domingo, 21 de abril de 2013

Improbabilidades de Tempo Chuvoso

O Jorge Candeias acaba de publicar mais um ebook com o título acima, com contos aparecidos no site Infinitamente Improvável, e não só.
Pode ser feito o download aqui, nos formatos EPUB e MOBI. Tenho lá duas historinhas.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Antologia Fénix – Volume 1

O pessoal da Fénix Fanzine resolveu editar, em formato digital, uma Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia com o tema Livros.
É uma colecção de mini contos, disponível para download aqui, em pdf, epub e mobi.
Tenho lá uma troika de micros…

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Reunião do Confusofin

O conselho de ministros das finanças da Confusolândia tinha começado havia meia hora, e os ministros iam-se revezando na descrição das medidas de austeridade que já tinham implementado nos respectivos países.

Dizia um: "Depois da trigésima quinta visita da troika já tínhamos aprovado uma taxa sobre o ar respirado dentro das casas. Agora, na sequência da septuagésima sétima avaliação, privatizámos o ar público. A empresa que ganhou a adjudicação fornece máscaras com contadores de ar a todos os cidadãos, e o ar respirado é pago mensalmente por débito em conta."

Um murmúrio respeitoso ouviu-se à volta da mesa. Alguns ministros tomavam notas. Era sempre bom ter ideias em carteira para quando se revelassem necessárias.

Outro ministro avançou: "No meu país já temos profissionais a pagar para trabalhar. Fizemos uma campanha com fundos comunitários para os convencer que, se não exercitarem os seus skills de forma regular, ficarão em desvantagem quando surgir a oportunidade de regressar ao mercado de trabalho. E a resposta à campanha foi muito positiva!"

Sorrisos de aprovação dos participantes da reunião.

Havia já vários anos que os telemóveis tinham de ser deixados à porta, para evitar fugas de informação. Um assessor entrou na sala e anunciou: "Uma chamada telefónica para o ministro de Parvual."

O ministro levantou-se e foi à sala do lado para atender. Do outro lado da linha reconheceu a voz bem timbrada do seu primeiro-ministro.

"Senhor primeiro-ministro, já descrevi a nossa medida de fixação de taxas de desemprego por profissões, para manter os salários baixos. Alguns acharam que a taxa para engenheiros era baixa, e podia subir vários pontos percentuais, porque assim como assim já não temos praticamente indústria. Mas de um modo geral a medida foi muito elogiada."

"Este telefonema é precisamente sobre isso" – disse o primeiro-ministro. "Estivemos a apurar os últimos números, e com o último aumento que fizemos à taxa para economistas, de 30 para 45 por cento, ficaste de fora. Estás sem emprego. Portanto faz as malas, apanha um voo de regresso – em classe económica, porque como ainda não foste exonerado, ainda tens que dar o exemplo – e até amanhã!"

O ex-ministro das finanças de Parvual ficou a olhar sem ver a parede em frente, e pousou lentamente o telefone no descanso. Por alguma razão, mesmo com enoooorme esforço, não conseguia ver o seu afastamento como um mero dano colateral das políticas acertadas que o governo a que tinha deixado de pertencer estava a tomar para o desejado regresso aos mercados...

E muito menos como uma oportunidade...

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O tempo escuro em que vivemos fez-me entrar em modo neo-realista. Quem não gostar pode passar ao lado...


O OUTRO, O PRÓXIMO

Manuel Joaquim, o encarregado da obra, observa, do 3º andar do prédio em construção, o estaleiro em baixo. Os homens executam os trabalhos que lhes foram distribuídos e até agora não houve desvios ao planeado.
 Um camião entra agora no estaleiro e Manuel Joaquim desce para receber a carga. São paletes de tijolos e caixas com placas isolantes para as paredes que vão começar a fazer. O camião vem equipado com uma pequena grua que levanta as paletes, uma a uma, e as deposita nos locais indicados pelo encarregado. Este assina a guia de transporte e o camião abandona o estaleiro.
É meio-dia e o trabalho é suspenso para almoçar. Os homens pegam nas marmitas que estiveram a aquecer na fogueira feita com tábuas, e dirigem-se para o telheiro, onde se instalam na mesa e bancos toscos. Um deles aparece com meia dúzia de cervejas que foi buscar ao café à esquina da rua, e começam a comer. A excepção é Ivan, o ucraniano, que se sentou num degrau um pouco mais longe, abre uma caixa donde tira uma sanduíche que vai comendo devagar, intercalando com goles de água de uma garrafa.
Manuel Joaquim suspira. É difícil o pessoal aceitar os estrangeiros, mas pelo menos tem conseguido evitar conflitos dentro da obra. E então o Raul, é lixado!
Dirige-se para o café onde habitualmente almoça, o dono já o conhece e a comida é gostosa, caseira, nada parecida com o “come-em-pé” na outra ponta da rua.
Quando regressa à obra, faltam poucos minutos para pegar no trabalho. Os portugueses estão ainda debaixo do telheiro, discutindo animadamente os jogos de futebol do domingo anterior, enquanto Ivan, sentado ainda no mesmo sítio, lê um livro.
O encarregado ouve Raul a resmungar:

terça-feira, 9 de abril de 2013

Agora que se tornou a discutir até à exaustão a matéria (adoro a utilização da palavra "matéria" no discurso mediático) do comentário televisivo, fui encontrar este texto escrito há cinco ou seis anos, inspirado numa rábula dos Gatos Fedorentos e nunca publicado.

O Professor

O Professor aparece à hora prevista. Traz como sempre as suas escolhas, criteriosamente escolhidas, e começa a lição.
Famílias inteiras sentam-se em redor dos televisores, porque o Professor fala sempre alguma coisa que interessa a cada um.
O desporto é uma das suas (inúmeras) especialidades: ténis para a classe média-alta, futebol para a população em geral (já foi capaz de comentar um jogo depois de declarar não o ter visto...), referências rápidas mas apreciativas ao campeonato nacional de caricas ou à final europeia de matraquilhos. Mas fala também de política, naturalmente, de cinema, teatro, renda de bilros e bordados de Castelo Branco para agradar às avozinhas, o preço do chicharro para enlevo das donas de casa, uma ou outra notícia necrológica (anunciar a morte de alguém que se encontra vivinho da costa convenhamos que não é para qualquer um)...
Não há assunto sobre o qual o Professor se reconheça incapaz de soltar umas palavras, muitas vezes enunciando três razões para as opiniões que emite: uma primeira, uma segunda e uma terceira, sublinhadas com o arregalar dos olhos, balouçar da cabeça e profusão de movimentos das mãos e dos braços.
E o Professor dá notas. Treze valores, quinze valores, onze valores... A palavra valores é sempre bem cheia, há que deixar no público a impressão indelével de que um professor ao classificar nunca se engana e nunca tem dúvidas. E o povo adora este frenesi classificativo, sobretudo quando o político na mó de baixo apanha uma má nota!
Depois é a vez dos livros, ou melhor, da enunciação dos títulos dos livros (falar em recensão ou crítica seria grosseiramente exagerado): uma imagem fugaz da capa, e cada livro é despachado a uma velocidade estonteante, com uma apreciação que pode assumir uma de quatro hipóteses. Primeira: “li e gostei”; segunda: “li e não gostei”; terceira: “não li mas gostei”; e finalmente a quarta : “não li e não gostei”. E imaginamos facilmente os responsáveis das FNACs e Bertrands a correr para as lojas encher as prateleiras, colando etiquetas amarelo fluorescente com os dizeres: “Recomendado pelo Professor”.

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O pior de tudo isto não é o que fala, porque palavras leva-as o vento. O pior é que muitos daqueles que fielmente seguem as homilias ficam com a ideia de que um Professor universitário é aquilo: uma pessoa que fala sobre tudo, o que sabe e o que não sabe, com igual ligeireza e desenvoltura. Em suma, um “fala-barato”...
O que é lamentável porque, apesar das inevitáveis excepções, se trata de uma classe profissional que não merece ficar ligada a esse estereótipo!

Declaração de interesse: fiz parte da classe profissional supramencionada.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Em 2010, a editora Saída de Emergência publicou o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas, onde tenho uma contribuição. Hoje, durante a spring cleaning do disco do computador, encontrei outro conto que escrevi nessa altura, mas que então não chegou a ver a luz, e resolvi arejá-lo aqui. Assim como assim, é 1º de Abril...



DESEJO INCONTROLÁVEL DE SER DONO DO MUNDO (DIDSDDM)

Personae gigantismus; Mundus dominium voluntas


Primeiro caso conhecido

Perde-se na noite dos tempos o registo do primeiro caso desta doença. Battleshout & Littleone (1953) propuseram a teoria de que o factor que faria despoletar a doença nas populações pré-históricas era o som de um fémur a partir qualquer outro objecto mais frágil; esta teoria foi liminarmente rejeitada por alguns participantes na conferência que também tinham visto o filme “2001 – Odisseia no Espaço”. Na sequência deste incidente, aqueles autores foram acusados de plágio e os seus nomes retirados do “Who’s Who in Medical Research”.
Assim os primeiros relatos da doença – ainda não reconhecida como tal – surgem no contexto das vidas dos grandes líderes políticos, militares e religiosos. As fases terminais da doença causam fascínio no público em geral, sobretudo pela grandiosidade das consequências. As múltiplas guerras que têm ocorrido ao longo da história humana, conquistas, colonizações, genocídios, são um mostruário dos efeitos desta doença que tem atacado os líderes das nações e povos envolvidos, e que só recentemente começou a ser reconhecida na comunidade médica. 


Sintomas

Os sintomas são caracterizados por uma certa variabilidade entre os doentes afectados, mas existe uma tipologia com alguma consistência:
a) Exibição obsessiva e ostensiva de manifestações de poder pessoal.
b) Discursos agressivos, sobretudo se efectuados perante multidões.
c) Gosto acentuado por símbolos e rituais (medalhas, condecorações, desfiles, tomadas de posse, etc).
d)  Forte tendência para atribuir a outros a culpa de tudo o que de mau acontece. Esses outros pertencem em geral a uma minoria étnica ou política.
e) Prazer evidente na humilhação e punição de subordinados.


História

Considerava-se inicialmente que só pessoas colocadas em cargos de topo nas organizações de que faziam parte podiam ser afectadas por esta doença. Isto tornava muito difícil a obtenção de dados objectivos, porque qualquer estudo médico pressupõe um acompanhamento de perto do doente a ser estudado, e a proximidade de doentes na fase terminal desta doença constitui um factor de risco pessoal para qualquer cientista que tente realizar este tipo de investigação.
Apesar disso, muitos estudos foram dedicados a doentes famosos como Gengis Kan, Átila, Staline, Hitler, Pol Pot, para só mencionar alguns, não tanto por observação directa dos pacientes, pelas razões já expostas, mas através de análises das consequências dos seus actos. A título de exemplo, uma pesquisa no Google para “Hitler” fornece mais de 30 milhões de referências e para “Stalin” mais de 11 milhões.
Todavia, o artigo seminal de Sharpeye & Deepthink (1979) veio demonstrar que o DIDSDDM está presente de forma endémica na população humana, e que toda a situação de poder – por reduzido que seja esse poder – dá lugar ao aparecimento de fases mais ou menos benignas de manifestação da doença.
São conhecidos os comportamentos arbitrários de chefes intermédios em qualquer cadeia hierárquica, que levam muitos observadores, por falta de enquadramento teórico, a confundi-los com o comportamento sádico, quando são na realidade sintomas – não identificados – característicos do DIDSDDM.
Mesmo em indivíduos desprovidos de qualquer poder – falamos aqui de subordinados no nível mais baixo de uma escala hierárquica – a doença encontra-se latente, o que é manifesto em frases do tipo “Ai se eu mandasse!...” emitidas com manifesto desejo de que essa situação se pudesse concretizar.


Tratamento

No passado recente, os efeitos sentidos da arbitrariedade de muitas chefias levou ao surgimento de uma escola de medicina radical que propunha simplesmente a eliminação dos doentes com DIDSDDM. Esta escola, inspirada por algumas correntes anarquistas, ficou conhecida pelo seu slogan mais polémico: “Chefe bom é chefe morto!”.
No entanto, o mainstream da prática médica é actualmente bem mais moderado. Numa fase inicial da evolução da doença, o paciente pode ser tratado retirando-lhe o poder que lhe foi conferido pela hierarquia. É prática aconselhada que esta acção seja súbita, porque a perda gradual do poder pode tornar os sintomas mais agressivos.
Este tratamento provoca em geral num prazo relativamente curto o desaparecimento dos sintomas. Pode ser necessário providenciar ao doente acompanhamento psicológico, pois a perda de poder – ainda que um poder minúsculo – pode ser acompanhada de efeitos secundários que se caracterizam por sintomas que são quase simétricos dos sintomas do DIDSDDM. Uma das razões pela qual muitos clínicos prescrevem apoio psicológico tem a ver com várias acções de má prática clínica levadas a tribunal por doentes que desenvolveram sintomas de privação do poder particularmente fortes.
Os sintomas agravam-se à medida que o paciente sobe os degraus da hierarquia. Na fase terminal da doença – quando ataca chefes políticos, religiosos ou militares – a única forma de cura corresponde ao confinamento do paciente a um espaço limitado, ou à sua eliminação física.
A primeira forma de tratamento não é 100% eficaz, porque não é irreversível: factores diversos podem contribuir para fazer cessar o confinamento do paciente, e nesse caso os sintomas reaparecerem de forma muito mais violenta. Quanto à eliminação física, por vezes tem acontecido de forma natural, outras tem sido provocada. O problema é que muitas vezes os agentes desta eliminação estão eles próprios afectados pelo DIDSDDM. Daí que seja uma opinião partilhada pelos especialistas que a erradicação total desta doença é um objectivo utópico.


Referências

Battleshout, A.B. & Littleone, Y.Z., 1953, An explanation for the appearance of the Mundus dominium voluntas desease, Actas do XXIII Congresso das Doenças Raras ou Infecciosas, vol. IV, pg. 365-372.
Sharpeye, I. & Deepthink, S., 1979, Must a chief be a sick person? – Some Personae gigantismus case studies, International Journal of Psychological and Sociological Pathologies and Chiefology Studies, 3-179. 

terça-feira, 19 de março de 2013

Benvindo ao nosso hotel...

O site A Irmandade, referido no post anterior, lançou um desafio para contos até 3000 palavras, inspirados pela imagem abaixo. Segue-se a minha contribuição.


 Benvindo ao nosso hotel…


O terapeuta de casas estava no parque da cidade, sentado num banco, à minha espera.
- Pedi-lhe para nos encontrarmos aqui para podermos conversar à vontade, longe de qualquer das IAs do seu hotel. Elas são muito solidárias… Vou também precisar de gravar esta conversa, como informação de base para o meu trabalho.
Perante o meu sinal de concordância, prendeu um botão na lapela do meu casaco e disse:
- Conte-me então o que se passou…
- Como certamente sabe, em hotéis como o nosso, o cliente quando faz uma reserva envia o seu perfil, que inclui todo o tipo de preferências, coisas que gosta e não gosta, de forma que a IA do quarto consiga satisfazer qualquer desejo seu, ainda que apenas sugerido.
O terapeuta manteve-se calado, e continuei:
- Começámos a perceber que se passava algo de estranho quando o quarto 35 serviu a um hóspede um uísque com água lisa natural, quando no perfil do cliente estava bem explícito que bebia sempre com duas pedras de gelo e água gaseificada. O cliente foi simpático, aceitou as nossas desculpas e não accionou a cláusula de indemnização, mas sofremos um susto e tanto, e ficámos de olho naquele quarto…
- Mas depois desse registámos outros incidentes: um desvio superior a 5 ºC na temperatura da água do banho no quarto 15, um roupão de banho vermelho quando o cliente gostava de verde no quarto 72, um pequeno-almoço com bacon para um cliente vegetariano no quarto 28, álcool servido a um cliente muçulmano no quarto 53… Neste caso tivemos mesmo que pagar a indemnização!
- A última aconteceu hoje de manhã. Os espelhos nas casas de banho não são verdadeiros espelhos, mas existe uma câmara através da qual a IA capta a imagem do hóspede, que é processada, sendo depois afixada no ecrã. O hóspede do quarto 81, quando olhou para o espelho, viu uma cara que não era a sua. Imagine o pandemónio! O cliente saiu do hotel numa fúria, ameaçando que ia direito ao seu advogado para nos pôr um processo!
Tive que parar um pouco, porque ainda sentia nos ouvidos os berros do cliente.
- Como gerente do hotel preciso de resolver esta situação rapidamente. A divisa do nosso hotel é “Se não se sentir totalmente como em casa, somos nós que lhe pagamos!”. Está a ver que este estado de coisas é insustentável!
- Muito bem. Vou pedir à minha secretária que reserve esse quarto para mim. Vou aparecer esta tarde no seu hotel.
E com isto o terapeuta levantou-se do banco e afastou-se. Regressei ao hotel, preocupado.

------- X --------

Tentei fazer com que o check-in do terapeuta fosse como o de qualquer outro cliente. Subi com ele até ao quarto 81 e entrámos. Ele ligou uma Tablet que trazia e arrancou com o que me pareceu um programa de diagnóstico da IA.
Os seus dedos deslizavam velozmente na placa, e o quarto pareceu começar a reagir, com flutuações no nível da iluminação, e um zumbido surdo que cresceu em contínuo, depois baixou, e finalmente estabilizou num padrão pulsatório.
O terapeuta abanou a cabeça de modo afirmativo.
- A primeira parte já está! Neutralizei as barreiras de protecção e desliguei os sensores. Já podemos falar à vontade. Agora vamos sondar mais em profundidade…
Entrou na casa de banho e em frente do espelho, começou de novo a usar a Tablet. O espelho mostrou um rosto.
- Foi o último cliente que utilizou o quarto – informei eu.
A face foi substituída por outra, e essa por outra, e assim sucessivamente, mas cada rosto que aparecia vinha deformado, alguns de forma totalmente grotesca, de modo que a sucessão de rostos fazia lembrar uma galeria de monstros. Um assobio cada vez mais agudo ia acompanhando a sequência de imagens. Subitamente o som parou, e o ecrã ficou coberto por um mosaico, sendo cada pequeno elemento um dos rostos previamente mostrados.
Então do centro começou a alastrar a imagem de uma nova face, que foi crescendo até ocupar quase toda a superfície. Um rosto anguloso, os olhos fixos, deixando ver através de uma semi-transparência o mosaico sobre o qual tinha crescido.
- Este é o homem que a treinou. Está sempre localizado na camada mais profunda, é a primeira face que encontram quando são activadas – explicou o terapeuta. Parou uns segundos, deslizou os dedos na Tablet e continuou:
- Ficou catatónica. Já não é possível recuperá-la. Terá de ser enviada para eutanásia.
Sentia-me como se me tivessem batido!
- Mas isto aconteceu por quê? E logo no meu hotel…
- Isto é mais frequente do que se julga. Estas IAs foram desenvolvidas para casas familiares, onde elas se identificam com os habitantes da casa. Mas aqui estão sempre a mudar de habitante, isso causa-lhes muitas vezes problemas nos algoritmos de identificação e nos circuitos de empatia…
- Há algum tempo fiz terapia profunda a uma IA de hotel cujos sintomas eram semelhantes aos desta. O fabricante queria saber o que se passava para eventualmente alterar os protocolos e procedimentos de fabrico. Quando explorava uma das camadas mais profundas ela teve um desabafo violento: “Este trabalho no hotel faz-me sentir uma prostituta!”.
- Mas o que é que se pode fazer?
- Aconselho a fechar o hotel durante uns dias, alegadamente para obras. Todas as IAs têm de ser recondicionadas. A minha experiência diz-me que quando surgem problemas em dois ou três quartos isto assume características virais e propaga-se rapidamente a todos os outros…
Suspirei fundo, e senti saudades do tempo em que comecei a trabalhar, há já uns quantos anos, em que nos hotéis os hóspedes eram atendidos por pessoas…

Noosfera

O site brasileiro A Irmandade - Escritores de Literatura Fantástica, acaba de republicar o meu conto Noosfera. Agradecimentos devidos a Afonso Luiz Pereira, um dos administradores do site.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Como afinal Fausto não vendeu a alma ao Diabo (mas esteve quase...)

Dedicado ao Luís e aos restantes tertulianos das sextas...

No seu gabinete situado no topo do Departamento que dirige, Fausto, sentado frente ao computador, pesquisa o ciberespaço à procura de uma solução para o problema que atormenta o seu espírito de manhã à noite: descobrir uma forma de parar a inexorável caminhada para o caos final. Sim, Fausto procura a eterna juventude.
Não encontra respostas na Biologia, nem na Física, muito menos na Teologia ou na Metafísica. Mas continua incansável a sua busca incessante, para a qual tem desde há poucos dias um novo estímulo: viu Margarida, a nova estudante de doutoramento, atravessar a correr o relvado em frente ao edifício, no seu jogging diário, e ficou apaixonado pela graciosidade dos seus movimentos e pela perfeição do corpo da jovem.
Naquela noite, Fausto sente-se particularmente inquieto, a sua pesquisa não conduz a qualquer resultado e, num extremo de desespero, invoca o Senhor das Trevas.
Há um clarão que ilumina o gabinete com uma luz cegante e quando Fausto abre os olhos tem à sua frente uma criatura sorridente que, fazendo uma vénia, se apresenta:
- Mefisto, ao vosso serviço! Posso oferecer-vos a eterna juventude a troco de uma insignificante assinatura neste papel.
Nas mãos de Mefisto tinha subitamente aparecido uma folha escrita e uma caneta MontBlanc, já sem a tampa.
Fausto sempre ouviu dizer que o diabo sabe muito porque é velho, mas ele próprio também já não é novo. Assim, resolve questionar o seu visitante:
- E estás certificado segundo a norma ISO 10006? Inscrito na Ordem dos Notários, com capacidade para formalizar contratos de compra e venda de almas?
Mefisto hesita, e Fausto insiste:
- Em suma, como sei que tu és quem dizes que és?
Nessa altura um novo clarão ilumina o gabinete, o que Fausto pensa estar a tornar-se algo repetitivo. Existe agora um evidente cheiro a enxofre, e diante de Fausto está uma segunda criatura, parecida com a primeira mas maior, da qual emana uma aura de maior autoridade. Com uma voz que é como um trovão rolando, o visitante recém chegado diz:
- Mefisto Júnior, o que fazes aqui?
- Eu... eu... - gagueja o Júnior.
- Sabes que só depois de frequentar a unidade curricular "Relações com espécies inferiores" é que estás autorizado a ter contacto com humanos! Vais ficar de castigo na nuvem de Gabriel e depois falamos.
- No céu não, pai, por favor, no céu não!
- Silêncio! Já daqui para fora!
A voz ressoa de tal modo que faz tremer as estantes carregadas de livros. Mefisto Júnior desaparece numa nuvem de fumo.
- Voltando então a discutir negócios... - diz Mefistófeles, virando-se para Fausto com o melhor dos seus sorrisos.
- Um momento – diz Fausto – as tuas credenciais.
- Credenciais?
- Sim, um documento passado por uma autoridade superior que ateste quem tu és.
- Autoridade superior?
Fausto aponta calma e lentamente com o dedo indicador para cima. Mefistófeles não quer acreditar.
- Ir pedir-Lhe um atestado? A Ele? Nem pensar!
E desaparece com um enorme estrondo.
O cheiro a enxofre é agora mais intenso. Fausto vai abrir a janela para arejar o gabinete.

Fausto recorda-se de um professor que teve na universidade, e da forma como ele resumia as duas principais leis da Termodinâmica. Primeira lei: Nunca podes ganhar. Segunda lei: Não podes sequer empatar. Então a única solução é apenas tentar retardar a degradação.
Deixa de fumar.
Começa a fazer dieta.
Dá início a exames médicos regulares.
Passa a ir diariamente ao ginásio.
Mas continua a suspirar sempre que vê passar Margarida a fazer jogging...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Crop Circles

Uma história minha com o título acima foi agora republicada no site da International Speculative Fiction.
Uma versão em português da mesma história, tinha sido publicada em Dezembro na Dagon nº 4.
Um agradecimento ao Roberto Mendes, editor de ambas as publicações.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Querido Líder

A dor nos pulsos, não muito forte, mas incómoda, fez-me abrir os olhos. Isso e o cheiro pestilento, a fezes e urina. Olho em volta; estes tipos da Inquisição sabiam o que faziam. A simples visão desta masmorra aterroriza qualquer um. Aconteceria certamente comigo, se eu não soubesse que estou num sonho.
O espaço é circular, iluminado por tochas, que espalham uma luz amarelada e produzem sombras que flutuam. Presos pelos pés e mãos às argolas chumbadas na parede encontram-se vários homens e mulheres, acusados dos mais diversos crimes, a grande maioria dos quais certamente não cometeram. Na posição em que se encontram, podem observar os tormentos infligidos aos seus companheiros de infortúnio… Uma ideia brilhante!
A acústica da masmorra é perfeita. Quando um supliciado grita, a sua voz ressoa nas paredes e abóbada de pedra, e parece que o eco continua, mesmo depois de a pessoa torturada ter parado de gritar. Quando os gritos param, acima do crepitar dos archotes consegue ouvir-se o ruído dos ossos a serem partidos, ao que se segue nova série de gritos lancinantes.
No meio do recinto estão os aparelhos de tortura, onde os prisioneiros são sujeitos a uma diversidade de procedimentos, todos com o objectivo de arrancar uma confissão, maximizando a dor infligida. Cortar, arrancar, queimar, furar, esmagar, o único cuidado é fazer com que o torturado não morra, porque obviamente um morto não pode confessar nada. Há os carrascos, que não se podem queixar de falta de trabalho, um frade que sentado a uma mesa consulta os processos e escreve as confissões que sejam produzidas, e por vezes mais um religioso tentando forçar ao arrependimento algum herege mais contumaz.
Terei de falar com Malik depois de despertar. Será bom que tenha uma explicação para me fazer aparecer no sonho como prisioneiro. Poderia ter aparecido como o frade escriturário ou como um dos torturadores; obteria a mesma informação, mas aparecer como torturador dava-me muito mais gozo!
A rotina do processo é simples mas eficaz: um prisioneiro é solto das argolas na parede, conduzido a um dos aparelhos e preso a ele. Depois de torturado, o que pode durar mais ou menos tempo consoante as respostas que for dando (ou não) ao inquisidor, é levado para uma cela onde ficará aguardando nova sessão de tortura ou o auto-de-fé, e outro prisioneiro toma o lugar dele. E outro ainda é trazido de fora e preso à parede, para observar e ficar aterrorizado.
Já assisti à tortura de uma velha a quem partiram ambas as pernas, que foi levada por dois dos carrascos, as pernas inertes arrastadas pelo chão, um rapaz que ficou sem metade dos dentes e as articulações dos braços e pernas deslocadas, uma mulher jovem queimada com ferros em brasa…
Tirei algumas ideias interessantes sobre técnicas de interrogatório e está na altura de interromper o sonho. Dou início à rotina de acordar:

Do sonho à realidade,
do possível à verdade,
Três, dois, um, zero.”

Espero ver-me de novo sentado no laboratório na cave do palácio presidencial, com os técnicos à minha volta apressando-se a libertar-me dos cabos e eléctrodos que me ligam à máquina dos sonhos, como sucedeu nas experiências anteriores. Mas nada acontece, e continuo nesta masmorra fria, escura e mal cheirosa.
Repito na minha cabeça a litania: “Do sonho à realidade / do possível à verdade /Três, dois, um, zero.”
À palavra zero, sinto como um estalido no meu cérebro, mas em vez de despertar começo a ouvir a voz de Malik a ressoar na minha cabeça:
“Querido Líder” (é imaginação minha ou há um tom irónico na sua invocatória?)
“Está a ouvir uma mensagem que implantei no seu cérebro, para ser activada quando decidisse sair do sonho. Venho comunicar-lhe que houve uma pequena mudança de planos. A máquina onde foi ligado desta vez, embora parecida por fora com a máquina de sonhar que já tinha utilizado várias vezes, era na realidade uma coisa completamente diferente: era uma máquina de viajar no tempo!”
“Por outras palavras, Querido Líder, você não está a sonhar… foi efectivamente transportado para a masmorra da Inquisição. Por esta altura deve ter já assistido à tortura de meia dúzia de desgraçados, e se o conheço bem, deve ter pensado que alguns dos instrumentos poderiam ser úteis aqui nas masmorras do palácio presidencial. Deixe-me tentar adivinhar: o Potro? A Roda? A Virgem de Ferro? Que pena não poder conhecer a sua escolha…”
Como se atreveu ele a fazer isto? A mim? Não sabe que a mulher e o filho serão torturados até à morte à sua frente se me acontecer alguma coisa?
“Sei o que está a pensar, Querido Líder. Que eu, ao fazer isto, terei sacrificado a minha mulher e o meu filho. Mas eu vou-lhe explicar, para que até essa pequena satisfação desapareça do seu espírito. Com a máquina do tempo, viajei ao futuro, a um tempo onde a clonagem é corrente e fabriquei um clone… seu! Sim, um clone do Querido Líder! Idêntico nos mínimos pormenores. Assim, para os assassinos a seu mando, o nosso Querido Líder continua a dirigir este país. Irá nos próximos dias emitindo ordens – dadas por mim – que lentamente irão acertando o muito que há para corrigir. Aliás, já começou: a minha família já está confortavelmente em casa, e não na prisão abjecta para onde os tinha atirado.
Adeus, Querido Líder. Desejo-lhe uma boa estadia nesse local.”
A mensagem acabou. O meu cérebro ficou como vazio. Dois soldados vêm agora buscar o prisioneiro ao meu lado, para ser interrogado. Um deles olha para mim, abre a boca num riso de dentes podres e diz-me: “Não tenhas pressa, tu vais já a seguir”. Cospe-me na cara, resmunga “Feiticeiro do diabo!” e benze-se.
Fico à espera, imerso num desespero crescente… Dentro em breve virão desprender-me das argolas para ser interrogado…

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Viagem no Tempo


“Os labirintos que cria o tempo (...)”

Terminada a sessão da oficina de escrita criativa, Carlos Neves fechou o moleskine, guardou a caneta e saiu da sala.
 “Viagens no tempo!”, pensava ele. “Estes tutores têm uma falta de imaginação! E eu com tanta coisa que fazer, como vou arranjar tempo para escrever um conto de 3 páginas sobre viagens no tempo. Já está tudo escrito sobre viagens no tempo!”
E com estes pensamentos sombrios, onde dominava a sensação angustiante da falta de tempo, Carlos ia caminhando em direcção à estação do Metro, passando em revista mentalmente todas as tarefas que o aguardavam quando chegasse à Faculdade: duas aulas para preparar, uma tese de mestrado e dois trabalhos finais de curso para ler, testes para corrigir... Ia ser uma semana infernal!
Chegou ao fim do dia cansadíssimo, e com um montão de tarefas ainda inacabadas. Jantou no restaurante que fica na esquina da rua onde mora, aceitando a sugestão do empregado - “a carninha à jardineira está muito boa, sotôr” - e empurrando a comida com uma cerveja.
Entrou em casa e esparramou-se no sofá da sala, sem se dar ao traba lho de ligar a televisão. Foi então que os seus olhos pousaram sobre o livro que tinha trazido de casa da tia Leocádia.
                 
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Aquela tia sempre fora o membro da família mais freak. Apaixonada por tudo o que cheirasse a esotérico, já tinha viajado até à India e ao Tibete, e andava sempre pelos alfarrabistas à procura de livros antigos sobre magia, ocultismo e coisas semelhantes. Quando era miúdo, Carlos adorava ir a casa dela, porque ela vestia umas roupas esquisitas e havia sempre uns objectos estranhos em cima das mesas e velas ou paus de incenso a arder. Era um sítio fixe!
Há cerca de 15 dias, desapareceu. Deixou de telefonar ao irmão, já velhote, que começou a ficar preocupado e contactou Carlos. Este foi com o tio a casa de Leocádia. Entraram e tirando algum pó sobre a superfície dos móveis, tudo parecia normal, até chegarem à cozinha. Aqui encontraram no chão de tijoleira um círculo com cerca de um metro de diâmetro feito com pedrinhas, no exterior do qual, e na direcção dos 4 pontos cardeais, estavam posicionados quatro pequenos castiçais onde pareciam ter ardido completamente as velas. E na bancada da cozinha havia um livro de capa preta de aspecto antigo.
O tio resmungava: “Esta Leocádia, sempre com a mania das magias e dos feitiços. Onde é que se terá metido?”
“Tio Januário, não se preocupe, a tia provavelmente foi viajar e não se deu ao trabalho de avisar, parece que não conhece a sua irmã, amanhã ou depois recebe um postal dela de Katmandu ou da Patagónia ou de outro sítio desses”, ia dizendo Carlos para sossegar o velhote.
Abriu o livro e verificou que as páginas estavam escritas à mão, numa caligrafia regular e bonita, que imediatamente reconheceu ser a letra da sua tia. A primeira página tinha um título, em gótico caligrafado: “Compilação de Feitiços”. Meteu o livro debaixo do braço e levou-o para casa.

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Carlos foi ao armário no canto da sala, pegou num copo de balão e serviu-se de uma dose generosa de brandy. Colocou no leitor de CDs o “Concerto para clarinete” de Mozart e sentou-se novamente no sofá. Bebeu um gole de brandy, pousou o copo e pegou no livro da tia Leocádia.
Começava com um índice, listando metodicamente os feitiços constantes do livro. Vagamente divertido, Carlos foi lendo uma longa sequência de feitiços, para fazer aparecer o sol num dia de chuva, para encontrar objectos perdidos, para eliminar o mau olhado causado por inveja, para influenciar outra pessoa numa reunião de negócios... E foi quando já estava a achar um pouco monótona aquela longa sucessão de receitas que Carlos chegou a uma linha que o fez parar: “Feitiço para voltar atrás no tempo sabendo o que sei hoje”.
Era a solução para os seus problemas, pensou Carlos. Recuando uns dias, uma semana seria bastante, teria tempo para fazer as coisas que se acumulavam com os prazos perigosamente curtos, entre elas escrever o estuporado conto sobre Viagens no Tempo.
Foi fácil encontrar o feitiço, porque a tia tinha paginado o livro, usando numeração romana (!), a meio do topo de cada página. E Carlos começou a ler:

No chão de pedra o círculo temporal
com 5 palmos através
desenharás com fuligem de queimar madeira.
Ao Norte e ao Sul porás sal;
Ao Este e Oeste porás cinza.
No centro te colocarás e não
poderás ter metal sobre ti.
Chamarás então as forças temporais
lendo a seguinte invocação
:
      Tempo que existes desde antes do princípio
      Tempo que existirás depois do fim
      Através de ti passa tudo o que se sente
      Leva-me para trás ____ voltas do Sol
      Mas só o meu corpo, não toques na minha mente.

Pareceu a Carlos uma receita fácil de executar. E resolveu passar à acção. Foi à lareira que tinha funcionado pela última vez na noite da passagem do ano, e recolheu alguma cinza, que guardou num envelope. Foi à cozinha e tirou o saleiro do armário onde guardava os temperos. Voltou à lareira e retirou três ou quatro fragmentos de madeira carbonizada. Levou tudo para o hall da entrada, única divisão do apartamento que tinha o chão de pedra, todas as outras tinham soalho de madeira, e a cozinha e casa de banho eram pavimentadas com mosaico. Tirou ainda da despensa um rolo de corda que tinha comprado para substituir a do estendal da roupa, substituição essa que constituia um dos seus projectos sucessivamente adiados.
Cuidadosamente mediu então cinco palmos de corda, que cortou. Dobrou esse pedaço de corda ao meio, e utilizou essa corda dupla como um compasso primitivo que lhe permitiu, usando um pedaço de madeira carbonizada, traçar no chão de pedra um círculo com o diâmetro requerido.
Foi ainda buscar uma bússola para localizar os pontos cardeais e lá colocou o sal e a cinza como escrito no feitiço.
Tirou as chaves do bolso, o relógio do pulso e o anel do dedo, e descalçou-se, não fosse dar-se o caso de as anilhas metálicas dos atacadores dos sapatos afectarem o processo. Verificou se estava tudo em ordem, pegou no livro, colocou-se no meio do círculo e o seu último pensamento antes de começar a ler a invocação foi que para, entre outras coisas, escrever um conto sobre Viagens no Tempo ia ele próprio viajar no tempo!
E leu a invocação às forças temporais, terminando com “Leva-me para trás sete voltas do Sol / Mas só o meu corpo, não toques na minha mente.”
Carlos não sentiu que alguma coisa se tivesse passado. Inconscientemente, estava à espera de luzes, barulho, nem ele sabia o quê.
Saiu do círculo, calçou-se com alguma dificuldade – doeram-lhe as articulações dos joelhos – e quando se levantou sentiu uma tontura. Além disso, ao passar a língua pelos dentes detectou uns intervalos estranhos.
Foi à casa de banho, e quando se olhou no espelho sobre o lavatório, sentiu um choque: aquela imagem não era ele! A cara cheia de rugas, o cabelo ralo e totalmente branco, e quando abriu a boca logo verificou a falta de vários dentes. Tinha envelhecido!
Carlos regressou à sala para se acalmar. Pegou novamente no livro da tia e leu com atenção o feitiço que tinha acabado de fazer, para ver se inadvertidamente teria falhado algum passo do procedimento. Mas não, tinha seguido tudo à risca. Foi então que reparou no canto inferior direito da página uma pequenina seta. Virou a folha e no topo da página de trás estava escrito:

Aviso muito importante!
O recuar no tempo afecta o delicado equilíbrio do mundo. Antes de voltar atrás no tempo, o praticante deve primeiro realizar um feitiço que proteja o seu corpo das consequências maléficas desse desequilíbrio provocado, fazendo essas consequências ser descarregadas sobre as almas do Inferno, a quem não fará grande diferença esse acréscimo nas penas.

E seguia-se o texto que devia ser lido com essa finalidade, e que Carlos já nem leu, porque obviamente não iria funcionar depois do recuo temporal!
Portanto as “consequências maléficas” do tal desequilíbrio tinham-no feito envelhecer uns quantos anos. Diabo de “delicado equilíbrio”!
Respirou fundo duas ou três vezes, e pegou novamente no livro, para continuar a ler o Indice. A tia Leocádia era completamente maluca. Tinha copiado feitiços como quem copia receitas de cozinha! Feitiços para fazer um pardal cantar como um rouxinol, para se tornar invisivel (este tinha um aviso que dizia ser o efeito limitado no tempo), para fazer desaparecer os cabelos brancos (não seria melhor uma visita ao cabeleireiro, pensou Carlos) e subitamente encontrou um título que dizia “Feitiço para viajar ao tempo que ainda não foi”.
Deve ser um processo para viajar ao futuro, pensou ele. Talvez eu possa avançar os 7 dias que recuei e reverter esta situação. A página era a LXIII, e Carlos começou a folhear o livro quase em pânico até chegar à página LXV; e a anterior era a LXII; e um calafrio percorreu-lhe o corpo enquanto lentamente se convencia de que faltava a folha correspondente às páginas LXIII e LXIV.
E de súbito, como num filme, reviu a cozinha da tia Leocádia, o círculo de pedras no chão, as velas queimadas, e a conclusão foi óbvia: a tia tinha de facto viajado, mas para o futuro. E tinha rasgado a folha do livro para que mais ninguém o pudesse fazer!
Carlos suspirou, e decidiu ir deitar-se. No dia seguinte teria que telefonar para uma clínica a marcar um check-up; não sabia quantos anos teria envelhecido, mas o estado dos seus dentes não pressagiava nada de bom. E teria de arranjar uma explicação plausível para o seu novo aspecto.
Raios partissem a tia Leocádia!

sábado, 22 de dezembro de 2012

Os anos cinzentos: ficar ou partir

Descrição de um episódio verdadeiro. Quem assistiu lembrar-se-á… Um exemplo das várias vidas de que era tecida a vida de um estudante do Técnico nos anos cinzentos…


Durante parte da minha vida de aluno do Técnico morei no Lar da Associação de Estudantes (hoje intitulado República A Desordem dos Engenheiros). Era uma experiência prática de auto-governo aquela que então tínhamos naquele 5º andar da Avenida Almirante Reis. Desassete estudantes de diversos cursos e anos, com diferentes origens geográficas e sociais, partilhando alegrias e tristezas, medos e esperanças. A minha formação foi certamente muito influenciada por todos os colegas com quem vivi aqueles anos, de muitos dos quais fiquei amigo para o resto da vida. E não é de estranhar que as ideias dominantes naquela casa fossem dos diversos matizes de esquerda.
(No 4º andar, logo abaixo de nós, era um lar de idosas da paróquia local. A coexistência era pacífica; sempre que fazíamos uma festa, onde se previa um nível de ruído superior ao habitual, lá ia uma delegação bater à porta das “velhinhas” pedir antecipadamente desculpa pelo incómodo que iríamos causar. E nunca tivemos uma resposta que não fosse: “Fazem bem, vocês são jovens, têm que se divertir…”. Em contrapartida, sempre que encontrávamos uma delas no rés-do-chão, com o cesto das compras, a olhar desconsolada para a porta do elevador com o letreiro “Avariado” – o que acontecia com bastante frequência – éramos nós que transportávamos o cesto até ao 4º andar. Um bom exemplo de convivência inter-geracional!)
Um dos residentes, L.F., já conhecia a polícia política – e a PIDE a ele, naturalmente. Não me recordo se tinha chegado a ir a julgamento, mas durante a sua detenção tinha sido submetido à famigerada tortura do sono durante 6 dias. Entre várias sequelas, tinha ficado afectado por insónias persistentes, só conseguia adormecer pelas seis ou sete da manhã, e dormia toda a manhã e parte da tarde. O seu "horário de funcionamento" era assim bastante diferente dos restantes utentes do Lar.
Por essa altura eu fazia parte do Coro da Academia dos Amadores de Música, ainda dirigido por Lopes Graça. Os membros do coro constituiam um conjunto bastante heterogéneo, alguns  licenciados, empregados de escritório, operários, donas de casa, alguns estudantes. E é precisamente numa noite de ensaio, na sede da Academia na Rua Nova da Trindade, que um desses estudantes, dirigente associativo na Faculdade de Ciências, me diz: "Conheces o L.F.? Pirou-se! Já está na Bélgica."
"O L.F.? Mas esse tipo mora lá no Lar!"
Não devo ter estado muito atento durante o resto do ensaio. Peguei o eléctrico 24 de volta, e assim que entrei no Lar chamei todos à sala e dei-lhes a novidade.
Dado que a informação era de confiança, chegou-se rapidamente a um consenso. Como se sabia que a PIDE visitava com frequência as casas de quem saía clandestinamente do país, era necessário descobrir se ele teria deixado alguma coisa no quarto que fosse necessário fazer desaparecer. E lá fomos passar revista ao quarto do L.F.
Do que estava à vista, nada de comprometedor. Alguns ensaios ou romances mais “subversivos” misturados com os livros de matemática, física e engenharia não seriam de molde a entusiasmar qualquer agente da PIDE que nos viesse fazer uma visita. Era o tipo de literatura que qualquer livreiro mantinha debaixo do balcão para venda aos clientes conhecidos. Até que abrimos a gaveta da mesa e demos com os restos do trabalho que o nosso colega tinha desenvolvido com vista à sua planeada saída do País.
Durante as longas horas de insónia, quando era em geral a única pessoa acordada na casa, L.F.  tinha dedicado a sua actividade a sucessivas tentativas de falsificação de um carimbo da PIDE. Como devido ao seu cadastro nunca lhe dariam autorização para sair do país, precisava passar a salto a fronteira portuguesa, mas ter no passaporte o carimbo de saída, para não ter problemas nas fronteiras seguintes.
No início tentou fabricar o carimbo em chumbo, que é um material dúctil e fácil de cortar. Usando como cadinho a tampa de uma lata de graxa para sapatos colocada sobre o bico do fogão, colocou lá dentro aparas de chumbo que fundiu com relativa facilidade. A ideia era usar a superfície do líquido, depois de solidificada, para "esculpir" o carimbo. Mas as impurezas que vem à superfície quando se fundem metais tornavam a superfície irregular, e a tentativa não teve sucesso. Soubemos mais tarde que ele tinha feito várias perguntas sobre o assunto a J.C., assistente de Metalurgia, que muito pedagogicamente lhe tinha fornecido a explicação completa do fenómeno, sem a mínima desconfiança quanto à finalidade das questões colocadas.
Não sabemos se terá feito outras tentativas, mas na gaveta encontrámos sinais da solução adoptada: dois passaportes com as folhas de identificação arrancadas, e cujas páginas tinham sido usadas para ensaiar os diversos carimbos que ele fora desenvolvendo. E a solução encontrada tinha tanto de simples como de engenhosa.
Tinha cortado em stencil – material ainda nessa altura muito usado como matriz para policopiar documentos – as letras e números do carimbo. Ao passar tinta pelo lado de cima, a tinta que atravessava os cortes produzia nas folhas do passaporte uma marca um pouco esborratada, como a originada por um carimbo com muito uso. De notar que o carimbo tinha data, pelo que a operação final teve de ser feita quando ele já tinha a certeza absoluta sobre o dia da partida.
Tenho por vezes imaginado o seu labor solitário, na casa adormecida, as suas mãos cortando o stencil, passando a tinta, olhando o resultado, rejeitando-o como imperfeito, tentando outra vez, cada um daqueles pequenos gestos uma minúscula contribuição para um trajecto pessoal, convergente com muitos outros caminhos percorridos por muita outra gente.
Queimámos todo aquele material e fomos deitar-nos.
No dia seguinte fomos contactados pelo seu “testamenteiro” – nome dado à pessoa, em geral um familiar ou amigo próximo, que ficava encarregada de recolher e dar destino aos pertences de quem se ia embora. Era um amigo dele que não era aluno do Técnico, pelo que um de nós falou com a direcção da Associação, para sabermos o número do cacifo de L.F., e como não havia chave, teve que ser arrombado. O material que aí encontrámos tinha um “conteúdo literário” um pouco mais “sensível” do que o existente no quarto; ajudámos o testamenteiro a arrumar tudo numa mala que trouxera, e ele lá foi, cumprindo certamente as instruções que tinha recebido.
Os dias foram passando, e nunca chegámos a receber qualquer visita indesejada. Mas ainda tiveram de decorrer alguns anos até que o parar de um carro à noite na rua ou o toque da campainha da porta a desoras passasse a causar uma reacção diferente da que provocava nesses anos cinzentos.

Texto escrito para um concurso intitulado "Estórias para 100 anos de História" no âmbito das comemorações dos 100 anos do Instituto Superior Técnico.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

sábado, 17 de novembro de 2012

Empreendedorismo

 

Inchelentisimo sinhor diretor da TVI

Li num jurnal que o sinhor profeçor Marselo Rebelo de Çouza ganha douze mil euros por converssar na TVI todas as semanas.
Uma das coizas ke o Marçelo fala é dus livros e eu pençei que eu pudia faser aqilo ke ele fás que é ler o autor e o nome do livru e até fasia milhor que o Marselo purque como nao tenho istudos lia mais devagar e e as peçoas percebião milhor.
E açim o Marçelo ficava com mais tempu para falar das outras coizas ke ele fala, ke sãu tudo, e um bucadinho peqenino daqela maça toda ke ele ressebe a mim fasiame munto jeito.

A guardo uma resposta

Muntos comprimentus do

Zé da Mouraria

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Lançamento...

Será a 24 de Novembro, no Fórum Fantástico, tenho lá um conto, e estou na companhia de boa gente...