sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O grande artista

António Cerdeiro estava representado nos mais prestigiados museus do mundo. Em qualquer leilão, as suas obras atingiam cotações elevadíssimas.
Quando Cerdeiro fez 60 anos, a Junta de Freguesia da aldeia onde nasceu colocou uma placa comemorativa na parede da casa onde pela primeira vez viu a luz. A cerimónia contou com a presença das autoridades civis, militares e eclesiásticas e muito povo.
Nessa noite a D. Felícia, sua antiga professora primária, já um pouco tolhida pelo reumatismo mas ainda perfeitamente lúcida, assistiu a um programa de televisão sobre o grande artista onde foram mencionados os preços atingidos por alguns dos seus quadros. Lembrou-se então de que guardava um caderno com desenhos feitos pelo António Cerdeiro quando com ela aprendera as primeiras letras.
Desencantado o caderno de folhas já amarelecidas no fundo de um baú, fez um telefonema ao seu sobrinho advogado, que ao fim de uma semana tinha arranjado um comprador entre os representantes de vários museus que prontamente acorreram para tentar a todo o custo conseguir o caderno.
Quando teve conhecimento de quanto a D. Felícia tinha ganho com o caderno cheio de rabiscos, José Pirisco, padrinho de António Cerdeiro, ficou a matutar; aqueles riscos gravados na parede da sua cozinha haviam também de valer uma boa maquia. Falou com o pedreiro local que logo o desiludiu: não era possível desmanchar a parede sem estragar totalmente os desenhos.
Mas Pirisco não era homem para desistir à primeira dificuldade. Colocou uns projectores para melhorar a visibilidade dos sulcos, imprimiu uns folhetos com alguns pormenores - na maioria inventados - sobre a infância de António Cerdeiro e abriu a sua casa a visitas pagas.
Com os visitantes em semi-círculo observando as gravuras, José Pirisco fornece mais alguma informação, avidamente absorvida por todos. Só há um pormenor que Pirisco cuidadosamente omite: o par de estalos que deu ao afilhado quando numa certa tarde invernosa o apanhou a riscar a parede da cozinha com um prego ferrugento!

3 comentários:

Maria, Simplesmente disse...

Ora aqui está uma realidade na vida de todos nós.
O dinheiro, sempre o maldito dinheiro, que vale mais do que as pessoas.
É triste esta vida, João Ventura... muito triste mesmo.
Boa semana
Maria

João Ventura disse...

Nem sempre, Maria... Enquanto conseguirmos rir dela (nela? com ela?) ainda estamos a ganhar.

Bjns

João

Pé na estrada disse...

Ora e vamos ganhando sim senhora, com muito bom humor!!! Ora, eu tenho uns videos deste famoso escritor, nas suas palestras pedagógicas. Se procurar bem, encontro ainda na minha memória momentos de riso descontrolado e muita paródia!!
Sou uma mulher rica, não de dinheiro, mas de humor e partilha de bons momentos que ao longo dos anos têm pautado os nossos encontros!!