quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Acta da reunião do júri do concurso literário "Palavras nunca lidas"

Aos 15 de Março de 2004, decorreu a reunião final do júri, que deliberou:

1. A necessária exclusão de uma das obras concorrentes por motivos alheios ao júri. Candidata na categoria "minimalista", vinha escrita numa folha com 2 por 3 centímetros. Quando da abertura do correio, a infeliz coincidência da porta e da janela abertas provocou uma corrente de ar em consequência da qual a obra, intitulada "A insustentável leveza da escrita", saiu pela janela, não podendo ser recuperada.

2. A forçada exclusão de uma outra obra cuja submissão tinha sido anunciada, e que entraria na categoria "maximalista". No dia limite para submeter originais concorrentes ocorreu uma greve de camionistas e o camião TIR fretado para transportar o manuscrito, que apropriadamente se intitulava "A Força da Gravidade", não conseguiu entrar antes de terminado o prazo.

3. A fase de pré-selecção foi depois realizada colocando os títulos das obras concorrentes em círculo e percorrendo os nomes sequencialmente no sentido dos ponteiros do relógio, enquanto os membros do júri entoavam em coro a conhecida rima
Um, dó, li, tá
Cara de amendoá
Um soleto
Coloreto
Um dó li tá
Desta forma foram sendo aleatoriamente eliminados sucessivos concorrentes até restar um grupo de 5 pré-finalistas.

4. Por curiosa coincidência, todas estas obras pré-seleccionadas se incluíam na categoria "prosa obrigada a letra", que exige que todas as palavras da obra em questão comecem com a mesma letra. Foram os seguintes os 5 pré-finalistas:

i) "Deverá Deodato divulgar dimensão da dívida? Deus, dura dúvida!"
Pseudónimo do autor: Duro Diamante
Trata-se de um exemplo da sub-categoria "intimismo existencialista". Ao fim de duzentas e trinta e sete páginas, Deodato continua indeciso sobre a resposta à pergunta colocada no título.

ii) "Alcina amava Afonso até às alturas ardentes"
Pseudónimo do autor: Artista Amoroso
Esta é uma obra situada dentro do sub-ramo "erótico" ou quiçá, em certos capítulos, "pornográfico". A relação entre os dois protagonistas é descrita com um detalhe capaz de fazer inveja ao manual de anatomia utilizado no 1º ano dos cursos de Medicina.

iii) "Efe, éne, éle, éme: exercício escrito espumoso, espúrio e espantado"
Pseudónimo do autor: Escritor Exposto
Integrada na literatura "formalístico-letrista", esta obra mostra ao longo das suas quase trezentas páginas a relação de um linguista com as letras, oscilando entre o amor e o ódio por vezes por razões fúteis, e outras mesmo sem razões.

iv) "Pedro partindo pedra, pensativo pousa picareta"
Pseudónimo do autor: Plúmbeo Pulmão
Desde a profissão do personagem principal até ao pseudónimo do autor (que insinua a sugestão de uma doença profissional), tudo nesta obra cheira a um neo-realismo serôdio que, dezenas de anos depois da queda da muralha da China, surge ainda de quando em vez em concursos literários.

v) "Zangado Zoroastro, zuniam zagaias, zagunchos, zagalotes..."
Pseudónimo do autor: Zéfiro Zumbi
Literatura "religioso-bélica", mais um das várias centenas de textos a reclamar-se de "high fantasy", produzidos por autores que foram ver a sessão especial non-stop da Trilogia do Senhor dos Anéis e quando regressaram a casa pegaram numa resma de folhas A4 e numa esferográfica, e descobriram que o seu futuro era escrever fantasia. O autor termina o manuscrito, não com a simples palavra "Fim", mas com um ameaçador "Fim do 1º volume".

5. Passando à votação final, o júri eliminou

i) Por unanimidade
"Deveria Deodato divulgar dimensão da dívida? Deus, dura dúvida!"
porque considerou que a dúvida sistemática tem um efeito deletério no tecido social, e esta obra constituiria um mau exemplo, principalmente para a juventude. O autor foi aconselhado a reduzi-la para um máximo de 15 páginas, e a fazer o protagonista tomar a decisão na página 14.

ii) Por unanimidade
"Pedro partindo pedra, pensativo pousa picareta"
porque os "amanhãs que cantam" já passaram de moda, até porque não se sabe se haverá amanhãs. E qualquer obra que fale em "solidariedade" e afins deve ter uma divulgação restrita, porque as consequências de tal divulgação são imprevisíveis.

iii) Por maioria
"Zangado Zoroastro, zuniam zagaias, zagunchos, zagalotes"
porque fantasia já há muita, e é preciso que o pessoal "caia no real". O empréstimo da casa, as prestações do carro, os concursos da televisão, as revistas do social, o futebol, essas sim devem ser as preocupações e actividades, em vez da leitura de livros sobre magia, espadas enfeitiçadas, e viagens infindáveis por causa de um anel ( ou de qualquer outro objecto!).

ficando assim apurados como finalistas
"Alcina amava Afonso até às alturas ardentes"; e
"Éfe, éne, éle, éme: exercício escrito espumoso, espúrio e espantado"

6. O júri decidiu, por maioria, atribuir o 1º lugar a
"Alcina amava Afonso até às alturas ardentes"
aplicando o critério da ordem alfabética aos dois finalistas.
Votou vencido o membro do júri Zeferino Zacarias, que em declaração de voto afirmou que, conforme defende na sua monografia "A ordem alfabética inversa – subsídios para a sua justificação" (publicada há vinte anos em edição de autor), a ordem a considerar deveria ser de Z para A e não de A para Z.

7. O júri decidiu, finalmente, propor a publicação da obra premiada numa colecção para adultos, em virtude de a mesma conter material eventualmente chocante, quase certamente perturbador para crianças e adolescentes, doentes com eczema, assessores de ministros, dirigentes desportivos, fanáticos do futebol em geral e outros espíritos fracos.

8. O júri ordenou então o transporte de todos os originais não premiados para o pátio interior do Palácio das Mil e Uma Noites, onde decorreu a reunião, e colocando-os em monte, pegou-lhes fogo. Tinha anoitecido, entretanto, e junto da fogueira os membros do júri congratularam-se com a rapidez com que decorreu o processo e com a importante contribuição dos concursos literários para o aumento da literacia da população, enquanto o dióxido de carbono e o vapor de água libertados na combustão de todo aquele papel se dissipavam na atmosfera contribuindo, ainda que de forma infinitesimal, para o agravamento do efeito de estufa e portanto para o aquecimento global do planeta.

Este texto foi premiado num concurso organizado pelo Luís Ene, numa sua outra encarnação, em 2004, no qual o júri foi constituído pelos próprios concorrentes.

5 comentários:

Luís Rodrigues disse...

Muito bom, parabéns!

Golganooza disse...

E surge a duvida: nao sera este um texto a puxar pro' realista? Cumprimentos.

João Ventura disse...

Obrigado a ambos pelas visitas e comentários.
Quanto à dúvida, como é que dizia o Eça:
"A nudez crua da verdade sob o manto diáfano da fantasia" ou parecido com isto?

Saudações.

Anónimo disse...

João, gostei particularmente, da referência "numa outra encarnação".
Abraço forte.

Luís Ene

João Ventura disse...

E se tiveres um bom karma, a tua nova encarnação será melhor que a anterior :)

Abs.