domingo, 1 de agosto de 2010

A Paradoxical Song

Numa vida paralela, participei durante 4 anos num projecto de investigação europeu intitulado Fire Paradox, sobre os múltiplos aspectos envolvidos no fogo florestal.
O projecto terminou em Fevereiro passado, e a reunião de encerramento teve lugar em Friburgo. No regresso, o atraso num voo de ligação, com as correspondentes horas para queimar no aeroporto, fizeram nascer o seguinte poema, talves porque ainda tinha nos ouvidos um fabuloso concerto de China Moses, a que assistimos numa das noites que passámos naquela cidade (estas reuniões também têm um lado social, queriam o quê?).
E assim, aqui fica a minha contribuição para a Silly Season em que já estamos mergulhados...


The Post-Paradox Blues

I was a Fire Paradox member
‘cause fire is very handsome
Then the end of February arised
And somethin’ strange come

It was nice to meet everybody
Walking, talking, ‘earing and show
Even go on the train uphill
To ‘ave a look at the beautiful snow

But this morning I feel sad
And why? I not ‘ave any clues
And the God of Fire came and said
Ma son, you’re feeling the Post-Paradox Blues…

The Post-Paradox Blues… Oh yeah…


Lirics by João Ventura (Feb 28, 2010)
Music yet to be composed…

sábado, 31 de julho de 2010

31

Seria aqui apropriado cantar o "Fado do 31", se eu gostasse dele, o que felizmente não acontece.
Assim, só me resta agradecer à dezena meia dúzia dois ou três leitores fiéis que acompanharam esta sequência. Entramos agora em dormência estival, o que significa uma periodicidade menos diária...
E ainda bem que os meses não são mais longos!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

30

É a soma dos primeiros quatro quadrados (1 + 4 + 9 + 16 = 30).
Tem como divisores os números 1, 2, 3, 5, 6, 10, 15 e 30.
Segundo Mateus 26:15, 30 moedas foi o pagamento a Judas por trair Jesus.
No livro de Kafka "O Processo", o personagem principal é preso na manhã do dia do seu trigésimo aniversário, por um crime não especificado, que nunca chega a descobrir qual seja. Deste livro nasceu o termo "kafkiano"; não são muitos os livros que se possam orgulhar de ter dado origem a adjectivos.
Finalmente, 30 é o último dia de alguns meses. Outros, como o actual, na promoção de lançamento do calendário gregoriano conseguiram abichar um dia a mais, e por isso esta saga só termina amanhã...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

29

Na distribuição final, Fevereiro acabou por receber mais um dia, e ficar com 29... mas só de 4 em 4 anos!
É o décimo número primo.
É a soma de três quadrados consecutivos - os quadrados de 2, de 3 e de 4 ( 2 X 2 + 3 X 3 + 4 X 4 = 29 ).

quarta-feira, 28 de julho de 2010

28

O mês lunar tem aproximadamente 28 dias.
Um jogo de dominó tem 28 peças.
O mês de Fevereiro deve ter feito alguma a quem distribuiu os dias pelos meses, porque só ficou com 28 dias (esta informação não é totalmente exacta, mas será corrigida amanhã...)

terça-feira, 27 de julho de 2010

27

O planeta Urano tem 27 luas (há planetas que são uns gulosos...).
Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756 e escreveu 27 concertos para piano e orquestra.
Muita gente importante da música recente morreu com 27 anos. Uma lista na wikipedia inclui Robert Johnson, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones, Jim Morrison, Ron "Pigpen" McKernan, Pete Ham, Richey Edwards, e Kurt Cobain.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

26

Está encurralado entre um quadrado ( 25 = 5 X 5 ) e um cubo ( 27 = 3 X 3 X 3 ), o que o deixa por vezes um pouco desconfortável...
Num baralho de cartas normal, há 26 cartas vermelhas e 26 cartas pretas.

domingo, 25 de julho de 2010

25

Um dos mais notáveis é o de Abril, uma data que muitos tentam fazer esquecer e outros insistem em lembrar.
E só quem já esqueceu (ou não viveu) o "antes" pode vir dizer que o "depois" é pior que o "antes"!

sábado, 24 de julho de 2010

24

É o factorial de 4 (4! = 1 X 2 X 3 X 4 = 24)
É o número atómico do crómio (Não confundir com "cromo", que também pode ser um "grande número"...)
É o número de horas num dia (Exortação ao trabalho: "Se pensas que o dia só tem 24 horas, lembra-te que ainda há as noites!")

sexta-feira, 23 de julho de 2010

23

Informações encontradas na web sobre o número 23. Não sei como consegui viver até agora na ignorância destes factos...
Júlio César foi apunhalado 23 vezes. Obviamente os assassinos não eram profissionais muito competentes...
Há 23 línguas oficiais na União Europeia. Alguém mencionou a Torre de Babel?
Shakespeare nasceu a 23 de Abril de 1564 e morreu a 23 de Abril de 1616. Alguém devia escrever uma peça de teatro sobre tão importante coincidência...
Os EUA realizaram 23 explosões nucleares no atol de Bikini. Como 23 tinha resultado com César, acharam que com 23 bombas o atol ficaria morto e bem morto...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

No Brasil

O meu conto A Pedra, aqui referido, publicado inicialmente no Storm Magazine, foi agora republicado no site Contos Fantásticos. Agradeço ao Afonso Pereira, administrador do CF.

22

Uma das aplicações mais literárias deste número é a novela Catch-22, de Joseph Heller, publicada em 1961. O termo "catch-22" entrou na língua inglesa para designar situações semelhantes à do protagonista do livro.
Num outro registo, o Titanic viajava à velocidade de 22 nós quando chocou com um iceberg. Se a velocidade fosse 21 ou 23 nós, o curso dos acontecimentos teria sido diferente?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

21

É a soma dos primeiros seis números naturais (1+2+3+4+5+6=21).
Em 1907, MacDougall pesou seis doentes que morriam de tuberculose, antes e depois da morte. Da média das diferenças de peso registadas inferiu que a alma humana pesava 21 gramas.
21 anos já identificou a passagem para a maioridade, que depois diminuiu para 18, excepto nas juventudes partidárias onde se é jovem quase até à idade da reforma.

terça-feira, 20 de julho de 2010

20

Reuniram há alguns dias mais uma vez os G20 que acharam que isso de taxar os bancos não era oportuno porque, coitados, eles (os bancos) não tiveram nada a ver com a crise em que estamos mergulhados...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

19

Em Romano escreve-se XIX, em binário 10011 e em hexadecimal 13. Ah, e é primo.
Não é VIP, não aparece nas revistas sociais, e não há muito mais que se possa dizer sobre este número pouco notável...

domingo, 18 de julho de 2010

18

Além do zero, é o único número igual ao dobro da soma dos algarismos que o compõem.
Numa escala de 0 a 20, dezoito já é uma boa nota, embora os dois números que se seguem sejam naturalmente melhores...

sábado, 17 de julho de 2010

17

É o número atómico do cloro, o número de sílabas num haiku, e a idade com que passei a entrar no cinema e poder ver qualquer filme. Já foi há muito tempo, mas ainda recordo uma vaga sensação de orgulho, face aos amigos que ainda só tinham desasseis anos...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

16

Quarta potência de dois. Base do sistema hexadecimal de numeração, usado extensivamente em informática.
Número muito usado em sistemas tradicionais de pesagem, porque é mais fácil dividir um material a granel em desasseis partes iguais por sucessivas divisões ao meio do que em dez partes.
O que a gente aprende na Wikipédia!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O leilão

Os livros sabiam que aquele que com amor os reunira tinha morrido.
Sabiam também que os herdeiros não gostavam de livros. Apenas estavam interessados na receita do leilão.
Durante várias noites, na velha biblioteca, os livros discutiram o que fazer. Os velhos tratados filosóficos eram os mais palavrosos, mas todos eles eram pacientes, os mais antigos eram ouvidos com atenção, tinham ganho sabedoria de muitos leitores.
Lentamente foi emergindo uma decisão. Eles gostavam de estar juntos, e a perspectiva de serem separados em lotes e dispersos era impensável. E quando “Aforismos para a Sabedoria da Vida” de Schopenhauer propôs o suicídio colectivo, o silêncio exprimiu o acordo unânime.

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Antes do leilão, quando os licitantes começaram a examinar os livros, ouviram-se vozes de espanto: os livros tinham todas as páginas em branco!
Se os livros possuem almas imortais, como alguns defendem, estas deviam estar bem divertidas…


Este foi o outro conto enviado ao mesmo concurso, que também ficou entre os seleccionados.

A crise no meu bairro

Xico Melenas, nado e criado no bairro, era a agência de rating local, informando o Joaquim da mercearia Pérola da Travessa e o Antunes da leitaria Alvorada sobre a capacidade de endividamento dos vizinhos.
A crise rebentou naquela manhã em que o Zé Grande entrou na leitaria e pediu um bagaço.
“Não te posso fiar mais”, disse o Antunes.
“E por quê?”
“A tua notação baixou de AA+ para BB-.”
Zé Grande largou um palavrão, virou costas e saiu desembestado.
Coisas do destino: à saída da leitaria quase choca com o Xico. Sem aviso, com a raiva acumulada da ressaca, deu-lhe um murro que o deitou ao chão, agarrado ao nariz que sangrava. E avisou-o:
“Se tornas a baixar-me a notação, levas dois!”
Agora o Xico lamenta-se a quem o quer ouvir que um bairro tão atrasado ainda não está preparado para o capitalismo moderno.


A presente fábula ficou entre os 10 seleccionados (para além dos 2 premiados)  do Concurso de mini-contos (150 palavras) IST Tagus Park, realizado com a colaboração da Simetria. Qualquer sugestão de transposição para a realidade "real" é da responsabilidade exclusiva do leitor.

15

Metade do mês... É a partir deste dia que os gasolineiros dizem que notam a diminuição dos carros a abastecer, e os que aparecem pagam com notas mais pequenas...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

14

...de Janeiro é feriado municipal na terra onde nasci. Comemora uma das batalhas da guerra da restauração, contra os nossos vizinhos peninsulares.
Eu não sou muito destas efemérides guerreiras, mas não me lembrei de mais nada para falar do número catorze...

terça-feira, 13 de julho de 2010

13

Dizem que dou azar, e por isso não me utilizam para identificar quartos de hotel, nem camarotes de navios de passageiros...
E tudo isto, segundo consta, devido a uma ceia que teve lugar há mais de dois mil anos, que tinha treze sentados à mesa, e que acabou por correr mal...
Por causa disso, até lhe passaram a chamar A Última Ceia!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

12

Os apóstolos eram doze, os cavaleiros da Távola Redonda parece que também (embora aí as opiniões não sejam unânimes), o ano tem doze meses... Em suma, o doze é um número importante!
 
Às vezes chamam-lhe "uma dúzia", mas a isso ele não dá grande importância...

domingo, 11 de julho de 2010

11

Há onze jogadores numa equipa de futebol, e o ciclo solar dura 11 anos, mas não é seguro que a coincidência se deva ao facto de a bola e o sol terem ambos forma esférica...
A velocidade de escape da atracção terrestre é cerca de 11 km por segundo e há também o "Ocean's eleven" que é também sobre o "escape" de muitos milhões de dólares da casa-forte de um casino em Las Vegas...

sábado, 10 de julho de 2010

10

É a base do sistema de numeração mais usado. O facto de uma pessoa normal ter dez dedos no conjunto das duas mãos não deve ser estranho ao facto.
E há também os 10 mandamentos, que o Cecil B. DeMille meteu num filme, onde quem fazia de Moisés era o Charlton Heston, que a combater o faraó ganhou experiência para vir a ser presidente da National Rifle Association, que são os tipos que acham que um cidadão já devia nascer com um Colt 45 na mão...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

9

Eram nove, até que despromoveram Plutão. Não sei como os terráqueos tiveram o atrevimento de fazer isso, sem consultar as outras espécies inteligentes do sistema solar. As medusas de Júpiter não gostaram, e afixaram sinais de desagrado na atmosfera do planeta, mas na Terra não perceberam... Os cristais pensantes de Marte também ficaram aborrecidos, os sextópodes dos mares de Europa mudaram de cor, e nós, os enxames sentientes que habitamos os anéis de Saturno vibrámos em uníssono durante várias rotações...
Isto ainda vai acabar mal!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

8

Devido a razões que não vêm agora ao caso, foi escolhido para ser o número de bits num byte (Alguém recorda a palavra "octeto"?).
Mas como um byte (em geral) nunca vem só, passou-se a falar de 16, de 32 e até de 64 bits...
Do 16 ainda viremos a falar, dos outros dois não, porque já estão fora do mês...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

7

São sete os pecados mortais: Soberba - Avareza - Luxúria - Ira - Gula - Inveja - Preguiça.
E como são sete os dias da semana, dá para escolher um pecado para cada dia.

O problema está na escolha...

terça-feira, 6 de julho de 2010

6

Detesto aquela alcunha: "meia-dúzia"! Nunca ninguém chama "meia-dezena" ao cinco, mas a mim... "meia-dúzia"! Que mania!
As embalagens muitas vezes têm dentro seis objectos, sejam ovos ou lápis de cor, e isso deixa-me satisfeito.
E no meu CV consta que sou o primeiro divisível por 1, por 2 e por 3...
Versátil, é o que eu sou!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

International News

Um breve intervalo nos dias do mês só para anunciar que o miniconto Open Day referido aqui iniciou uma carreira internacional (cof! cof!) ao ser publicado no blogue Químicamente Impuro (na lista dos links ali à direita), editado por Sergio Gaut vel Hartman, escritor e editor argentino, a quem fico grato também pela tradução.

5

Do fundo da memória surge a lenga-lenga aprendida na infância:
"Dedo mindinho
Seu vizinho
Pai de todos
Fura-bolos
Mata piolhos"
Do aperto de mão e da palmada amigável nas costas até ao punho cerrado na manifestação, lá estão os cinco. A amassar pão ou a percorrer alegremente as teclas do piano, são eles novamente. Sempre juntos, uma equipa colaborante.

E também há os livros da Enid Blyton, mas esses vieram muito depois...

domingo, 4 de julho de 2010

4

O 4 interroga-se por que razão os cavaleiros do Apocalipse são quatro. Não se importa com as quatro virtudes cardinais, mas detesta a morte e destruição trazida pelos cavaleiros, ele é um número pacífico, que adora fazer paciências usando os quatro naipes de um baralho de cartas, enquanto ouve "As quatro estações"... Ah, Vivaldi!

sábado, 3 de julho de 2010

3

A Trindade e a tripeça. Uma pendurada do céu, outra assente no chão. E nenhum dos pés precisa de um calço (falo da tripeça, claro).
Há uma outra Trindade onde se bebe cerveja, e quem beber demais pode cair da tripeça...
Isto anda tudo ligado!

Mas o pior de tudo é quando cai o Carmo e a Trindade!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

2

Durante muito tempo, os dois uns que o constituíam tinham de ser diferentes, só dessa forma um 2 era legal e moral.
Mas depois passou a ser legal os dois uns serem iguais. Alguns disseram que podia ser legal, mas não era moral, mas os 2 com uns iguais nem os ouviram...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

1

Era o primeiro, e sentia orgulho nisso. Está bem, havia o zero, mas quem dava importância a um número que nem era bem número, que tinha vindo lá da India, ou Arábia, ninguém sabia ao certo...
Foi então que se deu a invasão dos negativos. Eram como imagens no espelho dos números já existentes, mas todos traziam agarrado um sinal menos.
A recta dos números ficou horizontal, porque agora havia dois conjuntos a crescer para infinito de um e outro lado do zero. Este aparecia como uma espécie de fiel da balança, o que obviamente lhe dava estatuto!
E o número 1, ao perder importância, deixou de se sentir um número natural...

domingo, 16 de maio de 2010

Nos autores não se pode confiar...

Quando chegou ao fim da estrada, Joaquim encontrou um cartaz que dizia:
"A história acaba aqui."
Desconfiado, espreitou por detrás do cartaz; e nessa altura Joaquim, personagem de romance, ficou com a certeza que o autor o tentava enganar... Ali era apenas o fim do capítulo III, e atrás do cartaz começava o capítulo IV!

sábado, 8 de maio de 2010

Os portugueses estão sempre a queixar-se


de maleitas. Pois agora podem escolher de uma lista de doenças inventadas pelos mais criativos escritores do mundo.
 
Almanaque do Dr. Thackery T.
Lambshead de Doenças
Excêntricas e Desacreditadas
Vários Autores

Publicado pela primeira vez em 1915, durante a I Grande Guerra, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas foi durante trinta anos difundido a médicos de todo o mundo em folhas de carbono ou fotocópias. O trabalho do Dr. Lambshead inspirou génios clínicos de todo o mundo, e Portugal não foi excepção, encontrando no Dr. Anófeles Calamar Trindade e no seu Compêndio Médico de Doenças Notáveis e Invulgares uma referência incontornável.
Por ocasião da primeira edição portuguesa do Almanaque, foi o próprio Dr. Lambshead, agora com mais de cem anos de idade, que decidiu confiar a edição às mãos capazes, se bem que ainda jovens, do Dr. João Seixas. É a ele que coube a tarefa de reunir novas descobertas propostas por um formidável leque de eminentes especialistas médicos portugueses, seguindo na peugada do grande pioneiro clínico Dr. Anófeles Calamar Trindade. Pela primeira vez, as suas descobertas são apresentadas num volume único e insubstituível, onde se juntam ao trabalho de colegas norte-americanos e britânicos de grande reputação como o Dr. Alan Moore, Dr. Neil Gaiman, Dr. Jeff Vandermeer ou o Dr. China Miéville, entre muitos outros.

Data de lançamento: 21 de Maio de 2010

(O texto anterior foi extraído do press-release da Editora Saída de Emergência)

Só quero acrescentar que também eu vesti a bata branca, puz o estetoscópio ao pescoço e apresentei um dos casos clínicos que poderão ser lidos neste livro. A "minha" doença intitula-se Insideout. E mais não digo (segredo profissional, juramento de Hipócrates e essas coisas...).

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Open Day

O mini-conto "Open Day", afixado aqui no "Das Palavras..." no dia 8 de Janeiro p.p., foi o vencedor do Concurso de Mini-Contos IST/Simetria de 2009.
Uma selecção dos contos concorrentes foi exposta no campus do IST no Taguspark, onde tiveram lugar outras actividades inseridas nas comemorações do Dia do Livro.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Ciência passou pela Assembleia da República... mas não se demorou!

Já faltou mais para que os bolseiros de investigação deixem cair os "direitos elementares" e passem a reivindicar "direitos alimentares"!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Prémios...

Perante as notícias recentes de prémios a gestores, justificados por terem excedido os objectivos fixados, lembrei-me de um poema de Bertold Brecht, lido há muitos anos. Em menos de um minuto (viva a web!) encontrei-o aqui e não resisti a "roubá-lo". Os grandes autores continuam sempre actuais...

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

sábado, 3 de abril de 2010

A floresta

A floresta era muito antiga. Diziam os mais velhos da aldeia que já os avós dos seus avós a tinham conhecido naquela colina. Diziam também que há muitos anos os magos nela se reuniam para a celebração dos seus rituais. E os habitantes da aldeia evitavam aproximar-se da floresta e muito menos atravessá-la.
Contava-se na aldeia que uma vez um lenhador tinha decidido ir lá cortar lenha e, segundo uns, não tinha voltado, segundo outros, tinha regressado enlouquecido, sem dizer coisa com coisa.

quarta-feira, 31 de março de 2010

STOP PRESS!   ULTIMA HORA!

Acaba de ser descoberta a forma como as agèncias de rating produziam as previsões sobre a saúde económica futura de países e empresas.
Numa cave bem escondida de olhares indiscretos, foram encontrados o Professor Mamadu, a taróloga Maya e o Professor Fofana, a quem eram arrancadas previsões sob ameaça de serem deixados morrer à fome.
As previsões dos astrólogos eram depois introduzidas num aparelho - os peritos do FBI estão ainda a investigar o funcionamento desse dispositivo, descrito por uma testemunha como "parecido com uma máquina de fabricar chouriços" - do qual saíam os famosos rótulos AAA, AA+ e quejandos, que tanto frisson provocavam no mundo financeiro e não só.
Consta que o argumento desta saga já foi comprado por uma conhecida produtora de televisão internacional, que tenciona fazer um reality show onde os concorrentes serão os governadores dos Bancos Centrais, sendo o 1º prémio um depósito de valor não divulgado num offshore à escolha do premiado.

domingo, 28 de março de 2010

O vento desfralda as bandeiras... e despenteia as cabeças!

Será que os meninos que se divertem a hastear bandeiras azuis e brancas em locais públicos quereriam, se voltasse a monarquia, que o rei fosse quem eu estou a pensar?

Ahahahahahahahahahah!!!

Vacina contra a estupidez

Quando foi inventada a vacina contra a estupidez, as autoridades de saúde pública compraram umas centenas de milhares de doses. Mas apesar de uma campanha de divulgação massiva, os postos de vacinação continuaram praticamente desertos.
"É um bom sinal", disse o comentador.
"Bom sinal? Por quê?", inquiriu o entrevistador.
"As pessoas são estúpidas, mas não suficientemente estúpidas para admitir que o são!", esclareceu o comentador com um sorriso de auto-satisfação.

PEC

O meu PEC era outra coisa...

quinta-feira, 18 de março de 2010

No Brasil...

O conto ETERNIDADE, que apareceu em Fevereiro de 2005 no site da Épica, foi agora publicado no Contos Fantásticos, site brasileiro administrado por Afonso Pereira, a quem agradeço a divulgação.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Bang nº 7

Acaba de ser publicada a Bang! nº 7 que, após uma interrupção, regressa às edições em papel.
Pode ser comprada no site da editora
Saída de Emergência.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

DESEJO INCONTROLÁVEL DE SER DONO DO MUNDO (DIDSDDM)

Personae gigantismus; Mundus dominium voluntas

Primeiro caso conhecido
Perde-se na noite dos tempos o registo do primeiro caso desta doença. Battleshout & Littleone (1953)  propuseram a teoria de que o incidente que faria despoletar a doença nas populações pré-históricas era o som de um fémur a partir qualquer outro objecto mais frágil; esta teoria foi liminarmente rejeitada por alguns participantes na conferência que também tinham visto o filme “2001 – Odisseia no Espaço”. Na sequência deste incidente, aqueles autores foram acusados de plágio e os seus nomes retirados do “Who’s Who in Medical Research”.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Uma notícia geométrica

(modesta homenagem a Edwin Abbott, autor de Flatland)

Era um quadrado perfeito (os seus lados mediam cada um 7 centímetros, com um erro inferior a 1 micrómetro). E sendo extremamente vaidoso, estava sempre a gabar-se. O que irritava muitas outras figuras geométricas.
Um dia, à saída do livro de geometria, um gang de triângulos escalenos apanhou-o e deu-lhe um ensaio de pancada. Ficou com um lado partido e um vértice muito maltratado.
Levado ao hospital geométrico, teve azar com o médico que o atendeu na urgência, um octógono que era especialista em áreas e não em segmentos de recta, e que ao reparar o seu lado partido deixou os dois fragmentos desalinhados.
E foi assim que o quadrado perfeito passou a ser um pentágono. E ainda por cima irregular!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Open Day

“Aqui é o Departamento de Informática Neo-Cartesiana”, explicou o guia ao grupo de visitantes. “As designações obsoletas hardware e software foram abolidas e substituídas por corpo e alma. Deixou de haver engenheiros de hardware e software, há agora médicos e psiquiatras.”
Sinais de agitação surgiram no átrio da entrada. Conduzido por dois seguranças, um homem vestido de preto, com um colarinho branco e segurando debaixo do braço uma maleta cuja tampa tinha uma cruz em baixo relevo, foi rapidamente levado ao elevador e subiu com um dos guardas.
O guia dirigiu-se ao outro segurança e perguntou: “O que se passa?”
“Tivemos um alerta da Secção Fundamentalista do Departamento. Uma impressora começou a vomitar papel impresso com estranhos símbolos, e como naquela Secção não acreditam na medicina, chamaram um padre para lhe aplicar um exorcismo.”

sábado, 2 de janeiro de 2010

SOS (Sindicalismo dos Órgãos de Soberania)

Começou com os juízes. Não era bem um sindicato, era uma associação sindical, embora distinguir a diferença exija um curso de Direito.
A Assembleia da República ficou com inveja. “Então somos menos que eles?”, questionavam-se os deputados. E dito e feito: assembleia constituinte do sindicato, estatutos, direito de tendência, naturalmente, eleições dos corpos gerentes. Aprovado mais depressa do que muitas leis.
O Governo não se quis ficar atrás. Foi ainda mais rápido, porque o número de sócios era muito menor. O PM presidente, o ministro das finanças tesoureiro, um secretário de Estado a secretário – já tinha o nome – mais dois vogais e pronto. E direito de tendência, quando viesse um governo de coligação, logo se veria.
O Presidente da República é que não alinhou. Sendo o único sócio teria que acumular todos os cargos da direcção. Esqueceu o assunto e foi presidir.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal em Little Town

O tenente Patrick O’Neill conhecia a cidade como poucos, e muito particularmente a zona conhecida como Little Town, onde fora nascido e criado. Tirando o período em que frequentara a Academia da Polícia, sempre ali vivera.
Conhecia não só a superfície, que os cidadãos bem comportados conhecem, mas também muito do que ocorria nos becos escuros, nas salas das traseiras de bares e locais semelhantes ou em certos salões geralmente considerados acima de toda a suspeita. Durante os séculos dezanove e vinte, Little Town tinha-se expandido quase como um patchwork, um crescimento entre orgânico e anárquico, à medida que vagas sucessivas de imigrantes iam chegando, fugindo da fome ou das perseguições políticas ou religiosas.
Mas O’Neill gostava dos velhos edifícios, conhecia os donos das pequenas lojas, tinha amigos em todas as comunidades que faziam de Little Town aquilo que ela tinha de único.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009


A volta ao dia em 80 mundos

Numa passagem pela FNAC - e sim, o Brinca comigo! está lá à venda, na estante Ficção Científica ;) - acabo de ver A volta ao dia em 80 mundos, de Julio Cortázar - um dos membros da Fantástica Trindade que preside ao meu culto literário pessoal - recentemente publicada pela Cavalo de Ferro.
Quando regressei a casa não pude deixar de ir folhear a edição de bolso do original, comprada em Março de 1974 - quem diria o que ia acontecer um mês depois - pela módica quantia de 84 escudos (os dois volumes!).
Para os leitores de idade menos avançada, 200 escudos <> 1 euro :)
A edição é de 1970, da Siglo XXI de España Editores, S.A., publicada em Madrid, anunciada como "Quinta edición, primera de bolsillo". A primeira edição foi no México em 1967; as três seguintes foram em Buenos Aires, em 1968.
Para informação dos meus amigos bibliófilos - olá Pedro Marques :) - aqui vão também as capas.
É Cortázar no seu melhor, como um festival de fogo de artifício!


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Todos os dias há novidades…

Dois amigos á mesa do café.
“Os filhos são uma carga de trabalhos!”, declara um, antes de levar a chávena aos lábios.
“A quem o dizes”, concorda o outro, mexendo devagar o café. “Olha o meu, já vive fora de casa, ganha o dele, mas vem todos os dias comer a comidinha da mamã, e há dias veio-me dizer que tinha tido umas despesas extra e mais a crise e não sei quê, e se eu lhe podia facilitar – ouviste bem, facilitar! – uns euritos.”
“E quanto?”, perguntei eu.
“Aí uns seiscentos, mas se for quinhentos também serve.”
“É uma pouca-vergonha”, diz o primeiro, “ganham o deles e estão sempre a sacar do nosso. E a crise serve para justificar tudo!”
Um terceiro amigo, chegado no meio da conversa:
“Vivam, ainda não li o jornal, de que Banco é que estão a falar?”

domingo, 6 de dezembro de 2009

A cinza do tempo

No ano em que começou, o Fantasporto (quem se lembra do primeiro Fantasporto ponha o dedo no ar) promoveu um Concurso do Conto Fantástico, de que resultou um livrinho com os 3 premiados e mais uns quantos recomendados pelo júri para publicação. O meu não foi premiado, mas ainda conseguiu uma boleia no referido livro.
Com alguma nostalgia, que sempre se infiltra nestes tempos pré-natalinos/solsticianos, fiz um scan do conto - já não tinha o original, e ainda que o tivesse, seriam umas folhas escritas à máquina - revi com algum trabalho - o OCR nunca é perfeito - e aqui está o dito.
Ainda gosto dele; que querem, a gente continua a gostar dos filhos mesmo depois de eles crescerem...



A cinza do tempo

Encontrei-o na Portugália. Era um fim de tarde de Verão. Eu tinha entrado para uma imperial rápida, ao balcão, uns minutos ao fresco, longe do barulho da Almirante Reis.
O que me chamou a atenção foram os copos vazios. Dois de cerveja e dois pequenos. E quando cheguei ao balcão estava ele a pedir nova dose.
- Mais uma imperial e um bagaço.

Corrupção... Face oculta... Telefonemas... Arguido... Caução... Medidas de coacção...

As palavras no título deste post fazem parte de um projecto de investigação sociológico para determinar o acréscimo de visitas a este blogue resultante da presença das referidas palavras.
Àqueles que vieram ao engano, apresento as minhas sentidas desculpas - ainda não é desta que vão saber o que queriam - mas ficam com a satisfação de ter participado num projecto científico. Quandos os resultados deste projecto derem um artigo numa revista ou uma comunicação a uma conferência, serão referidos, de forma colectiva, na secção "Agradecimentos".

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Toys 'R' here... definitivamente!


Em relação ao assunto dois posts abaixo, o "Das palavras..." está em posição de confirmar que o processo referido foi arquivado.

Tudo se baseava num mal entendido, conforme exarou o juiz de instrução no despacho de arquivamento:
"O responsável pela denúncia - ex-agente da Polícia de Costumes do antigamente - tinha treslido o título, e em vez de Brinca Comigo! tinha lido Trinca Comigo!, o que, dadas as mais óbvias conotações de trincar, comer e verbos quejandos, indiciava um claro atentado à moral e aos bons costumes. Ainda por cima com brinquedos!"
Desfeito o equívoco, os arguidos foram enviados em paz pelo juiz de instrução, com autorização expressa para continuação de brincadeiras.
"Ora", diz ainda o despacho, "na fase sorumbática, depressiva e tensa que a sociedade portuguesa atravessa, brincar é uma actividade relaxante e que favorece a boa disposição, pelo que é conducente à harmonia social."
Faz também parte do despacho uma admoestação por excesso de zelo ao zeloso ex-funcionário, que foi condenado a pagar as custas do processo.
A decisão foi acolhida com júbilo pelos arguidos, que na altura em que foram contactados assinavam livros no intervalo das Conversas Imaginárias.
Miguel Neto, o instigador da acção que deu origem a este equívoco judicial, aproveitou para informar que este convite à brincadeira se encontra à venda na EfeEneACê e "noutras boas livrarias perto de si", mas que se tiverem dificuldade em encontrar podem sempre aceder ao site da editora Escrit'orio.

E brinquem muito, porque Janeiro está aí não tarda e depois vem logo a declaração do IRS para preencher...

domingo, 29 de novembro de 2009

Um salto para

a outra margem do Atlântico, foi o que deu o meu conto Noosfera, publicado originalmente em 2007 no nº 1 do e-zine NOVA(*), e agora no site Contos Fantásticos, onde ficou também em muito boa companhia.
Um agradecimento ao Afonso Pereira, administrador do site.



(*) Quem não conhece os 3 números que saíram do NOVA, aproveite para os descarregar daqui, porque o site vai ser desactivado.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Toys 'R' here...

(versão revista)

O "Das palavras..." soube, de fonte segura, que na próxima semana, estará nas livrarias uma nova antologia com contos com (sobre) brinquedos, mais ou menos apropriados à época natalina que se aproxima, conforme as atmosferas mais ou menos fantásticas em que se desenrolam.
O nome do objecto é Brinca Comigo! e outras estórias fantásticas com brinquedos, segundo fonte ligada ao processo.
Soubemos ainda que foram constituídos arguidos David Soares, João Barreiros, João Ventura e Luís Filipe Silva, alegados autores da obra. É também arguida a Editora Escrit'orio, que alegadamente coordenou as acções agora passíveis de julgamento.
Os meios jurídico-literários verificaram, com alguma surpresa, que entre as medidas de coacção fixadas aos arguidos não se inclui a proibição de contactarem entre si.


Da produção de prova consta a capa da referida antologia, a que o "Das palavras..." teve acesso e que acima se reproduz (clicar para ampliar). Nela aparecem os nomes dos arguidos, de forma impossível de refutar.
Se depois de verem o corpo do delito quiserem comentar aqui, estão no vosso direito.

domingo, 8 de novembro de 2009

Elementar, meu caro Watson…

“Repare, sargento, na posição em que ficou o corpo” – disse o tenente Hawk, as mãos enfiadas nos bolsos da gabardina, mascando um charuto barato. À primeira vista poderia ser confundido com o tenente Columbo, mas não era ele. De facto, tinham sido colegas na Academia da Polícia, e uma das origens da úlcera gástrica do tenente Hawk era o facto de nunca ter sido o melhor da classe; tinha sido sempre o segundo, depois de Columbo.
E agora ali estava, muitos anos depois, com um novo crime entre mãos. E na própria esquadra da Polícia! Começou a imaginar a primeira página dos jornais do dia seguinte, mas o seu cérebro treinado logo se voltou para o problema que tinha à sua frente.
Ao seu lado, o sargento O’Hara bebia-lhe as palavras. Sim, porque a capacidade do tenente Hawk como investigador era conhecida em toda a corporação.
Os pés em cima da secretária, o tenente Robin parecia dormir, não fosse a mancha escura na camisa, no lado esquerdo do peito, em volta do orifício feito pela bala. No chão, um processo que ele provavelmente estava a ler na altura em que foi morto.
“Tão próximo da promoção (segundo toda a gente dizia) e agora tão longe”, pensou filosoficamente o tenente Hawk, enquanto o fotógrafo batia chapa atrás de chapa.
“Sargento, isto prova que o assassino era alguém que ele conhecia, uma vez que se deixou ficar sentado desta maneira descontraída quando o assassino entrou no gabinete.”
“O médico legista situa a morte entre as onze e meia e a meia noite e meia, tenente”, disse o sargento, consultando um livrinho de apontamentos.
“Isso bate certo, sargento”, respondeu Hawk. “E mais; teve que ser alguém da casa, para poder estar no edifício a essa hora.”
“Um membro da corporação, tenente?”, perguntou O’Hara, incrédulo.
“Sargento, a lógica leva-nos a essa conclusão. E um bom investigador nunca deixa os seus preconceitos interferir com a lógica do seu raciocínio.”
“Mas por que razão, tenente?”
“Boa pergunta, sargento. O que nos falta é o motivo. Quando o descobrirmos, temos o nosso homem. Roubo? A carteira dele estava na gaveta da secretária e não foi mexida. Saias? Robin tinha uma vida familiar estável e um comportamento moral irrepreensível. Motivos profissionais? Alguém que se sentisse ultrapassado porque, segundo se dizia, Robin era o favorito do superintendente e seria o próximo a ser promovido? Alguém que durante toda a vida foi sempre o segundo, e que sentia que mais uma vez isso lhe ia acontecer?”
O sargento O’Hara olhou para o tenente Hawk, de boca aberta, sem conseguir articular palavra.
“Vê, sargento, como a lógica dos factos se impõe? E agora, recordo-lhe o artigo 32º do Regulamento: Um membro da Corporação não pode dar voz de prisão a um superior a não ser em flagrante delito. Portanto o melhor é ir chamar o capitão.”
O sargento ficou uns instantes indeciso, até que saiu a correr.
“Sempre foste um dos melhores investigadores; muito melhor polícia do que criminoso!” murmurou o tenente Hawk para consigo próprio. Olhou em volta, lentamente, e recitou a meia voz:
“Artigo 23º - Um oficial da Polícia deve defender o bom nome da Corporação, mesmo com o sacrifício da própria vida.”
Tirou do coldre o revólver, encostou-o à cabeça e premiu o gatilho.


Este texto foi enviado para um concurso intitulado "Testemunha de um crime", promovido pelo Cinema Quarteto, em data indeterminada.

sábado, 5 de setembro de 2009

A escrita infinita

O homem sentado num sofá no lobby do Hotel Blau Varadero observa minuciosamente os clientes que entram e saem, os que se dirigem à recepção, os que estão simplesmente sentados à espera do autocarro que os levará ao aeroporto, enquanto escreve, num pequeno caderno de capa preta, histórias sobre as pessoas que observa. Inventa-lhes uma vida, relações, motivações, trajectórias…
No balcão do primeiro andar, um outro homem observa o homem que escreve, e por sua vez escreve uma história em que o primeiro escritor aparece como personagem…
E há um rumor de que esta situação se prolonga, isto é, que em cada andar existe um escritor que escreve uma história sobre o escritor do andar abaixo, havendo mesmo um grupo extremista que defende que “são sempre escritores por aí acima…”
Um argentino garantiu-me que tinha visto Cortázar e Borges, sentados a uma mesa no Piano Bar do hotel, tentando cada um deles escrever uma história mais fantástica que a do outro enquanto alguém, no piano de cauda, martelava um tango...
E entretanto, no último piso do hotel, lá onde as trepadeiras abandonam os seus ramos à gravidade, Calvino, os cotovelos apoiados sobre o balcão, elabora cuidadosamente uma nova teoria sobre escritores que escrevem sobre escritores em hotéis das Caraíbas…

Fragmento final

de uma obra de fantasia épica, escrito numa folha de um bloco de apontamentos, encontrada pelo pessoal de limpeza após a Convenção Fantástica realizada no Ghost Theater, em NoWhere.
Será entregue a quem provar pertencer-lhe.

Viram aparecer o próprio Sham-El disfarçado de esteticista, que convenceu as forças do mal – todos feios de morrer – que um banho de lama lhes tiraria a feiura e faria da sua pele coriácea uma cútis translucente. Não resistindo à lábia de Sham-El – melhor que um canal de tele-vendas – todos os feiosos mergulharam na lama. Um súbito clarão fez a lama em pedra e assim terminou outro capítulo da eterna luta do Bem contra o Mal.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O grande artista

António Cerdeiro estava representado nos mais prestigiados museus do mundo. Em qualquer leilão, as suas obras atingiam cotações elevadíssimas.
Quando Cerdeiro fez 60 anos, a Junta de Freguesia da aldeia onde nasceu colocou uma placa comemorativa na parede da casa onde pela primeira vez viu a luz. A cerimónia contou com a presença das autoridades civis, militares e eclesiásticas e muito povo.
Nessa noite a D. Felícia, sua antiga professora primária, já um pouco tolhida pelo reumatismo mas ainda perfeitamente lúcida, assistiu a um programa de televisão sobre o grande artista onde foram mencionados os preços atingidos por alguns dos seus quadros. Lembrou-se então de que guardava um caderno com desenhos feitos pelo António Cerdeiro quando com ela aprendera as primeiras letras.
Desencantado o caderno de folhas já amarelecidas no fundo de um baú, fez um telefonema ao seu sobrinho advogado, que ao fim de uma semana tinha arranjado um comprador entre os representantes de vários museus que prontamente acorreram para tentar a todo o custo conseguir o caderno.
Quando teve conhecimento de quanto a D. Felícia tinha ganho com o caderno cheio de rabiscos, José Pirisco, padrinho de António Cerdeiro, ficou a matutar; aqueles riscos gravados na parede da sua cozinha haviam também de valer uma boa maquia. Falou com o pedreiro local que logo o desiludiu: não era possível desmanchar a parede sem estragar totalmente os desenhos.
Mas Pirisco não era homem para desistir à primeira dificuldade. Colocou uns projectores para melhorar a visibilidade dos sulcos, imprimiu uns folhetos com alguns pormenores - na maioria inventados - sobre a infância de António Cerdeiro e abriu a sua casa a visitas pagas.
Com os visitantes em semi-círculo observando as gravuras, José Pirisco fornece mais alguma informação, avidamente absorvida por todos. Só há um pormenor que Pirisco cuidadosamente omite: o par de estalos que deu ao afilhado quando numa certa tarde invernosa o apanhou a riscar a parede da cozinha com um prego ferrugento!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Envelhecer

As rugas são
as impressões digitais do rosto.

Uma face sem rugas é
como alguém que tivesse perdido
o bilhete de identidade...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"Onde os Últimos Pássaros Cantaram" (4)

4ª Semana - 04.07.2009

O desafio da 4ª semana era o menos restritivo de todos. Convidava-se os leitores a inspirados, pelo título da obra de Kate Wilhelm, Onde os Últimos Pássaros Cantaram, apresentarem um conto, uma peça, um excerto, uma situação, que pudesse ser descrita (literal ou figurativamente) por essa frase, num máximo (não limitativo) de 500 palavras. E também deveria estar relacionado de alguma forma com o género fantástico.


E a minha história foi esta:

O Fim (Onde os Últimos Pássaros Cantaram)


Reclinado na sua poltrona ajustável, o construtor de pássaros ouvia, deliciado, o rouxinol. Era a última criação que tinha saído das suas mãos, o movimento reproduzindo fielmente os filmes 3-D que tinha recuperado dos arquivos do Universal Geographic, os sons reconstruídos a partir da fonoteca de um ornitólogo há muito falecido.
Levantou a mão e a ave voou do poleiro onde estava até pousar no seu dedo indicador. Com a outra mão, acariciou-lhe as penas da cabeça e depois de uns segundos, fê-la voar de volta ao poleiro.
No outro extremo da sala os periquitos brincavam na gaiola, enquanto o papagaio se pendurava do poleiro, de cabeça para baixo, emitindo sons roucos.
Todas estas aves constituíam o produto mais sofisticado da ciência robótica e tinham sido fabricadas por ele, provavelmente o último investigador desta área do conhecimento ainda vivo.
O homem suspirou profundamente, ligou um projector e na parede começou a passar um filme com luxuriantes paisagens de florestas tropicais, uma explosão de vida colorida, vegetação, aves, mamíferos, o mundo vivo em todo o seu esplendor.
Comandou a poltrona para uma massagem relaxante e foi lentamente deslizando para um sono tranquilo, enquanto os seus olhos se fechavam sobre imagens da Amazónia...

--oOo--

O que despertou o construtor de pássaros foi o silêncio. Levantou-se de um salto. O rouxinol estava caído no chão, imóvel. Os periquitos no chão da gaiola. O papagaio, suspenso da corrente que o prendia ao poleiro, rodava lentamente na corrente de ar causada pelos ventiladores.
Colocou o rouxinol na gaveta do analisador multi-funções, executou uma tomografia e passou depois a utilizar a nanosonda até as suas dúvidas se dissiparem completamente: um vírus inorgânico tinha entrado na casa.
Desenvolvidos por militares para a desactivação de equipamento inimigo, o que era conseguido através da destruição de ligações atómicas nos materiais de que esse equipamento era feito, tinham a dada altura escapado ao controlo do laboratório que os produzia.
E a protecção dada pelos nanofiltros que blindavam a casa tinha-se revelado uma ficção.

--oOo--

O construtor de pássaros accionou as janelas da casa. Várias zonas da parede ficaram transparentes, e ele olhou longamente o exterior. Construída no alto de uma colina outrora arborizada, todo o terreno em volta estava agora seco, calcinado, e um vento persistente fazia rolar nuvens de poeira. Ao longe distinguia-se a auto-estrada, ainda cheia com as carcaças dos carros que lá tinham ficado quando o vírus inorgânico se tinha espalhado.
O homem tornou novamente as paredes opacas, foi ao painel de comando da casa e desactivou os nanofiltros. A casa exigiu-lhe duas vezes a password antes de executar a ordem.
Sentou-se na poltrona, imaginando a sopa química e bacteriológica que era a atmosfera exterior a entrar lentamente na casa. Ligou novamente o filme que vira na noite anterior. E enquanto observava um bando de macacos saltando de ramo em ramo numa floresta do Bornéu, pensava que, se o processo se arrastasse muito, a poltrona tinha um kit de ajuda ao suicídio que podia ser utilizado em qualquer momento.

"Onde os Últimos Pássaros Cantaram" (3)

3ª Semana - 27.06.2009

O desafio da 3ª semana consistiu na descrição de uma cena de conflito entre dois grupos de clones distintos. Este conflito podia assumir uma qualquer natureza, desde a bélica assumida até à emocional, e portanto os grupos de clones podiam ser exércitos, familiares, vizinhos... Os clones são telepatas e conseguem comunicar (não necessariamente de forma verbal) sem usar a fala, mas cada conjunto de clones apenas consegue falar com o seu. A intenção literária era de espelhar o conflito entre dois seres - dois indivíduos - multiplicado pelos vários em que se divide.
Contudo, sugerimos uma dificuldade acrescida (que desta vez era opcional): imaginar que descreviam esta cena como se decorresse num palco ou num ecrã. Uma cena sem falas, apenas com actos, gestos, olhares, expressões. Embora um diálogo vivo ocorra na mente de todos aqueles seres, nós, como espectadores, apenas observamos o resultado. Talvez não seja possivel compreender a razão do conflito. Talvez não seja possível determinar um vencedor. Mas haverá contendas, drama, vitórias, um fluxo dramático - será possível tirar-se dali uma história, como afinal se os clones fossem animais e nós assistissemos a um documentário sobre a Natureza.

E esta foi a minha resposta:

O Dia da Comunidade

O enorme Pavilhão Alpha encontrava-se repleto. Aquele evento, repetido anualmente, comemorava o início da Comunidade Alpha.
Uma onda telepática percorreu a audiência, aumentando de intensidade quando o palco, no centro do enorme recinto, ficou subitamente inundado de luz.
A atenção de todos concentrou-se na zona iluminada, embora todos já conhecessem a acção que ali se iria desenrolar.
Quatro grupos de clones com características fisionómicas perfeitamente distintas, ocupavam o palco: os alpha, brancos, louros, quase albinos; os black, pele escura, cabelo encaracolado, que dois séculos antes se designariam como de etnia africana; os china, olhos amendoados, cabelo preto e liso, de pequena estatura, e os blend, todos iguais entre si, como clones que eram, mas com características resultantes de uma mistura genética efectuada sobre as populações originais antes da clonagem. Exceptuando os alpha, os outros eram produzidos especialmente para aquele evento.
O som de um tambor começou a ouvir-se, primeiro em surdina, depois cada vez mais forte, e um ambiente de tensão surge e cresce, centrado no palco. Uma situação de conflito nasce entre os quatro grupos, que se agudiza e atenua entre eles de forma quase aleatória, como se alianças se formassem e desfizessem. A postura dos actores torna-se mais ameaçadora e subitamente o grupo dos blend sofre um ataque conjunto dos outros três. alpha, black e china envolvem os blend e começam a agredi-los a soco e pontapé. Durante uns minutos é uma confusão no palco, e quando os três grupos se afastam, no meio do palco só estão os corpos dos blend, em monte, muitos deles em posições distorcidas. Soa uma buzina e entra no palco uma brigada de de robôs de limpeza que deitam os corpos para um contentor que trouxeram e a seguir saem do palco com a sua carga macabra.
Novamente o tambor em crescendo, misturado agora com instrumentos de cordas, o som agressivo dos violinos e violoncelos quase arranhando a coluna vertebral. É o prelúdio para uma nova batalha no palco, mas agora são os alpha e os china contra os black, e já são utilizadas armas brancas, e quando o conflito termina são só corpos escuros no centro do palco, e chegam novamente os robôs da limpeza que levam os corpos e lavam o piso do sangue derramado.
Terceiro e último acto: tambores e metais, a sonoridade das trompas, dos trombones e trompetes cria uma atmosfera apoteótica de conflito final. A guerra é agora entre os alpha e os china, mas é uma confrontação mais sofisticada, embora não menos letal. Os dois grupos enfrentam-se enviando projecções mentais agressivas, e pouco a pouco os china cedem e um a um, vão caindo no chão onde ficam imóveis.
A música atinge o climax, e enquanto os robôs vêm de novo proceder à limpeza, os actores alpha saem do palco saem do palco e misturam-se com a audiência que nesta altura vibra, aplaude, grita, é uma euforia colectiva.
Alpha 13274, um dos espectadores, enquanto aplaude como todos os outros, passeia os olhos pelos milhares de faces, todas iguais à sua, a mesma pele branca, o mesmo cabelo louro, e num pequeno canto da sua mente surge uma dúvida, insidiosa, subversiva, que ele rapidamente afasta do campo da consciência, porque numa sociedade de telepatas nunca se sabe se (quando) alguém nos está a ler: «Não seria possível ter sido de outra forma? Não teria sido possível a evolução na coexistência pacífica das diversas espécies clonadas?»
A história que lhe ensinaram diz-lhe que não, que a supremacia dos alpha tinha que resultar na eliminação dos outros, mas aquela dúvida não morre, e tende a aparecer nas situações mais inconvenientes...

domingo, 12 de julho de 2009

"Onde os Últimos Pássaros Cantaram" (2)


2ª Semana - 16.06.2009

Um dos temas recorrentes em Onde Os Últimos Pássaros Cantaram é o da clonagem. Os membros do clã familiar Sumner, cuja história forma a base do romance, criam gerações atrás de gerações de cópias de si mesmos como forma de lutar contra a perda de fertilidade humana. Os clones estão tão próximos uns dos outros que desenvolvem uma empatia quase telepática, estabelecendo uma sociedade aparte, valorizando o colectivo e não o indivíduo. Os clones entram em pânico quando se encontram sozinhos por demasiado tempo. Por fim, apercebemo-nos que os clones não partilham o interesse do resto da humanidade em voltarem a reproduzir-se sexualmente, preferindo continuar o processo de clonagem até ao fim dos tempos.

O desafio para a segunda semana do passatempo Kate Wilhelm consistia em, com o limite de 250 palavras, descrever uma situação, apresentar uma cena, estabelecer uma história que inclua este confronto entre o individuo e o social, tendo a clonagem por base. E por sabermos que os nossos leitores gostam de desafios exigentes, acrescentámos a seguinte condição: o texto deveria ter uma veia humorística.


E o meu texto foi este (e foi com ele que ganhei o livro...):

A Tecnologia Nunca É Perfeita...

Magalhães 123 – clone nº 123 obtido a partir das células de um humano longínquo chamado Magalhães – não estava satisfeito. Estava de facto muito insatisfeito. A ideia de haver 255 outros indivíduos iguais a si era-lhe insuportável, obscena mesmo.
Magalhães 123 especializou-se em robótica, construiu uma empresa de produção de robots domésticos que foram um tremendo sucesso comercial. Mas em paralelo, no laboratório secreto na cave da sua casa, ia criando a sua opus magnum – o robot executor E666.
Tinha pensado que ultrapassar as leis de Asimov seria o mais complicado, mas o processo tinha-se afinal revelado infantilmente simples. O resto do trabalho foi fácil tendo em vista os objectivos principais que o robot teria de atingir: simplicidade e eficácia. Receber uma lista de indivíduos a abater e executar o trabalho rapidamente, minimizando danos próprios.
E666 era a mais perfeita máquina de matar alguma vez desenvolvida: aplicação de toxinas mortais sob diversas formas, armas brancas dos mais diferentes tipos, explosivos, armas lasers, E666 podia matar usando qualquer processo alguma vez utilizado na história da humanidade e mais alguns originais.
Quando a série Magalhães começou a ser dizimada, elemento a elemento, a polícia ficou confusa, e os crimes foram continuando. O único sobrevivente da matança foi Magalhães 132, que nunca soube a que devia a sorte que teve.
Magalhães 123 tinha fornecido ao robot, uma a uma, as identificações dos alvos a abater. Mas o inventor do E666 tinha – sem ter consciência disso – um pequeno defeito: era (levemente) disléxico.

"Onde os Últimos Pássaros Cantaram" (1)

Luis Filipe Silva levou a efeito no Tecnofantasia um passatempo (detesto este nome, mas isso não vem agora ao caso) baseado no livro Onde os Último Pássaros Cantaram, de Kate Wilhelm. Em cada uma de 4 semanas publicou as condições dos textos que poderiam ser submetidos, e em cada semana o melhor texto recebeu um exemplar do livro referido, oferta da Gailivro, que patrocinou a iniciativa.
Vou colocar aqui os textos com que respondi a estes desafios, tal qual os submeti, resistindo à
tentação de os rever.

E assim vamos à

1ª Semana - 06.06.2009

Em 250 palavras ou menos, os participantes tinham de descrever o impacto na sociedade, contar
uma história breve, inventar uma situação anedótica/trágica, a respeito do seguinte tema:
Uma ameaça que tem pairado nas últimas décadas tem sido a do desaparecimento das reservas de petróleo e gás natural que alimentam a nossa tecnologia e sociedade. Isto porque, apesar de todo o progresso da nossa espécie, ainda não encontrámos uma fonte energética mais eficaz do que a primeira que aprendemos, há muitos e muitos anos a dominar: a combinação do oxigénio com o carbono, ou seja, o fogo. E sempre tivemos receio de ficar sem carbono suficiente para queimar.
Mas... e se for o contrário? E se o planeta passar por uma quebra significativa da produção de
oxigénio? E se o filoplâncton começar a deaparecer em grande volume dos nossos oceanos? E se o
ar que respiramos se tornar demasiado precioso para alimentar a combustão (inclusive porque a
tornaria mais difícil)?

Poderemos viver sem o nível existente de combustão mundial? Podemos encontrar formas
alternativas e eficientes de energia? Podemos adaptar a nossa existência a esta dificuldade
inesperada?

E a minha resposta foi:

Os malefícios da hiperespecialização

Era o superterrorista, animado de um ódio de morte contra a civilização tal como a conhecemos. E viu que essa civilização estava viciada em energia, pelo que a forma definitiva de a quebrar estava em cortar o fornecimento dessa energia.
Era além disso um génio da química. Com fundos provenientes de múltiplas lavagens de dinheiro, no seu laboratório secreto desenvolveu uma substância extremamente ávida de oxigénio, várias ordens de grandeza acima do que se conhecia.
Achou que no dia da inauguração da nova central térmica seria a altura apropriada para uma acção exemplar que seria a primeira de muitas que se seguiriam.
Infiltrado entre os jornalistas que iam cobrir o evento, a sua máquina fotográfica era afinal o aparelho que, uma vez activado, iria absorver o oxigénio existente no local, desta forma impedindo os queimadores de funcionar, a caldeira de produzir vapor e os alternadores de injectar a preciosa energia na rede eléctrica.
Quando accionou o seu dispositivo, o teor de oxigénio existente na atmosfera da central começou a baixar, primeiro lentamente, depois mais acentuadamente. Quando atingiu os 18 por cento, houve pessoas que começaram com tonturas, outras a desmaiar, e o fenómeno foi-se ampliando. Quando ele próprio sentiu a sua consciência a desaparecer, pensou que não devia ter estado distraído naquela aula de biologia onde lhe parecia (agora) que o professor tinha dito que um teor de oxigénio abaixo de 15% faria perder a consciência e acarretaria a morte a curto prazo.
E enquanto no imenso hall da central se acumulavam os corpos - os funcionários da central, as autoridades vindas para a inauguração, os jornalistas - os queimadores da central continuavam alegremente a funcionar, produzindo mais fumo do que habitualmente, porque com a deficiência de oxigénio a combustão era agora mais rica, o que, como se sabe, implica em geral maior produção de fuligem.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

R.I.P. (mas não completamente...)


Foi O FIM


Os meus agradecimentos aos editores que transportaram esta Minguante ao longo de 15 números. E se ressuscitar, avisem!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Amores trágicos (2)

O Arquitecto amava a cidade. Ela tinha nascido na sua cabeça; os primeiros esboços tinham surgido no monitor do seu computador; os planos de pormenor foram produzidos no seu atelier, e quando os primeiros edifícios começaram a romper dos alicerces entretanto abertos, o Arquitecto era visita frequente do gigantesco estaleiro onde milhares de operários trabalhavam 24 horas por dia, fazendo nascer a cidade que ele tinha imaginado.
Nos primeiros anos tinha sido um amor correspondido. Quando percorria as longas avenidas arborizadas, quando deambulava pelas praças cheias de sol, quando as pessoas se cruzavam com ele e o cumprimentavam afavelmente, ele sentia-se amado pela cidade.
Mas com o passar dos anos, começou a sentir que esse amor estava a deixar de ser correspondido. A profunda alteração de uma praça para alojar um descomunal hipermercado, o abate das árvores para instalar faixas de rodagem numa avenida outrora pedonal, algumas propostas suas sobre a gestão do espaço urbano rejeitadas no Conselho Municipal, críticas cada vez menos veladas nos meios de informação às suas concepções arquitectónicas e urbanistas...
Até que surgiu a gota que fez transbordar a taça: contra o seu parecer fundamentado, o Conselho Municipal tinha aprovado uma proposta de construção de uma nova urbanização periférica. O autor da proposta era desde há muito seu feroz opositor na Guilda dos Arquitectos, e a urbanização projectada em estilo neo-moderno iria ser esteticamente revoltante ao lado de uma cidade concebida e construída segundo os cânones do estilo medievo renovado.
O Arquitecto soube que tinha atingido o ponto de não retorno. A cidade, que tinha sido o amor da sua vida, tinha-o traído. Mas ele iria castigar essa traição.
Conhecia de cor as galerias técnicas que, como um sistema vascular, percorriam o subsolo da cidade, abaixo dos túneis de transporte rápido. Como chefe dos serviços de urbanismo, que ainda era, tinha também acesso ao paiol onde estavam guardados os explosivos de alta potência utilizados nas grandes obras de construção. Enquanto a nova urbanização ia sendo construída, ele foi pacientemente minando as fundações de todos os edifícios da sua cidade, começando pelos mais importantes, a sede do município, o grande salão de reuniões, a universidade, as escolas, o hospital...
E a meio da inauguração da nova urbanização, uma série de fortes explosões sacudiu a cidade. O colapso dos edifícios levantou uma enorme nuvem de poeira; e quando o pó assentou, sobre os escombros do que antes tinha sido a cidade ouviam-se as gargalhadas do Arquitecto, enlouquecido após assassinar a sua amada...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Amores trágicos (1)

Aquele biólogo amava as bactérias. Sentia uma atracção irresistível por aqueles pequeninos seres e pelo seu incessante movimento, que observava com prazer horas e horas ao microscópio, bem como a taxa exponencial com que se reproduziam.
Mesmo o facto de algumas delas serem letais para organismos mais complexos não atenuava o amor intenso que sentia por elas. Pelo contrário. Principalmente aquelas que se encontravam na solução cujo período de maturação tinha terminado havia pouco.
Despejou o conteúdo do reactor para um tubo de ensaio. Tinham sido meses de trabalho, partindo de bactérias de agressividade moderada, manipulando cuidadosamente os DNAs, eliminando sem remorsos todas as variantes inúteis para o fim em vista, até chegar àquela estirpe, a arma bacteriológica mais eficiente até então desenvolvida.
Amava-as profundamente, e só tinha pena que elas não pudessem corresponder a esse amor.
Olhou o tubo à transparência. Quem diria que naqueles poucos centímetros cúbicos de líquido residia a capacidade de aniquilar um exército. E eram suas filhas, tinham sido produzidas pelo seu trabalho, não iria deixar que lhas tirassem! Levou o tubo à boca e engoliu o líquido que continha até à última gota.

-- o --

Ficou 3 dias em isolamento total nos Cuidados Intensivos, e durante esse tempo as bactérias destruíram meticulosamente toda a sua rede nervosa, até atingirem o cérebro.
“O grau mais elevado do amor não correspondido é o sacrifício supremo”, foi o seu último pensamento, no momento em que a linha verde pulsatória no monitor à cabeceira passou subitamente a horizontal, e o alarme começou a tocar no gabinete do enfermeiro de serviço.

-- o --

“Entendamo-nos, doutor, é preciso ser um bocado anormal para trabalhar no desenvolvimento de armas bacteriológicas”, dizia o general director do laboratório ao chefe do Serviço de Patologia do hospital. “Mas o nosso biólogo passou-se das marcas... Calcule que se apaixonou pelas bactérias! Felizmente foi fácil recuperar todo o trabalho do computador dele. Nem sequer tinha password, calcule! Bem dizem que o amor é cego...”
E o general riu-se, um riso militar e satisfeito.


Este texto e o que se segue foram escritos para uma antologia de nome "Amores diferentes", a ser editada na Argentina pelo Sergio Vel Hartman, projecto que parece estar adormecido...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Se tivesse olhos, choraria...

Quando mergulho no passado, o que a memória agarra mais facilmente são os acontecimentos desportivos. E são esses, melhor, são aqueles que ganhei que me dá prazer recordar, uma e outra vez, como um videoclip em loop, os aplausos do público, o surto de adrenalina…

O gimnopediatra foi muito claro para os meus pais: “Señores Gonzalez, tendes aqui um futuro campeão. A estrutura óssea é perfeita, a massa muscular apresenta um potencial como raramente tenho observado, o sistema endócrino está preparado para o arranque, os órgãos principais são impecáveis. Todos os exames e análises que realizámos deram os melhores resultados possíveis. Se a sua carreira for cuidadosamente gerida, poderá trazer-vos muitas alegrias… e não menos proveitos.” E aqui o médico esboçou um sorriso cúmplice.

Ao longo do ensino básico, fui praticando todas as modalidades existentes na escola. Era tão bom nos desportos de equipa como nas disciplinas individuais.
No 3º ano do secundário, os meus pais, seguindo as indicações do conselheiro desportivo, inventaram uma doença – um vírus que eu supostamente teria apanhado nas férias numa viagem ao interior do país – que me fez faltar às aulas até perder o ano. No ano lectivo seguinte, integrado numa turma em que os meus colegas eram em média um ano mais novos, fisicamente eu chamava a atenção: fui capitão das equipas de basquetebol e de futebol, ganhei todos os campeonatos internos e inter-escolares de atletismo e natação.
A meio da escola secundária já os olheiros enviados à pesca de novos talentos pelas universidades desportivas de topo me tinham descoberto, e tínhamos recebido várias propostas de bolsas de estudo. A escolha foi bastante demorada, mas terminada a escola secundária lá fui eu para a New Atlantis University.

Era o ano 2035, quando o Comité Desportivo Universal decidiu abolir as proibições ainda em vigor sobre a utilização de produtos químicos ou dispositivos mecânicos ou electrónicos para melhorar os resultados desportivos.
A eliminação do amadorismo, os valores astronómicos relativos às transmissões de televisão, ao merchandizing e à publicidade envolvendo os atletas tinham levado a que a construção de uma carreira desportiva passasse a ser um assunto conduzido por especialistas.

Foi duro, mesmo muito duro. A partir do momento em que atravessei o Portão do Caloiro, deixei de ter qualquer poder de decisão sobre os mínimos aspectos da minha vida. Com base numa cláusula relativamente vaga do contrato, “A Universidade terá direito ao controlo sobre todos os factores que possam afectar o desempenho desportivo do Segundo Contratante”, eles passaram a controlar as minhas horas de levantar e deitar, tudo o que eu comia e bebia às refeições e fora delas, as aulas a que ia e as horas de estudo, as namoradas, e os treinos, os treinos, sempre os treinos, a pressão constante para fazer melhor, mais longe, mail alto, em menos tempo… Vivíamos – todos os estudantes desportistas de alta competição – numa residência separada dos estudantes “normais”, e a nossa vida era controlada por uma comissão a quem a Universidade tinha confiado a tarefa de rentabilizar o investimento que tinha feito com as nossas contratações. Alguns não aguentaram a pressão: houve três desistências – que ficaram a indemnizar a Universidade por muitos anos – e dois suicídios. Neste caso foram os pais que ficaram a pagar, naturalmente.

Até que esse investimento começou a pagar dividendos.

Os sonhos são frequentes. Não sei se são induzidos pela sopa química que me circula nas veias ou um produto directo dos meus neurónios cansados. Chegam sem aviso, e por vezes tenho dificuldade em distingui-los da realidade. Mas fará muito sentido a distinção entre sonho e realidade no estado em que me encontro?
Acabo de sonhar com o dia em que ganhei o campeonato mundial dos 10000 metros, depois de no dia anterior ter ganho o dos 5000. Foi a demonstração irrefutável de que os órgãos artificiais tinham ganho um lugar definitivo no mundo desportivo; o coração que substituíra aquele com que eu nascera tinha trabalhado a 300 batidas por minuto durante ambas as corridas, e os novos nano implantes pulmonares tinham sido capazes de aumentar mais de duas vezes e meia a taxa de oxigenação do sangue.
O público ficou em delírio, tinham sido batidos dois recordes, e por uma margem de quase 15 por cento.

Ao serviço da Universidade ganhei praticamente todas as competições em que entrei. Tinha que dar tudo por tudo, porque as intervenções cirúrgicas para os upgrades que ia fazendo custavam fortunas, e a forma de as pagar era com os prémios recebidos. Até que chegou o dia em que consegui saldar a minha dívida para com a Universidade, e chegar ao objectivo principal de qualquer desportista: iniciar uma carreira como independente.
Mas foram necessários treinadores, uma equipa técnica, uma equipa médica, um manager... Fiz o mesmo que todos: contraí um empréstimo na Sports Insurance Inc, dando como garantia uma hipoteca sobre os meus upgrades.

A época dos Olímpicos é a pior. A televisão por cima da cama transmite ininterruptamente provas desportivas, varrer os canais não traz nada de novo, todos eles transmitem mais do mesmo, e de vez em quando apanho transmissões de arquivo de uma das minhas derrotas, o que me deixa ainda mais deprimido do que habitualmente estou. E aí, o monitor da composição química do meu sangue detecta a alteração do padrão hormonal e injecta uns miligramas de anti-depressivo. E eu fico meio zombie, a olhar para mim no 2º ou 3º lugar do pódio, como se se tratasse de outra pessoa...

O início da minha carreira independente continuou a trajectória ascendente iniciada na Universidade. Mas a indústria médica todos os anos aparecia com órgãos mais perfeitos, próteses mais eficientes, e ou se continuava a escalada dos upgrades, ou se parava de ganhar provas.

Os olhos com que vejo a TV já não são também aqueles com que nasci. A dada altura, para melhorar os meus reflexos no full contact fiz um upgrade onde os cirurgiões eliminaram o ponto cego da retina e melhoraram a visão periférica. Quando comecei a perder competições e falhei o pagamento da hipoteca, foi uma das primeiras coisas que me tiraram, os meus olhos. E hoje vejo através de uma câmara CCD cujo sinal é injectado directamente no meu nervo óptico.

Para a prática dos desportos marciais, os meus ossos foram submetidos a um processo de difusão de nano partículas de titânio e nanotubos de carbono, tornando-os mais resistentes ao choque e ao mesmo tempo mais flexíveis. Quando a hipoteca foi executada, fui levado para uma clínica onde durante algumas semanas aqueles componentes foram extraídos do meu organismo por difusão inversa, deixando o meu esqueleto num estado de fragilidade extrema, osteoporose em fase terminal.

Estava escrito no contrato, mas nós pensamos que vamos conseguir estar sempre com os pagamentos em dia. Até um dia...

Já por vezes me tinha questionado sobre o que acontecera a certos atletas que tinham ganho muitas competições, depois passado por uma fase de segundos e terceiros lugares, e de repente desaparecido de campeonatos e provas, dos jornais e TV. Agora já sei. Fiquei a saber quando dois enfermeiros fizeram rolar a minha cama, com o sistema de suporte de vida acoplado, ao longo daquela enorme enfermaria, até ao lugar que me estava destinado.
Passei por uma cama onde estava Jack Steel, que foi recordista da maratona olímpica durante 10 anos seguidos. E outra com Ray Hoyle, campeão do decatlo, eleito desportista do ano em 5 anos consecutivos. E outro, e mais outro, aquela enfermaria daria para encher um Hall of Fame do desporto mundial.
Como é que dizia o contrato que assinei – que provavelmente todos assinámos – com a Sports Insurance Inc.?
“O Primeiro Contratante obriga-se a envidar todos os esforços para manter vivo o Segundo Contratante.”
E estou seguro que eles cumprirão escrupulosamente esta cláusula.

Se tivesse olhos, choraria.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sexta feira, 13

Citando um autor anónimo, "não sou supersticioso porque dá azar!"

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Transparência

O candidato a deputado tinha uma vida exemplar. Marido fiel, pai extremoso, actividade profissional acima de qualquer crítica...
“Mas esse é o problema!”, dizia o director de campanha.
“O problema é eu ter uma vida irrepreensível?” perguntou o candidato, incrédulo.
“Claro, os eleitores gostam de votar em quem sentem que é como eles. Quem é que nunca deu uma facadinha no matrimónio? Ou passou um sinal vermelho? Ou enganou o fisco numa transacção? Portanto, recapitulando: temos que encontrar uma pequena falha que, numa atitude de transparência, você próprio dirá às pessoas que cometeu.”
“Nunca fumou erva?”
“Não...”
“Mesmo sem engolir o fumo...” sugeria, esperançado, o director de campanha.
“Já lhe disse que não!”
“Uma multa por excesso de velocidade?”
“Nunca.”
“Já bateu num dos seus filhos?”
“Nem uma vez, sou contra os castigos corporais.”
O director de campanha suspirou. Arrumou os papeis, mas antes de se retirar ainda disse ao candidato:
“Pense nisso. Amanhã é o último discurso da campanha. Os seus dois adversários já tornaram conhecidas as suas pequenas fraquezas: um deles com aquela questão da pensão de alimentos do divórcio litigioso, o outro com a participação que teve na falência do Banco Agrícola. Se você não arranja alguma coisa para mostrar, as pessoas vão desconfiar e pensar o que é que estará a esconder... E olhe que as últimas sondagens dão-vos praticamente empatados...”

O candidato ficou a pensar, rememorando a sua vida passada, na tentativa de encontrar alguma coisa que pudesse ser usada na campanha. Foi recuando no tempo, até que... sim, aquilo talvez pudesse servir...

No dia seguinte, no comício de encerramento da campanha, o candidato discursava sobre um mar de gente, balões, bonés, faixas, aplausos:
“(...) e vou confessar-vos uma coisa: há muitos anos, era eu criança, o meu pai tinha deixado umas moedas sobre a mesa de cabeceira, e eu tirei uma moeda e fui comprar caramelos. Anos mais tarde, disse-lhe o que tinha feito e ele perdoou-me... também porque eu tinha dado metade dos caramelos à minha irmã mais nova!”

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sexta feira, 13

foi o dia em que saiu, apropriadamente, o Nº 13 da Minguante, cujo tema era Superstições. Nela poderão ler a minha pequena contribuição "O Conferencista".

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Escrita "condicionada"

Escrever sujeito a condições restritivas constitui um exercício que pode produzir resultados interessantes. Os constrangimentos mais habituais são a extensão (número de palavras ou de caracteres) e/ou o tema.
Os visitantes deste blogue já aqui têm visto referências à revista Minguante, onde tenho colaborado desde o Número Zero (apenas falhei o Nº 3, devo ter-me distraído...).
Cada número da Minguante tem um tema, e cada contribuição não pode exceder 200 palavras. Neste primeiro post do ano, coloquei aqui alguns dos textos que lá tenho publicado. Antes de cada um está a indicação do tema e a ligação para a revista onde podem ler mais textos sobre o mesmo tema.
Para os que se possam sentir tentados, o próximo tema é SUPERSTIÇÃO e a data limite de envio 15 de Janeiro. Mais informações no site...

E Feliz Ano Novo!



Tema: O BANAL

Um conto banal

Era um conto banal. Uma linguagem nem rebuscada nem demasiado simples, um tema que não pecava pela originalidade, descrição do ambiente aceitável, desenho das personagens mediano, um desenrolar da acção – se se lhe podia chamar acção – sem surpresas. Banal era de facto uma classificação perfeitamente ajustada. Foi enviado para o concurso de contos porque o autor não tinha mais nada escrito e era o último dia do prazo.
Inesperadamente – ou talvez não – obteve o primeiro prémio. Numa transcrição parcial da acta da reunião do júri, constituído por três críticos literários muito cotados na praça, pode ler-se:
“(...) descrição pungente mas ao mesmo tempo com uma distanciação brechtiana da bidimensionalidade da vida nos subúrbios das grandes cidades (...) personagens vazias como vazio é o seu quotidiano (...) desde o fim do nouveau roman que não surgia uma obra literária que tão bem representasse a angústia sem objectivos de uma classe média em processo de atomização (...)”
O autor ficou entusiasmado com aquilo que o júri tinha conseguido ler no seu conto. Sentou-se logo ao computador e começou a escrever um segundo. Sim, porque ideias para contos daqueles tinha ele aos montes...



Tema: O AZUL

A guerra das cores

No país azul, tudo era azul (daí o nome) e todos viviam felizes. Do azul marinho ao azul celeste, uma vasta gama de azuis resplandecia nas pessoas e coisas. Consta que foi neste país que George Gershwin escreveu a famosa Rhapsody in Blue. Do outro lado da fronteira era o país amarelo, cujos habitantes não gostavam dos azuis, nem um bocadinho. E vai daí, uns amarelos infiltraram-se no país dos azuis e espalharam na água um pó amarelo que aos poucos começou a combinar-se com os azuis nativos e a dar verdes. Os cientistas azuis puseram-se ao trabalho e em pouco tempo inventaram um pó anti-amarelo, que neutralizava o efeito do ataque dos vizinhos. Os azuis eram pacíficos por natureza, mas tinham que dar uma lição aos amarelos. Inventaram um pó vermelho e um avião azul sobrevoou o país amarelo e libertou o pó no ar. Tudo o que era amarelo começou a ficar laranja. E enquanto a azulidade voltava lentamente ao país azul, os laranjas (antigos amarelos) coçavam-se todos, porque ainda por cima eram alérgicos aos citrinos.
Foi muito bem feito!



Tema: A MUDANÇA

Todo o mundo é composto de mudança

– Que escreveis, Luis Vaz?
– Um soneto, senhora.
– Deixai-me ler: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança (...)
– Perante isto, que é do amor eterno que ontem juráveis?
O poeta ficou calado. Ao fim de uns segundos, uma gargalhada cristalina quebrou o silêncio:
– Não vos amofineis, Luis Vaz. Às vezes me apraz zombar um pouco de vós. Eu também li Petrarca e os outros mestres. Sei bem que o “eterno” dos amantes só o é enquanto dura a paixão... E Caterina de Ataíde rematou sorrindo:
– Estarei à vossa espera onde sabeis, à hora que sabeis. E agora dou-vos a Deus, Luis Vaz.
O roçagar de rendas e sedas fica nos ouvidos de Camões enquanto Caterina se afasta correndo. Suspirando, o poeta dirige-se ao Malcozinhado, onde combinou com seus amigos jogar aos dados um canjirão de vinho. E na sua cabeça começa a surgir outro poema para ofertar a Caterina: Senhora partem tão tristes / Meus olhos por vós meu bem...
E descendo a calçada vai saudando os vadios e as rameiras com quem se cruza, que lhe retribuem as saudações com rasgados sorrisos.



Tema: A AUSÊNCIA

A ausência do professor

Quando na disciplina “Filosofia Tradicional Portuguesa” ia ser discutida a ausência, o professor ausentou-se. Isto passou-se há já uns anos, mas como era do quadro, é preciso que passem 20 anos sobre o seu desaparecimento para poder ser aberto concurso para a sua substituição.

A ausência do doente

“Esta ausência dói-me, senhor doutor!” “Deixe ver, senhor Francisco. Hum, isto está de facto com mau aspecto...” “É grave, senhor doutor?” “Grave, grave, não é, mas o tratamento que lhe vou fazer não é comparticipado...” “Oh senhor doutor, eu quero é ficar bom!” O médico abriu uma gaveta e retirou uma presença. Aplicou-a sobre a ausência. Não foi suficiente. Aplicou uma segunda presença. Agora sim, conseguiu neutralizar a ausência. “Era uma ausência bem grande, senhor Francisco.” “Sinto-me muito melhor, senhor doutor. Muito obrigado.” “Ora essa, senhor Francisco. Desejo as melhoras. Pode pagar na recepção.”



Tema: CELEBRAÇÃO

Concelebração

– É célebre?
– Celebérrimo! Uma verdadeira celebridade.
– Então temos que celebrá-lo.
– Mas se já é célebre, para quê a celebração?
– Porque só se celebra o que já foi celebrizado.
(Pausa)
– Tenho uma dúvida...
– Que não viessem as célebres dúvidas. De que se trata?
– Como é que alguém se torna célebre?
O meu amigo ia responder-me quando apareceu o celebrante. Ia começar a celebração, mas chegou um segundo e depois um terceiro. Estes celebrantes quando lhes cheira a celebração, são como moscas ao mel!
Pareceu que iria haver uma discussão que ficaria célebre, mas rapidamente se puseram de acordo e fizeram uma concelebração.
E todas as celebridades presentes celebrizaram efusivamente.
E como o meu amigo não me chegou a responder, continuo com a minha dúvida...



Tema: ESPELHOS

Só nos encontramos nestas ocasiões

Eram uma família unida. Veio o primo do ramo das confecções (trabalhava num provador da Zara), o tio académico (meteu uns dias de licença no Hubble), a prima jet-set (ninguém a via fora da carteira Prada), todos no velório do espelho retrovisor, brutalmente esmigalhado naquele infausto acidente rodoviário.



Tema: A LEVEZA

Um planeta leve

Era tudo ao contrário naquele planeta (bem, nem tudo...). Os vendedores nos mercados faziam batota com as balanças para indicar mais leveza no artigo vendido, e os fiscais traziam pesos para compensar essas habilidades dos chico-espertos. As pessoas quando preocupadas sentiam o coração leve e no Brasil de lá (que ficava naturalmente no hemisfério norte) não se usava obviamente a expressão “barra pesada”.
Caía-se para cima, logicamente, o que tinha como desvantagem estar o espaço em volta do planeta juncado de detritos (eu disse que nem tudo era diferente...).
Ganhar peso tornou-se uma moda e os ginásios multiplicavam-se como cogumelos. Só que em vez de exercício físico serviam refeições pantagruélicas.

Início de balada

“Batem leve, levemente...”, pensou o gatuno, que era bastante surdo, quando lhe bateram à porta. Na realidade, eram dois agentes da polícia munidos de um mandado de busca.



Tema: DESEMPREGO

Empregado, desempregado, ou mal empregado...

Não se viam desde o 9º ano. Quando se encontraram, abraçaram-se efusivamente.
“Então que fazes?”
“Olha, tirei Psicologia, depois fiz o Mestrado, não arranjo emprego na minha área, trabalho como caixa no Continente. É a vida! E tu?”
“Estou desempregado.”
“Que chato, pá!”
“Não é nada chato! Depois do 9º ano fui para uma escola profissional aprender de electricista. Faço uns biscates, trabalho não falta, sem recibos, claro, e estou a receber do Fundo do Desemprego. Não é mau...”



Tema: VÍCIOS

3 estórias viciosas


1. A influência do ambiente

No jardim das virtudes, bem no meio delas, nasceu um dia um vício. Quando deu por isso, estava virtuoso...


2. Diagnóstico

Era um verdadeiro viciado em virtude... (Aqui entre nós, era um verdadeiro chato!)


3. Não tinha mau fundo...

Toda a gente afirmava que ele era um poço de virtudes; a roldana e a corda é que estavam viciadas. E o balde também...



Tema: O DESEJO

Os caminhos do Desejo

O Desejo chegou a uma bifurcação no seu caminho. Se fosse pela esquerda, que conduzia a Frustração, continuaria a existir; se seguisse pela direita, que levava a Satisfação, morreria, naturalmente.
Incapaz de decidir, angustiado pela escolha a fazer, o Desejo suicidou-se, indesejando-se.
Algum tempo depois, naquele mesmo sítio, um Desejo pequenino brotou de uma fenda entre duas pedras, e dia a dia foi crescendo, tornando-se cada vez mais forte...



Tema: FADO

Generation gap

– O que é isto que estás a ouvir?
– Fado.
– É estranho...
– Pois é, há quem goste, outros não...
– A música é assim tipo meio fixola, mas do que é que ela fala?
– Da tristeza, da ausência, da saudade...
– Que seca!
– Hás-de vir a gostar...
– Eu? Quando?
– Quando fores um cota como eu!
– Eu? Eu nunca vou ser um cota como tu!
– Santa ignorância...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A Asa de Pedra


Ao longo dos anos,
A água inscreve na rocha
Uma lição de física



Erosão hídrica na Calçada de Alpajares, Parque Natural do Douro Internacional, Freixo de Espada à Cinta.