizia Chefs e o écran encheu-se de cores em movimento, num caleidoscópio que obrigava os olhos a fixarem-se de uma forma hipnótica, enquanto sentia um formigueiro na cabeça, nos pontos onde os eléctrodos tocavam no crânio. Passaram alguns minutos até desaparecerem as cores e aparecer uma mensagem que dizia “Download completed”. Nessa altura também o formigueiro na cabeça parou. Flávio tirou o capacete e pensou: “Não sinto nada diferente, será que foi mesmo feito o download?”

Resolveu então começar a preparar a refeição em que tinha pensado. Tirou os linguados da embalagem térmica e iniciou a separação dos lombos da espinha. Parecia que as mãos actuavam independentemente do cérebro, como se sempre tivessem sabido executar aquelas operações. Deitou azeite na frigideira, levou-o à temperatura ideal, fritou os lombos de linguado. Preparou uma maionese, que bateu vigorosamente até ficar no ponto. Estava a preparar o vinho para o repasto quando a mulher entrou na cozinha.

“O que estás a fazer?”

“A treinar a fazer uma refeição usando o Wireless Skills…”

“Isso já percebi, mas por que estás a mexer a garrafa dessa maneira?”

Foi aí que Flávio reparou que agitava vigorosamente a garrafa de Alvarinho Palácio da Brejoeira que tinha seleccionado para acompanhar a refeição. Achou aquilo estranho…

Parou o que estava a fazer, ligou a câmara de vídeo ao computador, descarregou o ficheiro que tinha gravado e começou a visualizar a gravação.

Logo desde o princípio lhe pareceu que os gestos não eram muito apropriados para as operações que estava a executar. A forma como tinha separado os lombos do linguado da espinha, a maneira como tinha mexido a maionese, tudo lhe parecia desajustado…

Com o pressentimento de que alguma coisa teria corrido mal, Flávio acedeu novamente ao site, abriu a lista de skills e fê-la deslizar até à linha Chefs. Reparou então que a linha imediatamente abaixo - as skills estavam listadas por ordem alfabética - era DIY. Do It Yourself!

Sentiu um arrepio e percebeu subitamente o que tinha acontecido. Por engano, tinha descarregado - e o seu cérebro tinha absorvido - os skills de um adepto de bricolage.

“E agora tudo se torna claro!”, explicou Flávio a Adozinda. A maneira como tinha tirado os lombos dos linguados era muito mais próxima do movimento de uma espátula a raspar papel de parede do que do movimento subtil com uma faca afiada que várias vezes tinha visto no Master Chef. Quando se viu a mexer a maionese, pareceu-lhe que estava a homogeneizar uma lata de tinta amarela acabada de abrir, e o agitar da garrafa de vinho que Adozinda tinha presenciado era tal qual o sacudir de uma lata de spray antes de aplicar a tinta!

Flávio tinha agora um problema complicado a resolver: só poderia descarregar os skills de cozinha depois de ter passado o efeito das capacidades que tinha absorvido, e segundo o manual de instruções o efeito do download no cérebro durava sete a dez dias. Mas o jantar estava marcado para dali a cinco dias. Adozinda, que era uma mulher pragmática, descobriu a solução.

“Não te preocupes que eu faço o jantar para o teu chefe. Mas entretanto, enquanto não desaparecem essas habilidades que absorveste, temos aqui em casa uma série de coisas que precisam de arranjo: o estore do quarto; o estendal da roupa; as portas do roupeiro que estão descaídas; a torneira da cozinha que está sempre a pingar; e ainda hei-de descobrir mais alguma coisa.”

E assim foi feito, porque Flávio já há muito tinha concluído que a lógica da mulher era em geral imbatível. E no dia do jantar, Adozinda preparou cabrito assado no forno, que ela fazia maravilhosamente e que foi muito elogiado pelo chefe e pela esposa do chefe, que até lhe pediu a receita. E daí em diante, Flávio passou a ser mais cauteloso em relação às novidades tecnológicas.

Tudo está bem quando acaba bem!

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

ELEUTÉRIO E O ESCRITOR FAMOSO

Para a Regina, que me deu a ideia…


Eleutério descobriu quase por acaso que o escritor famoso ia jantar habitualmente à Estrela da Junqueira – Refeições e Petiscos.
Eleutério era um grande admirador do escritor famoso. A prateleira de cima da estante comprada no IKEA vergava com o peso das obras primas produzidas pelo escritor famoso, e colado na parede por cima da televisão estava uma foto do escritor famoso em pose contemplativa, publicada há alguns anos no suplemento literário de um jornal diário.

Sempre que possível, Eleutério escolhia uma mesa ao lado, olhava disfarçadamente o que ele estava a comer e escolhia o mesmo, trocavam um aceno de cabeça e um sorriso à chegada ou à partida, até que a oportunidade se proporcionou num dia de jogo europeu. A Estrela da Junqueira estava cheia de adeptos para ver o jogo no plasma que o senhor Joaquim – dono e gerente do restaurante – tinha comprado recentemente, e o único lugar vago era na mesa ocupada por Eleutério. Este fez um gesto convidativo e uns segundos depois concretizou-se a sua aspiração de muitos anos: jantar em frente do escritor famoso.

Eleutério foi habilidoso: conversa de circunstância, alguns comentários sobre o jogo que se desenrolava e que ambos iam observando de forma distraída, um “Boa noite” mais caloroso à despedida. Eleutério ficou a saber o clube da simpatia do escritor famoso, e isso levou-o a passar a comprar jornais desportivos, onde se ia informando sobre o que ia acontecendo ao referido clube, o que poderia vir a revelar-se útil numa futura conversa.

Eleutério tinha da sua vida uma perspectiva altamente fantasiada. Considerava a maior parte do que lhe tinha acontecido, mesmo os acontecimentos mais triviais, como merecedores de divulgação. Quando começou o programa de televisão “A minha vida dava um filme” ainda pensou em candidatar-se, mas teve receio de que o formato televisivo não fizesse justiça ao seu percurso de vida.

Nunca pensou em relatar ele próprio esses acontecimentos pessoais porque se considerava manifestamente incapaz nas artes da escrita – e por uma vez tinha uma opinião correcta acerca de si próprio. Mas começou a acalentar um sonho: o de ver os acontecimentos marcantes da sua vida postos em letra de forma pelo escritor famoso.

E na consolidação da sua estratégia de aproximação, uma nova janela de oportunidade surgiu com a transmissão de outro jogo europeu e a (previsível) sobrelotação da Estrela da Junqueira, levando à partilha de mesa entre Eleutério e o escritor famoso. Aproveitando uma pausa na degustação dos carapauzinhos fritos com arroz de tomate – uma das especialidades da Dona Genoveva, mulher do senhor Joaquim e responsável pela cozinha – prato que ambos tinham pedido, e que Eleutério tinha passado a comer à mão seguindo o exemplo do escritor famoso, Eleutério disse, sem colocar grande ênfase na afirmação: “Sabe, senhor doutor” – era sempre assim, respeitosamente, que se dirigia ao escritor famoso – “a minha vida dava um livro”.

Este, cuja mão esquerda transportava um carapau, habilmente seguro pelo rabo, a caminho da boca, suspendeu o movimento, olhou para ele por cima dos óculos e disse: “Ai é, senhor Eleutério? Conte-me mais.”

E Eleutério embalou, e contou como quase se tinha afogado a primeira vez que tinha ido à praia, o bullying que sofrera na primária e no liceu porque era desajeitado nas aulas de ginástica, duas ou três histórias da tropa, cenas heroicas da empresa de contabilidade onde trabalhava, como daquela vez que tinha resolvido um problema no Excel que estava a bloquear a saída do balanço mensal de um cliente importante, a última reunião do condomínio onde a sua intervenção tinha decidido a votação de um assunto urgente, tudo isto e muito mais ele contou no decurso da segunda parte do jogo, enquanto o escritor famoso continuava a olhá-lo por cima dos óculos e acenava de tempos a tempos com a cabeça, encorajando-o a prosseguir.

Nessa noite, Eleutério mal conseguiu dormir de eufórico que estava. “Será que o escritor famoso vai transformar a minha vida num romance? Numa novela? Num conto? Numa crónica de jornal, no mínimo?”, estes eram os pensamentos que o faziam dar voltas na cama, sem conseguir pregar olho.
Nos dias que se seguiram houve muitos lugares vagos ao jantar na Estrela da Junqueira, pelo que Eleutério não teve oportunidade nem pretexto para contactar de perto com o escritor famoso.
Duas semanas mais tarde, num sábado de sol, comprou o jornal como fazia habitualmente no quiosque à esquina da sua rua e abriu-o imediatamente na página onde o escritor famoso tinha uma crónica semanal. E ficou paralisado!

A crónica do escritor famoso intitulava-se “A vida de Eleutério”. Nem sequer tinha alterado o nome! E em vez de ser um texto sério, onde os episódios marcantes da sua vida fossem descritos e comentados com elevação, o escritor famoso tinha transformado a sua trajectória pessoal numa história risível, destinada a provocar a gargalhada fácil nos leitores. O seu quase afogamento na infância era uma pilhéria, os acontecimentos do serviço militar eram um resumo do valente soldado Chveik em versão tuga, até se dava ao desplante de fazer rimas idiotas com o seu nome, como deletério, despautério, impropério, cemitério!

Debaixo de um sol radioso, os pensamentos de Eleutério eram negros! Regressou a casa, acendeu a lareira – o que só fazia uma vez por ano, quando trazia os seus pais já idosos para jantar no Natal – trouxe todos os volumes do escritor famoso que possuía e um a um, foi rasgando raivosamente as folhas que atirava de seguida às chamas.

Quando os livros se acabaram foi arrancar da parede a fotografia do escritor famoso, e ficou a vê-la enrolar com o calor, até que as chamas a consumiram e dela não restou mais do que cinza. E enquanto isto, Eleutério remoía pensamentos nada pacíficos sobre escritores em geral e sobre o escritor famoso em particular.


E nunca mais foi jantar à Estrela da Junqueira!

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

domingo, 22 de julho de 2018

Uma noite na Quinta da Regaleira

Deixei o carro à saída de Sintra e fiz o resto do percurso a pé. Fui andando cuidadosamente pela berma da estrada até encontrar o muro da quinta. Continuei mais um pouco e do escuro surgiu o André, tão de súbito que me assustou.

“Calma, sou só eu. Vamos lá!”

Colocou às costas a mochila que tinha no chão e eu segui atrás dele durante umas dezenas de metros até que ele parou e disse:

“É aqui.”

O muro tinha naquele ponto umas pedras salientes que o tornavam muito fácil de escalar. Rapidamente estávamos dentro da quinta. A lua já tinha nascido, e fomos seguindo sempre pela berma dos caminhos, utilizando a sombra das árvores, na direcção do Poço Iniciático. Chegados à entrada do Poço, dei comigo a pensar como raio tinha vindo parar a esta aventura…

………………
Desde muito novo sempre gostei de cenas ligadas ao oculto: histórias de fantasmas, filmes de terror, coisas assim. Isto fez-me conhecer muita gente com os mesmos interesses, em encontros literários, festivais de cinema, na Net…

Já não me lembro em qual delas conheci o André, e ao longo dos anos fomo-nos tornando amigos.

Tendo eu próprio como hobby a escrita, o ocultismo interessava-me como tema de ficção, como um faz de conta, como uma área com potencial para produzir narrativas interessantes. Foi com alguma surpresa que tomei consciência de que algumas pessoas realmente acreditavam em algumas daquelas histórias.

Uma dessas pessoas era o André.

Falava-me de vez em quando de um seu tio-avô, grande estudioso das ciências do oculto, que se correspondia com ocultistas de todo o mundo e organizava sessões de espiritismo. Esse seu antepassado vivia num solar na Beira, onde ele ia com alguma frequência pesquisar a biblioteca que lá tinha ficado. No regresso de uma dessas visitas encontrei-o entusiasmado.

“Já te disse que a biblioteca do meu tio-avô é um manancial de literatura ocultista. Imagina o que lá descobri desta vez!”

Com o que me pareceu verdadeira reverência, tirou da pasta que trazia um livro que me passou para as mãos. Encadernação a couro, tinha na capa escrito em letras douradas, ‘O Verdadeiro Método de Invocar os Mortos e Outros Espíritos que Habitam o Mundo do Além, escrito por O Guardião do Portal, impresso em França no ano MDCCLXXX’. Folheei-o rapidamente, e pareceu-me um repositório de receitas do tipo Livro de São Cipriano, mas obviamente mais antigo. Claro que não disse isto ao André; elogiei o livro e acrescentei qualquer coisa do género “A biblioteca do teu tio deve estar cheia de preciosidades” e ficámos por aí.

Estive algum tempo sem ver o André. Quando me apareceu subitamente no café onde costumo parar, vinha eufórico.

“Pá, tenho andado a estudar o livro que te mostrei da última vez. Muito detalhado, com descrições precisas dos procedimentos. Já preparei uma invocação e preciso da tua ajuda.”

“Preparaste o quê? E quem te disse que eu estava disposto a alinhar nisso, o que quer que seja?”

“Tens de vir, é o teu autor favorito, Edgar Allan Poe!”

“O quê, tu vais invocar o espírito de Poe?”

“Oh, yeah…”

“Para lhe perguntar o quê?”

“Bom, ainda não pensei muito bem… Oh pá, mas um tipo que morre aos quarenta anos tendo escrito o que ele escreveu, deve ter muita coisa a dizer…”

“Isso vai dar merda…”

“Não vai nada, pá! E descobri o sítio ideal para a invocação: o fundo do Poço Iniciático, na Quinta da Regaleira. Estive a fazer uns cálculos, e depois de amanhã uma altura óptima, porque a lua cheia vai passar praticamente na vertical do Poço por volta da meia-noite.”

Nem sei bem como, mas o tipo conseguiu espicaçar-me a curiosidade até obter o meu acordo em o acompanhar nesta aventura idiota.

E aqui estávamos nós a entrar no Poço Iniciático.

………………

André descia à frente com uma lanterna. Comecei a contar os degraus, mas quando cheguei a cem escorreguei, porque o piso ia ficando mais húmido, e com o esforço para me equilibrar distraí-me na contagem. Mais um pouco e chegámos ao fundo do Poço.

Pousou a lanterna no chão e da mochila tirou 5 velas, que dispôs em círculo, usando como referência pontos da rosa dos ventos embutida no chão. Quando lhe disse que as velas não estavam a igual  distância, respondeu-me que no livro dizia que isso não era importante, e eu calei-me.
Tirou da mochila um livro que colocou no centro da rosa dos ventos, e explicou-me que era o volume de contos de Poe recentemente editado. Enquanto realizava estas operações olhava para cima, para a abertura do Poço, com alguma ansiedade. Até que vimos a lua começar a surgir no buraco negro da abertura.

Nessa altura despejou sobre o livro gasolina de um frasco que trazia no bolso e pegou-lhe fogo. As chamas rapidamente ganharam altura.

Aí começou a entoar uma ladainha numa língua para mim desconhecida, presumo que fosse a invocação que tinha aprendido no livro da biblioteca do tio-avô. Pelo meio só reconhecia de onde em onde as palavras Edgar Allan Poe.

De súbito levantou-se um vento no fundo do poço, que apagou as velas e o fogo que consumia o livro e perante nós apareceu Edgar Allan Poe, ou a sua imagem, e era óbvio que não estava satisfeito.

Estúpidos viventes, por que viestes perturbar o meu repouso? Não fazeis a mínima ideia do tipo de energias com que estais a interferir! A fronteira que separa os nossos mundos é muito fina e pode facilmente romper-se com as vossas acções irreflectidas. De facto, neste preciso momento aproxima-se Lovecraft acompanhado das criaturas medonhas fruto da sua imaginação. Não sei se conseguirei segurá-lo enquanto a fronteira se reconstitui. Fugi daqui, imbecis inconscientes, fugi enquanto é tempo!

Corremos para o início dos degraus e continuámos a correr escada acima tão depressa quanto podíamos. Entretanto o Poço era varrido por um vórtice, o ruído que fazia parecia o reactor de um avião a meia dúzia de metros. Só quando chegámos ao nível superior o movimento do ar amorteceu.

Fizemos rapidamente o caminho de regresso até ao ponto onde tínhamos saltado o muro. Chegámos aos carros e cada um foi para casa.

………………

Não tornei a falar com o André nem tenho grande vontade de o fazer. Naquela noite, por culpa dele, apanhei o maior susto da minha vida!

Também nunca mais voltei à Quinta da Regaleira…