sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A vida está difícil para todos...

O chefe estava bravo, num daqueles dias em que o melhor é ouvir e calar!
“Uma vergonha!Vocês têm a lata de chegar aqui depois de uma noite de trabalho e entregar-me cento e cinquenta e três euros?”
“Oh chefe, não temos a culpa de no quiosque dos jornais a registadora estar quase vazia. E o restaurante que assaltámos a seguir também tinha pouco dinheiro; disse o dono que hoje a maior parte dos clientes paga com cartão...”
O Fusca bem podia ter ficado calado! A cara do chefe ficou mais encarnada e ele berrou:
“Não quero cá desculpas esfarrapadas. Eu estou a perder dinheiro com vocês e isto não pode continuar assim. Vou ter que cortar nas despesas!”
Olhámos uns para os outros, com receio do que iria sair dali.
“Primeiro, downsizing e outsourcing. Vamos passar a usar mão de obra temporária para a condução dos carros.”
O Mãozinhas, que é habitualmente o condutor, encolheu-se todo e perguntou a medo: “E eu, chefe?”
“Vais ter que te ir embora. O colégio onde andam os meus filhos precisa de um motorista para a carrinha de transporte dos miúdos. Vais lá inscrever-te, que eu dou um toque ao responsável dos recursos humanos do colégio.”
O Mãozinhas ficou com um ar muito infeliz, a imaginar-se a transportar criancinhas mimadas, e nós cheios de pena dele.
“Segundo, os assaltos vão passar a ser sempre de dia. Enquanto não aumentarem as receitas, eu não posso continuar a pagar horas extraordinárias.”
“Mas chefe, nós podemos trabalhar à noite sem horas extraordinárias”, avançou o Alicate, que estava a começar a ver o caso mal parado.
“Nem pensar! E depois ter o sindicato à perna, tribunal de trabalho e o diabo a quatro? Acaba o trabalho nocturno e pronto!”
“E mais: se me aparecem outra vez com uma caixa Multibanco com as notas todas pintadas, obrigo-vos a ir devolvê-la ao sítio de onde a tiraram!”
“Mas chefe, quando lá chegássemos com a caixa estava lá a bófia e íamos todos dentro”, disse o Neurónios, que não é propriamente um exemplo de esperteza.”
“Será a paga da vossa incompetência!”, respondeu o chefe, ainda mais irritado.
Fez uma pausa, tirou 2 comprimidos de uma caixinha, meteu-os à boca, e empurrou-os para baixo com meio copo de água. Aqueles eram os comprimidos para a tensão, mas ele só costumava tomar um de cada vez. A coisa estava preta!
“Vocês já apreciaram bem a cena? Cinco manguelas a quem eu pago salário, segurança social, subsídios de Natal e de férias, horas extraordinárias, aparecem-me aqui ao fim da noite, com o carro todo escalavrado, porque a fugir da bófia roçaram num muro – e ainda vou ter que pagar ao batechapas – e dizem-me que o resultado do trabalho foram cento e cinquenta e três euros? Cento e cinquenta e três euros? Estão a gozar comigo ou quê? Querem que eu vá à falência?”
Continuava tão bravo que nem tive tomates para lhe dizer que a carteira que gamei de esticão à velhinha à saída da missa só tinha dentro 78 cêntimos...

2 comentários:

José Eduardo Lopes disse...

;)
Vivemos tempos de crise!

João Ventura disse...

É verdade, mas há sempre alguns que se vão escapando...
:-)