Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

"Onde os Últimos Pássaros Cantaram" (4)

4ª Semana - 04.07.2009

O desafio da 4ª semana era o menos restritivo de todos. Convidava-se os leitores a inspirados, pelo título da obra de Kate Wilhelm, Onde os Últimos Pássaros Cantaram, apresentarem um conto, uma peça, um excerto, uma situação, que pudesse ser descrita (literal ou figurativamente) por essa frase, num máximo (não limitativo) de 500 palavras. E também deveria estar relacionado de alguma forma com o género fantástico.


E a minha história foi esta:

O Fim (Onde os Últimos Pássaros Cantaram)


Reclinado na sua poltrona ajustável, o construtor de pássaros ouvia, deliciado, o rouxinol. Era a última criação que tinha saído das suas mãos, o movimento reproduzindo fielmente os filmes 3-D que tinha recuperado dos arquivos do Universal Geographic, os sons reconstruídos a partir da fonoteca de um ornitólogo há muito falecido.
Levantou a mão e a ave voou do poleiro onde estava até pousar no seu dedo indicador. Com a outra mão, acariciou-lhe as penas da cabeça e depois de uns segundos, fê-la voar de volta ao poleiro.
No outro extremo da sala os periquitos brincavam na gaiola, enquanto o papagaio se pendurava do poleiro, de cabeça para baixo, emitindo sons roucos.
Todas estas aves constituíam o produto mais sofisticado da ciência robótica e tinham sido fabricadas por ele, provavelmente o último investigador desta área do conhecimento ainda vivo.
O homem suspirou profundamente, ligou um projector e na parede começou a passar um filme com luxuriantes paisagens de florestas tropicais, uma explosão de vida colorida, vegetação, aves, mamíferos, o mundo vivo em todo o seu esplendor.
Comandou a poltrona para uma massagem relaxante e foi lentamente deslizando para um sono tranquilo, enquanto os seus olhos se fechavam sobre imagens da Amazónia...

--oOo--

O que despertou o construtor de pássaros foi o silêncio. Levantou-se de um salto. O rouxinol estava caído no chão, imóvel. Os periquitos no chão da gaiola. O papagaio, suspenso da corrente que o prendia ao poleiro, rodava lentamente na corrente de ar causada pelos ventiladores.
Colocou o rouxinol na gaveta do analisador multi-funções, executou uma tomografia e passou depois a utilizar a nanosonda até as suas dúvidas se dissiparem completamente: um vírus inorgânico tinha entrado na casa.
Desenvolvidos por militares para a desactivação de equipamento inimigo, o que era conseguido através da destruição de ligações atómicas nos materiais de que esse equipamento era feito, tinham a dada altura escapado ao controlo do laboratório que os produzia.
E a protecção dada pelos nanofiltros que blindavam a casa tinha-se revelado uma ficção.

--oOo--

O construtor de pássaros accionou as janelas da casa. Várias zonas da parede ficaram transparentes, e ele olhou longamente o exterior. Construída no alto de uma colina outrora arborizada, todo o terreno em volta estava agora seco, calcinado, e um vento persistente fazia rolar nuvens de poeira. Ao longe distinguia-se a auto-estrada, ainda cheia com as carcaças dos carros que lá tinham ficado quando o vírus inorgânico se tinha espalhado.
O homem tornou novamente as paredes opacas, foi ao painel de comando da casa e desactivou os nanofiltros. A casa exigiu-lhe duas vezes a password antes de executar a ordem.
Sentou-se na poltrona, imaginando a sopa química e bacteriológica que era a atmosfera exterior a entrar lentamente na casa. Ligou novamente o filme que vira na noite anterior. E enquanto observava um bando de macacos saltando de ramo em ramo numa floresta do Bornéu, pensava que, se o processo se arrastasse muito, a poltrona tinha um kit de ajuda ao suicídio que podia ser utilizado em qualquer momento.

"Onde os Últimos Pássaros Cantaram" (3)

3ª Semana - 27.06.2009

O desafio da 3ª semana consistiu na descrição de uma cena de conflito entre dois grupos de clones distintos. Este conflito podia assumir uma qualquer natureza, desde a bélica assumida até à emocional, e portanto os grupos de clones podiam ser exércitos, familiares, vizinhos... Os clones são telepatas e conseguem comunicar (não necessariamente de forma verbal) sem usar a fala, mas cada conjunto de clones apenas consegue falar com o seu. A intenção literária era de espelhar o conflito entre dois seres - dois indivíduos - multiplicado pelos vários em que se divide.
Contudo, sugerimos uma dificuldade acrescida (que desta vez era opcional): imaginar que descreviam esta cena como se decorresse num palco ou num ecrã. Uma cena sem falas, apenas com actos, gestos, olhares, expressões. Embora um diálogo vivo ocorra na mente de todos aqueles seres, nós, como espectadores, apenas observamos o resultado. Talvez não seja possivel compreender a razão do conflito. Talvez não seja possível determinar um vencedor. Mas haverá contendas, drama, vitórias, um fluxo dramático - será possível tirar-se dali uma história, como afinal se os clones fossem animais e nós assistissemos a um documentário sobre a Natureza.

E esta foi a minha resposta:

O Dia da Comunidade

O enorme Pavilhão Alpha encontrava-se repleto. Aquele evento, repetido anualmente, comemorava o início da Comunidade Alpha.
Uma onda telepática percorreu a audiência, aumentando de intensidade quando o palco, no centro do enorme recinto, ficou subitamente inundado de luz.
A atenção de todos concentrou-se na zona iluminada, embora todos já conhecessem a acção que ali se iria desenrolar.
Quatro grupos de clones com características fisionómicas perfeitamente distintas, ocupavam o palco: os alpha, brancos, louros, quase albinos; os black, pele escura, cabelo encaracolado, que dois séculos antes se designariam como de etnia africana; os china, olhos amendoados, cabelo preto e liso, de pequena estatura, e os blend, todos iguais entre si, como clones que eram, mas com características resultantes de uma mistura genética efectuada sobre as populações originais antes da clonagem. Exceptuando os alpha, os outros eram produzidos especialmente para aquele evento.
O som de um tambor começou a ouvir-se, primeiro em surdina, depois cada vez mais forte, e um ambiente de tensão surge e cresce, centrado no palco. Uma situação de conflito nasce entre os quatro grupos, que se agudiza e atenua entre eles de forma quase aleatória, como se alianças se formassem e desfizessem. A postura dos actores torna-se mais ameaçadora e subitamente o grupo dos blend sofre um ataque conjunto dos outros três. alpha, black e china envolvem os blend e começam a agredi-los a soco e pontapé. Durante uns minutos é uma confusão no palco, e quando os três grupos se afastam, no meio do palco só estão os corpos dos blend, em monte, muitos deles em posições distorcidas. Soa uma buzina e entra no palco uma brigada de de robôs de limpeza que deitam os corpos para um contentor que trouxeram e a seguir saem do palco com a sua carga macabra.
Novamente o tambor em crescendo, misturado agora com instrumentos de cordas, o som agressivo dos violinos e violoncelos quase arranhando a coluna vertebral. É o prelúdio para uma nova batalha no palco, mas agora são os alpha e os china contra os black, e já são utilizadas armas brancas, e quando o conflito termina são só corpos escuros no centro do palco, e chegam novamente os robôs da limpeza que levam os corpos e lavam o piso do sangue derramado.
Terceiro e último acto: tambores e metais, a sonoridade das trompas, dos trombones e trompetes cria uma atmosfera apoteótica de conflito final. A guerra é agora entre os alpha e os china, mas é uma confrontação mais sofisticada, embora não menos letal. Os dois grupos enfrentam-se enviando projecções mentais agressivas, e pouco a pouco os china cedem e um a um, vão caindo no chão onde ficam imóveis.
A música atinge o climax, e enquanto os robôs vêm de novo proceder à limpeza, os actores alpha saem do palco saem do palco e misturam-se com a audiência que nesta altura vibra, aplaude, grita, é uma euforia colectiva.
Alpha 13274, um dos espectadores, enquanto aplaude como todos os outros, passeia os olhos pelos milhares de faces, todas iguais à sua, a mesma pele branca, o mesmo cabelo louro, e num pequeno canto da sua mente surge uma dúvida, insidiosa, subversiva, que ele rapidamente afasta do campo da consciência, porque numa sociedade de telepatas nunca se sabe se (quando) alguém nos está a ler: «Não seria possível ter sido de outra forma? Não teria sido possível a evolução na coexistência pacífica das diversas espécies clonadas?»
A história que lhe ensinaram diz-lhe que não, que a supremacia dos alpha tinha que resultar na eliminação dos outros, mas aquela dúvida não morre, e tende a aparecer nas situações mais inconvenientes...

Domingo, 12 de Julho de 2009

"Onde os Últimos Pássaros Cantaram" (2)


2ª Semana - 16.06.2009

Um dos temas recorrentes em Onde Os Últimos Pássaros Cantaram é o da clonagem. Os membros do clã familiar Sumner, cuja história forma a base do romance, criam gerações atrás de gerações de cópias de si mesmos como forma de lutar contra a perda de fertilidade humana. Os clones estão tão próximos uns dos outros que desenvolvem uma empatia quase telepática, estabelecendo uma sociedade aparte, valorizando o colectivo e não o indivíduo. Os clones entram em pânico quando se encontram sozinhos por demasiado tempo. Por fim, apercebemo-nos que os clones não partilham o interesse do resto da humanidade em voltarem a reproduzir-se sexualmente, preferindo continuar o processo de clonagem até ao fim dos tempos.

O desafio para a segunda semana do passatempo Kate Wilhelm consistia em, com o limite de 250 palavras, descrever uma situação, apresentar uma cena, estabelecer uma história que inclua este confronto entre o individuo e o social, tendo a clonagem por base. E por sabermos que os nossos leitores gostam de desafios exigentes, acrescentámos a seguinte condição: o texto deveria ter uma veia humorística.


E o meu texto foi este (e foi com ele que ganhei o livro...):

A Tecnologia Nunca É Perfeita...

Magalhães 123 – clone nº 123 obtido a partir das células de um humano longínquo chamado Magalhães – não estava satisfeito. Estava de facto muito insatisfeito. A ideia de haver 255 outros indivíduos iguais a si era-lhe insuportável, obscena mesmo.
Magalhães 123 especializou-se em robótica, construiu uma empresa de produção de robots domésticos que foram um tremendo sucesso comercial. Mas em paralelo, no laboratório secreto na cave da sua casa, ia criando a sua opus magnum – o robot executor E666.
Tinha pensado que ultrapassar as leis de Asimov seria o mais complicado, mas o processo tinha-se afinal revelado infantilmente simples. O resto do trabalho foi fácil tendo em vista os objectivos principais que o robot teria de atingir: simplicidade e eficácia. Receber uma lista de indivíduos a abater e executar o trabalho rapidamente, minimizando danos próprios.
E666 era a mais perfeita máquina de matar alguma vez desenvolvida: aplicação de toxinas mortais sob diversas formas, armas brancas dos mais diferentes tipos, explosivos, armas lasers, E666 podia matar usando qualquer processo alguma vez utilizado na história da humanidade e mais alguns originais.
Quando a série Magalhães começou a ser dizimada, elemento a elemento, a polícia ficou confusa, e os crimes foram continuando. O único sobrevivente da matança foi Magalhães 132, que nunca soube a que devia a sorte que teve.
Magalhães 123 tinha fornecido ao robot, uma a uma, as identificações dos alvos a abater. Mas o inventor do E666 tinha – sem ter consciência disso – um pequeno defeito: era (levemente) disléxico.

"Onde os Últimos Pássaros Cantaram" (1)

Luis Filipe Silva levou a efeito no Tecnofantasia um passatempo (detesto este nome, mas isso não vem agora ao caso) baseado no livro Onde os Último Pássaros Cantaram, de Kate Wilhelm. Em cada uma de 4 semanas publicou as condições dos textos que poderiam ser submetidos, e em cada semana o melhor texto recebeu um exemplar do livro referido, oferta da Gailivro, que patrocinou a iniciativa.
Vou colocar aqui os textos com que respondi a estes desafios, tal qual os submeti, resistindo à
tentação de os rever.

E assim vamos à

1ª Semana - 06.06.2009

Em 250 palavras ou menos, os participantes tinham de descrever o impacto na sociedade, contar
uma história breve, inventar uma situação anedótica/trágica, a respeito do seguinte tema:
Uma ameaça que tem pairado nas últimas décadas tem sido a do desaparecimento das reservas de petróleo e gás natural que alimentam a nossa tecnologia e sociedade. Isto porque, apesar de todo o progresso da nossa espécie, ainda não encontrámos uma fonte energética mais eficaz do que a primeira que aprendemos, há muitos e muitos anos a dominar: a combinação do oxigénio com o carbono, ou seja, o fogo. E sempre tivemos receio de ficar sem carbono suficiente para queimar.
Mas... e se for o contrário? E se o planeta passar por uma quebra significativa da produção de
oxigénio? E se o filoplâncton começar a deaparecer em grande volume dos nossos oceanos? E se o
ar que respiramos se tornar demasiado precioso para alimentar a combustão (inclusive porque a
tornaria mais difícil)?

Poderemos viver sem o nível existente de combustão mundial? Podemos encontrar formas
alternativas e eficientes de energia? Podemos adaptar a nossa existência a esta dificuldade
inesperada?

E a minha resposta foi:

Os malefícios da hiperespecialização

Era o superterrorista, animado de um ódio de morte contra a civilização tal como a conhecemos. E viu que essa civilização estava viciada em energia, pelo que a forma definitiva de a quebrar estava em cortar o fornecimento dessa energia.
Era além disso um génio da química. Com fundos provenientes de múltiplas lavagens de dinheiro, no seu laboratório secreto desenvolveu uma substância extremamente ávida de oxigénio, várias ordens de grandeza acima do que se conhecia.
Achou que no dia da inauguração da nova central térmica seria a altura apropriada para uma acção exemplar que seria a primeira de muitas que se seguiriam.
Infiltrado entre os jornalistas que iam cobrir o evento, a sua máquina fotográfica era afinal o aparelho que, uma vez activado, iria absorver o oxigénio existente no local, desta forma impedindo os queimadores de funcionar, a caldeira de produzir vapor e os alternadores de injectar a preciosa energia na rede eléctrica.
Quando accionou o seu dispositivo, o teor de oxigénio existente na atmosfera da central começou a baixar, primeiro lentamente, depois mais acentuadamente. Quando atingiu os 18 por cento, houve pessoas que começaram com tonturas, outras a desmaiar, e o fenómeno foi-se ampliando. Quando ele próprio sentiu a sua consciência a desaparecer, pensou que não devia ter estado distraído naquela aula de biologia onde lhe parecia (agora) que o professor tinha dito que um teor de oxigénio abaixo de 15% faria perder a consciência e acarretaria a morte a curto prazo.
E enquanto no imenso hall da central se acumulavam os corpos - os funcionários da central, as autoridades vindas para a inauguração, os jornalistas - os queimadores da central continuavam alegremente a funcionar, produzindo mais fumo do que habitualmente, porque com a deficiência de oxigénio a combustão era agora mais rica, o que, como se sabe, implica em geral maior produção de fuligem.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

R.I.P. (mas não completamente...)


Foi O FIM


Os meus agradecimentos aos editores que transportaram esta Minguante ao longo de 15 números. E se ressuscitar, avisem!

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Amores trágicos (2)

O Arquitecto amava a cidade. Ela tinha nascido na sua cabeça; os primeiros esboços tinham surgido no monitor do seu computador; os planos de pormenor foram produzidos no seu atelier, e quando os primeiros edifícios começaram a romper dos alicerces entretanto abertos, o Arquitecto era visita frequente do gigantesco estaleiro onde milhares de operários trabalhavam 24 horas por dia, fazendo nascer a cidade que ele tinha imaginado.
Nos primeiros anos tinha sido um amor correspondido. Quando percorria as longas avenidas arborizadas, quando deambulava pelas praças cheias de sol, quando as pessoas se cruzavam com ele e o cumprimentavam afavelmente, ele sentia-se amado pela cidade.
Mas com o passar dos anos, começou a sentir que esse amor estava a deixar de ser correspondido. A profunda alteração de uma praça para alojar um descomunal hipermercado, o abate das árvores para instalar faixas de rodagem numa avenida outrora pedonal, algumas propostas suas sobre a gestão do espaço urbano rejeitadas no Conselho Municipal, críticas cada vez menos veladas nos meios de informação às suas concepções arquitectónicas e urbanistas...
Até que surgiu a gota que fez transbordar a taça: contra o seu parecer fundamentado, o Conselho Municipal tinha aprovado uma proposta de construção de uma nova urbanização periférica. O autor da proposta era desde há muito seu feroz opositor na Guilda dos Arquitectos, e a urbanização projectada em estilo neo-moderno iria ser esteticamente revoltante ao lado de uma cidade concebida e construída segundo os cânones do estilo medievo renovado.
O Arquitecto soube que tinha atingido o ponto de não retorno. A cidade, que tinha sido o amor da sua vida, tinha-o traído. Mas ele iria castigar essa traição.
Conhecia de cor as galerias técnicas que, como um sistema vascular, percorriam o subsolo da cidade, abaixo dos túneis de transporte rápido. Como chefe dos serviços de urbanismo, que ainda era, tinha também acesso ao paiol onde estavam guardados os explosivos de alta potência utilizados nas grandes obras de construção. Enquanto a nova urbanização ia sendo construída, ele foi pacientemente minando as fundações de todos os edifícios da sua cidade, começando pelos mais importantes, a sede do município, o grande salão de reuniões, a universidade, as escolas, o hospital...
E a meio da inauguração da nova urbanização, uma série de fortes explosões sacudiu a cidade. O colapso dos edifícios levantou uma enorme nuvem de poeira; e quando o pó assentou, sobre os escombros do que antes tinha sido a cidade ouviam-se as gargalhadas do Arquitecto, enlouquecido após assassinar a sua amada...

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Amores trágicos (1)

Aquele biólogo amava as bactérias. Sentia uma atracção irresistível por aqueles pequeninos seres e pelo seu incessante movimento, que observava com prazer horas e horas ao microscópio, bem como a taxa exponencial com que se reproduziam.
Mesmo o facto de algumas delas serem letais para organismos mais complexos não atenuava o amor intenso que sentia por elas. Pelo contrário. Principalmente aquelas que se encontravam na solução cujo período de maturação tinha terminado havia pouco.
Despejou o conteúdo do reactor para um tubo de ensaio. Tinham sido meses de trabalho, partindo de bactérias de agressividade moderada, manipulando cuidadosamente os DNAs, eliminando sem remorsos todas as variantes inúteis para o fim em vista, até chegar àquela estirpe, a arma bacteriológica mais eficiente até então desenvolvida.
Amava-as profundamente, e só tinha pena que elas não pudessem corresponder a esse amor.
Olhou o tubo à transparência. Quem diria que naqueles poucos centímetros cúbicos de líquido residia a capacidade de aniquilar um exército. E eram suas filhas, tinham sido produzidas pelo seu trabalho, não iria deixar que lhas tirassem! Levou o tubo à boca e engoliu o líquido que continha até à última gota.

-- o --

Ficou 3 dias em isolamento total nos Cuidados Intensivos, e durante esse tempo as bactérias destruíram meticulosamente toda a sua rede nervosa, até atingirem o cérebro.
“O grau mais elevado do amor não correspondido é o sacrifício supremo”, foi o seu último pensamento, no momento em que a linha verde pulsatória no monitor à cabeceira passou subitamente a horizontal, e o alarme começou a tocar no gabinete do enfermeiro de serviço.

-- o --

“Entendamo-nos, doutor, é preciso ser um bocado anormal para trabalhar no desenvolvimento de armas bacteriológicas”, dizia o general director do laboratório ao chefe do Serviço de Patologia do hospital. “Mas o nosso biólogo passou-se das marcas... Calcule que se apaixonou pelas bactérias! Felizmente foi fácil recuperar todo o trabalho do computador dele. Nem sequer tinha password, calcule! Bem dizem que o amor é cego...”
E o general riu-se, um riso militar e satisfeito.


Este texto e o que se segue foram escritos para uma antologia de nome "Amores diferentes", a ser editada na Argentina pelo Sergio Vel Hartman, projecto que parece estar adormecido...

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Se tivesse olhos, choraria...

Quando mergulho no passado, o que a memória agarra mais facilmente são os acontecimentos desportivos. E são esses, melhor, são aqueles que ganhei que me dá prazer recordar, uma e outra vez, como um videoclip em loop, os aplausos do público, o surto de adrenalina…

O gimnopediatra foi muito claro para os meus pais: “Señores Gonzalez, tendes aqui um futuro campeão. A estrutura óssea é perfeita, a massa muscular apresenta um potencial como raramente tenho observado, o sistema endócrino está preparado para o arranque, os órgãos principais são impecáveis. Todos os exames e análises que realizámos deram os melhores resultados possíveis. Se a sua carreira for cuidadosamente gerida, poderá trazer-vos muitas alegrias… e não menos proveitos.” E aqui o médico esboçou um sorriso cúmplice.

Ao longo do ensino básico, fui praticando todas as modalidades existentes na escola. Era tão bom nos desportos de equipa como nas disciplinas individuais.
No 3º ano do secundário, os meus pais, seguindo as indicações do conselheiro desportivo, inventaram uma doença – um vírus que eu supostamente teria apanhado nas férias numa viagem ao interior do país – que me fez faltar às aulas até perder o ano. No ano lectivo seguinte, integrado numa turma em que os meus colegas eram em média um ano mais novos, fisicamente eu chamava a atenção: fui capitão das equipas de basquetebol e de futebol, ganhei todos os campeonatos internos e inter-escolares de atletismo e natação.
A meio da escola secundária já os olheiros enviados à pesca de novos talentos pelas universidades desportivas de topo me tinham descoberto, e tínhamos recebido várias propostas de bolsas de estudo. A escolha foi bastante demorada, mas terminada a escola secundária lá fui eu para a New Atlantis University.

Era o ano 2035, quando o Comité Desportivo Universal decidiu abolir as proibições ainda em vigor sobre a utilização de produtos químicos ou dispositivos mecânicos ou electrónicos para melhorar os resultados desportivos.
A eliminação do amadorismo, os valores astronómicos relativos às transmissões de televisão, ao merchandizing e à publicidade envolvendo os atletas tinham levado a que a construção de uma carreira desportiva passasse a ser um assunto conduzido por especialistas.

Foi duro, mesmo muito duro. A partir do momento em que atravessei o Portão do Caloiro, deixei de ter qualquer poder de decisão sobre os mínimos aspectos da minha vida. Com base numa cláusula relativamente vaga do contrato, “A Universidade terá direito ao controlo sobre todos os factores que possam afectar o desempenho desportivo do Segundo Contratante”, eles passaram a controlar as minhas horas de levantar e deitar, tudo o que eu comia e bebia às refeições e fora delas, as aulas a que ia e as horas de estudo, as namoradas, e os treinos, os treinos, sempre os treinos, a pressão constante para fazer melhor, mais longe, mail alto, em menos tempo… Vivíamos – todos os estudantes desportistas de alta competição – numa residência separada dos estudantes “normais”, e a nossa vida era controlada por uma comissão a quem a Universidade tinha confiado a tarefa de rentabilizar o investimento que tinha feito com as nossas contratações. Alguns não aguentaram a pressão: houve três desistências – que ficaram a indemnizar a Universidade por muitos anos – e dois suicídios. Neste caso foram os pais que ficaram a pagar, naturalmente.

Até que esse investimento começou a pagar dividendos.

Os sonhos são frequentes. Não sei se são induzidos pela sopa química que me circula nas veias ou um produto directo dos meus neurónios cansados. Chegam sem aviso, e por vezes tenho dificuldade em distingui-los da realidade. Mas fará muito sentido a distinção entre sonho e realidade no estado em que me encontro?
Acabo de sonhar com o dia em que ganhei o campeonato mundial dos 10000 metros, depois de no dia anterior ter ganho o dos 5000. Foi a demonstração irrefutável de que os órgãos artificiais tinham ganho um lugar definitivo no mundo desportivo; o coração que substituíra aquele com que eu nascera tinha trabalhado a 300 batidas por minuto durante ambas as corridas, e os novos nano implantes pulmonares tinham sido capazes de aumentar mais de duas vezes e meia a taxa de oxigenação do sangue.
O público ficou em delírio, tinham sido batidos dois recordes, e por uma margem de quase 15 por cento.

Ao serviço da Universidade ganhei praticamente todas as competições em que entrei. Tinha que dar tudo por tudo, porque as intervenções cirúrgicas para os upgrades que ia fazendo custavam fortunas, e a forma de as pagar era com os prémios recebidos. Até que chegou o dia em que consegui saldar a minha dívida para com a Universidade, e chegar ao objectivo principal de qualquer desportista: iniciar uma carreira como independente.
Mas foram necessários treinadores, uma equipa técnica, uma equipa médica, um manager... Fiz o mesmo que todos: contraí um empréstimo na Sports Insurance Inc, dando como garantia uma hipoteca sobre os meus upgrades.

A época dos Olímpicos é a pior. A televisão por cima da cama transmite ininterruptamente provas desportivas, varrer os canais não traz nada de novo, todos eles transmitem mais do mesmo, e de vez em quando apanho transmissões de arquivo de uma das minhas derrotas, o que me deixa ainda mais deprimido do que habitualmente estou. E aí, o monitor da composição química do meu sangue detecta a alteração do padrão hormonal e injecta uns miligramas de anti-depressivo. E eu fico meio zombie, a olhar para mim no 2º ou 3º lugar do pódio, como se se tratasse de outra pessoa...

O início da minha carreira independente continuou a trajectória ascendente iniciada na Universidade. Mas a indústria médica todos os anos aparecia com órgãos mais perfeitos, próteses mais eficientes, e ou se continuava a escalada dos upgrades, ou se parava de ganhar provas.

Os olhos com que vejo a TV já não são também aqueles com que nasci. A dada altura, para melhorar os meus reflexos no full contact fiz um upgrade onde os cirurgiões eliminaram o ponto cego da retina e melhoraram a visão periférica. Quando comecei a perder competições e falhei o pagamento da hipoteca, foi uma das primeiras coisas que me tiraram, os meus olhos. E hoje vejo através de uma câmara CCD cujo sinal é injectado directamente no meu nervo óptico.

Para a prática dos desportos marciais, os meus ossos foram submetidos a um processo de difusão de nano partículas de titânio e nanotubos de carbono, tornando-os mais resistentes ao choque e ao mesmo tempo mais flexíveis. Quando a hipoteca foi executada, fui levado para uma clínica onde durante algumas semanas aqueles componentes foram extraídos do meu organismo por difusão inversa, deixando o meu esqueleto num estado de fragilidade extrema, osteoporose em fase terminal.

Estava escrito no contrato, mas nós pensamos que vamos conseguir estar sempre com os pagamentos em dia. Até um dia...

Já por vezes me tinha questionado sobre o que acontecera a certos atletas que tinham ganho muitas competições, depois passado por uma fase de segundos e terceiros lugares, e de repente desaparecido de campeonatos e provas, dos jornais e TV. Agora já sei. Fiquei a saber quando dois enfermeiros fizeram rolar a minha cama, com o sistema de suporte de vida acoplado, ao longo daquela enorme enfermaria, até ao lugar que me estava destinado.
Passei por uma cama onde estava Jack Steel, que foi recordista da maratona olímpica durante 10 anos seguidos. E outra com Ray Hoyle, campeão do decatlo, eleito desportista do ano em 5 anos consecutivos. E outro, e mais outro, aquela enfermaria daria para encher um Hall of Fame do desporto mundial.
Como é que dizia o contrato que assinei – que provavelmente todos assinámos – com a Sports Insurance Inc.?
“O Primeiro Contratante obriga-se a envidar todos os esforços para manter vivo o Segundo Contratante.”
E estou seguro que eles cumprirão escrupulosamente esta cláusula.

Se tivesse olhos, choraria.

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Sexta feira, 13

Citando um autor anónimo, "não sou supersticioso porque dá azar!"