O HOMEM QUE EXPRIMIA EMOÇÕES AO RETARDADOR
— Doutor, é uma coisa aflitiva! Sinto tudo ao retardador, e isto dá origem
a situações embaraçosas. Como ontem, por exemplo: estava no velório de um
familiar quando achei graça à anedota que me tinham contado algumas horas
antes. A gargalhada que soltei fez com que metade da família deixasse de me
falar… Outro exemplo: o meu trabalho é incrivelmente monótono, repetitivo, mas
há três dias, a meio da tarde, no meio dos colegas todos de cara fechada, contagiados
pelo tédio que enchia aquele escritório, dei por mim a exibir um sorriso alarve
e a cantarolar em surdina, porque nesse dia de manhã tinha atravessado o parque,
e estava uma gloriosa manhã de primavera! Será que sou de compreensão lenta?
— O senhor não é “de compreensão lenta”, o que o senhor tem é expressão
psico-emocional retardada. É assim como um jet lag para as emoções.
Infelizmente, não tem cura.
O médico fez uma pausa e prosseguiu:
— Se lhe puder servir de consolação, existe uma doença que é como que o
inverso da sua: é a expressão psico-emocional antecipada. Consiste, como
o nome indica, em experimentar emoções em relação a factos que vão ocorrer no
futuro.
Baixou a voz e acrescentou:
— Eu, por exemplo, sofro disso. Estou aqui a falar
consigo e, ao mesmo tempo, a tentar conter o riso ao imaginar a cara que o
senhor vai fazer quando daqui a pouco na recepção lhe apresentarem a conta
desta consulta.