sexta-feira, 6 de junho de 2008

Reunião...

Era uma reunião secreta, num local secreto.
À volta de uma mesa com bebidas e aperitivos, vários homens, de fato cinzento e gravatas discretas, tomavam decisões.
Um deles disse: "O nosso Conselho de Administração votou ontem um aumento de 35 por cento para todos os membros. O departamento financeiro diz que para manter os lucros temos que aumentar a gasolina e o gasóleo em 5 cêntimos por litro".
"Stormfield tem afinal o dobro das reservas inicialmente previstas", disse outro. "Vamos subir o preço do crude em 2 dólares por barril".
"Mas isso não seria um motivo para baixar o preço?" perguntou um, sorrindo ironicamente.
"Não podemos dar sinais errados ao mercado", declarou o primeiro, provocando vários acenos de concordância.
"O presidente Bush espirrou duas vezes seguidas! Vamos aumentar a gasolina um dólar por galão".
A um canto da sala sentava-se um homem, este vestido de preto, que só bebia sumo, e que ia introduzindo num computador as alterações de preços ali decididas.
"O mercado livre e aberto é o ideal, porque da livre concorrência resulta naturalmente um abaixamento dos preços no consumidor", disse um dos que estavam à volta da mesa, muito sério.
Ficou tudo em silêncio e logo a seguir estalou uma gargalhada geral. Um dos homens engasgou-se até lhe sair uísque pelo nariz. Os outros deram-lhe palmadas nas costas.
E disse o que se tinha engasgado, ainda com as lágrimas nos olhos: "Oh pá, não contes anedotas quando eu estou a beber..."

4 comentários:

Francisco Norega disse...

Gostei da escrita e da mensagem. Como sempre excelente nas micronarrativas =P

Parabéns ;-)

Bé ISA disse...

Fantástico como sempre, e com uma precisão acutilante!!!!
Não pude ir a Creta ver as danças cretinas e as músicas cretinas, mas já sei que correu bem.
Beijos e parabéns.

n.fonseca disse...

Bom exercício de retro-FC light. Não esquecer idos anos 80 quando alguém que é hoje presidente, perante baixa mundial e generalizada de preços do petróleo, anunciou subidas nos da gasolina...motivações semelhantes provavelmente, já que foi um bonito encaixe ao erário publico de então; teremos sido um dos pouquissimos países a fazê-lo, mas acredito que a motivação bolso-ista e os diálogos inter-pares terão sido algo no modelo deste mini-conto :).

João Ventura disse...

Francisco: Obrigado pela visita!

Bé: Volta sempre!
Correu bem, mas o jantar na Sardenha foi melhor :-)

Nuno:
A realidade ultrapassa (muitas vezes) a ficção. Ou como às vezes se diz "Qualquer coincidência é mera semelhança".