sexta-feira, 4 de março de 2016

Na esteira do TTIP (1)

O senhor Francisco, reformado, que costumava apanhar sol nas manhãs de Inverno num banco de jardim, foi intimado pela Polícia a deixar de o fazer.
A multinacional distribuidora de electricidade ameaçou processar o Estado Português porque os hábitos de milhares de reformados como o senhor Francisco são lesivos da sua espectativa de lucros futuros.
"Se têm frio que se aqueçam em casa, com os eficientes aquecedores eléctricos vendidos pela nossa cliente", comentou off the record um porta-voz da sociedade de advogados que representa legalmente a multinacional.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O país das sombras e da luz

Naquele país havia um sol que brilhava sempre e as pessoas usavam a sombra que ele produzia para se orientarem. Seguiam a sombra ou a direcção oposta, e a vida era simples de levar.
Mas as alterações climáticas trouxeram um denso nevoeiro, as sombras desapareceram e os habitantes daquele país ficaram totalmente desorientados, porque a direcção da sombra era para cada uma sua única linha de referência.

E a situação poderia ter-se tornado catastrófica, não fora a ideia que ocorreu a um cidadão de fabricar um chapéu munido de uma haste curva com uma pequena lâmpada na ponta. Postos à venda, toda a gente correu a comprar, de forma que cada habitante podia agora tomar as suas decisões como fazia antes de surgir o nevoeiro.

Houve uma proposta no sentido de nomear este cidadão “Salvador da Pátria” mas ele, modestamente, apenas aceitou o título “Aquele que devolveu a cada um a sua sombra”.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

 

 

Crónica breve das 64 casas

O Rei Negro era um tirano. Oprimia Peões e Cavalos sem dó nem piedade. Com a conivência dos Bispos, prendia e sacrificava dissidentes, numa exibição gratuita de poder absoluto. As tensões foram-se acumulando.
 
Quando aconteceu, a revolta no campo negro foi imparável. Um dos Bispos ainda conseguiu fugir por uma diagonal mal vigiada, mas o outro foi agarrado e pisado pelos Cavalos e ficou irreconhecível. A Rainha, porque tinha atenuantes, foi encerrada numa Torre. Mas o Rei foi preso, julgado, condenado e executado.

Mal as notícias vindas do outro lado do tabuleiro chegaram ao campo branco, o Rei Branco convocou um parlamento, abdicou e proclamou a república.

Nunca mais houve jogos naquele tabuleiro.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

SETE DIAS NUM UNIVERSO PARALELO

Este texto é dedicado à memória de Luís Alves,
saudoso amigo com quem muitas vezes conversei
sobre a necessidade de um Serviço Nacional de Saúde
numa sociedade que pretendemos justa.

Dedico-o também aos profissionais de saúde
que me trataram durante estes sete dias,
a quem as dificuldades que lhes têm sido impostas
não inibem de cuidar dos doentes
com profissionalismo e simpatia.
Para eles o meu reconhecimento.


DIA PRIMEIRO

Há diversas formas de efectuar a transição entre universos. A minha passagem foi relativamente trivial. Na madrugada do dia 24 de Abril de 2015 sofri uma queda desamparada, seguida por dores muito fortes na perna direita. Chamado o 112, chegou rapidamente uma equipa do INEM que após analisar a situação me colocou numa cadeira de rodas na qual me transportou até à ambulância onde fui acomodado e imobilizado numa maca. Fui então conduzido ao Hospital de Santa Maria, um dos portais de entrada no universo paralelo conhecido como Serviço Nacional de Saúde.

Passada a triagem, assegurada por uma radiografia, um electrocardiograma e uma análise ao sangue, uma médica anuncia-me o diagnóstico e o que se seguirá: tenho uma fractura do colo do fémur / tenho de ser operado / vou ser internado.

É desta forma que entro no universo paralelo.

Sou conduzido ao local onde vou viver nos próximos dias, um quarto/enfermaria onde vou coabitar com mais três doentes. Dois enfermeiros ligam-me a perna e colocam uma espécie de tala, ligada a um contrapeso que mantém a perna sob tracção. Creio que a ideia é que a fractura não comece a consolidar de forma errada.

Dores? Nem sempre, só quando mexo – ou me mexem – a perna. O que é inevitável nas mudanças de posição na cama. O paracetamol intravenoso vai controlando a situação. Mas quando dói, dói mesmo.

Começo a aprender a estrutura e funcionamento do universo paralelo.



DIA SEGUNDO

A luz no universo paralelo não segue os padrões circadianos. Os espaços podem ser inundados por uma luz branca, crua, se for necessário para o tipo de actividade a realizar, ou quase totalmente obscurecidos para conforto dos internados.

A alternância sono/vigília sofre alterações. Dorme-se mais irregularmente ao longo das 24 horas convencionais de medição do tempo.

O universo normal é múltiplo, os diversos actores têm diferentes objectivos e vão seguindo a sua existência tentando atingi-los. Essa multiplicidade de objectivos que enquadram a nossa vida é drasticamente reduzida. O universo paralelo está focado, tem uma finalidade, tratar os doentes, e tudo é organizado em função disso.

Ainda que haja um televisor na sala onde me encontro, os acontecimentos no universo de onde vim chegam-me atenuados, desfocados. Vejo uma reportagem sobre as comemorações do 25 de Abril e parecem acontecimentos longínquos, quase como noutro planeta...

As rotinas que enquadravam o nosso dia-a-dia vão-se esfumando até desaparecerem, como coisas pertencentes ao outro universo. Passamos a orientar-nos pelas refeições, a higiene, as tomas de medicamentos...


DIA TERCEIRO

O universo paralelo inclui duas grandes classes de habitantes: os doentes e os que se ocupam dos doentes. No segundo grupo estão os médicos, os enfermeiros e os auxiliares.

Os médicos examinam, operam, prescrevem, decidem. Em particular são eles que decidem sobre a entrada (“internamento”) e a saída (“alta”) do universo paralelo. É possível entrar e sair do universo paralelo por períodos limitados, da ordem de uma ou duas horas (as chamadas “visitas”), mas um visitante apenas fica a conhecer o nível superficial desse universo.

Os enfermeiros gerem a “hora a hora”, às vezes o “minuto a minuto”. É a medicação, são os tratamentos, é o olhar que verifica o nível do frasco de soro ou paracetamol, é a disponibilidade que sabemos estar ao alcance de uma campainha. Dirigem-se a cada doente pelo nome, perguntam se tem dores, tentam responder a eventuais queixas.

Os auxiliares controlam o resto, as refeições, a higiene, os pequenos (mas importantes) pormenores que nos fazem sentir humanos. Com permanente boa vontade e (muitas vezes) sentido de humor.

São como três camadas do universo paralelo com interfaces onde as fronteiras são geralmente nítidas.

Anunciam-me que poderei ser operado amanhã.


DIA QUARTO

Apenas um copo de chá em substituição do pequeno-almoço como preparação para a operação. No início da manhã e ao princípio da tarde dois dos meus companheiros de quarto são levados para ser operados. O dia vai deslizando e começo a convencer-me que já não será hoje. Com a ansiedade da espera nem sinto fome.

Ao fim da tarde um médico entra no quarto e subitamente o tempo acelera: começam a empurrar a minha cama em direcção ao Bloco Operatório.

O Bloco

Não se vai, é-se levado.

Enquanto a cama rola por corredores, entra num ascensor, sobe, mais corredor, deitado de costas vejo o tecto e a parte superior das paredes a deslizar por cima de mim.

No bloco três anestesistas, jovens, bem-dispostas, fazem-me perguntas, usam toucas coloridas, depois chega outro médico que me injecta um líquido no braço. Ainda lhe pergunto se aquilo é para me pôr a dormir e não me lembro de mais nada.

Alguém me diz: "Sabe onde está? Já foi operado, correu tudo bem". Recordo a minha sensação, primeiro de surpresa (Já? Ainda há instantes estava a falar com o médico...) e em seguida de alívio. Embora neste tipo de operação a probabilidade de algo correr mal seja muito baixa, há sempre um cantinho do nosso cérebro que, a medo, encara a hipótese de que o “bilhete” para o bloco possa não ser de “ida e volta”. Invade-me um sentimento de gratidão difusa, em relação a tudo à minha volta. A confirmação de que fui e regressei.

Agora, passado algum tempo, suspeito que a pergunta "Sabe onde está?" teve lugar, não no Bloco mas no Recobro.


DIA QUINTO

O Recobro

Sossego. Calma. Penumbra. Silêncio só interrompido por ocasionais blips e pings dos instrumentos que monitorizam a vida dos doentes nas camas dispostas à volta da sala, ou por curtos diálogos a meia voz dos profissionais de turno.

No centro uma ilha, oásis de luz na obscuridade da sala, onde está o pessoal de serviço, quando não anda junto dos doentes.

O recobro é um espaço suspenso no tempo, como um casulo, sentimos o conforto de saber que há quem esteja a tomar conta de nós, e capacitado para actuar caso a necessidade surja.

Durmo com sonhos, por vezes a repetirem-se como em loop, quase a roçar o pesadelo, no que calculo que seja a ressaca da anestesia.

Passada a noite, regresso ao quarto de manhã.

Sentado numa cadeira pela primeira vez desde o internamento, é sentado que almoço. Durante a tarde trazem-me uma cadeira de rodas e dou uns pequenos “passeios” pelo corredor. É agradável o movimento – ainda que por interpostas rodas – face à imobilidade na cama.


DIA SEXTO

Uma fisioterapeuta ensina-me a andar usando o andarilho. Pé direito, pé esquerdo, deslocação do andarilho. Pé direito, pé esquerdo… A tensão nos músculos desabituados deixa-me rapidamente cansado, tenho de parar de vez em quando.

Visita do cirurgião que me operou, que me diz que “hoje ou amanhã” vou ter alta.


DIA SÉTIMO

De manhã, nova lição, agora para aprender a andar com as canadianas, que irão ser as minhas companheiras de marcha por alguns meses.

Já vestido e preparado para sair, ainda almoço numa sala onde existe uma vitrina que exibe uma colecção de próteses ortopédicas.
Um auxiliar leva-me numa cadeira de rodas até junto da viatura de transporte de doentes, parada no parque de estacionamento. Enquanto espero um pouco, antes de entrar no veículo que me levará a casa, o calor agradável do sol que eu não sentia no corpo há sete dias dá-me as boas vindas e convence-me que estou de regresso ao meu universo habitual.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

PEGASUS

Pegasus é um blogue de literatura fantástica internacional, criado por Paolo Secondini. Além do núcleo principal, em italiano, tem secções em espanhol, francês e português, esta última coordenada por Stefano Valente, onde foram recentemente republicados dois pequenos contos meus.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Colecções (3)

Coleccionava buracos. Desde muito novo se sentia fascinado pelo conceito, a ausência, o nada rodeado de matéria, o vazio filosófico.
Começou por peças simples, orifícios regulares ou irregulares na parede e no chão, buracos em peças de roupa. Buracos nas estradas, diversos. Vários buracos de fechadura dignos de nota.
Passou depois a especializar-se em buracos tecnológicos. Furos provocados por lasers em chapas, orifícios produzidos por punções em matrizes metálicas, aberturas provocadas por explosões de alta intensidade em reservatórios industriais…
Mas a peça mais valiosa do museu, responsável por filas intermináveis de visitantes, era o micro buraco negro que adquirira por uma quantia não divulgada ao consórcio nipo-americano que os tinha desenvolvido e começara recentemente a vendê-los.
O drama ocorreu quando a funcionária da limpeza, na sua actividade nocturna, deslocou inadvertidamente o botão que controlava o diâmetro do limite de atracção. Na manhã seguinte, inconsciente desse facto, ao fazer uma demonstração para um grupo de visitantes, o coleccionador avançou a mão que foi apanhada pelo enorme campo gravítico; numa fracção de segundo desapareceu da vista de todos.
A maior parte dos visitantes testemunhas do acontecimento tiveram que passar por sessões de apoio psicológico. A explicação do que de facto aconteceu é ainda hoje motivo de viva polémica entre cosmologistas e físicos das altas energias.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Colecções (2)

Coleccionava folhas de cálculo. Possuía alguns exemplares bem cotados no mercado, produzidos em Vizicalc, Lotus 1-2-3 e Symphony, que eram considerados memorabilia em certos círculos.
Mas a sua peça mais valiosa, pela qual já lhe tinham oferecido quantias astronómicas, era a famosa folha excel produzida pela troika e apadrinhada pelo ministro Victor Gaspar, que demonstrava sem sombra de dúvida que reduzindo a população à miséria o país iria desenvolver-se com velocidade estonteante.

Colecções (1)

Era um filatelista mundialmente conhecido, figura destacada no “Who’s who in stamp collecting”. A súbita consciência da catastrófica diminuição do tráfego postal clássico levou-o a tomar uma decisão drástica: pôs fim à sua colecção de selos e começou a coleccionar endereços de email.
É hoje inaugurada, com a presença do Secretário de Estado da Cultura, a exposição do acervo que entretanto reuniu, de endereços de email de todo o mundo. Na parede do fundo da galeria, bem iluminada, a peça mais importante da sua colecção: um endereço de email da Coreia do Norte.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Sombras

Na praça, debaixo de um sol forte, a multidão agitava-se num movimento desordenado. Poderiam ter comparecido na espectativa de algum acontecimento, ou desde sempre terem ali estado. De repente, acima do ruído de fundo, ouviu-se um grito: “Este cidadão não tem sombra!”
Um círculo abriu-se rapidamente em torno do visado que, incapaz de argumentar, ali ficou exposto ao escrutínio geral.
“É uma abominação!”, continuou a gritar o que tinha dado o alarme. “Não podemos tolerar entre nós alguém que não tem sombra!”
Da multidão saiu um rugido surdo, que se foi ampliando até se tornar em algo inteligível: “À morte! À morte!”
O círculo fechou-se sobre o homem sem sombra e quando a multidão dispersou de novo ficou um corpo no chão, imóvel, sangrando de múltiplas feridas.
O homem que tinha dado o alarme passeava pela praça, gozando o seu momento de fama. Até que olhou para o chão e ficou horrorizado. Tinha duas sombras! Tentou infiltrar-se na multidão mas foi tarde demais. Já outro cidadão, e depois outro, tinham visto…

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

 Em reposição:

THE END

O primeiro, que era um pessimista, disse: Isto é o princípio do fim!
O segundo, que era um optimista, respondeu: Não, é apenas o fim do princípio...
O terceiro, que tinha andado a ler um livro de estórias zen, concluiu: Seja lá o que for, vamos mas é jantar!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A última badalada

Para o senhor Antunes, a Dona Joaquina era como se fizesse parte da mobília. Lembrava-se dela quando vinha ao escritório pela mão do pai, e agora ali estava ele, Chefe de Secção, já próximo da reforma, e ela sempre com a mesma bata aos quadrados, o cabelo enrolado num carrapito, a vassoura e o pano do pó nas mãos.
O dia ia decorrendo na modorra habitual quando começaram a bater as badaladas do meio-dia no velho relógio de parede. Era um relógio de pêndulo, muito preciso, e Vicente, o segundo escriturário, era quem tinha por missão dar-lhe corda duas vezes por semana. Ao soar a última badalada, as luzes acenderam e apagaram, os telefones tocaram ao mesmo tempo, o telex começou a martelar, e a chaleira na mesa do canto a apitar. Depois ficou tudo em silêncio e ouviu-se uma voz: “Luciva, a pena de exílio a que foste condenada terminou. Espero que tenhas aprendido com este castigo. Podes voltar para junto de nós.”
Ouvindo estas palavras, Dona Joaquina gritou “Yesssss!”, cavalgou a vassoura, voou duas voltas ao escritório e saiu pela janela que se tinha aberto sozinha para lhe dar passagem.
Todos os funcionários ficaram de boca aberta. E Antunes começou a pensar como iria explicar ao Esteves da Secção de Pessoal o desaparecimento de uma funcionária…

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Centenário do nascimento de Júlio Cortázar

Um fragmento (página 20) do seu livro "O Jogo do Mundo" ( Rayuela )


"(…) os espelhos de cinza Vieira da Silva, um mundo onde te movias como um cavalo de xadrez que se move como uma torre que se move como um bispo."


e uma foto que o ilustra (clique para ampliar).


Uma exposição com fotografias alusivas a textos de Cortázar, resultado de um concurso promovido pelo Forum Fantástico em colaboração com a Cavalo de Ferro e a Sony Portugal, está patente na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro até ao fim do mês de Novembro.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ULTIMA HORA!

Antecipando a entrada em vigor do Acordo de Parceria Transatlântico, que está a ser secretamente negociado entre a U.E. e os E.U.A., o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa anunciou que vai processar o(a) reclamante do prémio de 190 milhões de euros de um recente sorteio do Euromilhões.
“Com esta reclamação, o(a) reclamante prejudicou a Santa Casa na sua expectativa de lucros futuros, que obteria na ausência de reclamação”, afirmou o Provedor da SCML numa conferência de imprensa sem direito a perguntas. E acrescentou:
“Além do valor do prémio em referência, está também em causa a despesa incorrida pela Santa Casa por um parecer encomendado a uma Sociedade de Advogados sobre a possível isenção do pagamento pela SCML do imposto de 20% sobre o valor total do prémio.”
Reina a expectativa entre os Departamentos de Direito de todas as universidades, profissionais do foro, executores fiscais e outros curiosos sobre os possíveis desenvolvimentos da situação.

domingo, 28 de setembro de 2014

TPC

Voltei aos tempos dos TPCs.
Comecei a ler Wonderbook do Jeff Vandermeer, e decidi fazer os exercícios que por lá estão espalhados.





Na página 25, apareceu o seguinte desafio:




E aqui está o que saiu:

The singing fish

The parrots came to me with the news: the fish was singing. At first I didn't believe; the parrots are always gossiping! But they insisted, so I went with them to check.
And there he was, singing from Verdi's Rigoletto, La donna e mobile!
I was a bit worried because he is our only source of ink, and it would be difficult to find another ink provider at a short notice.
But when I became aware of his continuous struggle with the vowels, and specially that his sharp C was horribly out of tune, I relaxed: no reputable Opera Theater would hire him, not even for the chorus...

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A Lei da Cópia Privada e Chico Liberdade

A discussão da Lei da Cópia Privada arrastava-se na Assembleia da República. Intervenções a favor dos partidos da maioria, intervenções críticas ou muito críticas dos partidos da oposição. Nas galerias, representantes das organizações que iriam ter ganhos chorudos com a aprovação da lei sorriam uns para os outros.
Chegou a vez de o Jotinha falar. Aclarou a voz, ajeitou o microfone e começou:
“Senhora Presidente, senhor Secretário de Estado da Cultura, senhoras e senhores deputados. É minha convicção que as leis aprovadas por esta casa devem reflectir os últimos avanços da Ciência e da Técnica, pois isso só contribuirá para o prestígio deste Parlamento.”
Vozes de “Muito bem!” da bancada da maioria.
“Chegou ao meu conhecimento um artigo recentemente publicado na reputada revista científica Science – e aí a mão direita do deputado agitou no ar umas folhas de papel – onde é demonstrado que os instrumentos musicais, sejam de cordas, de percussão ou de sopro, madeiras ou metais, conservam na sua estrutura a memória das melodias que alguma vez tocaram.”
“Intitula-se o artigo” – e o deputado leu com sotaque algo aportuguesado – “Are materials able to store sounds? Detection through laser interferometry and atomic force microscopy of acoustic wave imprint patterns in different materials. Embora me considere um leigo em acústica, inter-fe-ro-me-tria laser e outras matérias mencionadas neste artigo, a sua conclusão parece-me definitiva: os instrumentos musicais memorizam sons, logo têm a possibilidade de armazenar o trabalho dos artistas, logo, por extensão, também estes instrumentos deverão estar sujeitos a uma taxa no âmbito da lei ora em discussão.”
A intervenção foi saudada com alguns acenos de cabeça aprovadores por deputados da maioria, com alguns risos por parte da oposição, mas o líder parlamentar do maior partido de apoio ao governo não quis deixar passar a oportunidade e pedindo a palavra, disse:
“Muito obrigado, senhor deputado, pela sua tão pertinente achega à matéria em discussão. Penso que a sua sugestão poderá ser acolhida em sede de discussão na especialidade, e dessa forma contribuir para a melhoria do diploma em discussão.”

--- xxx ---

A sessão já tinha terminado e um grupo de deputados dirigia-se ao Café de São Bento para almoçar. Nesse grupo, o Jotinha gozava dos seus cinco minutos de fama, rindo e aceitando os cumprimentos dos seus colegas de bancada.
Pelo mesmo passeio, em sentido oposto, caminhava Chico Liberdade, baladeiro e cantor de rua. Tinha estado a ver o canal Parlamento, porque as questões relacionadas com a Lei da Cópia Privada lhe interessavam por razões tanto profissionais quanto de cidadania.
Os seus ténis, que já viram melhores dias, levam-no numa trajectória de intersecção com os sapatos pretos bem engraxados do deputado.
Chico Liberdade levanta os olhos e vê a cara de auto-satisfação do Jotinha. Sente uma raiva a crescer-lhe nos dentes como na canção do Zé Mário Branco que canta com frequência. Sem mais, pega na viola pelo braço, dá-lhe balanço, a viola descreve um arco e vai embater com força na cabeça do deputado, que afunda lentamente, aturdido, e fica sentado no chão. O som da pancada foi estranho, mistura da percussão seca da caixa com uma espécie de acorde causado pela vibração simultânea das seis cordas. Enquanto os colegas socorrem o Jotinha, Chico Liberdade ainda lhe diz:
“Se te lembrares desta pancada é sinal que tens memória, e também vais ter que pagar taxa. Mas como só tens dois neurónios e meio, estás no primeiro escalão da capacidade de armazenagem e pagas pouco.”
E vai-se embora sem olhar para trás. Quando um dos colegas do Jotinha se lembra de chamar a polícia já Chico Liberdade desapareceu, dobrando a esquina e seguindo pela travessa mais próxima.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

quarta-feira, 25 de junho de 2014

SÓLO CULTURA, SÓLO CULTURA, ¡QUE ABURRIDO!

Aníbal, mi vecino, estaba aún más enojado que de costumbre.
- ¿Sabes a qué hora pasaron ayer los resúmenes de los partidos de primera? A las dos de la mañana! Yo tengo mis derechos, también pago impuestos! Y no puedo ver lo que me gusta... He visto una entrevista con el ministro de cultura, una película de un autor oscuro, un programa sobre el lince ibérico, y ni siquiera una pequeña noticia sobre el futbol...
Entramos al café “Antonio", pedimos dos cafés solos, y Aníbal se fue al extremo del mostrador, donde están los periódicos. Los miró y preguntó al camarero:
- ¿Paco, donde está La Bola?
- Mi jefe dejó de comprar ese periódico, señor Aníbal. Son pocos los clientes que lo piden...
Aníbal echaba humo!
- ¿Ves? Hasta Antonio ... - y furioso, me mostró el Jornal de Letras, Le Monde Diplomatique , suplementos culturales ... - Sólo la mierda, hombre - concluyó, bajando la voz para evitar las miradas de desaprobación de algunos clientes.
Pagamos los cafés y salimos, él a la estación de metro y yo a la parada del autobús. Pasamos el quiosco de los periódicos. Aníbal no es de los que se rinden fácilmente.
- Buenos días, señor Fernando. Tiene La Bola?
- Ahora solo vienen tres ejemplares de La Bola, y la mayoría de las veces no se venden... ¡Aquí está!
Aníbal colocó el periódico doblado dentro del bolsillo interior de su gabardina. Se despidió y se fue a tomar el metro.
Cuando entró en el vagón, se sentó y miró a su alrededor. En el asiento delantero, un hombre leía La insoportable levedad del ser de Milan Kundera, y una mujer, Ficciones, de Borges. El joven en el asiento de al lado leía poesía. Al otro lado del pasillo, un adolescente estaba leyendo un libro con el título La Filosofía Griega. Aníbal abrió su libro, forrado con papel marrón opaco, para evitar las miradas condescendientes de los demás pasajeros, y se sumergió en la lectura de La Magia del Futbol...

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Esta foi a minha contribuição para a antologia

Futbol en breve - Microrrelatos de jogo bonito

editada no México por Aldo Flores. Carregue no link para aceder.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O deus das palavras

O deus das palavras focou a sua atenção no monitor sobre o qual piscava uma luz vermelha. Sabia o que isso significava: havia alterações substanciais na frequência de uso de uma ou mais palavras.
A sua função era precisamente verificar que as palavras de uma dada língua eram utilizadas apropriadamente. Pela lei dos grandes números isto levava a que as palavras utilizadas seguissem uma determinada distribuição estatística.
O deus das palavras ainda se lembrava de quando este processo de monitorização era feito por um batalhão de sub-deuses, tomando nota manualmente de todas as palavras utilizadas e calculando penosamente as estatísticas usando ábacos. Agora, depois de implementada a informatização dos serviços, o trabalho é muito mais fácil. O deus das palavras e dois sub-deuses adjuntos conseguem dar conta do recado.
O deus das palavras dirige-se ao monitor que accionou o alarme e observa com atenção. Verifica as palavras que estão a ser utilizadas com uma frequência acima do seu valor normal: “empreender” e seus derivados (“empreendedor”, “empreendedorismo”, etc.), “competitividade”, “produtividade”, “ajustamento”. Reconhece que são palavras pertencentes ao dialecto economês. Chama um dos adjuntos e diz-lhe para manter aquele monitor sob vigilância.
No dia seguinte, o sub-deus informa-o que a utilização das palavras referidas subiu duas ordens de grandeza. O deus das palavras irrita-se e a cólera dos deuses pode ser terrível. Senta-se ao terminal, acede à base de dados que contém todas as palavras, e apaga as palavras violadoras da distribuição estatística. Com um sorriso raivoso, comenta para o seu adjunto: “Já está!”
As consequências no país em causa foram tremendas. Os discursos políticos ficaram com o aspecto de uma manta esburacada. Quando anteriormente um político dizia: “É necessário o empreendedorismo para aumentar a competitividade e a produtividade do país”, agora saía-lhe da boca para fora: “É necessário o [          ] para aumentar a [         ] e a [          ] do país”.
O deus das palavras apenas levou dois dias pensando que tinha reposto a regularidade estatística. Essa sua satisfação terminou com um novo alarme a soar no mesmo monitor. As palavras cujas frequências de utilização tinham agora disparado eram “Palhaço!” e “Rua!”

terça-feira, 20 de maio de 2014

A PARTÍCULA DE DEUS

Meu querido neto
Sabes que nunca apreciei o facto de não estudares Direito como o teu avô e o teu pai e teres antes escolhido Física, actividade que sempre vi como um pouco estranha e sem utilidade.
Fiquei contente quando arranjaste esse trabalho no CERN, embora continuasse sem perceber a necessidade de construir máquinas tão caras para partir átomos.
Mas o que hoje li no jornal fez-me reconsiderar a minha atitude. Vem na primeira página, em letras garrafais: "No acelerador gigante, cientistas procuram a partícula de Deus".
Como São Paulo, subitamente vi a luz!
Junto envio uma caixinha em madeira, com o interior forrado de veludo vermelho. Queria pedir-te para meteres lá dentro uma partícula de Deus e me enviares a caixinha de volta. Quero juntá-la às outras relíquias na capela da casa: o fragmento do Santo Lenho, o pedacinho da tíbia de São Francisco, a madeixa do cabelo de Maria Madalena, e o farrapo do hábito da mártir Santa Úrsula, trazidas pelo teu avô das suas andanças pelo mundo. Embora livre-pensador era um bom homem!
Faz esse favor à tua avó, que nunca se esquece de ti nas suas orações.
Um grande beijo.