quinta-feira, 23 de março de 2006

A Fábula do Quorum


PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO
Comunicado Interno

Assunto: Falta de quorum

Chegou ao conhecimento da Administração a ocorrência, por mais de uma vez, de atrasos no início de reuniões ou até do adiamento das mesmas por motivo de falta de quorum.
Pelo desprestígio que acarreta para a nossa Instituição, esta situação tem que ser imediatamente corrigida.
Assim, na sua reunião de ontem, o Conselho de Administração decidiu autorizar a abertura imediata de um concurso internacional de fornecimento de quorum, para reuniões pequenas, médias e grandes, por forma a que a quantidade de quorum em armazém seja reposta a um nível que permita o regular funcionamento da Instituição. O Serviço de Aprovisionamento recebeu instruções expressas no sentido de atribuir prioridade máxima a esta tarefa. Uma vez normalizada a situação, deve ser dado conhecimento imediato a todos os centros de custo.
De qualquer forma, e porque na actual conjuntura é necessário um rigoroso controlo das despesas, todos os Serviços se devem esforçar por não gastar quorum para além do estritamente necessário. Assim, depois de efectuado o reabastecimento, qualquer pedido de quorum deve ser adequadamente justificado pelo chefe do Serviço, devendo a respectiva requisição ser preenchida em triplicado e dar entrada no Serviço de Aprovisionamento com o mínimo de 15 dias de antecedência. Os pedidos serão analisados por uma Comissão que terá um representante de cada Serviço e será presidida pelo Administrador com o pelouro das Despesas Internas. Da decisão desta Comissão não haverá recurso.
No que respeita ao Departamento Educacional, se for necessário, desde que devidamente autorizado e com a finalidade exclusiva de obtenção de quorum, poderá o tradicional "quarto de hora académico" ser substituído pela "meia hora académica".

O Presidente do Conselho de Administração

(assinatura ilegível)

2 comentários:

fgs disse...

Isto lembra-me uma história passada comigo há uns bons 20 anos. Eu frequentava o curso de matemática pura da faculdade de ciências e tinha uma cadeira de introdução à computação.
Abro um parêntesis para explicar que a cadeira era praticamente teórica (que bonita antítese) e que as semelhanças com a informática dos nossos dias não eram muito evidentes: autómatos celulares, máquinas de turing e teoria de grafos eram o pão nosso de cada dia. Enfim, coisas chatas para quem não navega nestas águas e por isso fecho já o parêntesis.
Ora uma das partidas que eu costumava pregar com mais frequência aos caloiros passava-se na sala dos computadores. A malta chegava com a tusa toda para mexer nas máquinas e, depois de as ligar, deparava-se com o prompt do DOS, desanimador para quem pensava que aquilo trabalhava sozinho. Era aí que eu entrava. Informava-os com o ar mais calmo e doutoral do mundo que o computador jamais funcionaria sem uma caixa de bytes que teria de ser pedida ao regente da cadeira. E a malta ia bater-lhe à porta do gabinete ansiando a tal caixinha milagrosa. Apesar de ter mandado dezenas de gajos chatear o homem, ele ainda me deu 18 valores. Um tipo porreiro, portanto.

João Ventura disse...

"Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma"...