domingo, 12 de julho de 2009

"Onde os Últimos Pássaros Cantaram" (1)

Luis Filipe Silva levou a efeito no Tecnofantasia um passatempo (detesto este nome, mas isso não vem agora ao caso) baseado no livro Onde os Último Pássaros Cantaram, de Kate Wilhelm. Em cada uma de 4 semanas publicou as condições dos textos que poderiam ser submetidos, e em cada semana o melhor texto recebeu um exemplar do livro referido, oferta da Gailivro, que patrocinou a iniciativa.
Vou colocar aqui os textos com que respondi a estes desafios, tal qual os submeti, resistindo à
tentação de os rever.

E assim vamos à

1ª Semana - 06.06.2009

Em 250 palavras ou menos, os participantes tinham de descrever o impacto na sociedade, contar
uma história breve, inventar uma situação anedótica/trágica, a respeito do seguinte tema:
Uma ameaça que tem pairado nas últimas décadas tem sido a do desaparecimento das reservas de petróleo e gás natural que alimentam a nossa tecnologia e sociedade. Isto porque, apesar de todo o progresso da nossa espécie, ainda não encontrámos uma fonte energética mais eficaz do que a primeira que aprendemos, há muitos e muitos anos a dominar: a combinação do oxigénio com o carbono, ou seja, o fogo. E sempre tivemos receio de ficar sem carbono suficiente para queimar.
Mas... e se for o contrário? E se o planeta passar por uma quebra significativa da produção de
oxigénio? E se o filoplâncton começar a deaparecer em grande volume dos nossos oceanos? E se o
ar que respiramos se tornar demasiado precioso para alimentar a combustão (inclusive porque a
tornaria mais difícil)?

Poderemos viver sem o nível existente de combustão mundial? Podemos encontrar formas
alternativas e eficientes de energia? Podemos adaptar a nossa existência a esta dificuldade
inesperada?

E a minha resposta foi:

Os malefícios da hiperespecialização

Era o superterrorista, animado de um ódio de morte contra a civilização tal como a conhecemos. E viu que essa civilização estava viciada em energia, pelo que a forma definitiva de a quebrar estava em cortar o fornecimento dessa energia.
Era além disso um génio da química. Com fundos provenientes de múltiplas lavagens de dinheiro, no seu laboratório secreto desenvolveu uma substância extremamente ávida de oxigénio, várias ordens de grandeza acima do que se conhecia.
Achou que no dia da inauguração da nova central térmica seria a altura apropriada para uma acção exemplar que seria a primeira de muitas que se seguiriam.
Infiltrado entre os jornalistas que iam cobrir o evento, a sua máquina fotográfica era afinal o aparelho que, uma vez activado, iria absorver o oxigénio existente no local, desta forma impedindo os queimadores de funcionar, a caldeira de produzir vapor e os alternadores de injectar a preciosa energia na rede eléctrica.
Quando accionou o seu dispositivo, o teor de oxigénio existente na atmosfera da central começou a baixar, primeiro lentamente, depois mais acentuadamente. Quando atingiu os 18 por cento, houve pessoas que começaram com tonturas, outras a desmaiar, e o fenómeno foi-se ampliando. Quando ele próprio sentiu a sua consciência a desaparecer, pensou que não devia ter estado distraído naquela aula de biologia onde lhe parecia (agora) que o professor tinha dito que um teor de oxigénio abaixo de 15% faria perder a consciência e acarretaria a morte a curto prazo.
E enquanto no imenso hall da central se acumulavam os corpos - os funcionários da central, as autoridades vindas para a inauguração, os jornalistas - os queimadores da central continuavam alegremente a funcionar, produzindo mais fumo do que habitualmente, porque com a deficiência de oxigénio a combustão era agora mais rica, o que, como se sabe, implica em geral maior produção de fuligem.

4 comentários:

José Eduardo Lopes disse...

(sobre a palavra passatempo: o Mia Couto chegou a usar o trocadilho pensatempo, bem mais expressivo ;)

João Ventura disse...

O Mia Couto é único como reinventor da língua portuguesa... :-)

Pé na estrada disse...

Oh, então o tipo faltou às suas aulas!!!
É sempre a mesma coisa!! E depois querem ter boas notas... ai ai ai!!!

João Ventura disse...

Eu não ensino biologia... :-)