quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A Lei da Cópia Privada e Chico Liberdade

A discussão da Lei da Cópia Privada arrastava-se na Assembleia da República. Intervenções a favor dos partidos da maioria, intervenções críticas ou muito críticas dos partidos da oposição. Nas galerias, representantes das organizações que iriam ter ganhos chorudos com a aprovação da lei sorriam uns para os outros.
Chegou a vez de o Jotinha falar. Aclarou a voz, ajeitou o microfone e começou:
“Senhora Presidente, senhor Secretário de Estado da Cultura, senhoras e senhores deputados. É minha convicção que as leis aprovadas por esta casa devem reflectir os últimos avanços da Ciência e da Técnica, pois isso só contribuirá para o prestígio deste Parlamento.”
Vozes de “Muito bem!” da bancada da maioria.
“Chegou ao meu conhecimento um artigo recentemente publicado na reputada revista científica Science – e aí a mão direita do deputado agitou no ar umas folhas de papel – onde é demonstrado que os instrumentos musicais, sejam de cordas, de percussão ou de sopro, madeiras ou metais, conservam na sua estrutura a memória das melodias que alguma vez tocaram.”
“Intitula-se o artigo” – e o deputado leu com sotaque algo aportuguesado – “Are materials able to store sounds? Detection through laser interferometry and atomic force microscopy of acoustic wave imprint patterns in different materials. Embora me considere um leigo em acústica, inter-fe-ro-me-tria laser e outras matérias mencionadas neste artigo, a sua conclusão parece-me definitiva: os instrumentos musicais memorizam sons, logo têm a possibilidade de armazenar o trabalho dos artistas, logo, por extensão, também estes instrumentos deverão estar sujeitos a uma taxa no âmbito da lei ora em discussão.”
A intervenção foi saudada com alguns acenos de cabeça aprovadores por deputados da maioria, com alguns risos por parte da oposição, mas o líder parlamentar do maior partido de apoio ao governo não quis deixar passar a oportunidade e pedindo a palavra, disse:
“Muito obrigado, senhor deputado, pela sua tão pertinente achega à matéria em discussão. Penso que a sua sugestão poderá ser acolhida em sede de discussão na especialidade, e dessa forma contribuir para a melhoria do diploma em discussão.”

--- xxx ---

A sessão já tinha terminado e um grupo de deputados dirigia-se ao Café de São Bento para almoçar. Nesse grupo, o Jotinha gozava dos seus cinco minutos de fama, rindo e aceitando os cumprimentos dos seus colegas de bancada.
Pelo mesmo passeio, em sentido oposto, caminhava Chico Liberdade, baladeiro e cantor de rua. Tinha estado a ver o canal Parlamento, porque as questões relacionadas com a Lei da Cópia Privada lhe interessavam por razões tanto profissionais quanto de cidadania.
Os seus ténis, que já viram melhores dias, levam-no numa trajectória de intersecção com os sapatos pretos bem engraxados do deputado.
Chico Liberdade levanta os olhos e vê a cara de auto-satisfação do Jotinha. Sente uma raiva a crescer-lhe nos dentes como na canção do Zé Mário Branco que canta com frequência. Sem mais, pega na viola pelo braço, dá-lhe balanço, a viola descreve um arco e vai embater com força na cabeça do deputado, que afunda lentamente, aturdido, e fica sentado no chão. O som da pancada foi estranho, mistura da percussão seca da caixa com uma espécie de acorde causado pela vibração simultânea das seis cordas. Enquanto os colegas socorrem o Jotinha, Chico Liberdade ainda lhe diz:
“Se te lembrares desta pancada é sinal que tens memória, e também vais ter que pagar taxa. Mas como só tens dois neurónios e meio, estás no primeiro escalão da capacidade de armazenagem e pagas pouco.”
E vai-se embora sem olhar para trás. Quando um dos colegas do Jotinha se lembra de chamar a polícia já Chico Liberdade desapareceu, dobrando a esquina e seguindo pela travessa mais próxima.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

quarta-feira, 25 de junho de 2014

SÓLO CULTURA, SÓLO CULTURA, ¡QUE ABURRIDO!

Aníbal, mi vecino, estaba aún más enojado que de costumbre.
- ¿Sabes a qué hora pasaron ayer los resúmenes de los partidos de primera? A las dos de la mañana! Yo tengo mis derechos, también pago impuestos! Y no puedo ver lo que me gusta... He visto una entrevista con el ministro de cultura, una película de un autor oscuro, un programa sobre el lince ibérico, y ni siquiera una pequeña noticia sobre el futbol...
Entramos al café “Antonio", pedimos dos cafés solos, y Aníbal se fue al extremo del mostrador, donde están los periódicos. Los miró y preguntó al camarero:
- ¿Paco, donde está La Bola?
- Mi jefe dejó de comprar ese periódico, señor Aníbal. Son pocos los clientes que lo piden...
Aníbal echaba humo!
- ¿Ves? Hasta Antonio ... - y furioso, me mostró el Jornal de Letras, Le Monde Diplomatique , suplementos culturales ... - Sólo la mierda, hombre - concluyó, bajando la voz para evitar las miradas de desaprobación de algunos clientes.
Pagamos los cafés y salimos, él a la estación de metro y yo a la parada del autobús. Pasamos el quiosco de los periódicos. Aníbal no es de los que se rinden fácilmente.
- Buenos días, señor Fernando. Tiene La Bola?
- Ahora solo vienen tres ejemplares de La Bola, y la mayoría de las veces no se venden... ¡Aquí está!
Aníbal colocó el periódico doblado dentro del bolsillo interior de su gabardina. Se despidió y se fue a tomar el metro.
Cuando entró en el vagón, se sentó y miró a su alrededor. En el asiento delantero, un hombre leía La insoportable levedad del ser de Milan Kundera, y una mujer, Ficciones, de Borges. El joven en el asiento de al lado leía poesía. Al otro lado del pasillo, un adolescente estaba leyendo un libro con el título La Filosofía Griega. Aníbal abrió su libro, forrado con papel marrón opaco, para evitar las miradas condescendientes de los demás pasajeros, y se sumergió en la lectura de La Magia del Futbol...

---------------------------

Esta foi a minha contribuição para a antologia

Futbol en breve - Microrrelatos de jogo bonito

editada no México por Aldo Flores. Carregue no link para aceder.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O deus das palavras

O deus das palavras focou a sua atenção no monitor sobre o qual piscava uma luz vermelha. Sabia o que isso significava: havia alterações substanciais na frequência de uso de uma ou mais palavras.
A sua função era precisamente verificar que as palavras de uma dada língua eram utilizadas apropriadamente. Pela lei dos grandes números isto levava a que as palavras utilizadas seguissem uma determinada distribuição estatística.
O deus das palavras ainda se lembrava de quando este processo de monitorização era feito por um batalhão de sub-deuses, tomando nota manualmente de todas as palavras utilizadas e calculando penosamente as estatísticas usando ábacos. Agora, depois de implementada a informatização dos serviços, o trabalho é muito mais fácil. O deus das palavras e dois sub-deuses adjuntos conseguem dar conta do recado.
O deus das palavras dirige-se ao monitor que accionou o alarme e observa com atenção. Verifica as palavras que estão a ser utilizadas com uma frequência acima do seu valor normal: “empreender” e seus derivados (“empreendedor”, “empreendedorismo”, etc.), “competitividade”, “produtividade”, “ajustamento”. Reconhece que são palavras pertencentes ao dialecto economês. Chama um dos adjuntos e diz-lhe para manter aquele monitor sob vigilância.
No dia seguinte, o sub-deus informa-o que a utilização das palavras referidas subiu duas ordens de grandeza. O deus das palavras irrita-se e a cólera dos deuses pode ser terrível. Senta-se ao terminal, acede à base de dados que contém todas as palavras, e apaga as palavras violadoras da distribuição estatística. Com um sorriso raivoso, comenta para o seu adjunto: “Já está!”
As consequências no país em causa foram tremendas. Os discursos políticos ficaram com o aspecto de uma manta esburacada. Quando anteriormente um político dizia: “É necessário o empreendedorismo para aumentar a competitividade e a produtividade do país”, agora saía-lhe da boca para fora: “É necessário o [          ] para aumentar a [         ] e a [          ] do país”.
O deus das palavras apenas levou dois dias pensando que tinha reposto a regularidade estatística. Essa sua satisfação terminou com um novo alarme a soar no mesmo monitor. As palavras cujas frequências de utilização tinham agora disparado eram “Palhaço!” e “Rua!”

terça-feira, 20 de maio de 2014

A PARTÍCULA DE DEUS

Meu querido neto
Sabes que nunca apreciei o facto de não estudares Direito como o teu avô e o teu pai e teres antes escolhido Física, actividade que sempre vi como um pouco estranha e sem utilidade.
Fiquei contente quando arranjaste esse trabalho no CERN, embora continuasse sem perceber a necessidade de construir máquinas tão caras para partir átomos.
Mas o que hoje li no jornal fez-me reconsiderar a minha atitude. Vem na primeira página, em letras garrafais: "No acelerador gigante, cientistas procuram a partícula de Deus".
Como São Paulo, subitamente vi a luz!
Junto envio uma caixinha em madeira, com o interior forrado de veludo vermelho. Queria pedir-te para meteres lá dentro uma partícula de Deus e me enviares a caixinha de volta. Quero juntá-la às outras relíquias na capela da casa: o fragmento do Santo Lenho, o pedacinho da tíbia de São Francisco, a madeixa do cabelo de Maria Madalena, e o farrapo do hábito da mártir Santa Úrsula, trazidas pelo teu avô das suas andanças pelo mundo. Embora livre-pensador era um bom homem!
Faz esse favor à tua avó, que nunca se esquece de ti nas suas orações.
Um grande beijo.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Uma lista... com apreciações minimalistas...

Em 2006, Sergio vel Hartman pediu uma lista intitulada "Mis cinco libros". Para marcar o carácter não absoluto destas escolhas, alterei ligeiramente o título e enviei-lhe "Cinco de mis libros", que são os primeiros cinco da presente lista.
No mês passado, foi o Artur Coelho a passar-me uma solicitação de 15 livros. Peguei na lista que tinha guardada e acrescentei-lhe mais dez. E aqui fica a lista de 15 livros (que amanhã, no mês que vem ou no próximo ano não seria certamente a mesma) "para memória futura".


Fundação (trilogia inicial) – Isaac Asimov
O conceito da psicohistória: a sociologia tornada uma ciência experimental. A transposição da evolução dos grandes impérios do passado (ascensão e queda) para a escala da galáxia.

Earth-Sea (Terra-mar) – Ursula Le Guin
Muitos anos antes do “fenómeno Harry Potter” mas com uma riqueza muito superior. A magia como parte integrante do tecido social, a noção de equilíbrio do mundo que não deve ser alterado, a palavra como transformadora da realidade.

Dune – Frank Herbert
Uma história que se entretece com a ecologia à escala planetária. O messianismo e o poder político num jogo de xadrez mortal em que as peças são planetas.

As cidades invisíveis – Italo Calvino
As conversas entre Marco Polo e Kublai Kan fazem vibrar algumas fundações das nossas estruturas mentais, lembram-nos que a realidade que vemos é muitas vezes um cenário e que quando esse cenário é rasgado, o que aparece por detrás pode ser outro cenário...

Memorial do convento – José Saramago
Uma panorâmica sobre o tempo de D. João V, e da sua filha que foi a causa da construção do convento de Mafra, e do padre Bartolomeu de Gusmão que construiu uma máquina que voava devido à magia de Blimunda, que conseguia ver o interior das pessoas... Para ler ao som de uma sonata de Scarlatti, que também lá aparece...

The book thief (A rapariga que roubava livros) - Markus Zusak
Um livro que me emocionou. Um livro sobre livros, sobre a guerra, vista do lado perdedor, onde o narrador é a Morte. E onde se vê para que pode servir um exemplar do Mein Kampf...

Embassytown - China Miéville
Onde aparecem "aliens" verdadeiramente "aliens", e não humanos com tentáculos ou de outra cor ou... (estão a ver a ideia).

City of Saints and Madmen - Jeff Vandermeer
Depois de o ler, nunca mais comerão cogumelos ou polvo com o mesmo à vontade...

A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón
Um livro sobre livros e mais coisas, em Espanha, durante a noite negra do franquismo.

Neverwhere - Neil Gaiman
Um guia "fantástico" para as estações de Metro de Londres...

Directa - Nuno Bragança
Para os que não viveram "os tempos da outra senhora", pode dar uma ideia de como as coisas se passavam no Portugal salazarento...

Os livros que devoraram o meu pai - Afonso Cruz
Mais um livro sobre livros... Que querem, é uma pancada minha!

Forças do Mercado - Richard Morgan
"The shape of things to come"... só que muitas já chegaram!

The Hunting of the Snark - Lewis Carrol
Um clássico do "nonsense", pelo autor da Alice... e de alguns livros de matemática!

E para acabar uma BD:
A febre de Urbicanda  - Schuiten & Peeters
Indescritível! Tem mesmo que ser lido/olhado.
Da série "As Cidades Obscuras", que se recomenda na totalidade.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Cenas bíblicas (1)

Pedro passava os seus Passos pelo mundo, debitando parábolas (quando não hipérboles) a fiéis e gentios, indistintamente.
“Em verdade vos digo: ficai pobres, porque só assim atingireis a salvação!”
“Andastes a viver acima das possibilidades, agora apanhai migalhas; ou com sorte, um carrito de gama alta!”
“Tendes que vos convencer que só alguns, os predestinados empreendedores, podem ir ao pote.”
“O país é como um navio, eu sou o timoneiro, o rumo está traçado, navegamos em direcção à terra prometida, não temos culpa que a maior parte de vós se tenha alojado no porão, onde há ratos e baratas; os escolhidos habitam no convés, sentindo na face a brisa perfumada do sucesso.”
Passeava ele por estas metáforas quando lhe vieram dizer:
“Pedro, o teu companheiro Miguel está morto!”
“Morto! Mas como assim, se ainda há pouco tempo ele estava rubicundo como um tomate, cantarolando a “Grândola vila morena”? E de que morreu?”
“Consta que de apoplexia. Tentou comer uma licenciatura de uma só vez, mas engasgou-se com as últimas quatro cadeiras…”
“Levai-me até ele”, disse Pedro, e assim foram.
“Miguel, levanta-te e anda!”
E Miguel levantou-se e andou, e Pedro conduziu-o até à cabeceira da lista para o Conselho Nacional.
Quando o povo viu isto, muitos murmuraram, mesmo entre os fiéis reunidos no Sinédrio, e diziam em voz baixa:
“Mas quem se julga ele para andar a ressuscitar mortos ao sábado?”
“Vamos fazer-lhe sentir que não é dono disto tudo! Que tem que contar com a opinião dos fiéis! Vamos fazer muitas listas para o Conselho Nacional!"
E foram 9 as listas.
E quando a lista de Pedro obteve apenas 25,7 por cento dos votos, ( 18 em 52 mandatos), quase todos, fiéis e gentios, no segredo dos seus corações, se regozijaram.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Divergência

Um pequeno grupo, no meio do continente que mais tarde viria a ser chamado África. Providos de cérebro, mãos e curiosidade. Construídos à sua “imagem e semelhança”.
Preparado um ambiente com predadores e presas, pressão necessária e suficiente para evoluirem, deixá-los desenvolver-se, crescer e multiplicar-se. Forçados a mover-se quando os recursos numa região se tornam escassos. Divergência.
Vagas sucessivas vão-se dispersando por um planeta vazio de homens. E seguem para Leste e espalham-se pela Ásia, e avançam para Norte e ocupam a Europa, e da Ásia passam à América. E esquecem-se, e descobrem-se. Com intervalos de séculos, surgem por vezes grandes impérios, cuja expansão transporta no ventre as sementes de mais divergência. Impérios que terminam por assassinato dos líderes, ou por revoltas das periferias contra o poder central, ou por razões ainda mais prosaicas como uma epidemia de propagação rápida e consequências mortais. Guerras em que se exterminam com maior ou menor eficiência. Mais divergência…
Mas a convergência parece fazer parte da matriz primeva: a família, a tribo, a região, a nação… E surge a Sociedade das Nações. E as Nações Unidas. A União Europeia. A Organização Pan-Africana. A União das Américas. A Confederação Asiática. As redes informáticas criando a consciência global. A instauração de um Governo Mundial…

— X —

O Mestre dá a aula como terminada. “Já passaram dois milhões de anos”, justifica. Vai de deus em deus observar o trabalho realizado.
“Yahweh, o que é que temos aqui?”. Observa o planeta e franze o sobrolho. “O objectivo era a divergência! E tu não conseguiste evitar a convergência! Mau trabalho, Yahweh!”
Os outros deuses entreolham-se, um pouco surpreendidos pela veemência do Mestre.
“É absolutamente imprescindível evitar o aparecimento da convergência. Porque a ela se segue a emergência. E emerge em direcção à singularidade. E se chega à singularidade, a humanidade atingirá o nível dos deuses. E nós não queremos isso!”
“ Destroi tudo o que fizeste. Vou arranjar outro planeta para começares de novo…”

Seguindo as ordens do Mestre, Yahweh dá início ao Apocalipse.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A Faustian Unbargain

Este foi o título com que ficou, no número 559 de Bewildering Stories, uma história intitulada "Como afinal Fausto não vendeu a alma ao Diabo (mas esteve quase...)", publicada neste blogue em Março de 2013. O texto própriamente dito não encurtou... pelo contrário, até aumentou um pouco na tradução...

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Efemérides

Este blogue fez oito anos no sábado passado.
O tempo passa e os aniversários já não são o que eram...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Lá fora...

Foi hoje publicado no site Bewildering Stories a versão em inglês de um conto - Viagem no Tempo - publicado neste blogue no último dia do ano passado.
Em estrangeiro ficou com o nome  RTFM — Especially Aunt Bessie’s.

Enjoy...

sábado, 23 de novembro de 2013

Scene Stealers

writetodone é um site recheado com artigos sobre a arte da escrita. Tem uma secção intitulada Scene Stealers que funciona como uma espécie de workshop de escrita: dão uma frase e tem que se escrever uma história completa (<= 350 palavras) que comece com a frase dada.

A última frase (Scene Stealer #16) foi:

He pushed the door open and went in. It was the last thing he expected.

e a minha história foi a seguinte:

He pushed the door open and went in. It was the last thing he expected. He thought the room was simply empty until he realized he was facing Emptiness. And she was together with her old friend Silence.
Emptiness was beautiful, totally different from Nothingness, that the man had met before. Emptiness had an infinite potential, while Nothingness was the end of the road.
Silence created the space that allowed Emptiness to show the infinite ways leading to the future.
The man sat cross-legged on the floor and watched Emptiness for a long time, while Silence cleaned his soul.
When he left the room he knew himself and he knew what he wanted to do. He smiled and went away.


Quem escreve em inglês pode gostar de seguir os links indicados acima.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

À atenção de arquitectos, engenheiros e público em geral

Uma empresa de engenharia que entende que a cultura faz parte do seu universo.
A revista Betar - Artes&Letras materializa essa preocupação.
Este pdf é o número de Setembro passado. Se forem à página 9 encontram um miniconto meu, já aqui publicado, com outro título, em 2009...




domingo, 8 de setembro de 2013

Uma carreira matemática

Travar conhecimento com os "números primos" foi para Joaquim Silveira uma revelação! Nesse instante descobriu que queria fazer da Matemática a sua vida... E assim foi! Licenciatura, mestrado, doutoramento, investigador na Universidade de Princeton...
E da sua produção científica, publicada nas revistas mais reputadas, foram saindo os "números tios" (em bom rigor "tio e sobrinho"), os "números cunhados", os "números pais e filhos" (os "números adoptivos" foram um caso particular destes, desenvolvido por um seu aluno de doutoramento) e esta sua actividade culminou com a generalização que veio a ser formalizada no "Teorema dos números ascendentes, descendentes e colaterais até à ordem n".
Na cerimónia em que lhe foi atribuída a Medalha Fields, celebrando o facto de ter fundado um novo ramo da Matemática, que ficou conhecido como "Aritmética Familiar", a felicidade de Joaquim Silveira era no entanto toldada por uma pequena mácula: o seu filho, recém-entrado na Universidade, tinha ido estudar Direito... porque detestava Matemática!

sábado, 7 de setembro de 2013

DO TEMPO FRAGMENTADO

Relatório de diagnóstico sobre a grave disfunção temporal detectada na periferia da galáxia, enviado ao Contemplador dos Fluxos Galácticos pelo afinador temporal destacado para o planeta Terra.



Sereno Contemplador


Desejo a Vossa permanência por muitas rotações galácticas.

Como sabeis, fui enviado a este sistema em virtude de graves distorções no continuum temporal detectado na sua vizinhança. A perturbação era originada no 3º planeta, o único habitado; seguindo a aproximação padrão, colocámo-nos em órbita e escolhemos para inspecção directa dois locais com valores limites da densidade populacional: o que na terminologia local é designado como uma pequena aldeia e uma grande cidade.

A observação directa teve lugar, como habitualmente, através da entrada num elemento da população, seleccionado aleatoriamente pela nave de acordo com critérios pré-estabelecidos, avaliando o seu comportamento racional e emocional. Esta monitorização não é detectável pelo hospedeiro e deve ter lugar, sempre que possível, de forma não interferente. Em caso de necessidade, o observador pode controlar totalmente as acções do hospedeiro, fazendo um by-pass à camada superior do sistema nervoso. O hospedeiro apenas fica com uma amnésia localizada, respeitante ao período em que foi controlado. Este procedimento não se revelou necessário na operação aqui relatada.

Serão em seguida descritas as duas experiências a que procedemos, com os comentários destinados à avaliação sumária da situação.

Na primeira experiência, o hospedeiro seleccionado foi um agricultor: Esta constitui uma ocupação muito frequente nas zonas menos povoadas e consiste em fazer crescer biomassa vegetal, utilizando o solo como substrato.
No momento do contacto, o hospedeiro conduzia um veículo, um tractor, com o qual lavrava um campo próximo da aldeia. Embora o dispositivo de accionamento fosse descontínuo, isso não afectava o hospedeiro de forma detectável.
A certa altura, avaliou a altura do Sol acima da linha do horizonte, encostou o tractor e desligou o motor. Apeou-se e começou a andar em direcção à aldeia. Da direcção desta veio uma sequência de sons metálicos, que despertaram no hospedeiro um sentimento de satisfação com vários cambiantes, difíceis de destrinçar para um contacto ainda na fase inicial.
Chegou a casa próximo da hora da alimentação. Esta é uma ocasião caracterizada por um certo ritual. Alimentos de diversos tipos são colocados sobre uma mesa para serem ingeridos pela família sentada à volta.

Finda a refeição, o hospedeiro foi sentar-se no alpendre, tirou do bolso um objecto constituído por um tubo fino ligado a um pequeno vaso, onde colocou umas ervas secas a que deitou fogo. Pelo tubo fino aspirava o fumo que depois libertava para o ar, e com um prazer sereno ali ficou a fumar, observando o pôr-do-sol. Os seus pensamentos deslizavam, suaves, com um fluir ditado por ritmos naturais: pintar a casa no próximo Verão, trocar o velho tractor depois da colheita. O seu tempo era um tempo primevo, calmo, sem tensões; mesmo o relógio que a certa altura foi buscar ao prego onde estava pendurado pela corrente e que depois acertou cuidadosamente pelas badaladas da torre da igreja, embora sendo uma máquina destinada a cortar o tempo, não era sentida como tal, mas sim como um objecto de adorno, cuja visão invocava a festa do dia seguinte, onde o levaria no bolso do colete preto, e o seu pai, já desaparecido, a quem pertencera.

Após este breve levantamento, foi decidido passar à segunda experiência: e embora já estivesse à espera de situações aberrantes, em função do que os nossos sensores temporais haviam assinalado, devo dizer que só o treino intensivo a que nós, afinadores temporais, somos submetidos, fez com que conseguisse suportar a experiência.

O meu hospedeiro era desta vez um gestor, isto é, um indivíduo responsável por um grupo de empresas, entidades funcionais do sistema económico, envolvendo pessoas e equipamentos.

O tempo era, para este homem - e verifiquei depois para a generalidade dos habitantes da grande cidade - dividido em pedaços, por sua vez subdivididos, por vezes ainda subdivididos, e todas as actividades, do despertar ao adormecer, eram controladas por essas divisões. Oficialmente, o tempo de uma volta completa do planeta em torno de si próprio é dividido em 24 partes (horas), divididas por sua vez em 60 partes (minutos), por sua vez divididos em 60 segundos. Existe uma obsessão em que qualquer actividade seja executada no tempo mais curto possível.

O dia de trabalho do meu hospedeiro era dividido em pequenas fatias, onde eram arrumadas as reuniões que tinha, os telefonemas que tinha que fazer, as cartas a ditar; na parede, vários relógios indicavam a hora local em diversas outras cidades do planeta, donde vinham e para onde eram enviadas mensagens. Diversos telefones tocavam, pessoas atendiam, respondiam ou passavam a informação ao meu hospedeiro, que tomava uma decisão a esse respeito.

No meio desta loucura de múltiplas descontinuidades, senti que havia uma preocupação no espírito do meu hospedeiro: precisava de comprar um presente de aniversário para a mulher. Consultou a agenda na sua mesa de trabalho e verificou que tinha um período de meia-hora sem nenhuma marcação. Chamou um dos colaboradores e disse-lhe: "Vou sair durante meia hora; se houver alguma coisa realmente importante, liguem para o telemóvel."

Tomou o elevador e saímos ao nível da rua. Milhares de pessoas caminhavam em todas as direcções, olhando com frequência os relógios que traziam ao pulso, conduzindo automóveis, entrando em autocarros, precipitando-se para as entradas do comboio subterrâneo.

O meu hospedeiro seguiu ao longo do passeio, e entrou subitamente num local que foi para mim um súbito choque: à nossa volta, centenas, milhares de máquinas pequenas, grandes, de todos os tamanhos, fragmentavam o tempo, ora ponteiros que ao percorrer mostradores cortavam pequenas fatias, ora visores luminosos onde os números se sucediam, indicando os segundos, décimos, centésimos...

Verifiquei então que se tratava de um local onde se podiam comprar relógios e o meu hospedeiro havia entrado lá porque pretendia oferecer um desses objectos à mulher... Foi de facto um suplício ter que estar ali, assistindo ao múltiplo retalhar do continuum temporal, enquanto ele escolhia. Terminada a transacção, saímos finalmente para a rua onde, embora o ambiente de loucura fosse evidente, não o era de forma tão concentrada como dentro da relojoaria.

Após esta breve descrição dos dois contactos havidos e em consequência do estudo multivariado realizado posteriormente, submeto a Vossa Serenidade a seguinte linha de actuação:


1. Repartição da população do planeta em aglomerados populacionais com o máximo de mil unidades cada, com tratamento subliminal por forma a assegurar que este limite não será ultrapassado. Só desta forma será possível manter a epidemia de agressão temporal sob controlo permanente.

2. Quanto aos aglomerados actualmente acima deste limite, existem 2 alternativas: ou a sua eliminação pura e simples, ou a dispersão dessa população pelas zonas rurais por forma a atingir o objectivo do parágrafo anterior.


Vossa Serenidade certamente deslizará para uma decisão sintonizada com os padrões galácticos.



Ass: O afinador temporal enviado ao planeta Terra

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ghost writing

Eleutério Silva - nome fictício, já perceberão por quê - escrevia contos curtos. Mais, era um óptimo escritor de contos curtos. Costumava publicar os seus textos na Net, e ficava satisfeito quando recebia reacções positivas, desde um simples like no Facebook até comentários, por vezes extensos, no seu blogue.

Havia um tipo de comentários que o deixavam extremamente satisfeito e era quando o leitor dizia: "Gostaria de ter escrito este conto!".

Foi este género de frase que colocou a mente de Eleutério numa linha de raciocínio que moldou definitivamente o seu futuro.

Foi ao Google e à Wikipédia, pesquisou "ghost writer", e ficou surpreendido perante a quantidade de casos em que escritos de uns aparecem atribuídos a outros. Das novelas de Tom Clancy às memórias de Hillary Clinton, da autobiografia de Reagan a algumas encíclicas papais... E não só na literatura: Mozart escreveu peças que mecenas endinheirados fizeram passar por suas...

Lembrou-se também de um filme que tinha visto há muitos anos em que Woody Allen actuava como autor de textos que eram na realidade produzidos por escritores impedidos de publicar por estarem na lista negra do macartismo.

Eleutério meditou durante uns dias sobre a problemática da autoria e do seu reconhecimento. Quando emergiu dessa meditação tinha um business plan que passou a executar.

Enviou emails individuais aos seus leitores, anunciando a venda, por um preço módico, de contos curtos. A venda seria estritamente confidencial e o comprador poderia seguidamente publicar o conto como sendo da sua autoria. Eleutério ficou surpreendido com a adesão ao seu projecto. E começou a ganhar uns euritos.

Ao fim de algumas semanas aconteceu o expectável; vários leitores interessados em comprar o mesmo conto. Eleutério fez um pequeno leilão entre os interessados e o conto foi vendido pela melhor oferta. E como isso foi acontecendo com alguma frequência, os proventos de Eleutério foram aumentando.

Alguns meses se passaram e Eleutério tomou consciência que o mercado português era muito reduzido e que a expansão da sua actividade só seria possível com a internacionalização. Novamente abordou o problema de forma muito profissional. Embora o seu inglês já fosse bastante bom, procurou um curso com incidência particular na escrita de textos criativos e frequentou-o, com muito bom aproveitamento. Começou depois a enviar contos para todos os sites que encontrou que publicassem contos curtos. Usando agora os leitores desses sites, reproduziu no mundo da língua inglesa o que tinha feito no mercado português, mas numa dimensão incomparavelmente superior.

Eleutério vive hoje confortavelmente, gerindo o seu negócio e dirigindo o trabalho da equipa de ghost writers -  todos eles naturalmente sujeitos a um acordo de confidencialidade - que entretanto foi tendo que juntar para responder ao aumento de procura do mercado. O apartamento em condomínio fechado onde vive na cidade, a casa na praia, o BMW com menos de um ano e as contas em diversos bancos são o resultado desta sua actividade.




E estimado leitor, quem sabe se o conto que acabaste de ler não saiu do teclado de Eleutério ou de algum dos seus contratados? Quem sabe?


Dedicado ao José Eduardo Lopes, que me enviou o ebook "Microescritas", que tenho estado a tomar lentamente, para evitar uma overdose de microliteratura, muito difícil de tratar...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Acta da reunião do júri do concurso literário “Palavras nunca lidas”

O meu conto com o título acima foi agora republicado no Nanozine 9

domingo, 7 de julho de 2013

O TESOURO

Era sabido por todos que Khalil El-Amin, o bisavô do actual Sultão, tinha mandado construir nos jardins do palácio um Pavilhão onde, era voz corrente, estava guardado um tesouro.
Na sala do trono havia uma caixa com incrustações de madrepérola que, toda a corte dizia, continha a chave do Pavilhão. Na tampa da caixa tinham sido gravadas instruções para só ser aberta no dia em que passassem cem anos sobre a morte de Khalil.
Nesse mesmo dia, a caixa foi solenemente transportada para a frente do Pavilhão, onde tinha sido erigida uma tenda para albergar o Sultão e a corte mais próxima.
Aberta a caixa, uma reacção de surpresa percorreu todos os que assistiam. Na caixa não havia nenhuma chave, mas um pergaminho onde estava escrito:
“Não forçareis a porta, nem usareis chave para a abrir.”
O Sultão consultou o seu círculo de conselheiros, que concluiu que a solução do problema estaria provavelmente na utilização de magia. E logo foi publicado um édito, proclamando que o Sultão daria metade do tesouro guardado no Pavilhão àquele que conseguisse abrir a porta.
E muitos magos vieram de todas as províncias do sultanato, mas a porta manteve-se inamovível a todos os encantamentos contra ela pronunciados. E todos os magos e feiticeiros, humilhados, foram forçados a desistir.
O Sultão decretou então que qualquer súbdito teria direito a tentar abrir a porta. Mas quem se atrevia, depois de poderosos magos terem falhado? E a multidão em torno do Pavilhão mantinha-se expectante.
Foi então que uma voz se ouviu: “Eu gostaria de tentar, oh Comandante dos Crentes!”
E um rapaz pobremente vestido furou por entre a multidão e aproximou-se até uma distância respeitosa do Sultão, mantida pelos soldados da guarda pessoal.
“Como te chamas?”, perguntou o Sultão.
“Ali-Babá, Vossa Alteza”, disse o rapaz fazendo uma vénia.
“Qualquer um dos meus súbditos pode tentar. Avança!”
O rapaz foi a um arbusto que florescia junto da porta do Pavilhão e cortou um raminho. Limpou-o das folhas, introduziu o raminho na fechadura da porta, torceu para um e outro lado e ao fim de poucos segundos, empurrou a porta que, para espanto de todos os presentes, se abriu suavemente sem ruído.
Ali-Babá recuou, virou-se para o Sultão e com uma vénia, convidou-o a entrar no Pavilhão.
“Nem vou perguntar-te onde adquiriste a perícia necessária para o que acabas de realizar”, disse o Sultão ao rapaz, antes de transpor a porta.
Já dentro, nova surpresa. O interior do Pavilhão, constituído por um único compartimento, estava essencialmente vazio, apenas com uma mesa sobre a qual se encontravam duas vasilhas seladas e um livro. E um rolo de pergaminho.
O Sultão entregou o pergaminho ao grão-vizir para que o lesse. E este leu:
“Não era provavelmente o que esperáveis, mas é este um tesouro maior que qualquer outro. Aqui dentro tendes água, trigo e um livro. Água, Comida e Conhecimento. Existirá maior tesouro na face da Terra?”
O Sultão dirigiu-se à multidão: “Sábias palavras as do meu bisavô.”
Falou depois para Ali-Babá:
“Permite-me que guarde o livro que pertenceu ao meu antepassado. Poderás ficar com o resto do tesouro.”
O rapaz rompeu os selos da vasilha de água, levou-a à boca e bebeu longamente. Pegou depois na vasilha de trigo e despejou-a até ao último grão num bornal que trazia ao ombro. Dirigiu-se então ao Sultão, ajoelhou, pegou-lhe nas mãos e beijou-as.
“Obrigado, oh Comandante dos Crentes!”
Levantou-se, fez outra vénia e afastou-se, misturando-se com a multidão.
Quando já estava suficientemente longe, abriu as mãos: na palma da mão direita brilhava um anel de ouro, com um enorme rubi, que minutos antes ornamentava o dedo indicador da mão esquerda do Sultão. Na outra mão de Ali-Babá refulgia uma pulseira de prata finamente trabalhada, ornamentada com granadas e safiras, que o Sultão usava no pulso direito em ocasiões especiais.
Ali-Babá olhou para os objectos, deu uma gargalhada, fê-los desaparecer numa das múltiplas algibeiras da sua túnica andrajosa e mergulhou nas ruas da kasbah, fervilhantes de gente, onde a sua presença se desvaneceu em poucos segundos…

segunda-feira, 17 de junho de 2013

"Prosa para embrulhar castanhas"

Há já muitos anos, José Carlos de Vasconcelos publicou uma crónica com o título acima, que comentava o facto de ter encontrado uma página de jornal com um texto seu a embrulhar uma dúzia de castanhas assadas que tinha comprado.
Lembrei-me disto porque participei recentemente num concurso para microcontos até 350 caracteres, cujos 20 melhores seriam publicados em pacotes de açúcar.
Os que enviei não estiveram entre esses 20 (oh, well...), mas como já estão libertos do "segredo de justiça" (o resultado saiu hoje), resolvi arejá-los aqui. E aqui ficam, sem mais preliminares.




O DESTINO

Era uma bala pacifista. Por mais de uma vez tinha tentado converter as colegas de carregador às suas ideias, mas sem êxito. E quando foi utilizada por um dos soldados do pelotão de fuzilamento, voou directa ao coração do condenado.
O destino controla as vidas e mortes de todos… mesmo de balas pacifistas.




A VIDA DOS FAMOSOS

Uma caneta de marca encontrou-se com um relógio seu conhecido numa festa onde estava a nata dos relógios e canetas.
“Aos anos que não te via! O que tens feito?”, perguntou o relógio.
“Dedico-me à Escrita, e tu?”
“Olha, vou passando o Tempo…”




O ENCONTRO

(Peça minimalista em 1 acto)

Palco despido de adereços. Luz branca, forte. Os actores entram um de cada lado do palco.
Ele: Mariana!!!
Ela: Joaquim!!!
Caminham um para o outro. A luz diminui lentamente enquanto cai o pano.