quarta-feira, 10 de outubro de 2018
domingo, 22 de julho de 2018
Uma noite na Quinta da Regaleira
Deixei o carro à saída de Sintra e fiz o resto do percurso a pé. Fui andando cuidadosamente pela berma da estrada até encontrar o muro da quinta. Continuei mais um pouco e do escuro surgiu o André, tão de súbito que me assustou.“Calma, sou só eu. Vamos lá!”
Colocou às costas a mochila que tinha no chão e eu segui atrás dele durante umas dezenas de metros até que ele parou e disse:
“É aqui.”
O muro tinha naquele ponto umas pedras salientes que o tornavam muito fácil de escalar. Rapidamente estávamos dentro da quinta. A lua já tinha nascido, e fomos seguindo sempre pela berma dos caminhos, utilizando a sombra das árvores, na direcção do Poço Iniciático. Chegados à entrada do Poço, dei comigo a pensar como raio tinha vindo parar a esta aventura…
………………
Desde muito novo sempre gostei de cenas ligadas ao oculto: histórias de fantasmas, filmes de terror, coisas assim. Isto fez-me conhecer muita gente com os mesmos interesses, em encontros literários, festivais de cinema, na Net…Já não me lembro em qual delas conheci o André, e ao longo dos anos fomo-nos tornando amigos.
Tendo eu próprio como hobby a escrita, o ocultismo interessava-me como tema de ficção, como um faz de conta, como uma área com potencial para produzir narrativas interessantes. Foi com alguma surpresa que tomei consciência de que algumas pessoas realmente acreditavam em algumas daquelas histórias.
Uma dessas pessoas era o André.
Falava-me de vez em quando de um seu tio-avô, grande estudioso das ciências do oculto, que se correspondia com ocultistas de todo o mundo e organizava sessões de espiritismo. Esse seu antepassado vivia num solar na Beira, onde ele ia com alguma frequência pesquisar a biblioteca que lá tinha ficado. No regresso de uma dessas visitas encontrei-o entusiasmado.
“Já te disse que a biblioteca do meu tio-avô é um manancial de literatura ocultista. Imagina o que lá descobri desta vez!”
Com o que me pareceu verdadeira reverência, tirou da pasta que trazia um livro que me passou para as mãos. Encadernação a couro, tinha na capa escrito em letras douradas, ‘O Verdadeiro Método de Invocar os Mortos e Outros Espíritos que Habitam o Mundo do Além, escrito por O Guardião do Portal, impresso em França no ano MDCCLXXX’. Folheei-o rapidamente, e pareceu-me um repositório de receitas do tipo Livro de São Cipriano, mas obviamente mais antigo. Claro que não disse isto ao André; elogiei o livro e acrescentei qualquer coisa do género “A biblioteca do teu tio deve estar cheia de preciosidades” e ficámos por aí.
Estive algum tempo sem ver o André. Quando me apareceu subitamente no café onde costumo parar, vinha eufórico.
“Pá, tenho andado a estudar o livro que te mostrei da última vez. Muito detalhado, com descrições precisas dos procedimentos. Já preparei uma invocação e preciso da tua ajuda.”
“Preparaste o quê? E quem te disse que eu estava disposto a alinhar nisso, o que quer que seja?”
“Tens de vir, é o teu autor favorito, Edgar Allan Poe!”
“O quê, tu vais invocar o espírito de Poe?”
“Oh, yeah…”
“Para lhe perguntar o quê?”
“Bom, ainda não pensei muito bem… Oh pá, mas um tipo que morre aos quarenta anos tendo escrito o que ele escreveu, deve ter muita coisa a dizer…”
“Isso vai dar merda…”
“Não vai nada, pá! E descobri o sítio ideal para a invocação: o fundo do Poço Iniciático, na Quinta da Regaleira. Estive a fazer uns cálculos, e depois de amanhã uma altura óptima, porque a lua cheia vai passar praticamente na vertical do Poço por volta da meia-noite.”
Nem sei bem como, mas o tipo conseguiu espicaçar-me a curiosidade até obter o meu acordo em o acompanhar nesta aventura idiota.
E aqui estávamos nós a entrar no Poço Iniciático.
………………
André descia à frente com uma lanterna. Comecei a contar os degraus, mas quando cheguei a cem escorreguei, porque o piso ia ficando mais húmido, e com o esforço para me equilibrar distraí-me na contagem. Mais um pouco e chegámos ao fundo do Poço.
Pousou a lanterna no chão e da mochila tirou 5 velas, que dispôs em círculo, usando como referência pontos da rosa dos ventos embutida no chão. Quando lhe disse que as velas não estavam a igual distância, respondeu-me que no livro dizia que isso não era importante, e eu calei-me.
Tirou da mochila um livro que colocou no centro da rosa dos ventos, e explicou-me que era o volume de contos de Poe recentemente editado. Enquanto realizava estas operações olhava para cima, para a abertura do Poço, com alguma ansiedade. Até que vimos a lua começar a surgir no buraco negro da abertura.
Nessa altura despejou sobre o livro gasolina de um frasco que trazia no bolso e pegou-lhe fogo. As chamas rapidamente ganharam altura.
Aí começou a entoar uma ladainha numa língua para mim desconhecida, presumo que fosse a invocação que tinha aprendido no livro da biblioteca do tio-avô. Pelo meio só reconhecia de onde em onde as palavras Edgar Allan Poe.
De súbito levantou-se um vento no fundo do poço, que apagou as velas e o fogo que consumia o livro e perante nós apareceu Edgar Allan Poe, ou a sua imagem, e era óbvio que não estava satisfeito.
“Estúpidos viventes, por que viestes perturbar o meu repouso? Não fazeis a mínima ideia do tipo de energias com que estais a interferir! A fronteira que separa os nossos mundos é muito fina e pode facilmente romper-se com as vossas acções irreflectidas. De facto, neste preciso momento aproxima-se Lovecraft acompanhado das criaturas medonhas fruto da sua imaginação. Não sei se conseguirei segurá-lo enquanto a fronteira se reconstitui. Fugi daqui, imbecis inconscientes, fugi enquanto é tempo!”
Corremos para o início dos degraus e continuámos a correr escada acima tão depressa quanto podíamos. Entretanto o Poço era varrido por um vórtice, o ruído que fazia parecia o reactor de um avião a meia dúzia de metros. Só quando chegámos ao nível superior o movimento do ar amorteceu.
Fizemos rapidamente o caminho de regresso até ao ponto onde tínhamos saltado o muro. Chegámos aos carros e cada um foi para casa.
………………
Não tornei a falar com o André nem tenho grande vontade de o fazer. Naquela noite, por culpa dele, apanhei o maior susto da minha vida!
Também nunca mais voltei à Quinta da Regaleira…
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
As vírgulas perdidas de Saramago
O meio literário foi recentemente agitado por uma descoberta só equiparável à da famosa arca de Fernando Pessoa.As vírgulas (e restantes sinais de pontuação) que Saramago não colocou nos seus romances, e que se conjecturava pudessem ter sido destruídas pelo famoso escritor, foram encontradas há cerca de um mês numa cave da sua casa em Lanzarote.
A equipa responsável pelo achado, pertencente ao Departamento de Arqueologia Literária da Universidade de Peniche e Berlengas, é a mesma que encontrou os maços de cigarros vazios amachucados de António Lobo Antunes e as esferográficas roídas na ponta com as quais Rodrigues dos Santos escreveu os primeiros drafts das suas obras primas.
“São gavetas e gavetas cheias de vírgulas”, disse o investigador chefe da equipa, “mas tudo muito arrumadinho, uma gaveta para cada romance”.
O ministro da Cultura, de visita a uma exposição das penas de pato utilizadas por Camilo Castelo Branco na escrita de ‘Amor de Perdição’, fez uma breve declaração, congratulando a equipa pela descoberta das vírgulas perdidas de Saramago.
“Um acontecimento notável no meio literário português”, declarou o ministro.
domingo, 23 de julho de 2017
A Mina das Palavras
Às oito é a mudança de turno. Os trabalhadores que saem passam pelas cabines de inspecção onde são submetidos ao Teste de Chomsky-Jakobson, que essencialmente consiste na recitação de frases padrão para detecção de palavras escondidas. Alguém que seja apanhado a contrabandear palavras é submetido à inibição. Ficar 3 meses sem conseguir falar e a comunicar apenas por gestos é um castigo bem duro, mas o pior é a marginalização, não raro violenta, que a sociedade pratica contra os traficantes de palavras. Quem for apanhado segunda vez… não se sabe qual a pena, porque ninguém foi apanhado segunda vez.Desde há muito se conhece o poder das palavras. O homem lembra-se de ouvir o seu avô - que foi mineiro toda a vida e que o criou após a morte prematura dos seus pais - dizer mais que uma vez, quem controla as palavras, controla tudo. Toda a fileira das palavras é um monopólio do Estado. A mineração, as operações de processamento intermédio, a embalagem, a distribuição, a venda final.
Qualquer cidadão, quando inquirido, tem de demonstrar que está autorizado a usar o vocabulário que possui. A PdP - Polícia das Palavras - é a entidade com poderes para deter, interrogar, castigar ou eliminar alguém que tenha um comportamento desviante em relação às palavras.
O homem, cuja identificação é M2067, uma cara inexpressiva no meio de muitas outras - passar despercebido é uma arte que se aprende - desce no elevador que leva os mineiros desde a entrada até ao nível -6, o mais profundo em exploração. O homem tem um segredo, é ventríloquo, o que lhe permite pronunciar palavras enquanto tem outras alojadas nas cordas vocais. Nunca deixes que ninguém descubra este teu dom, nem digas a ninguém que o tens, era o aviso diário do avô. Se esta sua característica, que o torna num perfeito contrabandista de palavras, fosse conhecida das autoridades, M2067 (apenas 67 para os companheiros de turno) seria sumariamente anulado e o seu corpo enviado para as câmaras de reciclagem. Por isso ele é em extremo cauteloso e procura sempre apagar-se no meio dos seus camaradas mineiros.
Em certos sectores da mina, à mistura com palavras triviais tendem a aparecer em grande quantidade palavras relacionadas com um tema comum. M2067 esteve há algumas semanas a trabalhar na galeria 129, com um filão de teor muito elevado em palavras como “empreendedor”, “mercados”, “ajustamento”, “ambição”, “empréstimo”, “austeridade” e outras do mesmo tipo. Soube por um dos funcionários administrativos da mina que há países grandes compradores desta classe de palavras.
Enquanto caminha, 67 vai repassando o mapa da mina na sua cabeça. Embora nunca o dê a entender, ele conhece a mina melhor que os engenheiros que dirigem a exploração. As horas passadas com o avô a memorizar localizações de poços e galerias foram extremamente valiosas; o velhote tinha trabalhado na mina uma vida inteira e seria capaz, se fosse necessário, de percorrê-la de olhos fechados. Tens de encontrar a galeria dourada, dizia-lhe muitas vezes, e a forma como o dizia levava o homem a pensar que aí estaria a solução para mudar, não sabe bem o quê, porque não tem palavras para o definir.
À equipa de que faz parte foi hoje atribuída uma galeria com palavras pouco valiosas: preposições, artigos, palavras com uma sílaba, duas sílabas, raras com três sílabas. Apesar do seu baixo valor, são estas palavras que que formam a base da conversa corrente, pelo que há que extraí-las constantemente. É abundante o veio destas palavras baratas, e os homens vão enchendo vagonetas de palavras que são empurradas até ao monta-cargas que as transporta para à superfície, onde são submetidas à lavagem e seguidamente à triagem, onde são separadas por categorias, embaladas e enviadas para a distribuição.
Enquanto vai fazendo o seu trabalho, 67 está sempre atento a palavras valiosas que por vezes aparecem incrustadas em aglomerados de palavras quase sem valor. Foi quase por acaso que há dois anos descobriu a palavra “irrevogável”. Conseguiu escondê-la, contrabandeá-la para fora da mina e vendê-la a uma rede especializada em “exportação”. Disse-lhe mais tarde o seu contacto na rede que tinha sido vendida a um político estrangeiro.
É a meia-hora para almoço e os homens espalham-se e sentam-se ou deitam-se para descansar um pouco, comendo qualquer coisa das lancheiras que trouxeram. M2067 desloca-se para uma zona menos iluminada e quando vê que ninguém está a olhar afasta-se rapidamente, em direcção a uma entrada de galeria bloqueada por onde passaram antes de chegar à face onde estão agora a trabalhar. Ele sabe que uma entrada bloqueada significa que do outro lado há palavras que a direcção da mina decidiu não extrair. Pode ser simplesmente um filão esgotado.
67 examina o cadeado que prende a corrente para ver se será fácil forçá-lo, quando na sua cabeça ressoa um dos conselhos do avô, procura nos sítios menos óbvios. Recua, passeia o feixe de luz da lâmpada a toda a volta e há uma zona na parede oposta da galeria que atrai a sua atenção, umas partículas de poeira que dançam no foco da lâmpada, aproxima-se e sente uma corrente de ar que sai de uma fenda debaixo de uma pedra saliente. O homem hesita um momento, tira o ferro que traz entalado no cinto e começa a picar por baixo da pedra. O material da parede é friável e com poucos minutos de escavação obtém uma abertura suficiente para rastejar através dela. Do outro lado é uma galeria, não tão larga como as que estão em exploração, onde tem que haver largura para os carris das vagonetas. Antes de prosseguir por essa galeria, o homem tapa a abertura por onde entrou, de modo a torná-la não detectável a quem passar do outro lado.
A galeria prolonga-se por algumas dezenas de metros, que o homem percorre, devagar, explorando com a luz da lâmpada à sua volta à medida que vai progredindo. De súbito a galeria desemboca numa câmara bastante mais vasta, e o mineiro fica extasiado com o que vê. Há veios riquíssimos que percorrem as paredes, e são palavras que o homem nunca encontrou, mas que sabe instintivamente que são palavras importantes, porque ao serem pronunciadas é como se abrissem janelas na sua mente: “liberdade”, “justiça”, “igualdade”, “solidariedade”, “democracia”, “fraternidade”. Esta só pode ser a Galeria Dourada de que o avô lhe falava, e estas palavras que estão ali à espera de serem extraídas e usadas ele terá que as passar a outros. E ganha subitamente a consciência que, a partir de agora, esse será o objectivo da sua vida.
quinta-feira, 29 de junho de 2017
A TERTÚLIA DOS QUE NÃO VIAJAM
Dedicado aos 100FUGAS
Não é um grupo grande. A admissão de novos membros é feita por convite, após discussão e concordância unânime de todos os tertulianos.
A ideia base do grupo é bem simples: para quê ir visitar a grande muralha da China imerso numa multidão de chineses, levando empurrões e pisadelas, quando se pode apreciar a arquitectura daquele famoso monumento na fotografia em papel couché de um guia de viagens ou numa imagem no ecrã de um computador? Que prazer se tira de visitar Veneza e observar um canal malcheiroso engarrafado de gôndolas transportando turistas tirando selfies, comparado com o que resulta da observação do mesmo canal numa foto cuidadosamente enquadrada, com uma única gôndola para dar a atmosfera local?
A tertúlia reúne regularmente nas noites de quinta-feira, na sala de jantar da leitaria Estrela da Manhã, por amável cedência do proprietário. Há nesse dia folga do pessoal e a leitaria não serve jantares.
As sessões seguem invariavelmente o mesmo formato. Sob a presidência do decano, que declara aberta a sessão, um dos membros, designado na semana anterior, inicia a palestra com a frase ritual: “Eu nunca estive em…” seguida do nome de uma cidade. E então descreve com detalhe os pontos de interesse da referida cidade, castelos, pontes, igrejas, estátuas… Quando há anos a tertúlia começou, os materiais de apoio eram basicamente folhetos das agências de viagens e publicações editadas pelos organismos locais de turismo, que eram passados de mão em mão para apreciação dos tertulianos. Mas com o desenvolvimento das novas tecnologias as apresentações foram-se tornando mais sofisticadas, incluindo informações e fotografias obtidas através do google ou da wikipédia, visualizadas usando um projector ligado a um computador portátil.
O decano da tertúlia é o Esteves da papelaria, alvo do respeito de todos os tertulianos por nunca ter viajado! Nado e criado no bairro, herdou a papelaria por morte do seu pai, e é ele o grande animador daquele grupo.
Naquela noite era a vez do Antunes, dono da oficina de bate-chapa, conhecido entre os amigos por “come e bebe”, devido à sua atracção pelos prazeres da mesa. A sua alcunha estava perfeitamente ajustada ao seu aspecto físico.
A um sinal de Esteves pronunciou a frase ritual: “Eu nunca estive em Segóvia”.
E iniciou a sua apresentação com uma descrição bem organizada da cidade património mundial, localização na comunidade de Castela e Leão, o Alcazar, com o Real Colégio de Artilharia, a Catedral - as palavras iam acompanhando bonitas imagens obtidas na Net - a Casa de los Picos - muito parecida à nossa Casa dos Bicos, comentaram alguns tertulianos - , o cemitério judaico, o Castelo, a Casa de la Moneda, onde ao longo de trezentos anos foi cunhada a moeda espanhola, o aqueduto romano, construído no primeiro século da era cristã e que transportava água para a cidade desde o Rio Frio a cerca de 17 quilómetros…
“E à sombra do aqueduto há um restaurante onde se come o melhor pulpo asturiano que eu já alguma vez…”
O Antunes calou-se subitamente, ao tomar consciência de que se tinha deixado levar pelo entusiasmo… A cara começou a ficar vermelha, e a sua atrapalhação atingiu o pico quando viu o olhar de reprovação do Esteves.
Este apenas disse: “A forma como falaste leva-me a concluir que já estiveste em Segóvia, o que torna a frase com que iniciaste a tua apresentação – Eu nunca estive em Segóvia - obviamente falsa. Se tens alguma coisa a declarar em tua defesa, fá-lo agora. Se não, e em consequência da violação do artigo 2º dos Estatutos, deixas neste momento de pertencer à Tertúlia dos que não viajam, pelo que peço que te retires.”
De olhos baixos, o Antunes saiu da sala.
O Esteves consultou um livrinho de apontamentos e anunciou: “Na próxima sessão a apresentação ficará a cargo do Joaquim. Está encerrada esta sessão.”
Os membros da tertúlia foram saindo em pequenos grupos, comentando entre si, em voz baixa, o que se tinha passado. Esteves foi o último, arrumou o projector e o computador portátil, de que era fiel depositário, apagou a luz e ao passar pelo balcão despediu-se do dono da leitaria, agradecendo a cedência do espaço.
Uns minutos mais tarde, Esteves subia as escadas carcomidas do velho prédio onde vivia. Entrou no 2º Esquerdo e fechou a porta com duas voltas da chave. Pousou a maleta com o computador e o projector e foi direito a uma gaveta da cómoda antiga, que abriu e de onde extraiu um envelope amarelecido pelo tempo. Deste tirou uma fotografia e meia dúzia de papeis de rebuçado, cuidadosamente alisados. A foto mostrava um casal e uma criança, tendo como fundo um edifício com um letreiro que anunciava: Galerias Preciados.
Observou a foto durante algum tempo. Ainda recordava com saudade aquela viagem com os pais a Badajoz, no ano em que fizera o exame da 4ª classe. Mas a sua reputação como decano da tertúlia sobrepunha-se a tudo o resto.
Colocou a fotografia e os papeis dos Caramelos Viuda Solano num cinzeiro e chegou-lhes a chama de um isqueiro. Ficou a olhar as chamas que em menos de um minuto fizeram desaparecer foto e papeis em fumo e cinza.
Foi deitar-se aliviado. A sua posição como decano continuava sólida. As provas de que alguma vez tivesse viajado tinham sido totalmente destruídas.
terça-feira, 16 de maio de 2017
quarta-feira, 13 de julho de 2016
3 MICROCONTOS SOBRE O CANTO E A VOZ
Límpida como cristal
Era uma soprano extraordinária. Corriam várias histórias a seu respeito, havia quem assegurasse ter estado presente num recital em que a sua voz tinha feito um copo de cristal vibrar até se ter estilhaçado. Mas a maior parte colocava essas histórias na categoria “mitos urbanos”.
Em 2045, foi naturalmente convidada para o concerto comemorativo dos nove séculos decorridos desde o início da construção da catedral de Chartres. O templo tinha sofrido obras de restauro, e a pedra das paredes e colunas levara um tratamento superficial destinado, segundo os engenheiros de som autores do projecto, a melhorar o balanço entre o som absorvido e reflectido em todo o interior.
Teve início a Missa pro vocem angelorum e a assistência aguardava, expectante, o início do solo da soprano. Começou piano, e foi ganhando intensidade enquanto o coro ia diminuindo. Quando atingiu o fortissimo as mais de 150 janelas da catedral entraram em ressonância e numa fracção de segundo os vitrais do século XIII caíam estilhaçados no chão de pedra da catedral. Nem um escapou!
A Voz
No princípio era a Voz. A Voz primordial era simples, pouco mais que uma vibração, mas nela pulsava o universo. E durante milhões de anos foi o único som. Quando a Voz encontrou as pedras e as plantas, umas e outras reagiram à Voz e assim nasceram as vozes.
Depois apareceram os animais, com vozes que se moviam, e as vozes estáticas das pedras e das plantas foram lentamente desaparecendo.
Surgiu o homem e a sua voz foi evoluindo desde os gritos dos caçadores/recolectores até às canções de Schubert e às óperas de Verdi.
A Voz primitiva, que há milhões de anos tinha adormecido, acordou. E não gostou das vozes que ouvia. E apagou-as. E durante muito tempo só se ouvia a pulsação da Voz.
E quando a Voz adormeceu de novo, ficou só o silêncio. Ensurdecedor.
O solista da Cantata
O coro abrilhantava todas as cerimónias litúrgicas que tinham lugar na velha igreja do mosteiro. O irmão Bonifácio era um dos solistas, juntamente com os irmãos Torcato e Salvador, e o irmão Francisco, que dirigia o coro, andava há três semanas a ensaiar a famosa cantata atribuída a um dos fundadores do mosteiro, para ser incluída na missa do dia do santo padroeiro. Nenhum dos solistas se atrevia a perguntar ao irmão Francisco – conhecido pelo seu feitio difícil – quem iria cantar os solos.
O irmão Bonifácio queria desesperadamente ser o solista naquele dia, entre outras razões porque o Bispo viria presidir à cerimónia. E arquitectou um plano para que isso acontecesse. Não era um plano totalmente benévolo, mas nada que uma confissão bem feita não pudesse lavar.
Como trabalhava na farmácia do mosteiro, os seus conhecimentos sobre ervas medicinais e os seus efeitos eram superiores à média. Fez um preparado com várias ervas que misturou disfarçadamente na comida do irmão Salvador. No dia seguinte o pobre monge tinha a pele coberta de borbulhagem e o abade, receoso de que fosse algo contagioso, fez transferir Salvador para uma enfermaria reservada aos casos clínicos mais graves.
Quanto ao irmão Torcato, uma infusão misturada na sua malga do chá provocou-lhe um tremendo ataque de disenteria que levava o monge a correr periodicamente em direcção às latrinas.
Com o caminho livre, Bonifácio esmerou-se na preparação da cantata, queria ter a certeza que a cantaria o melhor possível.
E no entanto, “O homem põe e Deus dispõe”. Na madrugada do dia marcado uma violenta tempestade assolou a região. A carruagem onde viajava o Bispo ficou atolada na lama a pouco mais de uma légua do mosteiro, e várias árvores arrancadas pelo vento bloquearam diversas estradas, tornando as deslocações na região extremamente difíceis. Mesmo na cidade, a chuva forte e o vento impediram a grande maioria dos fiéis de se deslocarem à igreja. E o irmão Bonifácio cantou os solos para uma assistência constituída pelo sacristão, duas velhotas que moravam numa casa a poucos metros da igreja e dois ou três mendigos que tinham procurado o abrigo da igreja para fugir à intempérie.
sexta-feira, 4 de março de 2016
Na esteira do TTIP (1)
O senhor Francisco, reformado, que costumava apanhar sol nas manhãs de Inverno num banco de jardim, foi intimado pela Polícia a deixar de o fazer.A multinacional distribuidora de electricidade ameaçou processar o Estado Português porque os hábitos de milhares de reformados como o senhor Francisco são lesivos da sua espectativa de lucros futuros.
"Se têm frio que se aqueçam em casa, com os eficientes aquecedores eléctricos vendidos pela nossa cliente", comentou off the record um porta-voz da sociedade de advogados que representa legalmente a multinacional.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
O país das sombras e da luz
Naquele país havia um sol que brilhava sempre e as pessoas usavam a sombra que ele produzia para se orientarem. Seguiam a sombra ou a direcção oposta, e a vida era simples de levar.Mas as alterações climáticas trouxeram um denso nevoeiro, as sombras desapareceram e os habitantes daquele país ficaram totalmente desorientados, porque a direcção da sombra era para cada uma sua única linha de referência.
E a situação poderia ter-se tornado catastrófica, não fora a ideia que ocorreu a um cidadão de fabricar um chapéu munido de uma haste curva com uma pequena lâmpada na ponta. Postos à venda, toda a gente correu a comprar, de forma que cada habitante podia agora tomar as suas decisões como fazia antes de surgir o nevoeiro.
Houve uma proposta no sentido de nomear este cidadão “Salvador da Pátria” mas ele, modestamente, apenas aceitou o título “Aquele que devolveu a cada um a sua sombra”.
domingo, 27 de setembro de 2015
Mais um passo para a internacionalização :)
http://minimalismoscuentos.blogspot.com.ar/2015/09/open-day-joao-ventura.htmlquarta-feira, 5 de agosto de 2015
Crónica breve das 64 casas
O Rei Negro era um tirano. Oprimia Peões e Cavalos sem dó nem piedade. Com a conivência dos Bispos, prendia e sacrificava dissidentes, numa exibição gratuita de poder absoluto. As tensões foram-se acumulando.Quando aconteceu, a revolta no campo negro foi imparável. Um dos Bispos ainda conseguiu fugir por uma diagonal mal vigiada, mas o outro foi agarrado e pisado pelos Cavalos e ficou irreconhecível. A Rainha, porque tinha atenuantes, foi encerrada numa Torre. Mas o Rei foi preso, julgado, condenado e executado.
Mal as notícias vindas do outro lado do tabuleiro chegaram ao campo branco, o Rei Branco convocou um parlamento, abdicou e proclamou a república.
Nunca mais houve jogos naquele tabuleiro.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
SETE DIAS NUM UNIVERSO PARALELO
Este texto é dedicado à memória de Luís Alves,saudoso amigo com quem muitas vezes conversei
sobre a necessidade de um Serviço Nacional de Saúde
numa sociedade que pretendemos justa.
Dedico-o também aos profissionais de saúde
que me trataram durante estes sete dias,
a quem as dificuldades que lhes têm sido impostas
não inibem de cuidar dos doentes
com profissionalismo e simpatia.
Para eles o meu reconhecimento.
DIA PRIMEIRO
Há diversas formas de efectuar a transição entre universos. A minha passagem foi relativamente trivial. Na madrugada do dia 24 de Abril de 2015 sofri uma queda desamparada, seguida por dores muito fortes na perna direita. Chamado o 112, chegou rapidamente uma equipa do INEM que após analisar a situação me colocou numa cadeira de rodas na qual me transportou até à ambulância onde fui acomodado e imobilizado numa maca. Fui então conduzido ao Hospital de Santa Maria, um dos portais de entrada no universo paralelo conhecido como Serviço Nacional de Saúde.
Passada a triagem, assegurada por uma radiografia, um electrocardiograma e uma análise ao sangue, uma médica anuncia-me o diagnóstico e o que se seguirá: tenho uma fractura do colo do fémur / tenho de ser operado / vou ser internado.
É desta forma que entro no universo paralelo.
Sou conduzido ao local onde vou viver nos próximos dias, um quarto/enfermaria onde vou coabitar com mais três doentes. Dois enfermeiros ligam-me a perna e colocam uma espécie de tala, ligada a um contrapeso que mantém a perna sob tracção. Creio que a ideia é que a fractura não comece a consolidar de forma errada.
Dores? Nem sempre, só quando mexo – ou me mexem – a perna. O que é inevitável nas mudanças de posição na cama. O paracetamol intravenoso vai controlando a situação. Mas quando dói, dói mesmo.
Começo a aprender a estrutura e funcionamento do universo paralelo.
DIA SEGUNDO
A luz no universo paralelo não segue os padrões circadianos. Os espaços podem ser inundados por uma luz branca, crua, se for necessário para o tipo de actividade a realizar, ou quase totalmente obscurecidos para conforto dos internados.
A alternância sono/vigília sofre alterações. Dorme-se mais irregularmente ao longo das 24 horas convencionais de medição do tempo.
O universo normal é múltiplo, os diversos actores têm diferentes objectivos e vão seguindo a sua existência tentando atingi-los. Essa multiplicidade de objectivos que enquadram a nossa vida é drasticamente reduzida. O universo paralelo está focado, tem uma finalidade, tratar os doentes, e tudo é organizado em função disso.
Ainda que haja um televisor na sala onde me encontro, os acontecimentos no universo de onde vim chegam-me atenuados, desfocados. Vejo uma reportagem sobre as comemorações do 25 de Abril e parecem acontecimentos longínquos, quase como noutro planeta...
As rotinas que enquadravam o nosso dia-a-dia vão-se esfumando até desaparecerem, como coisas pertencentes ao outro universo. Passamos a orientar-nos pelas refeições, a higiene, as tomas de medicamentos...
DIA TERCEIRO
O universo paralelo inclui duas grandes classes de habitantes: os doentes e os que se ocupam dos doentes. No segundo grupo estão os médicos, os enfermeiros e os auxiliares.
Os médicos examinam, operam, prescrevem, decidem. Em particular são eles que decidem sobre a entrada (“internamento”) e a saída (“alta”) do universo paralelo. É possível entrar e sair do universo paralelo por períodos limitados, da ordem de uma ou duas horas (as chamadas “visitas”), mas um visitante apenas fica a conhecer o nível superficial desse universo.
Os enfermeiros gerem a “hora a hora”, às vezes o “minuto a minuto”. É a medicação, são os tratamentos, é o olhar que verifica o nível do frasco de soro ou paracetamol, é a disponibilidade que sabemos estar ao alcance de uma campainha. Dirigem-se a cada doente pelo nome, perguntam se tem dores, tentam responder a eventuais queixas.
Os auxiliares controlam o resto, as refeições, a higiene, os pequenos (mas importantes) pormenores que nos fazem sentir humanos. Com permanente boa vontade e (muitas vezes) sentido de humor.
São como três camadas do universo paralelo com interfaces onde as fronteiras são geralmente nítidas.
Anunciam-me que poderei ser operado amanhã.
DIA QUARTO
Apenas um copo de chá em substituição do pequeno-almoço como preparação para a operação. No início da manhã e ao princípio da tarde dois dos meus companheiros de quarto são levados para ser operados. O dia vai deslizando e começo a convencer-me que já não será hoje. Com a ansiedade da espera nem sinto fome.
Ao fim da tarde um médico entra no quarto e subitamente o tempo acelera: começam a empurrar a minha cama em direcção ao Bloco Operatório.
O Bloco
Não se vai, é-se levado.
Enquanto a cama rola por corredores, entra num ascensor, sobe, mais corredor, deitado de costas vejo o tecto e a parte superior das paredes a deslizar por cima de mim.
No bloco três anestesistas, jovens, bem-dispostas, fazem-me perguntas, usam toucas coloridas, depois chega outro médico que me injecta um líquido no braço. Ainda lhe pergunto se aquilo é para me pôr a dormir e não me lembro de mais nada.
Alguém me diz: "Sabe onde está? Já foi operado, correu tudo bem". Recordo a minha sensação, primeiro de surpresa (Já? Ainda há instantes estava a falar com o médico...) e em seguida de alívio. Embora neste tipo de operação a probabilidade de algo correr mal seja muito baixa, há sempre um cantinho do nosso cérebro que, a medo, encara a hipótese de que o “bilhete” para o bloco possa não ser de “ida e volta”. Invade-me um sentimento de gratidão difusa, em relação a tudo à minha volta. A confirmação de que fui e regressei.
Agora, passado algum tempo, suspeito que a pergunta "Sabe onde está?" teve lugar, não no Bloco mas no Recobro.
DIA QUINTO
O Recobro
Sossego. Calma. Penumbra. Silêncio só interrompido por ocasionais blips e pings dos instrumentos que monitorizam a vida dos doentes nas camas dispostas à volta da sala, ou por curtos diálogos a meia voz dos profissionais de turno.
No centro uma ilha, oásis de luz na obscuridade da sala, onde está o pessoal de serviço, quando não anda junto dos doentes.
O recobro é um espaço suspenso no tempo, como um casulo, sentimos o conforto de saber que há quem esteja a tomar conta de nós, e capacitado para actuar caso a necessidade surja.
Durmo com sonhos, por vezes a repetirem-se como em loop, quase a roçar o pesadelo, no que calculo que seja a ressaca da anestesia.
Passada a noite, regresso ao quarto de manhã.
Sentado numa cadeira pela primeira vez desde o internamento, é sentado que almoço. Durante a tarde trazem-me uma cadeira de rodas e dou uns pequenos “passeios” pelo corredor. É agradável o movimento – ainda que por interpostas rodas – face à imobilidade na cama.
DIA SEXTO
Uma fisioterapeuta ensina-me a andar usando o andarilho. Pé direito, pé esquerdo, deslocação do andarilho. Pé direito, pé esquerdo… A tensão nos músculos desabituados deixa-me rapidamente cansado, tenho de parar de vez em quando.
Visita do cirurgião que me operou, que me diz que “hoje ou amanhã” vou ter alta.
DIA SÉTIMO
De manhã, nova lição, agora para aprender a andar com as canadianas, que irão ser as minhas companheiras de marcha por alguns meses.
Já vestido e preparado para sair, ainda almoço numa sala onde existe uma vitrina que exibe uma colecção de próteses ortopédicas.
Um auxiliar leva-me numa cadeira de rodas até junto da viatura de transporte de doentes, parada no parque de estacionamento. Enquanto espero um pouco, antes de entrar no veículo que me levará a casa, o calor agradável do sol que eu não sentia no corpo há sete dias dá-me as boas vindas e convence-me que estou de regresso ao meu universo habitual.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Colecções (3)
Coleccionava buracos. Desde muito novo se sentia fascinado pelo conceito, a ausência, o nada rodeado de matéria, o vazio filosófico.Começou por peças simples, orifícios regulares ou irregulares na parede e no chão, buracos em peças de roupa. Buracos nas estradas, diversos. Vários buracos de fechadura dignos de nota.
Passou depois a especializar-se em buracos tecnológicos. Furos provocados por lasers em chapas, orifícios produzidos por punções em matrizes metálicas, aberturas provocadas por explosões de alta intensidade em reservatórios industriais…
Mas a peça mais valiosa do museu, responsável por filas intermináveis de visitantes, era o micro buraco negro que adquirira por uma quantia não divulgada ao consórcio nipo-americano que os tinha desenvolvido e começara recentemente a vendê-los.
O drama ocorreu quando a funcionária da limpeza, na sua actividade nocturna, deslocou inadvertidamente o botão que controlava o diâmetro do limite de atracção. Na manhã seguinte, inconsciente desse facto, ao fazer uma demonstração para um grupo de visitantes, o coleccionador avançou a mão que foi apanhada pelo enorme campo gravítico; numa fracção de segundo desapareceu da vista de todos.
A maior parte dos visitantes testemunhas do acontecimento tiveram que passar por sessões de apoio psicológico. A explicação do que de facto aconteceu é ainda hoje motivo de viva polémica entre cosmologistas e físicos das altas energias.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Colecções (2)
Coleccionava folhas de cálculo. Possuía alguns exemplares bem cotados no mercado, produzidos em Vizicalc, Lotus 1-2-3 e Symphony, que eram considerados memorabilia em certos círculos.Mas a sua peça mais valiosa, pela qual já lhe tinham oferecido quantias astronómicas, era a famosa folha excel produzida pela troika e apadrinhada pelo ministro Victor Gaspar, que demonstrava sem sombra de dúvida que reduzindo a população à miséria o país iria desenvolver-se com velocidade estonteante.
Colecções (1)
Era um filatelista mundialmente conhecido, figura destacada no “Who’s who in stamp collecting”. A súbita consciência da catastrófica diminuição do tráfego postal clássico levou-o a tomar uma decisão drástica: pôs fim à sua colecção de selos e começou a coleccionar endereços de email.É hoje inaugurada, com a presença do Secretário de Estado da Cultura, a exposição do acervo que entretanto reuniu, de endereços de email de todo o mundo. Na parede do fundo da galeria, bem iluminada, a peça mais importante da sua colecção: um endereço de email da Coreia do Norte.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Sombras
Na praça, debaixo de um sol forte, a multidão agitava-se num movimento desordenado. Poderiam ter comparecido na espectativa de algum acontecimento, ou desde sempre terem ali estado. De repente, acima do ruído de fundo, ouviu-se um grito: “Este cidadão não tem sombra!”Um círculo abriu-se rapidamente em torno do visado que, incapaz de argumentar, ali ficou exposto ao escrutínio geral.
“É uma abominação!”, continuou a gritar o que tinha dado o alarme. “Não podemos tolerar entre nós alguém que não tem sombra!”
Da multidão saiu um rugido surdo, que se foi ampliando até se tornar em algo inteligível: “À morte! À morte!”
O círculo fechou-se sobre o homem sem sombra e quando a multidão dispersou de novo ficou um corpo no chão, imóvel, sangrando de múltiplas feridas.
O homem que tinha dado o alarme passeava pela praça, gozando o seu momento de fama. Até que olhou para o chão e ficou horrorizado. Tinha duas sombras! Tentou infiltrar-se na multidão mas foi tarde demais. Já outro cidadão, e depois outro, tinham visto…
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
A última badalada
Para o senhor Antunes, a Dona Joaquina era como se fizesse parte da mobília. Lembrava-se dela quando vinha ao escritório pela mão do pai, e agora ali estava ele, Chefe de Secção, já próximo da reforma, e ela sempre com a mesma bata aos quadrados, o cabelo enrolado num carrapito, a vassoura e o pano do pó nas mãos.O dia ia decorrendo na modorra habitual quando começaram a bater as badaladas do meio-dia no velho relógio de parede. Era um relógio de pêndulo, muito preciso, e Vicente, o segundo escriturário, era quem tinha por missão dar-lhe corda duas vezes por semana. Ao soar a última badalada, as luzes acenderam e apagaram, os telefones tocaram ao mesmo tempo, o telex começou a martelar, e a chaleira na mesa do canto a apitar. Depois ficou tudo em silêncio e ouviu-se uma voz: “Luciva, a pena de exílio a que foste condenada terminou. Espero que tenhas aprendido com este castigo. Podes voltar para junto de nós.”
Ouvindo estas palavras, Dona Joaquina gritou “Yesssss!”, cavalgou a vassoura, voou duas voltas ao escritório e saiu pela janela que se tinha aberto sozinha para lhe dar passagem.
Todos os funcionários ficaram de boca aberta. E Antunes começou a pensar como iria explicar ao Esteves da Secção de Pessoal o desaparecimento de uma funcionária…
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