sábado, 23 de junho de 2012

Os malefícios de tudo

André Aguiar era um dos melhores criativos da Nós vendemos! Publicidade e Marketing, S.A. A arquitectura da maior parte das grandes campanhas da agência tinha sido dele. A sua imaginação não conhecia limites. Há alguns anos, um dos seus colegas tinha-lhe dito: “Tu ainda hás-de ser engolido pela tua própria imaginação.” Quer a frase fosse fruto de admiração ou inveja, o que é certo é que o seu autor já há muito tinha sido despedido da Nós vendemos! enquanto a carreira de A&A, como era tratado pelos colegas, continuava sólida e a um curto passo de uma vice-presidência.
Naquela manhã, André estava maravilhado com um título que tinha encontrado ao vaguear pela rede: Os Malefícios do Tabaco! Acedeu ao site, e leu o conto num misto de surpresa e admiração.
Que Tchekhov tivesse escolhido um título que acabava por não ser o assunto da conferência proferida pelo protagonista não era nada que chocasse André Aguiar: afinal o marketing era isso mesmo, frases catchy para vender não importa o quê…
Mas aquele título era uma frase de génio. Ficava a ressoar na cabeça do leitor muito depois de ter acabado de ler o curto monólogo do desesperado Ivan Ivanovich Nyukhin. “Como é que estes russos escreviam de forma tão eficaz no século XIX…”
A frase começou a dar cambalhotas no cérebro de André. Não tardou muito e outra frase ocupou o lugar dela: Os malefícios do álcool. E rapidamente os dedos de André começaram a deslizar sobre o teclado, produzindo um texto inspirado por este título.
Era um facto conhecido que todos os computadores existentes na Nós vendemos! sofriam backups periódicos para o servidor, como precaução para evitar a possível perda de material criativo ou outro, devido ao eventual crash de uma máquina.
Um facto muito menos conhecido era que o CEO da agência tinha acesso directo e imediato a tudo o que era colocado no servidor.
E naquela manhã, na revista que fazia frequentemente ao trabalho dos seus criativos, o CEO tinha dado com o texto de André Aguiar.
Achou graça aos “malefícios do álcool”. E pensou logo que poderia vir a ser útil nalguma futura campanha, agora que os poderes públicos começavam a ficar preocupados com o alcoolismo juvenil. Tinha o toque de irreverência capaz de falar aos adolescentes, enquanto ao mesmo tempo transmitia os perigos resultantes de um consumo excessivo de álcool.
Quando olhou de novo, André já estava noutra: “Os malefícios do automóvel”. O texto possuía o justo equilíbrio entre humor e factos, e o CEO pensou que a Prevenção Rodoviária poderia vir a estar interessada em estruturar uma campanha com base naquele texto.
O que o CEO mais apreciava em André era a sua capacidade de defender um ponto de vista e o seu contrário, uma competência de extremo valor para um criativo na área do marketing. E foi assistindo, no seu confortável gabinete, e com um sorriso nos lábios, ao desenrolar de textos intitulados “Os malefícios de comer carne de porco”, pouco depois seguido de “Os malefícios de ser vegetariano”. A “Os malefícios do sedentarismo” logo veio fazer contraponto “Os malefícios do exercício físico”…
Uma luz vermelha piscou no intercomunicador. Era uma chamada da sua gestora bancária, porque tinha havido alterações nas cotações de alguns títulos da sua carteira. O CEO orgulhava-se de tomar decisões rápidas, e passou os dez minutos seguintes a dar ordens de compra e venda. Quando desligou, a sua conta bancária tinha crescido várias centenas de milhares de euros.
Quando regressou à observação do trabalho de André Aguiar, sentiu algum desconforto: o seu criativo escrevia agora um texto com o título “Os malefícios das agências de rating”.
“Isto não bem é o trabalho típico da Nós vendemos!”, pensou o CEO. “Poderá ser vendido ao governo numa ocasião apropriada, claro, mas com as devidas cautelas para que o nosso nome não apareça…”
Mas quando viu surgir o título do texto seguinte, o CEO premiu o botão de emergência do intercomunicador e deu uma ordem, rápida e precisa.

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A&A estava tão absorto na escrita que nem deu pelos dois homens de bata branca que entraram sem ruído no seu cubículo. O da frente trazia uma seringa cujo conteúdo injectou rapidamente no braço de André, que colapsou de imediato. Os dois homens arrastaram o corpo inanimado para fora do cubículo, colocaram-no numa maca que tinham deixado à porta e rodaram rapidamente pelo corredor em direcção à saída.
Alguém que estivesse a observar o monitor do computador de André teria visto o cursor posicionado no fim do texto começar a deslocar-se para a esquerda, apagando rapidamente o texto carácter a carácter. Quando só restava o título, “Os malefícios do marketing”, toda a linha foi marcada e desapareceu instantaneamente.
Depois de se assegurar que não restavam vestígios do texto, nem no computador de André nem no servidor, o CEO pensou, em inglês, como sempre lhe acontecia em situação de tensão: “Crisis over!”. Levantou-se da cadeira, e teve um último pensamento dirigido ao seu ex-criativo: “Sorry, A&A, nothing personal, but you’ve just gone over the edge! And I’ve got a marketing agency to run…”
Saiu do gabinete, fechou a porta e foi almoçar.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Enche o carrinho!

O grupo Pingo Doce decidiu alargar a sua gama de actividades entrando na indústria do entretenimento. Em parceria com a Endemol - curiosamente outra empresa holandesa - vai ser
lançado um novo reality show intitulado "Enche o carrinho!". Em Portugal, após competição bastante renhida, foi a TVI a ganhar a licença para transmitir o programa.
"Depois de andarmos há anos a alimentar as necessidades básicas dos consumidores, pensámos chegada a altura de alimentarmos também os seus tempos de lazer", declarou o director de marketing do grupo numa conferência de imprensa, onde explicou as principais características do novo programa.
Cada sessão é disputada por 3 equipas. Cada equipa é uma família, formada por pai, mãe e dois filhos menores. A competição terá lugar numa loja do grupo. Cada equipa recebe uma lista de produtos que terá de colocar no carrinho e levar até à caixa, onde estará o júri, para conferir o tempo gasto pela equipa e se a lista foi completada. Em paralelo com o enchimento do seu carrinho, cada equipa deve tentar impedir que os outros concorrentes o façam. Esconder produtos necessários, arreganhar os dentes, impedir a passagem do carrinho adversário, tombar-lhes o carrinho espalhando todos os produtos no chão, tudo isto são procedimentos admissíveis. Não é permitido o uso de armas - os concorrentes serão revistados antes do início da prova - e os departamentos de ferramentas de jardinagem, utensílios de cozinha e cutelaria terão acesso interdito.
A produção manterá em stand-by uma equipa de paramédicos e uma ambulância provida de equipamento de reanimação.
Em cada sessão será apurada uma equipa vencedora cujo prémio consistirá no conjunto dos produtos que colocaram no carrinho. Ao fim de 12 semanas, uma nova etapa do programa seleccionará de entre os 12 vencedores das semanas anteriores o vencedor absoluto que terá direito a 6 meses de compras gratuitas naquela loja.
Quando terminou a exposição, um jornalista perguntou:
"E não receiam que este tipo de programa dê para o exterior uma má imagem do País?"
"Do País? Da Holanda? Não, nós vamos fazer este programa em Portugal!" foi a resposta do director de marketing.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A quinta dos guarda-chuvas

Era uma das mais emblemáticas explorações agrícolas do Reino Unido.  Na Umbrella Farm eram produzidos mais de 95 por cento dos guarda-chuvas utilizados pelos profissionais da City, com tecido de impecável cor preta, cabos sólidos, varetas de aço da melhor qualidade.
Nos alegres anos 60, Mr. Jeff Rain tinha feito a maior alteração ao seu modelo de negócio desde que o seu trisavô plantara guarda-chuvas pela primeira vez. Mantendo a sua linha tradicional de guarda-chuvas para executivos, comprou um terreno adjacente à quinta e iniciou a produção de sombrinhas, bem coloridas, psicadélicas, que mal chegavam às lojas de Carnaby Street eram rapidamente compradas pelos milhares de turistas que exameavam Londres.
Naquela manhã, Mister Rain percorria, como fazia de vez em quando, os diversos talhões onde se podiam ver os guarda-chuvas nas sucessivas fases de desenvolvimento.
Na primeira parcela de terreno, um grupo de trabalhadores, imigrantes vietnamitas, as mãos habituadas à milenar actividade da plantação do arroz, espetavam no terreno, a intervalos regulares, as varetas que viriam a dar lugar, em mais ou menos três meses, a um lote de guarda-chuvas adultos.
Na parcela seguinte já havia guarda-chuvas desenvolvidos, ainda pequenos. Dois trabalhadores percorriam o talhão abrindo e fechando os guarda-chuvas, certificando-se que todas as varetas estavam perfeitas. Irregularidades, ainda que pequenas, não eram toleradas. Qualquer guarda-chuva nessas condições era imediatamente arrancado e seguia para reciclagem.
Quando entrou no talhão seguinte, Mister Rain recusou-se a acreditar no que via. O que devia ser uma parcela com guarda-chuvas quase maduros, a poucos dias da colheita, era uma quantidade de cúpulas pretas salpicadas de cores vivas, por vezes círculos, outras vezes manchas irregulares, um pesadelo que até fazia doer os olhos de Mr. Rain.
Jeff Rain pegou no telemóvel e marcou o número do seu encarregado. “Manolo, vem ter comigo ao talhão 17.”
Cerca de um minuto mais tarde, Manolo Diaz, o encarregado, estava a chegar.
“Manolo, o que vem a ser isto?”
“Uma experiência, Mr. Rain” disse Manolo num inglês com sotaque espanhol que os quinze anos que já passara no Reino Unido não tinham atenuado. “Recolhi esporos de uma parcela de sombrinhas e espalhei neste talhão, para ver o que aconteceria.”
“Manolo, isto é uma casa séria. O que é que está escrito à entrada da quinta? Purveyors by Appointment to His Majesty since 1889. Somos uma firma de respeito. Guarda-chuvas são guarda-chuvas e sombrinhas são sombrinhas...”
O telemóvel tocou os primeiros acordes de Land of Hope and Glory. Atendeu. Ouviu durante algum tempo e disse “OK, já vou ter à portaria.”
Virou-se para Manolo e disse-lhe: Vou ter que acompanhar um visitante numa volta pela quinta. Continuamos esta conversa mais tarde. Podes ir.”
Na portaria, Jeff encontrou Monsieur Jean Lapluie, acompanhado de um secretário. Lapluie era o distribuidor dos produtos da Umbrella Farm para a Europa. A sua empresa, Parapluie Inc., estava a passar por um processo de internacionalização que a levaria a alargar a sua actividade a todo o mundo. Era a primeira vez que visitava a quinta de Jeff Rain, pelo que este estava muito empenhado em causar uma boa impressão.
Vestindo um fato cinza, de corte impecável, gravata e lencinho de cor amarela, usava um bigode meticulosamente aparado e e falava um inglês muito aceitável para um habitante do hexágono. Após algumas palavras de circunstância, manifestou interesse em iniciar imediatamente a visita.
Começaram pelos guarda-chuvas, o produto da quinta que enchia de orgulho Jeff Rain. Jean Lapluie fazia muitas perguntas a que Jeff respondia, perguntas e respostas cuidadosamente registadas numa tablet pelo secretário de Parapluie. Até que chegaram ao talhão objecto da experiência de Manolo.
Oh, mon Dieu! Mais c'est ça, c'est ça! O que é isto, Mr. Rain?”
“Bem... isto é... uma experiência...” - Jeff Rain não sabia o que dizer...
“Isto é o que eu tenho andado à procura para o lançamento do ramo internacional da Parapluie Inc.! Estas cores a nascer do preto, isto é arte, mais, isto é filosofia pura! Vamos inundar o mundo com este produto! Isto vai tornar a sua quinta conhecida em todo o lado. Partout! Partout!
Quando ficava entusiasmado, Lapluie miturava o francês e o inglês. Disse para o secretário: “Prepare uma minuta de contrato para um fornecimento inicial de … “, pensou um pouco, “quinhentos, não, seiscentos destes chapéus. Já estou a ver as lojas em todo o mundo a abrir em simultâneo com estes chapéus às cores. Temos que arranjar um nome para eles, mas isso temos tempo...”

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Ao fim da tarde, quando Manolo foi chamado ao gabinete de Jeff Rain, em vez da forte repreensão de que estava à espera, o seu patrão começou por dizer que tinha uma encomenda de seiscentos daqueles chapéus pintalgados para satisfazer, e que provavelmente seria necessário alocar mais parcelas para a sua produção...”
Manolo saiu do gabinete do patrão totalmente confuso. “Não consigo perceber estes ingleses, são tão estranhos”, pensou. “Parecia que Mr. Rain não tinha gostado nada da minha experiência e afinal...”
Encolheu os ombros, viu as horas e dirigiu-se para o carro, que já tinha visto melhores dias, para regressar a casa. A mulher devia estar a acabar o jantar...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Intervalo publicitário... 

...para anunciar a reedição de dois contos meus, na Vollüspa (Eternidade) e na Fenix (Natal em Little Town), ambas as publicações com coordenação de Roberto Mendes.

domingo, 15 de abril de 2012

Círculo vicioso

Em 2010, Sergio vel Hartman anunciou um desafio que consistia em escrever uma narrativa curta (limite 125 palavras) incluindo obrigatoriamente as seguintes 7 palavras: escritas / festejo / terapia / sedutora / generoso / unhas / prazer.
A minha contribuição foi o texto que se segue, depois traduzido pelo próprio Sergio e publicado num dos blogues que administra, Quimicamente impuro. Pode ser lido aqui.

 Círculo vicioso


Senti um prazer intenso quando a vi. Um corpo escultural, unhas vermelhas, um decote generoso, era a perfeita imagem da sedutora entrando no bar ao fim da tarde.
Olho para estas linhas escritas, e volto a escrevê-las, e outra vez, e mais outra, e outra vez ainda. Faz parte da terapia a que o tribunal me condenou, relembrar continuamente o início dos acontecimentos que me levaram a torturar e matar aquela mulher.
Enquanto escrevo, imagino o festejo que farei no dia em que sair do hospital, para poder voltar àquele bar, sentar-me ao balcão, pedir uma cerveja e esperar... esperar que apareça uma mulher que me leve a começar tudo de novo...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A conferência de Imprensa

O Ministro entrou na sala dos assessores. “Os jornalistas já chegaram?”, inquiriu, nervoso.
“Há pelo menos meia hora”, informou o assessor de imprensa.
“Senhor Ministro, essa barba de 3 dias já não está in”, disse uma assessora de imagem. E enquanto falava, ia conduzindo o Ministro para uma cadeira, onde o fez sentar. Apareceu outro assessor com uma máquina de barbear e em 2 minutos o Ministro ficou perfeitamente escanhoado, lamentando intimamente a perda da barba que tanto trabalho lhe dava manter com um tamanho constante.
“Essa gravata tem uma cor que deixou de estar na moda anteontem”, e num instante o Ministro viu-se aliviado da gravata cujo nó se tinha esmerado a fazer e engravatado com outra que a assessora de imagem tirou de uma caixa.
Na opinião do Ministro a nova gravata era horrorosa, cheia de bandeirinhas nacionais. A assessora sentiu-se na obrigação de explicar: “O modelo foi escolhido directamente pelo PM. Foi feito um estudo que concluiu que o pin com a bandeira é pouco visível nas lapelas dos casacos.”
“E aqui está a comunicação, senhor Ministro”, disse o assessor de imprensa produzindo duas folhas A4.
“Mas eu já tinha escrito...”, balbuciou o Ministro, tentando tirar do bolso uma folha dobrada.
“Esta está de acordo com as instruções emanadas do gabinete do 1º Ministro”, e o assessor meteu-lhe na mão as duas folhas A4.
“Tudo em ordem, senhor Ministro, pode avançar”, autorizou o assessor sénior.
E o Ministro empurrou a porta de acesso à sala onde daria a conferência de imprensa.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ratings...


Patrick Murphy entrou no estacionamento do parque de campismo, parou, desligou o motor e travou o carro. Tirou da bagageira a mochila e o restante equipamento, trancou o carro e dirigiu-se à loja do parque, onde comprou alguns alimentos e pediu a chave da cabana que tinha alugado para as suas curtas férias.
O parque tinha uma área familiar, com casas de madeira e espaço para tendas e caravanas, e uma zona mais “selvagem”, com pequenas cabanas espalhadas pelo bosque. Para atingir esta zona mais afastada, Patrick teve de atravessar a zona da piscina e do parque infantil, onde vários casais jovens brincavam com os filhos pequenos. Vinha-lhe sempre à memória a morte da mulher dando à luz o seu primeiro filho, que também não sobrevivera ao parto. E era com tristeza e com um sentimento de perda que via a felicidade alheia, imagem do que poderia ser a sua vida se...
Entrado no bosque, esforçou-se por concentrar a atenção no carreiro que conduzia à sua cabana. Era uma construção pequena, mas limpa e minimamente equipada. Esvaziou a mochila, preparou duas sanduíches que trouxe com uma cerveja para o alpendre, e ali ficou sentado a comer e beber devagar, enquanto o sol, em parte visível através das copas das árvores, descia no horizonte. Ali permaneceu mais algum tempo a ver surgir a noite, foi deitar-se e dormiu um sono agitado.
Na manhã seguinte, levantou-se cedo, meteu na mochila comida e água, um mapa, bússola e GPS e saiu da cabana, caminhando algumas horas pelo terreno acidentado em volta do parque. A meio da tarde, já no percurso de volta à cabana, o seu telemóvel tocou. Quando viu que a chamada era do chefe, Patrick soube logo que alguma coisa de grave se passava.
(…)
“Sim, andei a fazer tracking e devo ter estado numa zona sem cobertura de rede.”
(…)
“Alerta vermelho? Vou imediatamente.”
Entrou na cabana, recolheu rapidamente as suas coisas e foi à loja do parque, onde pagou os 5 dias de alojamento que tinha reservado. À pergunta do responsável da loja se alguma coisa lhe tinha desagradado, respondeu que não, mas que tinha de regressar mais cedo do que o previsto.
Três minutos mais tarde estava na estrada a acelerar, iniciando a viagem de regresso.

--- XXX --- 

Patrick não se lembrava de ter visto no seu serviço uma reunião como aquela. À volta da mesa havia representantes da NSA, CIA, FBI, e mais uma ou duas agências de que ele mal tinha ouvido falar. O seu chefe abriu a reunião, apresentou todos os participantes e passou a palavra ao representante da Intelligence Analysis Agency:
“Há 4 dias ocorreram duas mortes nesta cidade, à primeira vista acidentais e como tal catalogadas. Um homem foi atropelado à saída do edifício em que trabalhava por um automóvel cujo condutor se pôs em fuga, e outro homem caiu no poço do elevador do edifício onde vivia. A viatura envolvida no atropelamento e o respectivo condutor nunca foram encontrados, e o responsável da empresa de manutenção dos elevadores garante que não havia nada de errado com o mesmo, e não consegue explicar como terá ocorrido o acidente.
Um ponto comum em relação às duas mortes: ambos eram analistas na Fisher. No dia seguinte, outro funcionário desta empresa foi encontrado morto em casa: a cocaína que tinha consumido estava misturada com um tóxico letal. Ainda outro, a caminho do trabalho, perdeu o controlo do carro e sofreu um choque frontal com um camião, ao qual não sobreviveu. Outro que no dia de folga tinha ido jogar paint-ball como era seu hábito, foi atingido, não pela bolinha com tinta, mas por uma bala a sério. E de muitas outras formas, que seria fastidioso estar a enumerar, foram em três dias eliminados a maior parte dos analistas da Fisher. Os poucos que escaparam estão neste momento sob protecção policial em locais secretos.
Em relação às chefias intermédias, foi uma operação mais compacta; os vice-presidentes e directores tinham ido comemorar o aniversário de um deles para um clube nocturno e o uísque velho que beberam tinha alguma coisa além de uísque... Quando o CEO, que chegara atrasado, entrou no clube, já os paramédicos entretanto chamados tinham desistido das manobras de reanimação. Não escapou um!
O CEO, que passou a andar acompanhado de vários guarda-costas, dirigiu-se no dia seguinte num carro com vidros à prova de bala para a marina onde tinha o seu iate. Quando estava a cerca de uma milha da costa, uma enorme explosão provocou um rombo no casco que fez afundar o iate em menos de um minuto.
Quando começámos a correlacionar estes factos, fomos olhar outra vez informação recente cujo conteúdo tínhamos descartado como improvável.
Há poucas semanas tinha havido rumores da formação de uma nova organização, com origem em vários países europeus. Fontes não totalmente credíveis falavam de gente ligada directa ou indirectamente ao IRA, à ETA, às Brigadas Vermelhas italianas, ao grupo Baader-Meinhof?, mesmo a descendentes da resistência grega que nas montanhas combateu os nazis, às FP25 portuguesas... E esta gente ter-se-ia agrupado para 'combater o sistema capitalista financeiro responsável pela globalização'.
Isto pareceu na altura totalmente fantasista e não lhe demos qualquer crédito. Neste momento estamos a classificar como 'possível' e penso que virá a ser considerado 'provável'. Uma operação com este nível de precisão cirúrgica necessita de um know-how que um grupo como o que eu descrevi poderá possuir. Sobretudo a vantagem resultante do cruzamento de activismos muito diferentes, utilizando as técnicas mais eficientes...”
Cala-se bruscamente quando a luz vermelha no tecto da sala começa a piscar. O chefe de Patrick, alertado pelo seu próprio auricular, que nunca tira do ouvido, liga os televisores existentes na parede do fundo, já pré-programados para a NBC, CBS, ABC e Fox. As imagens transmitidas parecem, numa escala reduzida, a fase final do 11 de Setembro: uma enorme nuvem de poeira, expandindo lentamente, no lugar onde antes estava – é fácil de reconhecer pelos prédios vizinhos – a sede da Mads'R'us, a segunda mais importante agência de rating. Decorrem menos de três minutos e a CBS põe no ar uma gravação de um vídeo amador onde, apesar da pouca qualidade da imagem, se distinguem claramente explosões ao nível do primeiro andar e o colapso subsequente do edifício, o terraço a chegar quase ao nível do solo antes que a nuvem de poeira obscureça tudo. Tecnicamente, uma demolição perfeita.
O chefe de Patrick reage imediatamente. “A próxima vai ser a Normal&Under! Pat, leva o piquete, vão para lá de helicóptero e começa a montar a segurança. Irão chegar reforços. Estes tipos são muito bons, diabolicamente bons, temos de ser mais rápidos que eles. Go, go!”
Quando chega ao terraço o heli já tem as pás a girar, os homens do piquete acomodam-se nos assentos, Patrick caminha curvado até à porta, entra e senta-se ao lado do piloto. Este levanta de imediato o aparelho, que sobe numa longa curva e se dirige para a sede da agência Normal&Under.
No heliporto do edifício da agência, o heli paira meio metro acima do pavimento e Pat e os seus homens saltam e correm para a entrada que leva às escadas. As instruções foram dadas durante o voo. Os homens deslocam-se para controlar as entradas, enquanto Patrick percorre os gabinetes do pessoal de topo, todos nos dois pisos superiores, com janelas amplas, alguns com duas paredes envidraçadas, e força-os a moverem-se para uma sala interior, menos exposta. Levando consigo um dos directores, Patrick vai descendo, andar por andar, e vai sendo informado, “sala dos mercados europeus”, “sala da América Latina”, e o que Patrick vê são dezenas de pessoas, cada uma em frente de um computador, gráficos coloridos que deslizam nos monitores, e os analistas usam o telefone, e batem no teclado, por vezes há um que faz um comentário para o colega do lado, mas de um modo geral cada um está concentrado no monitor que tem na frente, e Patrick percorre as salas identificando as vulnerabilidades, e numa parte remota do seu cérebro há um sentimento de estranheza, então estes é que são os tipos que estabelecem os famosos ratings que fazem e desfazem reputações  de empresas e países, parecem tão pacíficos ali, em frente aos monitores, mas as consequências das suas decisões podem ser terríveis, será que eles pensam nisso, mas o trabalho reocupa a sua consciência, chegou ao rés-do-chão do edifício, pela porta principal entram agora reforços com equipamento de combate. Patrick assume o comando e dá instruções aos comandantes dos pelotões. Dirige os grupos de intervenção para reforçar a segurança montada inicialmente, os especialistas em explosivos para a realização de um varrimento exaustivo do edifício. Os homens dispersam, iniciando as missões que lhes foram atribuídas.
Sempre em ligação rádio com os seus homens, Patrick regressa à sala onde juntou os executivos, para lhes fazer o ponto da situação. Foi encontrá-los reunidos, tomando decisões sobre anúncios de rating a emitir.
O CEO interrompeu a reunião para perguntar: “Como vão as coisas, major?”
Patrick responde: “A segurança está montada em todo o edifício. Ninguém entra nem sai sem passar por nós. Temos de esperar até haver mais informação sobre o exterior.”
“OK, major, nós continuamos a trabalhar. Desde que viemos para aqui já baixamos o rating de dois ou três países e de uma meia dúzia de empresas...”
E riu-se, apoiado pelos sorrisos dos vice-presidentes.
Patrick não acha graça, apenas diz: “Quando houver novidades, virei aqui”, e vira costas, sai da sala, apanha o elevador para o rés-do-chão.
No átrio, verifica o posicionamento dos seus homens, confirma por rádio que do terraço à garagem tudo está a postos. O edifício parece limpo de explosivos. Foram colocados snippers nos telhados, terraços e janelas dos prédios vizinhos, ouve o ruído do heli que descreve círculos sobre a zona.
E no entanto, o instinto de Patrick diz-lhe que a situação é diferente de tudo o que já viveu até então. Em todas as crises anteriores em que esteve envolvido, ele e a força que comandava eram os caçadores, agora ele tem a sensação de estarem sitiados, aquele aperto no estômago não engana, agora são eles os ratos, e os gatos estão lá fora, ninguém sabe onde...
Vêm ter com ele o capitão Boyd, seu adjunto. Patrick conhece todos os seus homens, sabe dos seus problemas familiares, sabe por exemplo que o pai de Bill Boyd morreu recentemente; precisando de uma intervenção cirúrgica viu-se sem recursos, devido à falência da companhia onde tinha o seu seguro de saúde, arrastada na hecatombe do sistema bancário. Demasiado orgulhoso para pedir ajuda ao filho, este só veio a saber da situação quando já nada podia fazer.
E Patrick conhece muitas outras situações, até mesmo no seu círculo mais próximo. Há poucos dias encontrou um tio da falecida mulher, veterano do Vietname, a trabalhar no MacDonalds, em resultado do colapso do seu fundo de pensões. E não era ele a única pessoa de idade naquele restaurante a atender os pedidos ou a limpar as mesas...
E um tio avô na Irlanda que se suicidou, desesperado por ver as economias de uma vida de trabalho engolidas na falência do banco onde as tinha colocado.
E Patrick pensa que há qualquer coisa de errado em estar ali a proteger os responsáveis pela ruína de milhões de pessoas, mas que continuam, numa sala protegida, o seu trabalho destruidor. Alguma coisa faz click na sua cabeça. Acciona o botão do rádio e fala:
“Atenção a todas as unidades, aqui Condor, senha Fechadura, operação cancelada, repito, operação cancelada. Todas as unidades regressam à base, imediatamente.”
Os diversos grupos de intervenção abandonam rapidamente o edifício, os snippers deixam os edifícios vizinhos, o som do heli é cada vez mais fraco à medida que se afasta. Depois de ver sair todo o pessoal, Patrick sai também com Bill, fingindo não notar o ar surpreso do seu adjunto. Despede-se dele dizendo, “Afasta-te daqui que isto vai certamente aquecer. Fica bem.”
Patrick caminha rapidamente sem olhar para trás. Percorridos quatro ou cinco quarteirões começa a ouvir o som meio abafado de armas automáticas, os tiros devem ser dentro do edifício. Pensa que o seu chefe tinha razão, these guys are damn good!. Patrick continua a andar e a sua presença vai-se tornando indistinta enquanto mergulha mais e mais na cidade anoitecida...

Começa com a capa portuguesa e termina com a capa brasileira (esta notícia)...

A antologia será lançada no dia 25 de Fevereiro, no Fantasporto. 

Aqui fica a lista de autores, e respectivos contos, pela ordem que surgem na antologia (informação retirada do blogue I dream in infrared do editor Rogério Ribeiro - link aí ao lado)


O tempo tudo cura menos velhice e loucura
António de Macedo

A inimaginável materialização de Samira
João Paulo Vaz

O Robot Auris
Beatriz Pacheco Pereira

O Festival
Filipe Homem Fonseca

Virgílio Bentley e o extraterrestre
Ágata Simões

As mãos e as veias
Afonso Cruz

Tsubaki
Bruno Martins Soares

Uma Alforreca no Quintal
António Carloto

Fogo!
João Ventura

O cão
Isabel Cristina Pires

O Mistério dos Uivos
Madalena Santos

Expedição ao Futuro
José Cardoso

Déjà-vu
Luís Roberto Amabile

Acordar o Profeta
João Leal


Manuel Alves

As Moças do Campo
Telmo Marçal

A Besta-fera
Rodrigo Silva

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Dia de eleição

Quando abriram as urnas, lá estavam os mortos...

Mas estavam à espera de quê?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Que sorte de azar!

Já não via o Alfredo desde a Universidade. Fazíamos parte do mesmo grupo, e o Alfredo era o que se chamava um tipo azarado. Um exemplo vivo da lei de Murphy. Se ele planeasse ir fazer um piquenique no campo, era certo e sabido que choveria. Comprava bilhete para um concerto, logo o músico principal adoecia. Punha fato e gravata para ir a uma entrevista e de certeza que ao almoço o molho do bife arranjava maneira de lhe salpicar a camisa. Habituado ao azar, andava sempre de cabeça baixa e de ombros encurvados, como se transportasse às costas o peso do mundo.
Por tudo isto, naquele dia quase não o reconheci. Muito aprumado, de fato Armani, entrou no restaurante onde tínhamos combinado encontrar-nos e veio direito à mesa onde eu estava. Levantei-me, demos um aperto de mão e não me contive que não lhe dissesse:
"Estás com bom aspecto!"
"Não posso dizer que a vida me corra mal..."
"Mas tu eras um tipo cheio de azar..."
"Ainda sou, mas agora ganho dinheiro com isso..."
O empregado trouxe o vinho, deu a provar ao Alfredo, que cheirou, bebeu um pequeno gole e acenou, aprovador. Serviu-nos a ambos. Esperei que se afastasse para perguntar:
"Ganhas dinheiro como?"
"É uma longa história. Já ouviste falar de atractores estranhos?"
"Estudei Física como tu..."
"Bem, e de repulsores?"
"Desses não me lembro..."
"Nem podias, só foram inventados depois de acabarmos o curso. Mas funcionam exactamente ao contrário dos atractores. E há cerca de um ano, um psicólogo, a estudar os factores que fazem com que certas pessoas tenham êxito e outras não, descobriu que alguns indivíduos são atractores e outros repulsores. Uns atraem as ocasiões favoráveis, as boas oportunidades, enquanto outros é o oposto. A generalidade das pessoas é uma mistura de uma coisa e outra, mas há uma pequeníssima percentagem que são atractores e repulsores praticamente puros. E eu sou um repulsor puro."
"E como descobriste isso?"
"O meu terapeuta conhecia o tipo que andava a fazer esta investigação e propôs-me fazer uma bateria de testes e foi assim que descobriram. Agora acontece que estes dois conheciam um terceiro que era gestor de hedge funds, e que pensou que tão bom como ter à mão um atractor era ter um repulsor. Num caso para adoptar as decisões, no outro para seguir as decisões opostas. E foi assim que fui parar à actividade financeira."
Estava fascinado! Levei uma garfada à boca - quase me tinha esquecido da comida à minha frente - enquanto o Alfredo continuava:
"Assim, todos os dias vou trabalhar como se fosse um dos outros, olho para as cotações que deslizam no monitor e dou ordens de compra e venda. Só que, enquanto as dos meus colegas são executadas, as minhas são desviadas para o meu chefe que dá então indicações aos outros operadores para fazerem exactamente o contrário do que eu decidi. O que eu decidi comprar eles vendem, o que eu decidi vender eles compram. E isto funciona 99,87 por cento das vezes!"
Veio a conta e o Alfredo pegou nela, apenas esbocei um leve protesto.
"Deixa estar que eu pago isto. Ainda no mês passado recebi um bónus com um valor muito confortável." E em voz mais baixa, acrescentou: "O lucro da empresa subiu 63 por cento desde que lá comecei a trabalhar..."
Despedimo-nos à porta do restaurante, fiquei a ver o Alfredo afastar-se e a pensar: "Que raio de sorte a do Alfredo em ter o azar que tem!"

Esta estória é dedicada ao Luís E., que me deu a ideia.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

História da ciência que poderia ter sido (I)

Qualquer pessoa medianamente instruída já ouviu a expressão queda dos graves. Se ainda recorda algo do que aprendeu na escola, conseguirá associar essa expressão ao nome de Galileu Galilei. E no entanto, como as coisas seriam diferentes se Parvus Parvonius tivesse prosseguido a sua carreira científica, abruptamente interrompida de forma trágica...
Vizinho e amigo de Galileu, Parvus acompanhou o início dos seus trabalhos experimentais, mas cedo desenvolveu a ideia que, muito mais interessante do que observar a queda dos graves, seria estudar a queda dos agudos. A discussão entre ele e Galileu atingiu o nível dos insultos mútuos e deixaram de se falar.
As primeiras experiências de Parvus com a queda de agulhas e alfinetes trouxeram-lhe pouca informação, pelo que rapidamente passou a ensaios com facas, navalhas, baionetas, lanças, adagas, espadas, setas, punhais, e material semelhante.
Ficou particularmente interessado nos efeitos da queda dos agudos sobre o corpo humano. Ao princípio utilizava corpos roubados no cemitério local, mas receoso das consequências - a profanação de sepulturas era punida com a pena de morte - passou a usar um processo mais expedito. Numa taberna, metia conversa com um cliente solitário, a quem convidava para partilhar um jarro de vinho, e que depois convidava para ir a sua casa, com o pretexto de lhe mostrar desenhos pornográficos, artigo já muito apreciado na época.
Dentro de casa, o convidado era atordoado com uma pancada na cabeça, amordaçado e amarrado a uma mesa, por cima da qual estavam pendurados os objectos agudos, que eram deixados cair, um a um, sobre o corpo da vítima. Destas experiências, Parvus tirava notas meticulosas que foram encontradas, convenientemente arquivadas, no seu scriptorium.
A carreira de investigador de Parvus Parvonius terminou por um destes acidentes em que a vida é fértil. Regressava da Rua da Cutelaria, onde tinha ido adquirir material de laboratório, quando ao cruzar-se com uma patrulha da polícia da cidade, a alça do bornal se rompeu, e o bornal caiu ao chão, espalhando uma colecção de facas capaz de fazer inveja a um talhante. Essa carga transportada levantou suspeitas aos agentes da autoridade, suspeitas que as suas explicações atabalhoadas não dissiparam, pelo que foi intimado a conduzir a patrulha até à sua casa, onde ainda estava amarrado à mesa o corpo que tinha sido objecto da última série de ensaios. A dúzia e meia de cadáveres enterrados no quintal da casa também não contribuiram para a presunção da sua inocência.
Submetido a julgamento sumário, foi condenado à fogueira, executado e as suas cinzas deitadas ao mar.
Foi também a partir daí incrementada a vigilância sobre os cientistas, que nas palavras do inquisidor-mor, "são capazes dos actos mais vis para tentar provar as suas teorias erróneas".

domingo, 28 de agosto de 2011

Notícias do Concílio do Mercado (III)


Em simultâneo com as sessões plenárias, uma comissão de peritos trabalha activamente nas questões terminológicas. Sabendo o Concílio que muitas das grandes controvérsias históricas estão relacionadas com o significado a dar às palavras, foi decidido estabelecer, não só uma lista de palavras a usar, mas também outra lista, não menos importante, das palavras a não usar - o Index Palavrorum.
Nesta segunda lista, uma das primeiras palavras a entrar foi "trabalho", substituída pelos termos "recursos humanos" ou, preferencialmente, "capital humano".
Como exemplo, seguem-se mais algumas palavras colocadas no Index, cada uma seguida da correspondente palavra a usar:

especulador --> investidor
lucro --> justa retribuição
trabalhador --> colaborador
solidariedade --> assistência

Esta tarefa deverá continuar mesmo depois do encerramento do Concílio, pois as forças do Mal estão sempre a produzir novas palavras destinadas a confundir os fieis, e os servidores do Mercado têm de manter-se   vigilantes.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Notícias do Concílio do Mercado (II)


Ao fim da segunda semana de trabalhos, foi lida pelo porta-voz autorizado uma nova declaração, estabelecendo como um dogma de Fé a possibilidade de crescimento contínuo num sistema finito.
Consta que, durante a discussão, foi aventada a possibilidade de declarar heréticos acima de qualquer remissão todos aqueles - em geral com formação nas ciências físicas, mas muitos equipados apenas com o sólido bom-senso - que tivessem alguma vez afirmado a impossibilidade de tal crescimento permanente. Mas acabou por prevalecer a tese mais moderada de que as afirmações respeitantes ao comportamento da divindade Mercado, sendo do âmbito teológico, e consequentemente do domínio da Fé, não são susceptíveis de ser confirmadas ou infirmadas por leigos.
"Ad majorem mercado gloriam", assim concluia a declaração, que como de costume, não teve direito a perguntas.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Notícias do Concílio do Mercado (I)


Terminada a primeira sessão do Concílio, foi a decisão mais importante divulgada numa conferência de imprensa sem direito a perguntas.
O Concílio decretou a infalibilidade das Agências de Rating, únicos intermediários reconhecidos entre a divindade do Mercado e o "Homus economicus".
E mais decretou que quem, por qualquer meio, exprima dúvidas sobre este dogma agora formulado, verá imediatamente o seu rating passado à categoria "lixo", ficando impedido de aceder no futuro à presença da Divindade.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Do sótão da memória...

Há muitos anos, era o (meu) mundo mais novo, um colega e amigo contou-me uma história que se tinha passado com a filhota dele, no infantário que frequentava.
Queixava-se ela que um coleguinha lhe batia. E ele, meio distraído durante a queixa, atirou-lhe: "Olha, bate-lhe tu também!".
A filha replicou: "Não, que ele é mais grande, e depois bate-me mais...". Reflectiu um pouco, e acrescentou: "Já sei, vou bater ao Zezinho, que é mais pequeno do que eu!".
O meu amigo ficou subitamente atento, e lá teve que explicar à filha que não era dessa forma que as coisas se passavam, porque o Zezinho não tinha culpa nenhuma que o outro menino lhe batesse, e por aí fora...

E por que será que ao pensar sobre o que vai acontecer ao meu subsídio de Natal me veio à memória esta história com mais de 30 anos? Ele há coisas...

domingo, 10 de julho de 2011

A taxa de desemprego

Um comunicado do IEFP esclarece que o súbito agravamento da taxa de desemprego é devido à cessação de actividade de um elevado número de pessoas cujo "core business" consistia em dizer mal do ex-primeiro ministro José Sócrates.
Muitos destes recém-desempregados têm feito fila à porta dos Centros de Emprego, mas o IEFP comunica que ainda não abriram vagas para, de forma massiva, dizer mal do novo primeiro ministro Pedro Passos Coelho. Esses postos de trabalho serão criados logo que termine o "estado de graça" e nessa altura o Instituto divulgará esse facto através de Edital.
Foram recentemente criados alguns empregos para dizer mal das agências de rating. Os candidatos tiveram que frequentar um curso de formação, mas as poucas vagas foram rapidamente preenchidas por políticos, comentadores encartados, jornalistas e outros profissionais do mesmo tipo. Consta que o curso de formação foi muito exigente (rotações de 180º são sempre difíceis de interiorizar), mas como pode ser verificado na generalidade dos meios de comunicação social, todos os alunos passaram com excelente aproveitamento.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

"Livros" + "100"

A revista Os Meus Livros, para comemorar o seu número 100, organizou um concurso de contos até 100 palavras, que incluissem obrigatoriamente as palavras livros e 100.
Podem ler o conto vencedor aqui, no blogue da revista.

E é assim que vou receber o último livro do Afonso Cruz ...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

À atenção do ministro Nuno Crato


Exmo senhor ministro
É um facto conhecido que os docentes do ensino superior se queixam com frequência do tempo gasto na avaliação dos alunos: trabalhos, seminários, apresentações, testes, exames (1ª época, 2ª época, época especial)...
Os recentes acontecimentos na cena político/económica envolvendo a queda do rating da República deram-me uma ideia que poderá solucionar aquele problema. Em vez de classificar os trabalhos e exames, os professores emitirão a sua "opinião" sobre o aluno, qualquer coisa nestes termos: "independentemente do que aqui está", e poderão apontar com um dedo displicente para a pilha de trabalhos e testes produzidos pelo aluno, "tenho um feeling que você não vai conseguir passar de ano, e portanto leva um 9. E tome nota que fica com um outlook negativo, portanto fique à espera de um 6 ou 7 para a próxima."
Veja-se o tempo poupado ao sobrecarregado dia de trabalho de um docente!
E a cereja no topo do bolo é que os alunos terão de pagar para os docentes emitirem essa "opinião" baseada nesse feeling, resolvendo assim em simultâneo dois problemas crónicos: a sobrecarga dos professores e o subfinanciamento das instituições.
Naturalmente que, vivendo nós neste financeirismo totalitarista em que tudo tem um preço, tenho a expectativa de ser recompensado por esta ideia brilhante, por exemplo na forma de uma percentagem (a negociar) dos ganhos financeiros das instituições que adoptarem esta nova metodologia, da qual já submeti o respectivo pedido de patente.

Com as mais cordiais saudações académicas

terça-feira, 24 de maio de 2011

PALAVRAS

Na praça pública, o homem levantou-se e disse, enquanto ia mostrando um a um os dedos da mão direita:

“Destino
Presença
Catástrofe
Futuro
Passado”

“Está louco!”, pensaram vários.
“Está possuído pelo demónio”, disse um.
“É um profeta”, disse outro.
“A palavra mais importante é Destino”, gritou um terceiro.
“Não é, não, é Futuro”, berrou outro.
A confusão generalizou-se, com todos a gritar ao mesmo tempo, defendendo os seus pontos de vista.
E foi desta forma que nasceram os Destinólicos, os Presencistas, os Catastrofistas, os Futurólicos e os Passadistas, que desde então se têm digladiado continuamente, como rezam as crónicas da cidade.
Quanto ao homem na origem de tudo isto, cujo nome a história não registou, depois de ter falado, afastou-se calmamente, e nessa tarde, contemplando o sol poente, já não se lembrava do que tinha dito de manhã.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Reader's block

Tiago ajeita os auscultadores que bombam Heavy Metal e olha de relance a televisão no canto do quarto que, com o som cortado, despeja imagens da SIC radical. À sua frente, o monitor do computador mostra a sua página do Facebook, e a pequena janela do Messenger, no canto inferior direito, altera-se sempre que chega uma nova mensagem. O telemóvel pisca, Tiago olha, vê quem é e rejeita a chamada. Suspira, pega de novo no livro e lê pela terceira vez, a meia voz:
"Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa."
O Facebook avisa-o de uma mensagem nova. Abre, lê, sorri, responde. Aproveita para expandir a janela do Messenger e responder às 3 ou 4 mensagens que chegaram nos últimos minutos.
A porta abre-se e a mãe entra no quarto. Tiago tira os auscultadores para poder ouvi-la.
"Não me ouviste bater à porta? Tens o som muito alto. Qualquer dia estás surdo. Está aqui o Artur."
O amigo entra no quarto. A mãe sai.
"O que estás a fazer, pá?"
"A ler, não vês? Tenho teste daqui a 3 dias e vai ser sobre este livro."
"Como se chama? Aparição? Vergílio Ferreira? Quem é o gajo? Ainda se te mandassem ler um daqueles de vampiros..."
"A setôra disse que este Ferreira foi um setôr no Camões. Olha, é uma seca! Já peguei nele três vezes e não passei das primeiras linhas. Queres ouvir?"
Tiago abre o livro e começa a ler:
"Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa."
Artur faz uma careta como se tivesse bebido uma colher de xarope amargo.
"Chiça, meu, e tu estás a pensar em ler este calhamaço com... deixa ver... 250 páginas? Arranja mas é um resumo... Eu falo com o meu primo que entrou este ano para a faculdade, para ver se ele tem ou se sabe quem tem..."
"E tu o que andas a fazer?"
"Vinha desafiar-te para sair. As garinas estão no Colombo, vamos até lá!"
Tiago hesita, pega de novo no livro, larga-o em cima da mesa, levanta-se.
"Bora lá. Que se lixe o livro! De qualquer maneira não devia conseguir passar da primeira página..."

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Era uma espada

Era uma espada.
E era a mão que empunhava a espada
e era o braço que movia a mão
e era o corpo que comandava o braço
e era o coração que impulsionava o corpo.

Uma flecha perdida encontrou o coração
que parou o corpo
que largou o braço
que soltou a mão
que abandonou a espada

que, livre da mão que a segurava,
passou a ser apenas um entre muitos objectos
enferrujando no campo de batalha.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

5 palavras - 5

Em resposta a um desafio do José Mário Silva no Bibliotecário de Babel, aqui ficam cinco "Tragédias em cinco palavras", que também coloquei lá na caixa de comentários. Em tempo de crise, poupar (também) nas palavras é uma virtude...

Nunca pensei que fosse fundo!

Acho que não está carregada…

A ponte é totalmente segura.

Distingo perfeitamente os cogumelos venenosos!

Isso é comigo, oh palhaço?

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Dom Fuas está doente


Dom Fuas de Calatrava
jaz em seu leito de enfermo.
E o povo, que penava,
entre dentes murmurava
"Nunca mais morre o estafermo!"

À volta se afadigavam
fidalgos e serviçais,
aios, pagens, camareiros,
e um grupo de carpideiras
soltando profundos ais.

"Está em estado estacionário",
anunciou o intendente.
"Trazei lá o escapulário,
mais o padre e o breviário,
pra deixar de estar doente."

Aos pés da cama conversam
três físicos, dois barbeiros,
um teólogo, um astrólogo,
o homem das sanguessugas
e um par de curandeiros.

Há um que sugere sangrá-lo.
Outro diz que é dos humores.
Este que foi mau olhado.
Mas não chegam a acordo
nesta roda de doutores.

E Dom Fuas, num rompante,
soerguendo-se na cama
diz com voz tonitruante:
"Mandai embora os doutores,
ficarei bom num instante!"

Escrito há uns meses para ser uma Cantiga de Escárnio e Mal-Dizer... o que talvez um dia venha a ser.

domingo, 23 de janeiro de 2011

O mercado rafeiro

Fiquei de boca aberta quando encontrei o Joaquim com um mercado pela trela. Um bocado rafeiro, mas na mesma um mercado...
"Como arranjaste esse?"
"Naquela rua junto à Bolsa, topas, dei com ele a vaguear. Acenei-lhe com um juro de 7 e meio por cento e ele veio logo a correr. Eu já tinha uma coleira preparada, e foi rápido. Mas só ando com ele na rua açaimado..."
"E o que lhe dás a comer?"
"Olha, quando o apanhei estava gordo, devia ter andado a comer dívida grega a 12 e meio por cento. Agora dou-lhe juros a 1 ou 2 por cento. Rosna um bocado mas vai comendo..."
"Isto está perigoso", disse eu. "Um tipo arrisca-se a andar na rua e saltar-lhe um mercado vadio às canelas da dívida."
"Este não me dá grandes problemas. Se ladra ou se rosna demais leva um puxão na trela e acalma logo. Tenho é que andar sempre preparado...", e tirou do bolso um saco de plástico enrolado que me mostrou. "É que esta raça em qualquer lado faz merda!"

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O Mundo está a tornar-se um sítio perigoso!

Quando António entrou no bar e chegou junto dos outros, já sentados na mesa do costume, ainda ia ofegante:
"Fui atacado por um mercado!"
"Já não se pode andar na rua, coño", exclamou Pablo. "E conseguiste escapar?"
"Ameacei-o com a China, e ficou hesitante. Safei-me com um juro de 3,75% a médio prazo."
"Não foi mau, dadas as circunstâncias", concedeu Pablo. "Mas ouve só o que aconteceu aoKonstantinos."
O grego deu um gole na cerveja e começou a contar:
"Naquela zona mais escura da rua saiu-me ao caminho uma agência de rating. Queria baixar-me o rating para BB+, vejam só."
"E tu?"
"Apontei-lhe umas Eurobonds e ela (ou ele, não cheguei a perceber...) vacilou..."
"Mas as Eurobonds ainda não existem..."
"Pois não, mas o tipo (ou a tipa) estava ganzado, devia ter acabado de snifar coca, e no escuro um molho de contas por pagar passa perfeitamente por Eurobonds..."
Gargalhada geral em volta da mesa.
"Isto está a ficar perigoso", lamentou-se Patrick, o irlandês. "Os piratas já atacam em qualquer sítio. E os nossos chefes não fazem nada!"
"Eles estão feitos com os piratas, meu! Se não, por que é que deixam abertos os paraísos fiscais onde os tipos podem ir descansar entre os assaltos? Mercados, agências, é tudo a mesma mafia!"
O desalento espalhou-se à volta da mesa.
E em contraste com o ambiente acolhedor do bar, lá fora, na noite, sentia-se a presença dos predadores, vagueando, à espera...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Perder a fé é muito triste...

Eleutério era um crente convicto. Acreditava no deus Mercado e seguia religiosamente os conselhos que lhe eram dados pelo seu banco, mediador entre ele próprio e a divindade. Mesmo quando as aplicações que o banco lhe aconselhava davam prejuizo, Eleutério ainda agradecia ao Mercado que o prejuizo não tivesse sido maior.
Alguns dos seus amigos e colegas eram clientes de outros bancos. A esses, Eleutério tentava por vezes aliciar para aderirem ao seu, mas face ao insucesso do seu proselitismo, consolava-se com a ideia de que, ao fim e ao cabo, todos adoravam o mesmo deus.
A fé de Eleutério começou a vacilar quando tomou consciência de que a sua antiga religião, tradicional e confiável, monoteísta, tinha dado lugar a uma outra, instável, volúvel, imprevisível, politeísta. Já não era "o Mercado", mas sim "os mercados".
E quando descobriu que os mercados pressionavam, exploravam, podiam levar empresas e países à bancarrota, provocando a ruína de milhões de pessoas, Eleutério perdeu a fé por completo.
No dia seguinte a essa epifania de sinal menos, Eleutério dirigiu-se ao banco, e como primeira atitude do seu recentemente adquirido estatuto de ateísmo militante, levantou até ao último cêntimo todo o dinheiro que tinha na conta, levou-o para casa e escondeu-o debaixo do colchão.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Prémio Dardos


A Luísa do blogue À ESQUINA DA TECLA, que já figurava aqui na lista ao lado, atribuiu-me o Prémio Dardos, o que muito agradeço.

Na sua definição,

"O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web."

Cabe-me agora nomear 10 blogues aos quais reconheço as características que o prémio pretende distinguir. Haveria mais, mas esse é o problema de todas as selecções. Uns actualizados com mais frequência, outros nem tanto, esta lista documenta também a (demasiada?) dispersão dos meus interesses e afectos.

E sem mais justificações, por ordem desordenada, aqui vão:


Estrada de Santiago

Moura Aveirense

Rua dos Dias que Voam

Que Treta!

De Rerum Natura

Pó dos livros

Montag By their covers

Efeitos Secundários

A namorada de Wittgenstein

domingo, 31 de outubro de 2010

Magia no hemiciclo

Começou com aquele deputado que não sabia o que era a Ongoing e alguns meses depois estava a renunciar ao mandato para ingressar nos quadros dessa mesma empresa.
Depois foi o outro que disse num intervalo entre duas sessões do plenário: "Electricidade sei o que é; é aquilo que aparece quando a gente carrega num interruptor. Mas isso da Iberdrola o que vem a ser?"
Semanas mais tarde, era nomeado Director da eléctrica espanhola.
Aconteceu também com um terceiro que, a meio do almoço com uns colegas no Café de São Bento, exclamou: "Cimpor? O que vem a ser isso? Cimento? Não é aquele material que serve para fazer casas?"
No mês seguinte, pedia suspensão do mandato e ingressava no conselho de administração da cimenteira.
Enquanto a maior parte dos deputados cogitava sobre a empresa em relação à qual deveriam demonstrar publicamente a mais profunda ignorância, aconteceu o impensável. Aquele representante da Nação que se sentava sempre na última fila - ninguém sabia ao certo a que partido pertencia, porque nunca tinha aberto a boca desde a tomada de posse - foi subitamente despertado do seu torpor por uma frase dita em tom mais agudo pelo colega no uso da palavra, e exclamou, estremunhado:
"Portugal? O que é isso?"
Teme-se que venha a ser o próximo Presidente da República...

sábado, 25 de setembro de 2010

Coisas do baú (2)

Desta vez a culpa é do Luís Filipe Silva, que no seu site/blogue "ressuscitou" um poema com temática FC que escreveu há anos para a antologia Linhas Cruzadas, editada pela PT Telecom.
Ao ler o poema, lembrei-me de um outro com ambiente semelhante, escrito há algumas décadas e publicado então no Diário de Lisboa Juvenil.
Estávamos (e estaríamos!) ainda em plena guerra fria. Com o entusiasmo da adolescência, dei ao poema o duplo título "Pesadelo" ou "Poema para o desarmamento". Para minha surpresa, ou por opção do coordenador da página, ou por auto-censura ou por censura "da outra", foi dado à luz com o título que aqui se mostra... o que me deixou na mesma satisfeito!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A consulta

O consultório do psiquiatra era acolhedor. Paredes forradas a madeira, a luz exterior coada por cortinados nas janelas, um sofá confortável onde estava sentado um paciente, numa pose relaxada, enquanto o médico ocupava uma cadeira à sua frente.
"A sensação que tenho, senhor doutor, é que existem dois mundos no mundo."
"Pode ser mais explícito?"
"Há um mundo superficial, aquele onde as pessoas se comportam de forma civilizada, que segue regras, que cumpre as leis, e há um outro mundo subterrâneo, escuro, violento, onde quem tem poder exerce-o de forma arbitrária, onde impera a lei do mais forte, onde as actividades criminosas não encontram quaisquer barreiras... E este mundo subterrâneo controla o outro... Estou angustiado, doutor..."
"O senhor está a sofrer de hiper-reacção aos media. Não veja tanta televisão, está provado que os noticiários transmitem violência numa proporção superior à violência real que ocorre na sociedade. Vou prescrever-lhe um calmante ligeiro. Faça por se distrair, leia um bom livro, e gostaria de voltar a vê-lo dentro de uma semana."
Paciente e médico despedem-se com um aperto de mão. O paciente sai.
O médico fica uns segundos pensativo, senta-se à secretária e liga o computador, com o qual trabalha durante dois ou três minutos. Em seguida marca um número no telemóvel:
"Mais um que começou a suspeitar. Coloquei a ficha dele na lista. Podem ir buscá-lo a casa, é mais discreto. Vou já assinar a autorização de internamento."
Pega na folha de papel que acabou de sair da impressora, faz uma rubrica no canto inferior direito e coloca a folha no tabuleiro dos assuntos despachados. Suspira e prime o botão do intercomunicador:
"Isabel, pode mandar entrar o próximo doente."

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Coisas do baú (1)

Alguns textos com idades entre os vinte e os trinta anos, unicamente existentes em suporte papel, com tão má qualidade que nem o software OCR consegue "apanhá-los", o que implica introduzi-los penosamente palavra a palavra. Editei o mínimo, apenas gralhas, porque a ideia era mesmo mostrar coisas antigas. O que segue é um deles...

Linhas convergentes
"Tem toda a razão, minha amiga", disse o Conselheiro, pousando a chávena de chá na mesinha com incrustações de marfim. "Tudo está muito mudado actualmente. E infelizmente para pior." Isto dito, recostou-se mais confortavelmente na poltrona forrada de veludo e tirando um cigarro da cigarreira de prata, acendeu-o com meticuloso cuidado.
A sua interlocutora, os dedos brincando distraidamente com as pérolas do colar, continuou:
"Veja a política, por exemplo. O meu amigo recorda-se certamente do meu falecido tio. Ainda ontem, ao folhear o álbum de família, tornei a ver o seu retrato. Um aprumo! Uma personalidade! Pois ele era embaixador na Basluvónia na altura em que aquele primeiro-ministro (esqueci-me do nome) começou a tomar umas medidas, enfim, pouco próprias, nacionalizações, coisas desse género."
"E o exército resolveu intervir. E uma noite, havia um baile no Palácio Real (quem nos contou isto foi a tia, porque o tio era homem de poucas falas, como sabe) penso que era uma recepção ao corpo diplomático, e no meio de uma valsa, a orquestra parou subitamente de tocar. O general Zalovic, em uniforme de gala, entrou no salão, aguardou que se fizesse silêncio e dirigiu-se aos presentes: Excelências, (contava a tia que se poderia ouvir um alfinete a cair no chão) verificando que a política seguida por este país estava a torná-lo um foco de instabilidade nas relações internacionais, uma Junta Militar, a que presido, decidiu tomar nas suas mãos os destinos da nossa Pátria. O governo foi deposto e o parlamento suspenso. A Junta garante a protecção das pessoas e bens dos cidadãos estrangeiros. A legislação recentemente promulgada será reexaminada à luz dos reais interesses da Basluvónia. Disse isto, fez continência, deu meia-volta e retirou-se. No dia seguinte a cavalaria saiu à rua para dominar alguns pequenos tumultos, foram presos uns quantos agitadores e o país voltou à normalidade. Foi naturalmente imposta a censura à imprensa, o que fez respirar de alívio as pessoas de bem, cujos nomes eram contantemente enxovalhados nas folhas radicais.
Era assim a política nesse tempo. Era tacto, diplomacia, savoir-faire... não era nada desta confusão de agora! Desvios de aviões! Raptos! Sequestros!"
O Conselheiro sacudiu um imaginário grão de poeira do vinco das calças e abanou a cabeça enfaticamente:
"Plenamente de acordo. De resto, ainda há bem poucos dias, em conversa com o meu grande amigo (...)"

*****

"E tens a certeza que o António foi apanhado?"
"Absoluta. É a única coisa que o faria faltar ao encontro. Foi por isso que accionei o plano de emergência. Nunca se sabe quanto tempo se resiste lá dentro sem falar."
Dois homens num banco de autocarro. Um lê o jornal, o outro olha pela janela. A conversa é murmurada, apenas o necessário para se sobrepor ao ruído de fundo do trânsito à hora de ponta.
O autocarro pára. Eles descem. Na rua, um terceiro homem espera-os.
"Foram buscar o Roberto ao jornal! E estão a passar o nosso bairro a pente fino."
"Isso não nos deixa qualquer hipótese de escolha. Encontramo-nos no sítio combinado dentro de meia hora. Tenham cuidado."
Os três homens desaparecem em direcções diferentes. Anoitece.

*****

(...)
"Mas isso que constou a respeito dele seria verdade? Que eu nunca dou ouvidos a boatos, mas..."
"Calúnias, minha amiga, calúnias! Uma pessoa que chega onde ele chegou cria naturalmente inimigos. Invejas..."
"Note que eu sempre o considerei uma pessoa de sólida formação moral. Basta ver a forma como ele educa os filhos..."
O pêndulo do relógio brilha com o reflexo do fogo que arde na lareira. O Conselheiro pensa numa desculpa para se ir embora. (Esta velha quando começa a falar nunca mais se cala! Se não precisasse da influência dela para esta operação financeira...)
"Olhe, vou-lhe contar um caso que chegou ao meu conhecimento e que dá uma ideia do seu carácter. O caseiro de uma das suas propriedades..."

*****

Luís acende um cigarro e aspira profundamente o fumo.
"O.K., a casa é esta. A dona é velha, rica, família no governo e na banca e vive sozinha com uma criada. Mas hoje parece que tem visitas, a julgar pelo carro com motorista estacionado em frente da porta. Melhor!"
É noite completa. No bairro residencial quase o silêncio, como se a cidade fosse muito longe.
Luís a Pedro:
"Portanto tocas à porta da frente e tens que entreter a criada pelo menos um minuto, enquanto nós entramos por uma janela das traseiras. Depois aguardas, e quando vires a luz do primeiro andar apagar e acender três vezes, cavas e telefonas aos jornais. Sabes o resto, não sabes?"
Pedro fz que sim com a cabeça. Troca apertos de mão com Luís e Manuel e estes desaparecem ao longo do muro baixo do jardim que rodeia a vivenda.
Os dois homens estão agora junto de uma das janelas que dão para o jardim, ao nível do solo. Ouvem, amortecido, o som da campainha da porta. Aguardam alguns instantes e Manuel começa a trabalhar na janela, de modelo antigo, que cede ao fim de poucos segundos. Entram na casa. A luz da lnterna eléctrica revela móveis antigos, um baú, um armário. A porta!
Corredor. Alguns degraus até ao nível da rua. Ao começarem a subir a escada alcatifada que conduz ao piso superior, ouvem através de uma porta a voz da criada que fala com Pedro.
Reposteiros. Óleos nas paredes. Uma armadura. Porcelanas.
Luís e Manuel caminham ao longo do corredor. Param junto de uma porta. Luís espreita pelo buraco da fechadura. Endireita-se. Tira do bolso do casaco a pistola automática e destrava-a. Manuel faz o mesmo. A mão esquerda de Luís começa a rodar lentamente o manípulo do trinco. Empurra a porta que se abre sem ruído. Dentro da sala, uma voz masculina:
"(...) uma ideia do seu carácter. O caseiro de uma das suas propriedades..."

sábado, 14 de agosto de 2010

Gregor Samsa (6)

A 3ª Guerra Mundial
Gregor Samsa tinha lido que após uma guerra nuclear, os únicos sobreviventes seriam as baratas.
A cimeira EUA – URSS em Praga seria uma boa altura para começar. Em grande, com o assassinato simultâneo dos dois líderes...
O seu exército de pequenas carapaças negras já estava bem treinado...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Gregor Samsa (5)

Teoria da evolução: adaptação ao meio
A alimentação foi inicialmente um problema, mas Gregor Samsa encontrou a solução de forma algo inesperada.
Quando aquele vizinho o encontrou na escada e começou a gritar histericamente, Gregor, em legítima defesa, atacou-o à dentada.
Os humanos podem ser muito irritantes, mas como fonte de proteínas não estão mal…

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Gregor Samsa (4)

Há que tentar sempre dar a volta por cima…
Uma vez passado o choque inicial, Gregor Samsa conformou-se e tentou ver o lado positivo da situação: É muito melhor ser uma barata gigante no reino das baratas do que um obscuro caixeiro-viajante, levando uma vida miserável no meio dos humanos…

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Gregor Samsa (3)

Sonhos…
A barata despertou do pesadelo com uma sensação de alívio…
Tinha sonhado que era um homem, um daqueles monstros que tentam pisá-la sempre que a encontram, atarefada nas suas andanças diárias. Lembrava-se que o monstro se chamava Gregor Samsa, e que estava angustiado porque pensava ser uma barata…

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Gregor Samsa (2)

Há situações em que ser pequeno pode ajudar...
Já transformado em barata, Gregor Samsa caiu no mesmo buraco onde Alice tinha caído noutra história.
Comeu da metade do cogumelo que fazia diminuir de tamanho e ficou realmente minúsculo…
A única consolação é que assim escapará mais facilmente às fúrias da Rainha de Copas…

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Gregor Samsa (1)

No mês passado, Sergio Vel Hartman lançou um pedido de textos com o máximo de 49 palavras, tendo como tema Gregor Samsa. Arranjei 5 (3+ 2) que lhe enviei e que ele teve a gentileza de traduzir para espanhol. Essas versões traduzidas apenas surgirão à luz quando o projecto em que se inserem aparecer. Mas os originais irão ser aqui divulgados, one by one
Vai hoje o primeiro.

O uno e o múltiplo
Gregor Samsa leu uma notícia que o intrigou sobre um Gregor Samsa que se tinha transformado numa barata.
“Curiosa coincidência”, pensou, e começou a sentir uma forte comichão nas costas, nas articulações, em todo o corpo…
A essa hora, um outro Gregor Samsa lia uma notícia…

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Uma hipótese que merece ser testada

Surpreende-me que entre a avalanche de comentários que têm dissecado o despacho do Freeport, nenhum comentador tenha sugerido a existência de efeitos relativísticos na percepção da passagem do tempo pelos senhores procuradores.
O teste desta hipótese envolveria meter os sujeitos da experiência num foguetão que seria acelerado até uma velocidade próxima da da luz e depois desacelerado, e quando saíssem do foguetão perguntar-lhes a data e a hora. Se para eles tivessem passado meia dúzia de horas enquanto na Terra tivessem decorrido, digamos, 6 anos, a hipótese estaria confirmada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Notícias do futuro (1)

Obituário

Faleceu ontem, vítima de doença prolongada, o senhor Eleutério Silva, que era o único português vivo a saber de cor a tabuada da multiplicação até ao 9 X 9.
Por proposta da Fundação dos Amigos da Matemática, o Presidente da República irá atribuir a Eleutério Silva, a título póstumo, a medalha de mérito da Ordem da Instrução Pública.
O funeral realiza-se esta tarde para o Talhão dos Cientistas do cemitério do Alto de S. João. Às 18 horas, em todos os reality shows em exibição em todos os canais de televisão será observado um minuto de silêncio.
À família enlutada, a TêVêPub apresenta as mais sentidas condolências.

domingo, 1 de agosto de 2010

A Paradoxical Song

Numa vida paralela, participei durante 4 anos num projecto de investigação europeu intitulado Fire Paradox, sobre os múltiplos aspectos envolvidos no fogo florestal.
O projecto terminou em Fevereiro passado, e a reunião de encerramento teve lugar em Friburgo. No regresso, o atraso num voo de ligação, com as correspondentes horas para queimar no aeroporto, fizeram nascer o seguinte poema, talves porque ainda tinha nos ouvidos um fabuloso concerto de China Moses, a que assistimos numa das noites que passámos naquela cidade (estas reuniões também têm um lado social, queriam o quê?).
E assim, aqui fica a minha contribuição para a Silly Season em que já estamos mergulhados...


The Post-Paradox Blues

I was a Fire Paradox member
‘cause fire is very handsome
Then the end of February arised
And somethin’ strange come

It was nice to meet everybody
Walking, talking, ‘earing and show
Even go on the train uphill
To ‘ave a look at the beautiful snow

But this morning I feel sad
And why? I not ‘ave any clues
And the God of Fire came and said
Ma son, you’re feeling the Post-Paradox Blues…

The Post-Paradox Blues… Oh yeah…


Lirics by João Ventura (Feb 28, 2010)
Music yet to be composed…

sábado, 31 de julho de 2010

31

Seria aqui apropriado cantar o "Fado do 31", se eu gostasse dele, o que felizmente não acontece.
Assim, só me resta agradecer à dezena meia dúzia dois ou três leitores fiéis que acompanharam esta sequência. Entramos agora em dormência estival, o que significa uma periodicidade menos diária...
E ainda bem que os meses não são mais longos!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

30

É a soma dos primeiros quatro quadrados (1 + 4 + 9 + 16 = 30).
Tem como divisores os números 1, 2, 3, 5, 6, 10, 15 e 30.
Segundo Mateus 26:15, 30 moedas foi o pagamento a Judas por trair Jesus.
No livro de Kafka "O Processo", o personagem principal é preso na manhã do dia do seu trigésimo aniversário, por um crime não especificado, que nunca chega a descobrir qual seja. Deste livro nasceu o termo "kafkiano"; não são muitos os livros que se possam orgulhar de ter dado origem a adjectivos.
Finalmente, 30 é o último dia de alguns meses. Outros, como o actual, na promoção de lançamento do calendário gregoriano conseguiram abichar um dia a mais, e por isso esta saga só termina amanhã...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

29

Na distribuição final, Fevereiro acabou por receber mais um dia, e ficar com 29... mas só de 4 em 4 anos!
É o décimo número primo.
É a soma de três quadrados consecutivos - os quadrados de 2, de 3 e de 4 ( 2 X 2 + 3 X 3 + 4 X 4 = 29 ).

quarta-feira, 28 de julho de 2010

28

O mês lunar tem aproximadamente 28 dias.
Um jogo de dominó tem 28 peças.
O mês de Fevereiro deve ter feito alguma a quem distribuiu os dias pelos meses, porque só ficou com 28 dias (esta informação não é totalmente exacta, mas será corrigida amanhã...)

terça-feira, 27 de julho de 2010

27

O planeta Urano tem 27 luas (há planetas que são uns gulosos...).
Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756 e escreveu 27 concertos para piano e orquestra.
Muita gente importante da música recente morreu com 27 anos. Uma lista na wikipedia inclui Robert Johnson, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones, Jim Morrison, Ron "Pigpen" McKernan, Pete Ham, Richey Edwards, e Kurt Cobain.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

26

Está encurralado entre um quadrado ( 25 = 5 X 5 ) e um cubo ( 27 = 3 X 3 X 3 ), o que o deixa por vezes um pouco desconfortável...
Num baralho de cartas normal, há 26 cartas vermelhas e 26 cartas pretas.

domingo, 25 de julho de 2010

25

Um dos mais notáveis é o de Abril, uma data que muitos tentam fazer esquecer e outros insistem em lembrar.
E só quem já esqueceu (ou não viveu) o "antes" pode vir dizer que o "depois" é pior que o "antes"!

sábado, 24 de julho de 2010

24

É o factorial de 4 (4! = 1 X 2 X 3 X 4 = 24)
É o número atómico do crómio (Não confundir com "cromo", que também pode ser um "grande número"...)
É o número de horas num dia (Exortação ao trabalho: "Se pensas que o dia só tem 24 horas, lembra-te que ainda há as noites!")

sexta-feira, 23 de julho de 2010

23

Informações encontradas na web sobre o número 23. Não sei como consegui viver até agora na ignorância destes factos...
Júlio César foi apunhalado 23 vezes. Obviamente os assassinos não eram profissionais muito competentes...
Há 23 línguas oficiais na União Europeia. Alguém mencionou a Torre de Babel?
Shakespeare nasceu a 23 de Abril de 1564 e morreu a 23 de Abril de 1616. Alguém devia escrever uma peça de teatro sobre tão importante coincidência...
Os EUA realizaram 23 explosões nucleares no atol de Bikini. Como 23 tinha resultado com César, acharam que com 23 bombas o atol ficaria morto e bem morto...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

No Brasil

O meu conto A Pedra, aqui referido, publicado inicialmente no Storm Magazine, foi agora republicado no site Contos Fantásticos. Agradeço ao Afonso Pereira, administrador do CF.

22

Uma das aplicações mais literárias deste número é a novela Catch-22, de Joseph Heller, publicada em 1961. O termo "catch-22" entrou na língua inglesa para designar situações semelhantes à do protagonista do livro.
Num outro registo, o Titanic viajava à velocidade de 22 nós quando chocou com um iceberg. Se a velocidade fosse 21 ou 23 nós, o curso dos acontecimentos teria sido diferente?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

21

É a soma dos primeiros seis números naturais (1+2+3+4+5+6=21).
Em 1907, MacDougall pesou seis doentes que morriam de tuberculose, antes e depois da morte. Da média das diferenças de peso registadas inferiu que a alma humana pesava 21 gramas.
21 anos já identificou a passagem para a maioridade, que depois diminuiu para 18, excepto nas juventudes partidárias onde se é jovem quase até à idade da reforma.

terça-feira, 20 de julho de 2010

20

Reuniram há alguns dias mais uma vez os G20 que acharam que isso de taxar os bancos não era oportuno porque, coitados, eles (os bancos) não tiveram nada a ver com a crise em que estamos mergulhados...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

19

Em Romano escreve-se XIX, em binário 10011 e em hexadecimal 13. Ah, e é primo.
Não é VIP, não aparece nas revistas sociais, e não há muito mais que se possa dizer sobre este número pouco notável...

domingo, 18 de julho de 2010

18

Além do zero, é o único número igual ao dobro da soma dos algarismos que o compõem.
Numa escala de 0 a 20, dezoito já é uma boa nota, embora os dois números que se seguem sejam naturalmente melhores...

sábado, 17 de julho de 2010

17

É o número atómico do cloro, o número de sílabas num haiku, e a idade com que passei a entrar no cinema e poder ver qualquer filme. Já foi há muito tempo, mas ainda recordo uma vaga sensação de orgulho, face aos amigos que ainda só tinham desasseis anos...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

16

Quarta potência de dois. Base do sistema hexadecimal de numeração, usado extensivamente em informática.
Número muito usado em sistemas tradicionais de pesagem, porque é mais fácil dividir um material a granel em desasseis partes iguais por sucessivas divisões ao meio do que em dez partes.
O que a gente aprende na Wikipédia!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O leilão

Os livros sabiam que aquele que com amor os reunira tinha morrido.
Sabiam também que os herdeiros não gostavam de livros. Apenas estavam interessados na receita do leilão.
Durante várias noites, na velha biblioteca, os livros discutiram o que fazer. Os velhos tratados filosóficos eram os mais palavrosos, mas todos eles eram pacientes, os mais antigos eram ouvidos com atenção, tinham ganho sabedoria de muitos leitores.
Lentamente foi emergindo uma decisão. Eles gostavam de estar juntos, e a perspectiva de serem separados em lotes e dispersos era impensável. E quando “Aforismos para a Sabedoria da Vida” de Schopenhauer propôs o suicídio colectivo, o silêncio exprimiu o acordo unânime.

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Antes do leilão, quando os licitantes começaram a examinar os livros, ouviram-se vozes de espanto: os livros tinham todas as páginas em branco!
Se os livros possuem almas imortais, como alguns defendem, estas deviam estar bem divertidas…


Este foi o outro conto enviado ao mesmo concurso, que também ficou entre os seleccionados.

A crise no meu bairro

Xico Melenas, nado e criado no bairro, era a agência de rating local, informando o Joaquim da mercearia Pérola da Travessa e o Antunes da leitaria Alvorada sobre a capacidade de endividamento dos vizinhos.
A crise rebentou naquela manhã em que o Zé Grande entrou na leitaria e pediu um bagaço.
“Não te posso fiar mais”, disse o Antunes.
“E por quê?”
“A tua notação baixou de AA+ para BB-.”
Zé Grande largou um palavrão, virou costas e saiu desembestado.
Coisas do destino: à saída da leitaria quase choca com o Xico. Sem aviso, com a raiva acumulada da ressaca, deu-lhe um murro que o deitou ao chão, agarrado ao nariz que sangrava. E avisou-o:
“Se tornas a baixar-me a notação, levas dois!”
Agora o Xico lamenta-se a quem o quer ouvir que um bairro tão atrasado ainda não está preparado para o capitalismo moderno.


A presente fábula ficou entre os 10 seleccionados (para além dos 2 premiados)  do Concurso de mini-contos (150 palavras) IST Tagus Park, realizado com a colaboração da Simetria. Qualquer sugestão de transposição para a realidade "real" é da responsabilidade exclusiva do leitor.

15

Metade do mês... É a partir deste dia que os gasolineiros dizem que notam a diminuição dos carros a abastecer, e os que aparecem pagam com notas mais pequenas...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

14

...de Janeiro é feriado municipal na terra onde nasci. Comemora uma das batalhas da guerra da restauração, contra os nossos vizinhos peninsulares.
Eu não sou muito destas efemérides guerreiras, mas não me lembrei de mais nada para falar do número catorze...

terça-feira, 13 de julho de 2010

13

Dizem que dou azar, e por isso não me utilizam para identificar quartos de hotel, nem camarotes de navios de passageiros...
E tudo isto, segundo consta, devido a uma ceia que teve lugar há mais de dois mil anos, que tinha treze sentados à mesa, e que acabou por correr mal...
Por causa disso, até lhe passaram a chamar A Última Ceia!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

12

Os apóstolos eram doze, os cavaleiros da Távola Redonda parece que também (embora aí as opiniões não sejam unânimes), o ano tem doze meses... Em suma, o doze é um número importante!
 
Às vezes chamam-lhe "uma dúzia", mas a isso ele não dá grande importância...

domingo, 11 de julho de 2010

11

Há onze jogadores numa equipa de futebol, e o ciclo solar dura 11 anos, mas não é seguro que a coincidência se deva ao facto de a bola e o sol terem ambos forma esférica...
A velocidade de escape da atracção terrestre é cerca de 11 km por segundo e há também o "Ocean's eleven" que é também sobre o "escape" de muitos milhões de dólares da casa-forte de um casino em Las Vegas...

sábado, 10 de julho de 2010

10

É a base do sistema de numeração mais usado. O facto de uma pessoa normal ter dez dedos no conjunto das duas mãos não deve ser estranho ao facto.
E há também os 10 mandamentos, que o Cecil B. DeMille meteu num filme, onde quem fazia de Moisés era o Charlton Heston, que a combater o faraó ganhou experiência para vir a ser presidente da National Rifle Association, que são os tipos que acham que um cidadão já devia nascer com um Colt 45 na mão...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

9

Eram nove, até que despromoveram Plutão. Não sei como os terráqueos tiveram o atrevimento de fazer isso, sem consultar as outras espécies inteligentes do sistema solar. As medusas de Júpiter não gostaram, e afixaram sinais de desagrado na atmosfera do planeta, mas na Terra não perceberam... Os cristais pensantes de Marte também ficaram aborrecidos, os sextópodes dos mares de Europa mudaram de cor, e nós, os enxames sentientes que habitamos os anéis de Saturno vibrámos em uníssono durante várias rotações...
Isto ainda vai acabar mal!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

8

Devido a razões que não vêm agora ao caso, foi escolhido para ser o número de bits num byte (Alguém recorda a palavra "octeto"?).
Mas como um byte (em geral) nunca vem só, passou-se a falar de 16, de 32 e até de 64 bits...
Do 16 ainda viremos a falar, dos outros dois não, porque já estão fora do mês...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

7

São sete os pecados mortais: Soberba - Avareza - Luxúria - Ira - Gula - Inveja - Preguiça.
E como são sete os dias da semana, dá para escolher um pecado para cada dia.

O problema está na escolha...

terça-feira, 6 de julho de 2010

6

Detesto aquela alcunha: "meia-dúzia"! Nunca ninguém chama "meia-dezena" ao cinco, mas a mim... "meia-dúzia"! Que mania!
As embalagens muitas vezes têm dentro seis objectos, sejam ovos ou lápis de cor, e isso deixa-me satisfeito.
E no meu CV consta que sou o primeiro divisível por 1, por 2 e por 3...
Versátil, é o que eu sou!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

International News

Um breve intervalo nos dias do mês só para anunciar que o miniconto Open Day referido aqui iniciou uma carreira internacional (cof! cof!) ao ser publicado no blogue Químicamente Impuro (na lista dos links ali à direita), editado por Sergio Gaut vel Hartman, escritor e editor argentino, a quem fico grato também pela tradução.

5

Do fundo da memória surge a lenga-lenga aprendida na infância:
"Dedo mindinho
Seu vizinho
Pai de todos
Fura-bolos
Mata piolhos"
Do aperto de mão e da palmada amigável nas costas até ao punho cerrado na manifestação, lá estão os cinco. A amassar pão ou a percorrer alegremente as teclas do piano, são eles novamente. Sempre juntos, uma equipa colaborante.

E também há os livros da Enid Blyton, mas esses vieram muito depois...

domingo, 4 de julho de 2010

4

O 4 interroga-se por que razão os cavaleiros do Apocalipse são quatro. Não se importa com as quatro virtudes cardinais, mas detesta a morte e destruição trazida pelos cavaleiros, ele é um número pacífico, que adora fazer paciências usando os quatro naipes de um baralho de cartas, enquanto ouve "As quatro estações"... Ah, Vivaldi!

sábado, 3 de julho de 2010

3

A Trindade e a tripeça. Uma pendurada do céu, outra assente no chão. E nenhum dos pés precisa de um calço (falo da tripeça, claro).
Há uma outra Trindade onde se bebe cerveja, e quem beber demais pode cair da tripeça...
Isto anda tudo ligado!

Mas o pior de tudo é quando cai o Carmo e a Trindade!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

2

Durante muito tempo, os dois uns que o constituíam tinham de ser diferentes, só dessa forma um 2 era legal e moral.
Mas depois passou a ser legal os dois uns serem iguais. Alguns disseram que podia ser legal, mas não era moral, mas os 2 com uns iguais nem os ouviram...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

1

Era o primeiro, e sentia orgulho nisso. Está bem, havia o zero, mas quem dava importância a um número que nem era bem número, que tinha vindo lá da India, ou Arábia, ninguém sabia ao certo...
Foi então que se deu a invasão dos negativos. Eram como imagens no espelho dos números já existentes, mas todos traziam agarrado um sinal menos.
A recta dos números ficou horizontal, porque agora havia dois conjuntos a crescer para infinito de um e outro lado do zero. Este aparecia como uma espécie de fiel da balança, o que obviamente lhe dava estatuto!
E o número 1, ao perder importância, deixou de se sentir um número natural...

domingo, 16 de maio de 2010

Nos autores não se pode confiar...

Quando chegou ao fim da estrada, Joaquim encontrou um cartaz que dizia:
"A história acaba aqui."
Desconfiado, espreitou por detrás do cartaz; e nessa altura Joaquim, personagem de romance, ficou com a certeza que o autor o tentava enganar... Ali era apenas o fim do capítulo III, e atrás do cartaz começava o capítulo IV!

sábado, 8 de maio de 2010

Os portugueses estão sempre a queixar-se


de maleitas. Pois agora podem escolher de uma lista de doenças inventadas pelos mais criativos escritores do mundo.
 
Almanaque do Dr. Thackery T.
Lambshead de Doenças
Excêntricas e Desacreditadas
Vários Autores

Publicado pela primeira vez em 1915, durante a I Grande Guerra, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas foi durante trinta anos difundido a médicos de todo o mundo em folhas de carbono ou fotocópias. O trabalho do Dr. Lambshead inspirou génios clínicos de todo o mundo, e Portugal não foi excepção, encontrando no Dr. Anófeles Calamar Trindade e no seu Compêndio Médico de Doenças Notáveis e Invulgares uma referência incontornável.
Por ocasião da primeira edição portuguesa do Almanaque, foi o próprio Dr. Lambshead, agora com mais de cem anos de idade, que decidiu confiar a edição às mãos capazes, se bem que ainda jovens, do Dr. João Seixas. É a ele que coube a tarefa de reunir novas descobertas propostas por um formidável leque de eminentes especialistas médicos portugueses, seguindo na peugada do grande pioneiro clínico Dr. Anófeles Calamar Trindade. Pela primeira vez, as suas descobertas são apresentadas num volume único e insubstituível, onde se juntam ao trabalho de colegas norte-americanos e britânicos de grande reputação como o Dr. Alan Moore, Dr. Neil Gaiman, Dr. Jeff Vandermeer ou o Dr. China Miéville, entre muitos outros.

Data de lançamento: 21 de Maio de 2010

(O texto anterior foi extraído do press-release da Editora Saída de Emergência)

Só quero acrescentar que também eu vesti a bata branca, puz o estetoscópio ao pescoço e apresentei um dos casos clínicos que poderão ser lidos neste livro. A "minha" doença intitula-se Insideout. E mais não digo (segredo profissional, juramento de Hipócrates e essas coisas...).

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Open Day

O mini-conto "Open Day", afixado aqui no "Das Palavras..." no dia 8 de Janeiro p.p., foi o vencedor do Concurso de Mini-Contos IST/Simetria de 2009.
Uma selecção dos contos concorrentes foi exposta no campus do IST no Taguspark, onde tiveram lugar outras actividades inseridas nas comemorações do Dia do Livro.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Ciência passou pela Assembleia da República... mas não se demorou!

Já faltou mais para que os bolseiros de investigação deixem cair os "direitos elementares" e passem a reivindicar "direitos alimentares"!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Prémios...

Perante as notícias recentes de prémios a gestores, justificados por terem excedido os objectivos fixados, lembrei-me de um poema de Bertold Brecht, lido há muitos anos. Em menos de um minuto (viva a web!) encontrei-o aqui e não resisti a "roubá-lo". Os grandes autores continuam sempre actuais...

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

sábado, 3 de abril de 2010

A floresta

A floresta era muito antiga. Diziam os mais velhos da aldeia que já os avós dos seus avós a tinham conhecido naquela colina. Diziam também que há muitos anos os magos nela se reuniam para a celebração dos seus rituais. E os habitantes da aldeia evitavam aproximar-se da floresta e muito menos atravessá-la.
Contava-se na aldeia que uma vez um lenhador tinha decidido ir lá cortar lenha e, segundo uns, não tinha voltado, segundo outros, tinha regressado enlouquecido, sem dizer coisa com coisa.

quarta-feira, 31 de março de 2010

STOP PRESS!   ULTIMA HORA!

Acaba de ser descoberta a forma como as agèncias de rating produziam as previsões sobre a saúde económica futura de países e empresas.
Numa cave bem escondida de olhares indiscretos, foram encontrados o Professor Mamadu, a taróloga Maya e o Professor Fofana, a quem eram arrancadas previsões sob ameaça de serem deixados morrer à fome.
As previsões dos astrólogos eram depois introduzidas num aparelho - os peritos do FBI estão ainda a investigar o funcionamento desse dispositivo, descrito por uma testemunha como "parecido com uma máquina de fabricar chouriços" - do qual saíam os famosos rótulos AAA, AA+ e quejandos, que tanto frisson provocavam no mundo financeiro e não só.
Consta que o argumento desta saga já foi comprado por uma conhecida produtora de televisão internacional, que tenciona fazer um reality show onde os concorrentes serão os governadores dos Bancos Centrais, sendo o 1º prémio um depósito de valor não divulgado num offshore à escolha do premiado.

domingo, 28 de março de 2010

O vento desfralda as bandeiras... e despenteia as cabeças!

Será que os meninos que se divertem a hastear bandeiras azuis e brancas em locais públicos quereriam, se voltasse a monarquia, que o rei fosse quem eu estou a pensar?

Ahahahahahahahahahah!!!

Vacina contra a estupidez

Quando foi inventada a vacina contra a estupidez, as autoridades de saúde pública compraram umas centenas de milhares de doses. Mas apesar de uma campanha de divulgação massiva, os postos de vacinação continuaram praticamente desertos.
"É um bom sinal", disse o comentador.
"Bom sinal? Por quê?", inquiriu o entrevistador.
"As pessoas são estúpidas, mas não suficientemente estúpidas para admitir que o são!", esclareceu o comentador com um sorriso de auto-satisfação.

PEC

O meu PEC era outra coisa...

quinta-feira, 18 de março de 2010

No Brasil...

O conto ETERNIDADE, que apareceu em Fevereiro de 2005 no site da Épica, foi agora publicado no Contos Fantásticos, site brasileiro administrado por Afonso Pereira, a quem agradeço a divulgação.