Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Reunião...

Era uma reunião secreta, num local secreto.
À volta de uma mesa com bebidas e aperitivos, vários homens, de fato cinzento e gravatas discretas, tomavam decisões.
Um deles disse: "O nosso Conselho de Administração votou ontem um aumento de 35 por cento para todos os membros. O departamento financeiro diz que para manter os lucros temos que aumentar a gasolina e o gasóleo em 5 cêntimos por litro".
"Stormfield tem afinal o dobro das reservas inicialmente previstas", disse outro. "Vamos subir o preço do crude em 2 dólares por barril".
"Mas isso não seria um motivo para baixar o preço?" perguntou um, sorrindo ironicamente.
"Não podemos dar sinais errados ao mercado", declarou o primeiro, provocando vários acenos de concordância.
"O presidente Bush espirrou duas vezes seguidas! Vamos aumentar a gasolina um dólar por galão".
A um canto da sala sentava-se um homem, este vestido de preto, que só bebia sumo, e que ia introduzindo num computador as alterações de preços ali decididas.
"O mercado livre e aberto é o ideal, porque da livre concorrência resulta naturalmente um abaixamento dos preços no consumidor", disse um dos que estavam à volta da mesa, muito sério.
Ficou tudo em silêncio e logo a seguir estalou uma gargalhada geral. Um dos homens engasgou-se até lhe sair uísque pelo nariz. Os outros deram-lhe palmadas nas costas.
E disse o que se tinha engasgado, ainda com as lágrimas nos olhos: "Oh pá, não contes anedotas quando eu estou a beber..."

Sábado, 10 de Maio de 2008

Minguante

Saiu o Nº 10, com o tema Vícios.
Lá está uma presença minha, ao lado de mais 52 produtores(as) de textos e imagens.
Só lá falta a biografia daquele escritor que estava tão viciado em estórias pequenas (por alguns designadas menores) que já lhe chamavam pedofiliterário...

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Natal em Little Town

O conto com o título acima foi publicado no ezine Somnium, no site do CFLC (Clube dos Leitores de Ficção Científica).
Aparecendo claramente fora da época natalina, justifica-se uma justificação: destinava-se a um número que deveria ser publicado no fim de ano mas que só agora viu a luz.
Estando fora de época, espero que não esteja "fora de prazo", no sentido habitual desta última expressão, o que poderia dar lugar à intervenção da ASAE...
Mas não consta por aí que "Natal é quando um homem quiser"?

Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

Negócios de PT

Foi cliente da PT durante dezenas de anos. Ficou farto de pagar mensalmente uma assinatura superior ao custo das chamadas que efectuava. E quando surgiu a possibilidade de mudar mantendo o número, mudou para a concorrência.
Quando à PT chegou a sua carta a requerer a transferência de número, recebeu um simpático telefonema com uma proposta que já não incluia a assinatura e cujo preço era marginalmente inferior ao da concorrência. Agradeceu e recusou, educadamente.
Pediu mentalmente desculpa à etnia cigana por todas as vezes que no passado tinha utilizado a expressão "negócio de ciganos", e jurou a si próprio que a partir daquela altura passaria, em circunstâncias análogas, a usar sempre a expressão "negócios de PT"!

Contos à dist. de 1 click (7): Leituras

Tendo como pretexto o Dia Mundial do Livro, ontem comemorado, uma ligação para o Tecnofantasia onde podem ler "Leituras"...

Sábado, 19 de Abril de 2008

Vida (quase) eterna

Eram os dez homens mais ricos do planeta. No conjunto, possuíam mais de 95 por cento da riqueza da Terra. Eram também responsáveis, através de decisões suas ou de empresas que dominavam ou de governos que controlavam, por quase tudo que sucedia aos habitantes do planeta.
Com uma pequena parcela das suas incomensuráveis fortunas, financiaram um Instituto de Investigação destinado a estudar o prolongamento da vida.
Ao fim de alguns anos, o Instituto produziu o primeiro resultado: um método de hibernação perfeito. As experiências, primeiro em animais, depois em voluntários pagos, mostraram que era possível colocar seres humanos de forma segura em animação suspensa.
Decidiram pôr-se a si próprios nessa condição durante um período de 500 anos. De acordo com as melhores projecções, esse período seria suficiente para que os maiores génios do mundo, a trabalhar no Instituto, descobrissem o tratamento de que resultaria a imortalidade.
No interior bem protegido de uma montanha, uma sala circular alojava os dez sarcófagos criogenados, com os respectivos sistemas de suporte de vida. Uma pequena central nuclear fornecia a energia necessária ao funcionamento de todo o complexo.

Um erro de programação fez com que o prazo para o despertar fosse fixado, não em 500, mas em 5000 anos.

Três mil anos após o início da hibernação, o planeta estava moribundo. Os recursos esgotados, o ar, a terra e os rios e mares poluídos, a população em rápido declínio... Mas aqueles que tinham sido os dez homens mais ricos da Terra continuavam a dormir o seu sono de séculos...

Passaram mais mil anos, e o leilão do sistema solar deu o resultado que era previsto. As melhores peças – a cintura de asteróides com os seus minerais extremamente valiosos, as luas de Júpiter ricas em hidrocarbonetos – foram arrematadas por poderosas confederações planetárias. O terceiro planeta, praticamente morto, foi comprado por um planeta longínquo, por um valor marginalmente superior ao preço base de licitação.


O chefe de projecto examinava os planos de construção da unidade offshore que ia ser montada para extrair metais da água do mar. Fazer recuperação de resíduos à escala planetária era uma actividade complicada: cumprir prazos utilizando equipamento de segunda e mão de obra pouco qualificada – ninguém queria vir enterrar-se num planeta morto a anos luz de casa. Neste caso particular, o único ponto favorável era que, devido à estupidez dos nativos entretanto desaparecidos, os teores de metais valiosos nos oceanos eram extremamente elevados.
A sua linha de pensamento foi interrompida pelo aparecimento de um subordinado que, depois de uma saudação ritual apressada, informou:
“Chefe, descobrimos a origem dos sinais que estávamos a obter. É uma pilha radioactiva, que ainda tem umas largas centenas de anos de vida útil!”
“Finalmente uma boa notícia! Retirem-na do local onde está e montem-na na nova unidade de extracção.”
Mas há um problema, chefe. A pilha está a alimentar o sistema de suporte de vida de dez sarcófagos que estão numa câmara escavada naquele bloco rochoso...”
“E o que está nos sarcófagos? Material orgânico, não é? Descarreguem o conteúdo nos tanques de alimentação da central hidropónica. Neste miserável planeta precisamos de todos os nutrientes que conseguirmos arranjar!”

Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Bad Manners

O conto com o título acima acaba de aparecer no número 119 da revista online AntipodeanSF, dedicada à "short-short fiction" (cerca de 500 palavras).
Será praticamente impossível vir a publicar mais longe de casa...

Sexta-feira, 28 de Março de 2008

A Nanomoda

Houve um tempo em que a nanotecnologia era o que estava a dar: eram institutos, conferências, revistas científicas, patentes, spin-offs, acções cotadas na bolsa...
Mas os cientistas foram ficando cada vez mais pequeninos(*), e quando menos se esperava, a bolha nano rebentou, com as consequências por demais conhecidas: falências, desemprego, crise bolsista, reavivar dos nacionalismos, etc, etc.
Foi aí que apareceu a nova coqueluche: a picotecnologia.
E os profetas da desgraça anunciaram: "E isto não vai ficar por aqui..."

(*) Há dúvidas entre os linguistas se esta frase deve ser entendida num sentido real ou metafórico...