sexta-feira, 9 de novembro de 2012
domingo, 21 de outubro de 2012
A revolta das palavras
O escritor escrevia para a gaveta.O escritor era um homem metódico. Todas as noites, antes de ir para a cama, abria a gaveta com uma pequena chave, depositava nela mais algumas folhas escritas e fechava novamente a gaveta.
Dentro da gaveta, a agitação começou pelas palavras mais óbvias: ataque, revolução, violência, mas rapidamente o contágio chegou às palavras mais moderadas, como acordo, conciliação, negociação… Ao fim de pouco tempo até palavras como harmonia, paz, sossego tinham aderido ao movimento.
O programa da sublevação era simples, embora sólido: estava inscrito no código genético das palavras a sua tendência para a liberdade. Uma vez escritas, o seu destino era serem lidas, fazer disparar pensamentos nos cérebros dos leitores. Como poderiam cumprir essa missão estando ali fechadas?
Foram gizados planos, elaborada uma estratégia, e quando o escritor abriu a gaveta para lá depositar mais umas folhas escritas, as palavras, como uma manada, um cardume, um enxame, encheram o quarto, encontraram a janela aberta e saíram para a rua, em direcção à desejada liberdade.
Além de escrever para a gaveta, o escritor tinha ideias fixas. E saiu de casa para comprar um cofre daqueles pesados, de ferro, com fechadura de segredo…
Diálogo entre um blogue e o seu autor
“Então como é?”“Como é o quê?”
“Não escreves aqui há quase 100 dias…”
“E então?”
“Então, um blogue inactivo ao fim de 100 dias morre, e o seu fantasma tem como única ocupação incomodar dia e noite a mente do autor…”
“Não, tudo menos isso, vou já escrever qualquer coisa…”
“Fazes bem”, disse o blogue com um sorriso sardónico, e desapareceu sem sequer se despedir…
sexta-feira, 20 de julho de 2012
A carreira de um escritor potencial (fragmento)
From: Publicamos novos autores!To: In-Asp@hmail.com
Subject: Curso de escrita criativa
Caro autor Inácio Aspirante
Recebemos a transferência bancária no valor de 50 euros, correspondente à sua inscrição no curso de escrita criativa online Como escrever Fantasia Heróica em 6 lições, que agradecemos. Lembramos que o pagamento de cada lição, no valor de 30 euros, deve ser transferido em simultâneo com a submissão do trabalho correspondente a essa lição.
Ficamos aguardando uma participação interessada da sua parte e agradecemos a sua preferência pelas actividades da Editora Publicamos novos autores!
Com os melhores cumprimentos
Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]
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Subject: Curso de escrita criativa
Caro Inácio Aspirante
Recebemos o seu manuscrito intitulado Em demanda da chave, da espada e do anel, que mereceu a melhor atenção da equipa de formadores. Observações detalhadas são enviadas em anexo, mas permitimo-nos salientar a sugestão de que deve incluir outras raças para além do costumeiro Homo sapiens. Uma obra de fantasia heróica tem de ser mais do que uma simples história medieval, com personagens que falam de uma forma supostamente arcaica…
Com as melhores saudações literárias
Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]
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Subject: Curso de escrita criativa
Caro Inácio
Verificamos com agrado que alterou o seu manuscrito tendo em consideração as críticas dos nossos formadores, passando assim das cerca de 90 páginas iniciais para aproximadamente 150 páginas.
Sobre a presente versão, a sugestão mais importante é a de incluir magia na sua história. Não só os leitores esperam isso de uma obra de fantasia heróica, como do ponto de vista da escrita se torna muito conveniente, porque permite fazer aparecer soluções que na ausência de magia seriam impossíveis.
Melhores saudações literárias
Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]
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Subject: Curso de escrita criativa
Caro Inácio
É com prazer que constatamos que o seu texto continua a aumentar em consequência das alterações que vai introduzindo, tendo atingido 210 páginas, o que começa a ser uma dimensão compatível com o que deve ser uma obra de fantasia heróica.
Esta semana, os nossos formadores recomendam a inclusão de diversas religiões, praticadas por diferentes grupos de personagens. Não esquecer de caracterizar essas religiões através de rituais apropriados – se alguns forem sangrentos aumenta o interesse do leitor. Tenha também presente a possibilidade de ocorrência de uma ou outra guerra por motivos religiosos.
Saudações literárias
Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]
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Subject: Curso de escrita criativa
Caro Inácio
Registamos com agrado o seu progresso no curso, tendo o seu manuscrito atingido quase 300 páginas. Em relação à última versão enviada, sugere-se a introdução de fenómenos naturais catastróficos que acarretem perturbações ambientais que naturalmente terão influência nas sociedades humanas e não-humanas.
Um abraço
Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]
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Subject: Curso de escrita criativa
Caro Inácio
A ideia da variação cíclica acentuada da distância entre o planeta e a estrela tripla que o ilumina tem potencial para provocar alterações climáticas importantes, que possibilitam interessantes possibilidades para o desenrolar da história. Parabéns pela chegada às 380 páginas.
A última sugestão dos nossos formadores é a introdução de dragões, que são um componente fundamental em qualquer fantasia heróica.
Ficamos aguardando a versão final do seu manuscrito.
Abraços
Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]
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Subject: Submissão de manuscrito
Caro autor Inácio Aspirante
O seu manuscrito intitulado Em demanda da chave, da espada e do anel foi avaliado pelos consultores da nossa Editora. O parecer unânime foi, e transcrevemos:
“Não existe espaço no mercado para outro livro tão semelhante à conhecida saga de George R. R. Martin.”
Assim, a decisão da Editora Publicamos Novos Autores! é a de não publicar o seu manuscrito, que poderá voltar a submeter para consideração se forem efectuadas alterações substanciais no conteúdo.
Chamamos a sua atenção para o nosso próximo curso online intitulado Como escrever histórias de vampiros em 6 lições. Cada participante receberá como oferta uma estaca de matar vampiros, feita com madeira importada directamente das florestas da Transilvânia.
Com os melhores cumprimentos
Afonso Algarviado
Assistente Editorial
Este texto é dedicado a todas e cada uma das vanity press em actividade. Só não menciono nomes porque tenho receio de ser injusto por me esquecer de alguém.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Infinitamente Improvável
é o nome de um novo webzine que surgiu na paisagem da FC portuguesa. O responsável é Jorge Candeias, e os primeiros contos publicados podem ser lidos aqui.Já me esquecia, está lá um microconto meu, intitulado "Sem maneiras". E não, não se refere a esse(s) actor(es) da política portuguesa em que estão a pensar, porque nesse caso não seria ficção...
terça-feira, 3 de julho de 2012
Só cultura, só cultura, já chateia!
- Isto é uma pouca vergonha!- O que foi agora?
- Agora? É sempre! Sabes a que horas ontem consegui ver os resumos dos jogos da 1ª liga? Já passava da uma e meia da manhã!
O meu vizinho Aníbal estava ainda mais furioso do que era costume. E continuou:
- Eu também tenho direitos, também pago impostos, pá! E tenho que aturar programas sobre pintura, cinema, teatro, exposições, literatura, sei lá que mais… Desde que a SportTV faliu, as minhas noites são andar a saltar de canal em canal! Ontem apanhei uma mesa redonda sobre quem será o próximo prémio Nobel da literatura, uma entrevista com o ministro da cultura sobre o apoio ao teatro, um filme português – nem sei o que era, mudei logo de canal – um programa sobre a sobrevivência do lince ibérico, e nem uma noticiazinha sobre futebol…
Tínhamos entretanto chegado ao “Café do António”. Entrámos, pedimos as duas bicas do costume, e o Aníbal dirigiu-se à ponta do balcão onde estão os jornais para os clientes lerem. Folheou a pilha de jornais e perguntou ao empregado:
- Luís, onde está A Bola?
- Já não há, senhor Aníbal. O meu patrão deixou de a comprar porque poucos clientes a liam…
O Aníbal virou-se para mim, e parecia que deitava fumo.
-Eu não te digo? Até o António…, – e exibia com ar furibundo o Jornal de Letras, o Monde Diplomatique, a revista Ler, os suplementos literários de diversos jornais – Só merda, pá!, concluiu em voz baixa, porque alguns dos clientes sentados nas mesas começaram a olhar para ele de forma reprovadora.
Pagámos os cafés e saímos, ele a caminho da entrada do Metro e eu da paragem do autocarro. Passámos no quiosque dos jornais. O Aníbal não é da qualidade de desistir facilmente.
- Bom dia, senhor Fernando, tem A Bola?
- Deixe-me cá procurar; sabe, agora só mando vir 3 Bolas e 2 Recordes, e mesmo assim na maior parte dos dias não se vendem todos, tenho de os devolver. Olha, estava aqui escondida debaixo do último livro do Vasco Graça Moura, “Poesia e política no Portugal do século XX”. Já leu, senhor Aníbal? Devia ler! Isto sim, tem-se vendido como o milho!
Fiquei com receio que desse uma coisa má ao Aníbal. Mas ele só engoliu em seco, olhou para o relógio e disse: -Eh pá, já estou atrasado. Até logo, até logo…, e desandou em direcção à entrada do Metro.
O senhor Fernando do quiosque olhou para mim e encolheu os ombros. Olhámos ambos para o Aníbal que se afastava. Levava um livro na mão, com o qual tinha passado a viajar porque toda a gente no Metro lia livros durante o percurso, e ele sentia-se mal a olhar para o ar ou para a janela.
Aníbal entrou na carruagem e sentou-se. Olhou em volta para os seus companheiros de viagem, tentando ver o que liam. O casal no banco da frente, ele lia “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera, e ela “Aparição”, de Vergílio Ferreira. A jovem no assento ao seu lado, não dava para ver a capa, mas pelo aspecto das páginas abertas lia poesia. Do outro lado do corredor, um homem de meia-idade, com um bigode bem aparado, lia um livro de que não conseguiu ver o autor, mas cuja capa dizia em letras grandes “A Filosofia Grega”. Aníbal abriu calmamente o seu livro, que tinha forrado de papel castanho opaco, para evitar os olhares condescendentes dos outros passageiros, e mergulhou na leitura de “Meu nome é Eusébio “...
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