sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Lançamento...

Será a 24 de Novembro, no Fórum Fantástico, tenho lá um conto, e estou na companhia de boa gente...

 

domingo, 21 de outubro de 2012

A revolta das palavras

O escritor escrevia para a gaveta.
O escritor era um homem metódico. Todas as noites, antes de ir para a cama, abria a gaveta com uma pequena chave, depositava nela mais algumas folhas escritas e fechava novamente a gaveta.
Dentro da gaveta, a agitação começou pelas palavras mais óbvias: ataque, revolução, violência, mas rapidamente o contágio chegou às palavras mais moderadas, como acordo, conciliação, negociação…  Ao fim de pouco tempo até palavras como harmonia, paz, sossego tinham aderido ao movimento.
O programa da sublevação era simples, embora sólido: estava inscrito no código genético das palavras a sua tendência para a liberdade. Uma vez escritas, o seu destino era serem lidas, fazer disparar pensamentos nos cérebros dos leitores. Como poderiam cumprir essa missão estando ali fechadas?
Foram gizados planos, elaborada uma estratégia, e quando o escritor abriu a gaveta para lá depositar mais umas folhas escritas, as palavras, como uma manada, um cardume, um enxame, encheram o quarto, encontraram a janela aberta e saíram para a rua, em direcção à desejada liberdade.
Além de escrever para a gaveta, o escritor tinha ideias fixas. E saiu de casa para comprar um cofre daqueles pesados, de ferro, com fechadura de segredo…

Diálogo entre um blogue e o seu autor

“Então como é?”
“Como é o quê?”
“Não escreves aqui há quase 100 dias…”
“E então?”
“Então, um blogue inactivo ao fim de 100 dias morre, e o seu fantasma tem como única ocupação incomodar dia e noite a mente do autor…”
“Não, tudo menos isso, vou já escrever qualquer coisa…”
“Fazes bem”, disse o blogue com um sorriso sardónico, e desapareceu sem sequer se despedir…

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A carreira de um escritor potencial (fragmento)

From: Publicamos novos autores!
To: In-Asp@hmail.com
Subject: Curso de escrita criativa

Caro autor Inácio Aspirante

Recebemos a transferência bancária no valor de 50 euros, correspondente à sua inscrição no curso de escrita criativa online Como escrever Fantasia Heróica em 6 lições, que agradecemos. Lembramos que o pagamento de cada lição, no valor de 30 euros, deve ser transferido em simultâneo com a submissão do trabalho correspondente a essa lição.
Ficamos aguardando uma participação interessada da sua parte e agradecemos a sua preferência pelas actividades da Editora Publicamos novos autores!

Com os melhores cumprimentos

Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]

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From: Publicamos novos autores!
To: In-Asp@hmail.com
Subject: Curso de escrita criativa

Caro Inácio Aspirante

Recebemos o seu manuscrito intitulado Em demanda da chave, da espada e do anel, que mereceu a melhor atenção da equipa de formadores. Observações detalhadas são enviadas em anexo, mas permitimo-nos salientar a sugestão de que deve incluir outras raças para além do costumeiro Homo sapiens. Uma obra de fantasia heróica tem de ser mais do que uma simples história medieval, com personagens que falam de uma forma supostamente arcaica…

Com as melhores saudações literárias

Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]

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From: Publicamos novos autores!
To: In-Asp@hmail.com
Subject: Curso de escrita criativa

Caro Inácio

Verificamos com agrado que alterou o seu manuscrito tendo em consideração as críticas dos nossos formadores, passando assim das cerca de 90 páginas iniciais para aproximadamente 150 páginas.
Sobre a presente versão, a sugestão mais importante é a de incluir magia na sua história. Não só os leitores esperam isso de uma obra de fantasia heróica, como do ponto de vista da escrita se torna muito conveniente, porque permite fazer aparecer soluções que na ausência de magia seriam impossíveis.

Melhores saudações literárias

Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]

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From: Publicamos novos autores!
To: In-Asp@hmail.com
Subject: Curso de escrita criativa

Caro Inácio

É com prazer que constatamos que o seu texto continua a aumentar em consequência das alterações que vai introduzindo, tendo atingido 210 páginas, o que começa a ser uma dimensão compatível com o que deve ser uma obra de fantasia heróica.
Esta semana, os nossos formadores recomendam a inclusão de diversas religiões, praticadas por diferentes grupos de personagens. Não esquecer de caracterizar essas religiões através de rituais apropriados – se alguns forem sangrentos aumenta o interesse do leitor. Tenha também presente a possibilidade de ocorrência de uma ou outra guerra por motivos religiosos.

Saudações literárias

Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]

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From: Publicamos novos autores!
To: In-Asp@hmail.com
Subject: Curso de escrita criativa

Caro Inácio

Registamos com agrado o seu progresso no curso, tendo o seu manuscrito atingido quase 300 páginas. Em relação à última versão enviada, sugere-se a introdução de fenómenos naturais catastróficos que acarretem perturbações ambientais que naturalmente terão influência nas sociedades humanas e não-humanas.

Um abraço

Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]

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To: In-Asp@hmail.com
Subject: Curso de escrita criativa

Caro Inácio

A ideia da variação cíclica acentuada da distância entre o planeta e a estrela tripla que o ilumina tem potencial para provocar alterações climáticas importantes, que possibilitam interessantes possibilidades para o desenrolar da história. Parabéns pela chegada às 380 páginas.
A última sugestão dos nossos formadores é a introdução de dragões, que são um componente fundamental em qualquer fantasia heróica.
Ficamos aguardando a versão final do seu manuscrito.

Abraços

Luís Rasteiro
[Departamento de Formação]

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From: Publicamos novos autores!
To: In-Asp@hmail.com
Subject: Submissão de manuscrito

Caro autor Inácio Aspirante

O seu manuscrito intitulado Em demanda da chave, da espada e do anel foi avaliado pelos consultores da nossa Editora. O parecer unânime foi, e transcrevemos:
“Não existe espaço no mercado para outro livro tão semelhante à conhecida saga de George R. R. Martin.”
Assim, a decisão da Editora Publicamos Novos Autores! é a de não publicar o seu manuscrito, que poderá voltar a submeter para consideração se forem efectuadas alterações substanciais no conteúdo.
Chamamos a sua atenção para o nosso próximo curso online intitulado Como escrever histórias de vampiros em 6 lições. Cada participante receberá como oferta uma estaca de matar vampiros, feita com madeira importada directamente das florestas da Transilvânia.

Com os melhores cumprimentos

Afonso Algarviado
Assistente Editorial


Este texto é dedicado a todas e cada uma das vanity press em actividade. Só não menciono nomes porque tenho receio de ser injusto por me esquecer de alguém.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Infinitamente Improvável

é o nome de um novo webzine que surgiu na paisagem da FC portuguesa. O responsável é Jorge Candeias, e os primeiros contos publicados podem ser lidos aqui.
Já me esquecia, está lá um microconto meu, intitulado "Sem maneiras". E não, não se refere a esse(s) actor(es) da política portuguesa em que estão a pensar, porque nesse caso não seria ficção...

terça-feira, 3 de julho de 2012

Só cultura, só cultura, já chateia!

- Isto é uma pouca vergonha!
- O que foi agora?
- Agora? É sempre! Sabes a que horas ontem consegui ver os resumos dos jogos da 1ª liga? Já passava da uma e meia da manhã!
O meu vizinho Aníbal estava ainda mais furioso do que era costume. E continuou:
- Eu também tenho direitos, também pago impostos, pá! E tenho que aturar programas sobre pintura, cinema, teatro, exposições, literatura, sei lá que mais… Desde que a SportTV faliu, as minhas noites são andar a saltar de canal em canal! Ontem apanhei uma mesa redonda sobre quem será o próximo prémio Nobel da literatura, uma entrevista com o ministro da cultura sobre o apoio ao teatro, um filme português – nem sei o que era, mudei logo de canal – um programa sobre a sobrevivência do lince ibérico, e nem uma noticiazinha sobre futebol…
Tínhamos entretanto chegado ao “Café do António”. Entrámos, pedimos as duas bicas do costume, e o Aníbal dirigiu-se à ponta do balcão onde estão os jornais para os clientes lerem. Folheou a pilha de jornais e perguntou ao empregado:
- Luís, onde está A Bola?
- Já não há, senhor Aníbal. O meu patrão deixou de a comprar porque poucos clientes a liam…
O Aníbal virou-se para mim, e parecia que deitava fumo.
-Eu não te digo? Até o António…, – e exibia com ar furibundo o Jornal de Letras, o Monde Diplomatique, a revista Ler, os suplementos literários de diversos jornais – Só merda, pá!, concluiu em voz baixa, porque alguns dos clientes sentados nas mesas começaram a olhar para ele de forma reprovadora.
Pagámos os cafés e saímos, ele a caminho da entrada do Metro e eu da paragem do autocarro. Passámos no quiosque dos jornais. O Aníbal não é da qualidade de desistir facilmente.
- Bom dia, senhor Fernando, tem A Bola?
- Deixe-me cá procurar; sabe, agora só mando vir 3 Bolas e 2 Recordes, e mesmo assim na maior parte dos dias não se vendem todos, tenho de os devolver. Olha, estava aqui escondida debaixo do último livro do Vasco Graça Moura, “Poesia e política no Portugal do século XX”. Já leu, senhor Aníbal? Devia ler! Isto sim, tem-se vendido como o milho!
Fiquei com receio que desse uma coisa má ao Aníbal. Mas ele só engoliu em seco, olhou para o relógio e disse: -Eh pá, já estou atrasado. Até logo, até logo…, e desandou em direcção à entrada do Metro.
O senhor Fernando do quiosque olhou para mim e encolheu os ombros.  Olhámos ambos para o Aníbal que se afastava. Levava um livro na mão, com o qual tinha passado a viajar porque toda a gente no Metro lia livros durante o percurso, e ele sentia-se mal a olhar para o ar ou para a janela.
Aníbal entrou na carruagem e sentou-se. Olhou em volta para os seus companheiros de viagem, tentando ver o que liam. O casal no banco da frente, ele lia “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera, e ela “Aparição”, de Vergílio Ferreira. A jovem no assento ao seu lado, não dava para ver a capa, mas pelo aspecto das páginas abertas lia poesia. Do outro lado do corredor, um homem de meia-idade, com um bigode bem aparado, lia um livro de que não conseguiu ver o autor, mas cuja capa dizia em letras grandes “A Filosofia Grega”. Aníbal abriu calmamente o seu livro, que tinha forrado de papel castanho opaco, para evitar os olhares condescendentes dos outros passageiros, e mergulhou na leitura de “Meu nome é Eusébio “...

sábado, 23 de junho de 2012

Os malefícios de tudo

André Aguiar era um dos melhores criativos da Nós vendemos! Publicidade e Marketing, S.A. A arquitectura da maior parte das grandes campanhas da agência tinha sido dele. A sua imaginação não conhecia limites. Há alguns anos, um dos seus colegas tinha-lhe dito: “Tu ainda hás-de ser engolido pela tua própria imaginação.” Quer a frase fosse fruto de admiração ou inveja, o que é certo é que o seu autor já há muito tinha sido despedido da Nós vendemos! enquanto a carreira de A&A, como era tratado pelos colegas, continuava sólida e a um curto passo de uma vice-presidência.
Naquela manhã, André estava maravilhado com um título que tinha encontrado ao vaguear pela rede: Os Malefícios do Tabaco! Acedeu ao site, e leu o conto num misto de surpresa e admiração.
Que Tchekhov tivesse escolhido um título que acabava por não ser o assunto da conferência proferida pelo protagonista não era nada que chocasse André Aguiar: afinal o marketing era isso mesmo, frases catchy para vender não importa o quê…
Mas aquele título era uma frase de génio. Ficava a ressoar na cabeça do leitor muito depois de ter acabado de ler o curto monólogo do desesperado Ivan Ivanovich Nyukhin. “Como é que estes russos escreviam de forma tão eficaz no século XIX…”
A frase começou a dar cambalhotas no cérebro de André. Não tardou muito e outra frase ocupou o lugar dela: Os malefícios do álcool. E rapidamente os dedos de André começaram a deslizar sobre o teclado, produzindo um texto inspirado por este título.
Era um facto conhecido que todos os computadores existentes na Nós vendemos! sofriam backups periódicos para o servidor, como precaução para evitar a possível perda de material criativo ou outro, devido ao eventual crash de uma máquina.
Um facto muito menos conhecido era que o CEO da agência tinha acesso directo e imediato a tudo o que era colocado no servidor.
E naquela manhã, na revista que fazia frequentemente ao trabalho dos seus criativos, o CEO tinha dado com o texto de André Aguiar.
Achou graça aos “malefícios do álcool”. E pensou logo que poderia vir a ser útil nalguma futura campanha, agora que os poderes públicos começavam a ficar preocupados com o alcoolismo juvenil. Tinha o toque de irreverência capaz de falar aos adolescentes, enquanto ao mesmo tempo transmitia os perigos resultantes de um consumo excessivo de álcool.
Quando olhou de novo, André já estava noutra: “Os malefícios do automóvel”. O texto possuía o justo equilíbrio entre humor e factos, e o CEO pensou que a Prevenção Rodoviária poderia vir a estar interessada em estruturar uma campanha com base naquele texto.
O que o CEO mais apreciava em André era a sua capacidade de defender um ponto de vista e o seu contrário, uma competência de extremo valor para um criativo na área do marketing. E foi assistindo, no seu confortável gabinete, e com um sorriso nos lábios, ao desenrolar de textos intitulados “Os malefícios de comer carne de porco”, pouco depois seguido de “Os malefícios de ser vegetariano”. A “Os malefícios do sedentarismo” logo veio fazer contraponto “Os malefícios do exercício físico”…
Uma luz vermelha piscou no intercomunicador. Era uma chamada da sua gestora bancária, porque tinha havido alterações nas cotações de alguns títulos da sua carteira. O CEO orgulhava-se de tomar decisões rápidas, e passou os dez minutos seguintes a dar ordens de compra e venda. Quando desligou, a sua conta bancária tinha crescido várias centenas de milhares de euros.
Quando regressou à observação do trabalho de André Aguiar, sentiu algum desconforto: o seu criativo escrevia agora um texto com o título “Os malefícios das agências de rating”.
“Isto não bem é o trabalho típico da Nós vendemos!”, pensou o CEO. “Poderá ser vendido ao governo numa ocasião apropriada, claro, mas com as devidas cautelas para que o nosso nome não apareça…”
Mas quando viu surgir o título do texto seguinte, o CEO premiu o botão de emergência do intercomunicador e deu uma ordem, rápida e precisa.

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A&A estava tão absorto na escrita que nem deu pelos dois homens de bata branca que entraram sem ruído no seu cubículo. O da frente trazia uma seringa cujo conteúdo injectou rapidamente no braço de André, que colapsou de imediato. Os dois homens arrastaram o corpo inanimado para fora do cubículo, colocaram-no numa maca que tinham deixado à porta e rodaram rapidamente pelo corredor em direcção à saída.
Alguém que estivesse a observar o monitor do computador de André teria visto o cursor posicionado no fim do texto começar a deslocar-se para a esquerda, apagando rapidamente o texto carácter a carácter. Quando só restava o título, “Os malefícios do marketing”, toda a linha foi marcada e desapareceu instantaneamente.
Depois de se assegurar que não restavam vestígios do texto, nem no computador de André nem no servidor, o CEO pensou, em inglês, como sempre lhe acontecia em situação de tensão: “Crisis over!”. Levantou-se da cadeira, e teve um último pensamento dirigido ao seu ex-criativo: “Sorry, A&A, nothing personal, but you’ve just gone over the edge! And I’ve got a marketing agency to run…”
Saiu do gabinete, fechou a porta e foi almoçar.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Enche o carrinho!

O grupo Pingo Doce decidiu alargar a sua gama de actividades entrando na indústria do entretenimento. Em parceria com a Endemol - curiosamente outra empresa holandesa - vai ser
lançado um novo reality show intitulado "Enche o carrinho!". Em Portugal, após competição bastante renhida, foi a TVI a ganhar a licença para transmitir o programa.
"Depois de andarmos há anos a alimentar as necessidades básicas dos consumidores, pensámos chegada a altura de alimentarmos também os seus tempos de lazer", declarou o director de marketing do grupo numa conferência de imprensa, onde explicou as principais características do novo programa.
Cada sessão é disputada por 3 equipas. Cada equipa é uma família, formada por pai, mãe e dois filhos menores. A competição terá lugar numa loja do grupo. Cada equipa recebe uma lista de produtos que terá de colocar no carrinho e levar até à caixa, onde estará o júri, para conferir o tempo gasto pela equipa e se a lista foi completada. Em paralelo com o enchimento do seu carrinho, cada equipa deve tentar impedir que os outros concorrentes o façam. Esconder produtos necessários, arreganhar os dentes, impedir a passagem do carrinho adversário, tombar-lhes o carrinho espalhando todos os produtos no chão, tudo isto são procedimentos admissíveis. Não é permitido o uso de armas - os concorrentes serão revistados antes do início da prova - e os departamentos de ferramentas de jardinagem, utensílios de cozinha e cutelaria terão acesso interdito.
A produção manterá em stand-by uma equipa de paramédicos e uma ambulância provida de equipamento de reanimação.
Em cada sessão será apurada uma equipa vencedora cujo prémio consistirá no conjunto dos produtos que colocaram no carrinho. Ao fim de 12 semanas, uma nova etapa do programa seleccionará de entre os 12 vencedores das semanas anteriores o vencedor absoluto que terá direito a 6 meses de compras gratuitas naquela loja.
Quando terminou a exposição, um jornalista perguntou:
"E não receiam que este tipo de programa dê para o exterior uma má imagem do País?"
"Do País? Da Holanda? Não, nós vamos fazer este programa em Portugal!" foi a resposta do director de marketing.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A quinta dos guarda-chuvas

Era uma das mais emblemáticas explorações agrícolas do Reino Unido.  Na Umbrella Farm eram produzidos mais de 95 por cento dos guarda-chuvas utilizados pelos profissionais da City, com tecido de impecável cor preta, cabos sólidos, varetas de aço da melhor qualidade.
Nos alegres anos 60, Mr. Jeff Rain tinha feito a maior alteração ao seu modelo de negócio desde que o seu trisavô plantara guarda-chuvas pela primeira vez. Mantendo a sua linha tradicional de guarda-chuvas para executivos, comprou um terreno adjacente à quinta e iniciou a produção de sombrinhas, bem coloridas, psicadélicas, que mal chegavam às lojas de Carnaby Street eram rapidamente compradas pelos milhares de turistas que exameavam Londres.
Naquela manhã, Mister Rain percorria, como fazia de vez em quando, os diversos talhões onde se podiam ver os guarda-chuvas nas sucessivas fases de desenvolvimento.
Na primeira parcela de terreno, um grupo de trabalhadores, imigrantes vietnamitas, as mãos habituadas à milenar actividade da plantação do arroz, espetavam no terreno, a intervalos regulares, as varetas que viriam a dar lugar, em mais ou menos três meses, a um lote de guarda-chuvas adultos.
Na parcela seguinte já havia guarda-chuvas desenvolvidos, ainda pequenos. Dois trabalhadores percorriam o talhão abrindo e fechando os guarda-chuvas, certificando-se que todas as varetas estavam perfeitas. Irregularidades, ainda que pequenas, não eram toleradas. Qualquer guarda-chuva nessas condições era imediatamente arrancado e seguia para reciclagem.
Quando entrou no talhão seguinte, Mister Rain recusou-se a acreditar no que via. O que devia ser uma parcela com guarda-chuvas quase maduros, a poucos dias da colheita, era uma quantidade de cúpulas pretas salpicadas de cores vivas, por vezes círculos, outras vezes manchas irregulares, um pesadelo que até fazia doer os olhos de Mr. Rain.
Jeff Rain pegou no telemóvel e marcou o número do seu encarregado. “Manolo, vem ter comigo ao talhão 17.”
Cerca de um minuto mais tarde, Manolo Diaz, o encarregado, estava a chegar.
“Manolo, o que vem a ser isto?”
“Uma experiência, Mr. Rain” disse Manolo num inglês com sotaque espanhol que os quinze anos que já passara no Reino Unido não tinham atenuado. “Recolhi esporos de uma parcela de sombrinhas e espalhei neste talhão, para ver o que aconteceria.”
“Manolo, isto é uma casa séria. O que é que está escrito à entrada da quinta? Purveyors by Appointment to His Majesty since 1889. Somos uma firma de respeito. Guarda-chuvas são guarda-chuvas e sombrinhas são sombrinhas...”
O telemóvel tocou os primeiros acordes de Land of Hope and Glory. Atendeu. Ouviu durante algum tempo e disse “OK, já vou ter à portaria.”
Virou-se para Manolo e disse-lhe: Vou ter que acompanhar um visitante numa volta pela quinta. Continuamos esta conversa mais tarde. Podes ir.”
Na portaria, Jeff encontrou Monsieur Jean Lapluie, acompanhado de um secretário. Lapluie era o distribuidor dos produtos da Umbrella Farm para a Europa. A sua empresa, Parapluie Inc., estava a passar por um processo de internacionalização que a levaria a alargar a sua actividade a todo o mundo. Era a primeira vez que visitava a quinta de Jeff Rain, pelo que este estava muito empenhado em causar uma boa impressão.
Vestindo um fato cinza, de corte impecável, gravata e lencinho de cor amarela, usava um bigode meticulosamente aparado e e falava um inglês muito aceitável para um habitante do hexágono. Após algumas palavras de circunstância, manifestou interesse em iniciar imediatamente a visita.
Começaram pelos guarda-chuvas, o produto da quinta que enchia de orgulho Jeff Rain. Jean Lapluie fazia muitas perguntas a que Jeff respondia, perguntas e respostas cuidadosamente registadas numa tablet pelo secretário de Parapluie. Até que chegaram ao talhão objecto da experiência de Manolo.
Oh, mon Dieu! Mais c'est ça, c'est ça! O que é isto, Mr. Rain?”
“Bem... isto é... uma experiência...” - Jeff Rain não sabia o que dizer...
“Isto é o que eu tenho andado à procura para o lançamento do ramo internacional da Parapluie Inc.! Estas cores a nascer do preto, isto é arte, mais, isto é filosofia pura! Vamos inundar o mundo com este produto! Isto vai tornar a sua quinta conhecida em todo o lado. Partout! Partout!
Quando ficava entusiasmado, Lapluie miturava o francês e o inglês. Disse para o secretário: “Prepare uma minuta de contrato para um fornecimento inicial de … “, pensou um pouco, “quinhentos, não, seiscentos destes chapéus. Já estou a ver as lojas em todo o mundo a abrir em simultâneo com estes chapéus às cores. Temos que arranjar um nome para eles, mas isso temos tempo...”

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Ao fim da tarde, quando Manolo foi chamado ao gabinete de Jeff Rain, em vez da forte repreensão de que estava à espera, o seu patrão começou por dizer que tinha uma encomenda de seiscentos daqueles chapéus pintalgados para satisfazer, e que provavelmente seria necessário alocar mais parcelas para a sua produção...”
Manolo saiu do gabinete do patrão totalmente confuso. “Não consigo perceber estes ingleses, são tão estranhos”, pensou. “Parecia que Mr. Rain não tinha gostado nada da minha experiência e afinal...”
Encolheu os ombros, viu as horas e dirigiu-se para o carro, que já tinha visto melhores dias, para regressar a casa. A mulher devia estar a acabar o jantar...