sábado, 22 de dezembro de 2012

Os anos cinzentos: ficar ou partir

Descrição de um episódio verdadeiro. Quem assistiu lembrar-se-á… Um exemplo das várias vidas de que era tecida a vida de um estudante do Técnico nos anos cinzentos…


Durante parte da minha vida de aluno do Técnico morei no Lar da Associação de Estudantes (hoje intitulado República A Desordem dos Engenheiros). Era uma experiência prática de auto-governo aquela que então tínhamos naquele 5º andar da Avenida Almirante Reis. Desassete estudantes de diversos cursos e anos, com diferentes origens geográficas e sociais, partilhando alegrias e tristezas, medos e esperanças. A minha formação foi certamente muito influenciada por todos os colegas com quem vivi aqueles anos, de muitos dos quais fiquei amigo para o resto da vida. E não é de estranhar que as ideias dominantes naquela casa fossem dos diversos matizes de esquerda.
(No 4º andar, logo abaixo de nós, era um lar de idosas da paróquia local. A coexistência era pacífica; sempre que fazíamos uma festa, onde se previa um nível de ruído superior ao habitual, lá ia uma delegação bater à porta das “velhinhas” pedir antecipadamente desculpa pelo incómodo que iríamos causar. E nunca tivemos uma resposta que não fosse: “Fazem bem, vocês são jovens, têm que se divertir…”. Em contrapartida, sempre que encontrávamos uma delas no rés-do-chão, com o cesto das compras, a olhar desconsolada para a porta do elevador com o letreiro “Avariado” – o que acontecia com bastante frequência – éramos nós que transportávamos o cesto até ao 4º andar. Um bom exemplo de convivência inter-geracional!)
Um dos residentes, L.F., já conhecia a polícia política – e a PIDE a ele, naturalmente. Não me recordo se tinha chegado a ir a julgamento, mas durante a sua detenção tinha sido submetido à famigerada tortura do sono durante 6 dias. Entre várias sequelas, tinha ficado afectado por insónias persistentes, só conseguia adormecer pelas seis ou sete da manhã, e dormia toda a manhã e parte da tarde. O seu "horário de funcionamento" era assim bastante diferente dos restantes utentes do Lar.
Por essa altura eu fazia parte do Coro da Academia dos Amadores de Música, ainda dirigido por Lopes Graça. Os membros do coro constituiam um conjunto bastante heterogéneo, alguns  licenciados, empregados de escritório, operários, donas de casa, alguns estudantes. E é precisamente numa noite de ensaio, na sede da Academia na Rua Nova da Trindade, que um desses estudantes, dirigente associativo na Faculdade de Ciências, me diz: "Conheces o L.F.? Pirou-se! Já está na Bélgica."
"O L.F.? Mas esse tipo mora lá no Lar!"
Não devo ter estado muito atento durante o resto do ensaio. Peguei o eléctrico 24 de volta, e assim que entrei no Lar chamei todos à sala e dei-lhes a novidade.
Dado que a informação era de confiança, chegou-se rapidamente a um consenso. Como se sabia que a PIDE visitava com frequência as casas de quem saía clandestinamente do país, era necessário descobrir se ele teria deixado alguma coisa no quarto que fosse necessário fazer desaparecer. E lá fomos passar revista ao quarto do L.F.
Do que estava à vista, nada de comprometedor. Alguns ensaios ou romances mais “subversivos” misturados com os livros de matemática, física e engenharia não seriam de molde a entusiasmar qualquer agente da PIDE que nos viesse fazer uma visita. Era o tipo de literatura que qualquer livreiro mantinha debaixo do balcão para venda aos clientes conhecidos. Até que abrimos a gaveta da mesa e demos com os restos do trabalho que o nosso colega tinha desenvolvido com vista à sua planeada saída do País.
Durante as longas horas de insónia, quando era em geral a única pessoa acordada na casa, L.F.  tinha dedicado a sua actividade a sucessivas tentativas de falsificação de um carimbo da PIDE. Como devido ao seu cadastro nunca lhe dariam autorização para sair do país, precisava passar a salto a fronteira portuguesa, mas ter no passaporte o carimbo de saída, para não ter problemas nas fronteiras seguintes.
No início tentou fabricar o carimbo em chumbo, que é um material dúctil e fácil de cortar. Usando como cadinho a tampa de uma lata de graxa para sapatos colocada sobre o bico do fogão, colocou lá dentro aparas de chumbo que fundiu com relativa facilidade. A ideia era usar a superfície do líquido, depois de solidificada, para "esculpir" o carimbo. Mas as impurezas que vem à superfície quando se fundem metais tornavam a superfície irregular, e a tentativa não teve sucesso. Soubemos mais tarde que ele tinha feito várias perguntas sobre o assunto a J.C., assistente de Metalurgia, que muito pedagogicamente lhe tinha fornecido a explicação completa do fenómeno, sem a mínima desconfiança quanto à finalidade das questões colocadas.
Não sabemos se terá feito outras tentativas, mas na gaveta encontrámos sinais da solução adoptada: dois passaportes com as folhas de identificação arrancadas, e cujas páginas tinham sido usadas para ensaiar os diversos carimbos que ele fora desenvolvendo. E a solução encontrada tinha tanto de simples como de engenhosa.
Tinha cortado em stencil – material ainda nessa altura muito usado como matriz para policopiar documentos – as letras e números do carimbo. Ao passar tinta pelo lado de cima, a tinta que atravessava os cortes produzia nas folhas do passaporte uma marca um pouco esborratada, como a originada por um carimbo com muito uso. De notar que o carimbo tinha data, pelo que a operação final teve de ser feita quando ele já tinha a certeza absoluta sobre o dia da partida.
Tenho por vezes imaginado o seu labor solitário, na casa adormecida, as suas mãos cortando o stencil, passando a tinta, olhando o resultado, rejeitando-o como imperfeito, tentando outra vez, cada um daqueles pequenos gestos uma minúscula contribuição para um trajecto pessoal, convergente com muitos outros caminhos percorridos por muita outra gente.
Queimámos todo aquele material e fomos deitar-nos.
No dia seguinte fomos contactados pelo seu “testamenteiro” – nome dado à pessoa, em geral um familiar ou amigo próximo, que ficava encarregada de recolher e dar destino aos pertences de quem se ia embora. Era um amigo dele que não era aluno do Técnico, pelo que um de nós falou com a direcção da Associação, para sabermos o número do cacifo de L.F., e como não havia chave, teve que ser arrombado. O material que aí encontrámos tinha um “conteúdo literário” um pouco mais “sensível” do que o existente no quarto; ajudámos o testamenteiro a arrumar tudo numa mala que trouxera, e ele lá foi, cumprindo certamente as instruções que tinha recebido.
Os dias foram passando, e nunca chegámos a receber qualquer visita indesejada. Mas ainda tiveram de decorrer alguns anos até que o parar de um carro à noite na rua ou o toque da campainha da porta a desoras passasse a causar uma reacção diferente da que provocava nesses anos cinzentos.

Texto escrito para um concurso intitulado "Estórias para 100 anos de História" no âmbito das comemorações dos 100 anos do Instituto Superior Técnico.

3 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

Tão importante de recordar

João Ventura disse...

Se se perde a memória do passado, perde-se a faculdade de analisar o futuro que nos querem fabricar...

Obrigado pela visita e Bom Ano!

Pé na estrada disse...

Nem mais!!!