terça-feira, 3 de julho de 2012

Só cultura, só cultura, já chateia!

- Isto é uma pouca vergonha!
- O que foi agora?
- Agora? É sempre! Sabes a que horas ontem consegui ver os resumos dos jogos da 1ª liga? Já passava da uma e meia da manhã!
O meu vizinho Aníbal estava ainda mais furioso do que era costume. E continuou:
- Eu também tenho direitos, também pago impostos, pá! E tenho que aturar programas sobre pintura, cinema, teatro, exposições, literatura, sei lá que mais… Desde que a SportTV faliu, as minhas noites são andar a saltar de canal em canal! Ontem apanhei uma mesa redonda sobre quem será o próximo prémio Nobel da literatura, uma entrevista com o ministro da cultura sobre o apoio ao teatro, um filme português – nem sei o que era, mudei logo de canal – um programa sobre a sobrevivência do lince ibérico, e nem uma noticiazinha sobre futebol…
Tínhamos entretanto chegado ao “Café do António”. Entrámos, pedimos as duas bicas do costume, e o Aníbal dirigiu-se à ponta do balcão onde estão os jornais para os clientes lerem. Folheou a pilha de jornais e perguntou ao empregado:
- Luís, onde está A Bola?
- Já não há, senhor Aníbal. O meu patrão deixou de a comprar porque poucos clientes a liam…
O Aníbal virou-se para mim, e parecia que deitava fumo.
-Eu não te digo? Até o António…, – e exibia com ar furibundo o Jornal de Letras, o Monde Diplomatique, a revista Ler, os suplementos literários de diversos jornais – Só merda, pá!, concluiu em voz baixa, porque alguns dos clientes sentados nas mesas começaram a olhar para ele de forma reprovadora.
Pagámos os cafés e saímos, ele a caminho da entrada do Metro e eu da paragem do autocarro. Passámos no quiosque dos jornais. O Aníbal não é da qualidade de desistir facilmente.
- Bom dia, senhor Fernando, tem A Bola?
- Deixe-me cá procurar; sabe, agora só mando vir 3 Bolas e 2 Recordes, e mesmo assim na maior parte dos dias não se vendem todos, tenho de os devolver. Olha, estava aqui escondida debaixo do último livro do Vasco Graça Moura, “Poesia e política no Portugal do século XX”. Já leu, senhor Aníbal? Devia ler! Isto sim, tem-se vendido como o milho!
Fiquei com receio que desse uma coisa má ao Aníbal. Mas ele só engoliu em seco, olhou para o relógio e disse: -Eh pá, já estou atrasado. Até logo, até logo…, e desandou em direcção à entrada do Metro.
O senhor Fernando do quiosque olhou para mim e encolheu os ombros.  Olhámos ambos para o Aníbal que se afastava. Levava um livro na mão, com o qual tinha passado a viajar porque toda a gente no Metro lia livros durante o percurso, e ele sentia-se mal a olhar para o ar ou para a janela.
Aníbal entrou na carruagem e sentou-se. Olhou em volta para os seus companheiros de viagem, tentando ver o que liam. O casal no banco da frente, ele lia “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera, e ela “Aparição”, de Vergílio Ferreira. A jovem no assento ao seu lado, não dava para ver a capa, mas pelo aspecto das páginas abertas lia poesia. Do outro lado do corredor, um homem de meia-idade, com um bigode bem aparado, lia um livro de que não conseguiu ver o autor, mas cuja capa dizia em letras grandes “A Filosofia Grega”. Aníbal abriu calmamente o seu livro, que tinha forrado de papel castanho opaco, para evitar os olhares condescendentes dos outros passageiros, e mergulhou na leitura de “Meu nome é Eusébio “...

sábado, 23 de junho de 2012

Os malefícios de tudo

André Aguiar era um dos melhores criativos da Nós vendemos! Publicidade e Marketing, S.A. A arquitectura da maior parte das grandes campanhas da agência tinha sido dele. A sua imaginação não conhecia limites. Há alguns anos, um dos seus colegas tinha-lhe dito: “Tu ainda hás-de ser engolido pela tua própria imaginação.” Quer a frase fosse fruto de admiração ou inveja, o que é certo é que o seu autor já há muito tinha sido despedido da Nós vendemos! enquanto a carreira de A&A, como era tratado pelos colegas, continuava sólida e a um curto passo de uma vice-presidência.
Naquela manhã, André estava maravilhado com um título que tinha encontrado ao vaguear pela rede: Os Malefícios do Tabaco! Acedeu ao site, e leu o conto num misto de surpresa e admiração.
Que Tchekhov tivesse escolhido um título que acabava por não ser o assunto da conferência proferida pelo protagonista não era nada que chocasse André Aguiar: afinal o marketing era isso mesmo, frases catchy para vender não importa o quê…
Mas aquele título era uma frase de génio. Ficava a ressoar na cabeça do leitor muito depois de ter acabado de ler o curto monólogo do desesperado Ivan Ivanovich Nyukhin. “Como é que estes russos escreviam de forma tão eficaz no século XIX…”
A frase começou a dar cambalhotas no cérebro de André. Não tardou muito e outra frase ocupou o lugar dela: Os malefícios do álcool. E rapidamente os dedos de André começaram a deslizar sobre o teclado, produzindo um texto inspirado por este título.
Era um facto conhecido que todos os computadores existentes na Nós vendemos! sofriam backups periódicos para o servidor, como precaução para evitar a possível perda de material criativo ou outro, devido ao eventual crash de uma máquina.
Um facto muito menos conhecido era que o CEO da agência tinha acesso directo e imediato a tudo o que era colocado no servidor.
E naquela manhã, na revista que fazia frequentemente ao trabalho dos seus criativos, o CEO tinha dado com o texto de André Aguiar.
Achou graça aos “malefícios do álcool”. E pensou logo que poderia vir a ser útil nalguma futura campanha, agora que os poderes públicos começavam a ficar preocupados com o alcoolismo juvenil. Tinha o toque de irreverência capaz de falar aos adolescentes, enquanto ao mesmo tempo transmitia os perigos resultantes de um consumo excessivo de álcool.
Quando olhou de novo, André já estava noutra: “Os malefícios do automóvel”. O texto possuía o justo equilíbrio entre humor e factos, e o CEO pensou que a Prevenção Rodoviária poderia vir a estar interessada em estruturar uma campanha com base naquele texto.
O que o CEO mais apreciava em André era a sua capacidade de defender um ponto de vista e o seu contrário, uma competência de extremo valor para um criativo na área do marketing. E foi assistindo, no seu confortável gabinete, e com um sorriso nos lábios, ao desenrolar de textos intitulados “Os malefícios de comer carne de porco”, pouco depois seguido de “Os malefícios de ser vegetariano”. A “Os malefícios do sedentarismo” logo veio fazer contraponto “Os malefícios do exercício físico”…
Uma luz vermelha piscou no intercomunicador. Era uma chamada da sua gestora bancária, porque tinha havido alterações nas cotações de alguns títulos da sua carteira. O CEO orgulhava-se de tomar decisões rápidas, e passou os dez minutos seguintes a dar ordens de compra e venda. Quando desligou, a sua conta bancária tinha crescido várias centenas de milhares de euros.
Quando regressou à observação do trabalho de André Aguiar, sentiu algum desconforto: o seu criativo escrevia agora um texto com o título “Os malefícios das agências de rating”.
“Isto não bem é o trabalho típico da Nós vendemos!”, pensou o CEO. “Poderá ser vendido ao governo numa ocasião apropriada, claro, mas com as devidas cautelas para que o nosso nome não apareça…”
Mas quando viu surgir o título do texto seguinte, o CEO premiu o botão de emergência do intercomunicador e deu uma ordem, rápida e precisa.

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A&A estava tão absorto na escrita que nem deu pelos dois homens de bata branca que entraram sem ruído no seu cubículo. O da frente trazia uma seringa cujo conteúdo injectou rapidamente no braço de André, que colapsou de imediato. Os dois homens arrastaram o corpo inanimado para fora do cubículo, colocaram-no numa maca que tinham deixado à porta e rodaram rapidamente pelo corredor em direcção à saída.
Alguém que estivesse a observar o monitor do computador de André teria visto o cursor posicionado no fim do texto começar a deslocar-se para a esquerda, apagando rapidamente o texto carácter a carácter. Quando só restava o título, “Os malefícios do marketing”, toda a linha foi marcada e desapareceu instantaneamente.
Depois de se assegurar que não restavam vestígios do texto, nem no computador de André nem no servidor, o CEO pensou, em inglês, como sempre lhe acontecia em situação de tensão: “Crisis over!”. Levantou-se da cadeira, e teve um último pensamento dirigido ao seu ex-criativo: “Sorry, A&A, nothing personal, but you’ve just gone over the edge! And I’ve got a marketing agency to run…”
Saiu do gabinete, fechou a porta e foi almoçar.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Enche o carrinho!

O grupo Pingo Doce decidiu alargar a sua gama de actividades entrando na indústria do entretenimento. Em parceria com a Endemol - curiosamente outra empresa holandesa - vai ser
lançado um novo reality show intitulado "Enche o carrinho!". Em Portugal, após competição bastante renhida, foi a TVI a ganhar a licença para transmitir o programa.
"Depois de andarmos há anos a alimentar as necessidades básicas dos consumidores, pensámos chegada a altura de alimentarmos também os seus tempos de lazer", declarou o director de marketing do grupo numa conferência de imprensa, onde explicou as principais características do novo programa.
Cada sessão é disputada por 3 equipas. Cada equipa é uma família, formada por pai, mãe e dois filhos menores. A competição terá lugar numa loja do grupo. Cada equipa recebe uma lista de produtos que terá de colocar no carrinho e levar até à caixa, onde estará o júri, para conferir o tempo gasto pela equipa e se a lista foi completada. Em paralelo com o enchimento do seu carrinho, cada equipa deve tentar impedir que os outros concorrentes o façam. Esconder produtos necessários, arreganhar os dentes, impedir a passagem do carrinho adversário, tombar-lhes o carrinho espalhando todos os produtos no chão, tudo isto são procedimentos admissíveis. Não é permitido o uso de armas - os concorrentes serão revistados antes do início da prova - e os departamentos de ferramentas de jardinagem, utensílios de cozinha e cutelaria terão acesso interdito.
A produção manterá em stand-by uma equipa de paramédicos e uma ambulância provida de equipamento de reanimação.
Em cada sessão será apurada uma equipa vencedora cujo prémio consistirá no conjunto dos produtos que colocaram no carrinho. Ao fim de 12 semanas, uma nova etapa do programa seleccionará de entre os 12 vencedores das semanas anteriores o vencedor absoluto que terá direito a 6 meses de compras gratuitas naquela loja.
Quando terminou a exposição, um jornalista perguntou:
"E não receiam que este tipo de programa dê para o exterior uma má imagem do País?"
"Do País? Da Holanda? Não, nós vamos fazer este programa em Portugal!" foi a resposta do director de marketing.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A quinta dos guarda-chuvas

Era uma das mais emblemáticas explorações agrícolas do Reino Unido.  Na Umbrella Farm eram produzidos mais de 95 por cento dos guarda-chuvas utilizados pelos profissionais da City, com tecido de impecável cor preta, cabos sólidos, varetas de aço da melhor qualidade.
Nos alegres anos 60, Mr. Jeff Rain tinha feito a maior alteração ao seu modelo de negócio desde que o seu trisavô plantara guarda-chuvas pela primeira vez. Mantendo a sua linha tradicional de guarda-chuvas para executivos, comprou um terreno adjacente à quinta e iniciou a produção de sombrinhas, bem coloridas, psicadélicas, que mal chegavam às lojas de Carnaby Street eram rapidamente compradas pelos milhares de turistas que exameavam Londres.
Naquela manhã, Mister Rain percorria, como fazia de vez em quando, os diversos talhões onde se podiam ver os guarda-chuvas nas sucessivas fases de desenvolvimento.
Na primeira parcela de terreno, um grupo de trabalhadores, imigrantes vietnamitas, as mãos habituadas à milenar actividade da plantação do arroz, espetavam no terreno, a intervalos regulares, as varetas que viriam a dar lugar, em mais ou menos três meses, a um lote de guarda-chuvas adultos.
Na parcela seguinte já havia guarda-chuvas desenvolvidos, ainda pequenos. Dois trabalhadores percorriam o talhão abrindo e fechando os guarda-chuvas, certificando-se que todas as varetas estavam perfeitas. Irregularidades, ainda que pequenas, não eram toleradas. Qualquer guarda-chuva nessas condições era imediatamente arrancado e seguia para reciclagem.
Quando entrou no talhão seguinte, Mister Rain recusou-se a acreditar no que via. O que devia ser uma parcela com guarda-chuvas quase maduros, a poucos dias da colheita, era uma quantidade de cúpulas pretas salpicadas de cores vivas, por vezes círculos, outras vezes manchas irregulares, um pesadelo que até fazia doer os olhos de Mr. Rain.
Jeff Rain pegou no telemóvel e marcou o número do seu encarregado. “Manolo, vem ter comigo ao talhão 17.”
Cerca de um minuto mais tarde, Manolo Diaz, o encarregado, estava a chegar.
“Manolo, o que vem a ser isto?”
“Uma experiência, Mr. Rain” disse Manolo num inglês com sotaque espanhol que os quinze anos que já passara no Reino Unido não tinham atenuado. “Recolhi esporos de uma parcela de sombrinhas e espalhei neste talhão, para ver o que aconteceria.”
“Manolo, isto é uma casa séria. O que é que está escrito à entrada da quinta? Purveyors by Appointment to His Majesty since 1889. Somos uma firma de respeito. Guarda-chuvas são guarda-chuvas e sombrinhas são sombrinhas...”
O telemóvel tocou os primeiros acordes de Land of Hope and Glory. Atendeu. Ouviu durante algum tempo e disse “OK, já vou ter à portaria.”
Virou-se para Manolo e disse-lhe: Vou ter que acompanhar um visitante numa volta pela quinta. Continuamos esta conversa mais tarde. Podes ir.”
Na portaria, Jeff encontrou Monsieur Jean Lapluie, acompanhado de um secretário. Lapluie era o distribuidor dos produtos da Umbrella Farm para a Europa. A sua empresa, Parapluie Inc., estava a passar por um processo de internacionalização que a levaria a alargar a sua actividade a todo o mundo. Era a primeira vez que visitava a quinta de Jeff Rain, pelo que este estava muito empenhado em causar uma boa impressão.
Vestindo um fato cinza, de corte impecável, gravata e lencinho de cor amarela, usava um bigode meticulosamente aparado e e falava um inglês muito aceitável para um habitante do hexágono. Após algumas palavras de circunstância, manifestou interesse em iniciar imediatamente a visita.
Começaram pelos guarda-chuvas, o produto da quinta que enchia de orgulho Jeff Rain. Jean Lapluie fazia muitas perguntas a que Jeff respondia, perguntas e respostas cuidadosamente registadas numa tablet pelo secretário de Parapluie. Até que chegaram ao talhão objecto da experiência de Manolo.
Oh, mon Dieu! Mais c'est ça, c'est ça! O que é isto, Mr. Rain?”
“Bem... isto é... uma experiência...” - Jeff Rain não sabia o que dizer...
“Isto é o que eu tenho andado à procura para o lançamento do ramo internacional da Parapluie Inc.! Estas cores a nascer do preto, isto é arte, mais, isto é filosofia pura! Vamos inundar o mundo com este produto! Isto vai tornar a sua quinta conhecida em todo o lado. Partout! Partout!
Quando ficava entusiasmado, Lapluie miturava o francês e o inglês. Disse para o secretário: “Prepare uma minuta de contrato para um fornecimento inicial de … “, pensou um pouco, “quinhentos, não, seiscentos destes chapéus. Já estou a ver as lojas em todo o mundo a abrir em simultâneo com estes chapéus às cores. Temos que arranjar um nome para eles, mas isso temos tempo...”

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Ao fim da tarde, quando Manolo foi chamado ao gabinete de Jeff Rain, em vez da forte repreensão de que estava à espera, o seu patrão começou por dizer que tinha uma encomenda de seiscentos daqueles chapéus pintalgados para satisfazer, e que provavelmente seria necessário alocar mais parcelas para a sua produção...”
Manolo saiu do gabinete do patrão totalmente confuso. “Não consigo perceber estes ingleses, são tão estranhos”, pensou. “Parecia que Mr. Rain não tinha gostado nada da minha experiência e afinal...”
Encolheu os ombros, viu as horas e dirigiu-se para o carro, que já tinha visto melhores dias, para regressar a casa. A mulher devia estar a acabar o jantar...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Intervalo publicitário... 

...para anunciar a reedição de dois contos meus, na Vollüspa (Eternidade) e na Fenix (Natal em Little Town), ambas as publicações com coordenação de Roberto Mendes.

domingo, 15 de abril de 2012

Círculo vicioso

Em 2010, Sergio vel Hartman anunciou um desafio que consistia em escrever uma narrativa curta (limite 125 palavras) incluindo obrigatoriamente as seguintes 7 palavras: escritas / festejo / terapia / sedutora / generoso / unhas / prazer.
A minha contribuição foi o texto que se segue, depois traduzido pelo próprio Sergio e publicado num dos blogues que administra, Quimicamente impuro. Pode ser lido aqui.

 Círculo vicioso


Senti um prazer intenso quando a vi. Um corpo escultural, unhas vermelhas, um decote generoso, era a perfeita imagem da sedutora entrando no bar ao fim da tarde.
Olho para estas linhas escritas, e volto a escrevê-las, e outra vez, e mais outra, e outra vez ainda. Faz parte da terapia a que o tribunal me condenou, relembrar continuamente o início dos acontecimentos que me levaram a torturar e matar aquela mulher.
Enquanto escrevo, imagino o festejo que farei no dia em que sair do hospital, para poder voltar àquele bar, sentar-me ao balcão, pedir uma cerveja e esperar... esperar que apareça uma mulher que me leve a começar tudo de novo...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A conferência de Imprensa

O Ministro entrou na sala dos assessores. “Os jornalistas já chegaram?”, inquiriu, nervoso.
“Há pelo menos meia hora”, informou o assessor de imprensa.
“Senhor Ministro, essa barba de 3 dias já não está in”, disse uma assessora de imagem. E enquanto falava, ia conduzindo o Ministro para uma cadeira, onde o fez sentar. Apareceu outro assessor com uma máquina de barbear e em 2 minutos o Ministro ficou perfeitamente escanhoado, lamentando intimamente a perda da barba que tanto trabalho lhe dava manter com um tamanho constante.
“Essa gravata tem uma cor que deixou de estar na moda anteontem”, e num instante o Ministro viu-se aliviado da gravata cujo nó se tinha esmerado a fazer e engravatado com outra que a assessora de imagem tirou de uma caixa.
Na opinião do Ministro a nova gravata era horrorosa, cheia de bandeirinhas nacionais. A assessora sentiu-se na obrigação de explicar: “O modelo foi escolhido directamente pelo PM. Foi feito um estudo que concluiu que o pin com a bandeira é pouco visível nas lapelas dos casacos.”
“E aqui está a comunicação, senhor Ministro”, disse o assessor de imprensa produzindo duas folhas A4.
“Mas eu já tinha escrito...”, balbuciou o Ministro, tentando tirar do bolso uma folha dobrada.
“Esta está de acordo com as instruções emanadas do gabinete do 1º Ministro”, e o assessor meteu-lhe na mão as duas folhas A4.
“Tudo em ordem, senhor Ministro, pode avançar”, autorizou o assessor sénior.
E o Ministro empurrou a porta de acesso à sala onde daria a conferência de imprensa.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ratings...


Patrick Murphy entrou no estacionamento do parque de campismo, parou, desligou o motor e travou o carro. Tirou da bagageira a mochila e o restante equipamento, trancou o carro e dirigiu-se à loja do parque, onde comprou alguns alimentos e pediu a chave da cabana que tinha alugado para as suas curtas férias.
O parque tinha uma área familiar, com casas de madeira e espaço para tendas e caravanas, e uma zona mais “selvagem”, com pequenas cabanas espalhadas pelo bosque. Para atingir esta zona mais afastada, Patrick teve de atravessar a zona da piscina e do parque infantil, onde vários casais jovens brincavam com os filhos pequenos. Vinha-lhe sempre à memória a morte da mulher dando à luz o seu primeiro filho, que também não sobrevivera ao parto. E era com tristeza e com um sentimento de perda que via a felicidade alheia, imagem do que poderia ser a sua vida se...
Entrado no bosque, esforçou-se por concentrar a atenção no carreiro que conduzia à sua cabana. Era uma construção pequena, mas limpa e minimamente equipada. Esvaziou a mochila, preparou duas sanduíches que trouxe com uma cerveja para o alpendre, e ali ficou sentado a comer e beber devagar, enquanto o sol, em parte visível através das copas das árvores, descia no horizonte. Ali permaneceu mais algum tempo a ver surgir a noite, foi deitar-se e dormiu um sono agitado.
Na manhã seguinte, levantou-se cedo, meteu na mochila comida e água, um mapa, bússola e GPS e saiu da cabana, caminhando algumas horas pelo terreno acidentado em volta do parque. A meio da tarde, já no percurso de volta à cabana, o seu telemóvel tocou. Quando viu que a chamada era do chefe, Patrick soube logo que alguma coisa de grave se passava.
(…)
“Sim, andei a fazer tracking e devo ter estado numa zona sem cobertura de rede.”
(…)
“Alerta vermelho? Vou imediatamente.”
Entrou na cabana, recolheu rapidamente as suas coisas e foi à loja do parque, onde pagou os 5 dias de alojamento que tinha reservado. À pergunta do responsável da loja se alguma coisa lhe tinha desagradado, respondeu que não, mas que tinha de regressar mais cedo do que o previsto.
Três minutos mais tarde estava na estrada a acelerar, iniciando a viagem de regresso.

--- XXX --- 

Patrick não se lembrava de ter visto no seu serviço uma reunião como aquela. À volta da mesa havia representantes da NSA, CIA, FBI, e mais uma ou duas agências de que ele mal tinha ouvido falar. O seu chefe abriu a reunião, apresentou todos os participantes e passou a palavra ao representante da Intelligence Analysis Agency:
“Há 4 dias ocorreram duas mortes nesta cidade, à primeira vista acidentais e como tal catalogadas. Um homem foi atropelado à saída do edifício em que trabalhava por um automóvel cujo condutor se pôs em fuga, e outro homem caiu no poço do elevador do edifício onde vivia. A viatura envolvida no atropelamento e o respectivo condutor nunca foram encontrados, e o responsável da empresa de manutenção dos elevadores garante que não havia nada de errado com o mesmo, e não consegue explicar como terá ocorrido o acidente.
Um ponto comum em relação às duas mortes: ambos eram analistas na Fisher. No dia seguinte, outro funcionário desta empresa foi encontrado morto em casa: a cocaína que tinha consumido estava misturada com um tóxico letal. Ainda outro, a caminho do trabalho, perdeu o controlo do carro e sofreu um choque frontal com um camião, ao qual não sobreviveu. Outro que no dia de folga tinha ido jogar paint-ball como era seu hábito, foi atingido, não pela bolinha com tinta, mas por uma bala a sério. E de muitas outras formas, que seria fastidioso estar a enumerar, foram em três dias eliminados a maior parte dos analistas da Fisher. Os poucos que escaparam estão neste momento sob protecção policial em locais secretos.
Em relação às chefias intermédias, foi uma operação mais compacta; os vice-presidentes e directores tinham ido comemorar o aniversário de um deles para um clube nocturno e o uísque velho que beberam tinha alguma coisa além de uísque... Quando o CEO, que chegara atrasado, entrou no clube, já os paramédicos entretanto chamados tinham desistido das manobras de reanimação. Não escapou um!
O CEO, que passou a andar acompanhado de vários guarda-costas, dirigiu-se no dia seguinte num carro com vidros à prova de bala para a marina onde tinha o seu iate. Quando estava a cerca de uma milha da costa, uma enorme explosão provocou um rombo no casco que fez afundar o iate em menos de um minuto.
Quando começámos a correlacionar estes factos, fomos olhar outra vez informação recente cujo conteúdo tínhamos descartado como improvável.
Há poucas semanas tinha havido rumores da formação de uma nova organização, com origem em vários países europeus. Fontes não totalmente credíveis falavam de gente ligada directa ou indirectamente ao IRA, à ETA, às Brigadas Vermelhas italianas, ao grupo Baader-Meinhof?, mesmo a descendentes da resistência grega que nas montanhas combateu os nazis, às FP25 portuguesas... E esta gente ter-se-ia agrupado para 'combater o sistema capitalista financeiro responsável pela globalização'.
Isto pareceu na altura totalmente fantasista e não lhe demos qualquer crédito. Neste momento estamos a classificar como 'possível' e penso que virá a ser considerado 'provável'. Uma operação com este nível de precisão cirúrgica necessita de um know-how que um grupo como o que eu descrevi poderá possuir. Sobretudo a vantagem resultante do cruzamento de activismos muito diferentes, utilizando as técnicas mais eficientes...”
Cala-se bruscamente quando a luz vermelha no tecto da sala começa a piscar. O chefe de Patrick, alertado pelo seu próprio auricular, que nunca tira do ouvido, liga os televisores existentes na parede do fundo, já pré-programados para a NBC, CBS, ABC e Fox. As imagens transmitidas parecem, numa escala reduzida, a fase final do 11 de Setembro: uma enorme nuvem de poeira, expandindo lentamente, no lugar onde antes estava – é fácil de reconhecer pelos prédios vizinhos – a sede da Mads'R'us, a segunda mais importante agência de rating. Decorrem menos de três minutos e a CBS põe no ar uma gravação de um vídeo amador onde, apesar da pouca qualidade da imagem, se distinguem claramente explosões ao nível do primeiro andar e o colapso subsequente do edifício, o terraço a chegar quase ao nível do solo antes que a nuvem de poeira obscureça tudo. Tecnicamente, uma demolição perfeita.
O chefe de Patrick reage imediatamente. “A próxima vai ser a Normal&Under! Pat, leva o piquete, vão para lá de helicóptero e começa a montar a segurança. Irão chegar reforços. Estes tipos são muito bons, diabolicamente bons, temos de ser mais rápidos que eles. Go, go!”
Quando chega ao terraço o heli já tem as pás a girar, os homens do piquete acomodam-se nos assentos, Patrick caminha curvado até à porta, entra e senta-se ao lado do piloto. Este levanta de imediato o aparelho, que sobe numa longa curva e se dirige para a sede da agência Normal&Under.
No heliporto do edifício da agência, o heli paira meio metro acima do pavimento e Pat e os seus homens saltam e correm para a entrada que leva às escadas. As instruções foram dadas durante o voo. Os homens deslocam-se para controlar as entradas, enquanto Patrick percorre os gabinetes do pessoal de topo, todos nos dois pisos superiores, com janelas amplas, alguns com duas paredes envidraçadas, e força-os a moverem-se para uma sala interior, menos exposta. Levando consigo um dos directores, Patrick vai descendo, andar por andar, e vai sendo informado, “sala dos mercados europeus”, “sala da América Latina”, e o que Patrick vê são dezenas de pessoas, cada uma em frente de um computador, gráficos coloridos que deslizam nos monitores, e os analistas usam o telefone, e batem no teclado, por vezes há um que faz um comentário para o colega do lado, mas de um modo geral cada um está concentrado no monitor que tem na frente, e Patrick percorre as salas identificando as vulnerabilidades, e numa parte remota do seu cérebro há um sentimento de estranheza, então estes é que são os tipos que estabelecem os famosos ratings que fazem e desfazem reputações  de empresas e países, parecem tão pacíficos ali, em frente aos monitores, mas as consequências das suas decisões podem ser terríveis, será que eles pensam nisso, mas o trabalho reocupa a sua consciência, chegou ao rés-do-chão do edifício, pela porta principal entram agora reforços com equipamento de combate. Patrick assume o comando e dá instruções aos comandantes dos pelotões. Dirige os grupos de intervenção para reforçar a segurança montada inicialmente, os especialistas em explosivos para a realização de um varrimento exaustivo do edifício. Os homens dispersam, iniciando as missões que lhes foram atribuídas.
Sempre em ligação rádio com os seus homens, Patrick regressa à sala onde juntou os executivos, para lhes fazer o ponto da situação. Foi encontrá-los reunidos, tomando decisões sobre anúncios de rating a emitir.
O CEO interrompeu a reunião para perguntar: “Como vão as coisas, major?”
Patrick responde: “A segurança está montada em todo o edifício. Ninguém entra nem sai sem passar por nós. Temos de esperar até haver mais informação sobre o exterior.”
“OK, major, nós continuamos a trabalhar. Desde que viemos para aqui já baixamos o rating de dois ou três países e de uma meia dúzia de empresas...”
E riu-se, apoiado pelos sorrisos dos vice-presidentes.
Patrick não acha graça, apenas diz: “Quando houver novidades, virei aqui”, e vira costas, sai da sala, apanha o elevador para o rés-do-chão.
No átrio, verifica o posicionamento dos seus homens, confirma por rádio que do terraço à garagem tudo está a postos. O edifício parece limpo de explosivos. Foram colocados snippers nos telhados, terraços e janelas dos prédios vizinhos, ouve o ruído do heli que descreve círculos sobre a zona.
E no entanto, o instinto de Patrick diz-lhe que a situação é diferente de tudo o que já viveu até então. Em todas as crises anteriores em que esteve envolvido, ele e a força que comandava eram os caçadores, agora ele tem a sensação de estarem sitiados, aquele aperto no estômago não engana, agora são eles os ratos, e os gatos estão lá fora, ninguém sabe onde...
Vêm ter com ele o capitão Boyd, seu adjunto. Patrick conhece todos os seus homens, sabe dos seus problemas familiares, sabe por exemplo que o pai de Bill Boyd morreu recentemente; precisando de uma intervenção cirúrgica viu-se sem recursos, devido à falência da companhia onde tinha o seu seguro de saúde, arrastada na hecatombe do sistema bancário. Demasiado orgulhoso para pedir ajuda ao filho, este só veio a saber da situação quando já nada podia fazer.
E Patrick conhece muitas outras situações, até mesmo no seu círculo mais próximo. Há poucos dias encontrou um tio da falecida mulher, veterano do Vietname, a trabalhar no MacDonalds, em resultado do colapso do seu fundo de pensões. E não era ele a única pessoa de idade naquele restaurante a atender os pedidos ou a limpar as mesas...
E um tio avô na Irlanda que se suicidou, desesperado por ver as economias de uma vida de trabalho engolidas na falência do banco onde as tinha colocado.
E Patrick pensa que há qualquer coisa de errado em estar ali a proteger os responsáveis pela ruína de milhões de pessoas, mas que continuam, numa sala protegida, o seu trabalho destruidor. Alguma coisa faz click na sua cabeça. Acciona o botão do rádio e fala:
“Atenção a todas as unidades, aqui Condor, senha Fechadura, operação cancelada, repito, operação cancelada. Todas as unidades regressam à base, imediatamente.”
Os diversos grupos de intervenção abandonam rapidamente o edifício, os snippers deixam os edifícios vizinhos, o som do heli é cada vez mais fraco à medida que se afasta. Depois de ver sair todo o pessoal, Patrick sai também com Bill, fingindo não notar o ar surpreso do seu adjunto. Despede-se dele dizendo, “Afasta-te daqui que isto vai certamente aquecer. Fica bem.”
Patrick caminha rapidamente sem olhar para trás. Percorridos quatro ou cinco quarteirões começa a ouvir o som meio abafado de armas automáticas, os tiros devem ser dentro do edifício. Pensa que o seu chefe tinha razão, these guys are damn good!. Patrick continua a andar e a sua presença vai-se tornando indistinta enquanto mergulha mais e mais na cidade anoitecida...

Começa com a capa portuguesa e termina com a capa brasileira (esta notícia)...

A antologia será lançada no dia 25 de Fevereiro, no Fantasporto. 

Aqui fica a lista de autores, e respectivos contos, pela ordem que surgem na antologia (informação retirada do blogue I dream in infrared do editor Rogério Ribeiro - link aí ao lado)


O tempo tudo cura menos velhice e loucura
António de Macedo

A inimaginável materialização de Samira
João Paulo Vaz

O Robot Auris
Beatriz Pacheco Pereira

O Festival
Filipe Homem Fonseca

Virgílio Bentley e o extraterrestre
Ágata Simões

As mãos e as veias
Afonso Cruz

Tsubaki
Bruno Martins Soares

Uma Alforreca no Quintal
António Carloto

Fogo!
João Ventura

O cão
Isabel Cristina Pires

O Mistério dos Uivos
Madalena Santos

Expedição ao Futuro
José Cardoso

Déjà-vu
Luís Roberto Amabile

Acordar o Profeta
João Leal


Manuel Alves

As Moças do Campo
Telmo Marçal

A Besta-fera
Rodrigo Silva

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Dia de eleição

Quando abriram as urnas, lá estavam os mortos...

Mas estavam à espera de quê?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Que sorte de azar!

Já não via o Alfredo desde a Universidade. Fazíamos parte do mesmo grupo, e o Alfredo era o que se chamava um tipo azarado. Um exemplo vivo da lei de Murphy. Se ele planeasse ir fazer um piquenique no campo, era certo e sabido que choveria. Comprava bilhete para um concerto, logo o músico principal adoecia. Punha fato e gravata para ir a uma entrevista e de certeza que ao almoço o molho do bife arranjava maneira de lhe salpicar a camisa. Habituado ao azar, andava sempre de cabeça baixa e de ombros encurvados, como se transportasse às costas o peso do mundo.
Por tudo isto, naquele dia quase não o reconheci. Muito aprumado, de fato Armani, entrou no restaurante onde tínhamos combinado encontrar-nos e veio direito à mesa onde eu estava. Levantei-me, demos um aperto de mão e não me contive que não lhe dissesse:
"Estás com bom aspecto!"
"Não posso dizer que a vida me corra mal..."
"Mas tu eras um tipo cheio de azar..."
"Ainda sou, mas agora ganho dinheiro com isso..."
O empregado trouxe o vinho, deu a provar ao Alfredo, que cheirou, bebeu um pequeno gole e acenou, aprovador. Serviu-nos a ambos. Esperei que se afastasse para perguntar:
"Ganhas dinheiro como?"
"É uma longa história. Já ouviste falar de atractores estranhos?"
"Estudei Física como tu..."
"Bem, e de repulsores?"
"Desses não me lembro..."
"Nem podias, só foram inventados depois de acabarmos o curso. Mas funcionam exactamente ao contrário dos atractores. E há cerca de um ano, um psicólogo, a estudar os factores que fazem com que certas pessoas tenham êxito e outras não, descobriu que alguns indivíduos são atractores e outros repulsores. Uns atraem as ocasiões favoráveis, as boas oportunidades, enquanto outros é o oposto. A generalidade das pessoas é uma mistura de uma coisa e outra, mas há uma pequeníssima percentagem que são atractores e repulsores praticamente puros. E eu sou um repulsor puro."
"E como descobriste isso?"
"O meu terapeuta conhecia o tipo que andava a fazer esta investigação e propôs-me fazer uma bateria de testes e foi assim que descobriram. Agora acontece que estes dois conheciam um terceiro que era gestor de hedge funds, e que pensou que tão bom como ter à mão um atractor era ter um repulsor. Num caso para adoptar as decisões, no outro para seguir as decisões opostas. E foi assim que fui parar à actividade financeira."
Estava fascinado! Levei uma garfada à boca - quase me tinha esquecido da comida à minha frente - enquanto o Alfredo continuava:
"Assim, todos os dias vou trabalhar como se fosse um dos outros, olho para as cotações que deslizam no monitor e dou ordens de compra e venda. Só que, enquanto as dos meus colegas são executadas, as minhas são desviadas para o meu chefe que dá então indicações aos outros operadores para fazerem exactamente o contrário do que eu decidi. O que eu decidi comprar eles vendem, o que eu decidi vender eles compram. E isto funciona 99,87 por cento das vezes!"
Veio a conta e o Alfredo pegou nela, apenas esbocei um leve protesto.
"Deixa estar que eu pago isto. Ainda no mês passado recebi um bónus com um valor muito confortável." E em voz mais baixa, acrescentou: "O lucro da empresa subiu 63 por cento desde que lá comecei a trabalhar..."
Despedimo-nos à porta do restaurante, fiquei a ver o Alfredo afastar-se e a pensar: "Que raio de sorte a do Alfredo em ter o azar que tem!"

Esta estória é dedicada ao Luís E., que me deu a ideia.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

História da ciência que poderia ter sido (I)

Qualquer pessoa medianamente instruída já ouviu a expressão queda dos graves. Se ainda recorda algo do que aprendeu na escola, conseguirá associar essa expressão ao nome de Galileu Galilei. E no entanto, como as coisas seriam diferentes se Parvus Parvonius tivesse prosseguido a sua carreira científica, abruptamente interrompida de forma trágica...
Vizinho e amigo de Galileu, Parvus acompanhou o início dos seus trabalhos experimentais, mas cedo desenvolveu a ideia que, muito mais interessante do que observar a queda dos graves, seria estudar a queda dos agudos. A discussão entre ele e Galileu atingiu o nível dos insultos mútuos e deixaram de se falar.
As primeiras experiências de Parvus com a queda de agulhas e alfinetes trouxeram-lhe pouca informação, pelo que rapidamente passou a ensaios com facas, navalhas, baionetas, lanças, adagas, espadas, setas, punhais, e material semelhante.
Ficou particularmente interessado nos efeitos da queda dos agudos sobre o corpo humano. Ao princípio utilizava corpos roubados no cemitério local, mas receoso das consequências - a profanação de sepulturas era punida com a pena de morte - passou a usar um processo mais expedito. Numa taberna, metia conversa com um cliente solitário, a quem convidava para partilhar um jarro de vinho, e que depois convidava para ir a sua casa, com o pretexto de lhe mostrar desenhos pornográficos, artigo já muito apreciado na época.
Dentro de casa, o convidado era atordoado com uma pancada na cabeça, amordaçado e amarrado a uma mesa, por cima da qual estavam pendurados os objectos agudos, que eram deixados cair, um a um, sobre o corpo da vítima. Destas experiências, Parvus tirava notas meticulosas que foram encontradas, convenientemente arquivadas, no seu scriptorium.
A carreira de investigador de Parvus Parvonius terminou por um destes acidentes em que a vida é fértil. Regressava da Rua da Cutelaria, onde tinha ido adquirir material de laboratório, quando ao cruzar-se com uma patrulha da polícia da cidade, a alça do bornal se rompeu, e o bornal caiu ao chão, espalhando uma colecção de facas capaz de fazer inveja a um talhante. Essa carga transportada levantou suspeitas aos agentes da autoridade, suspeitas que as suas explicações atabalhoadas não dissiparam, pelo que foi intimado a conduzir a patrulha até à sua casa, onde ainda estava amarrado à mesa o corpo que tinha sido objecto da última série de ensaios. A dúzia e meia de cadáveres enterrados no quintal da casa também não contribuiram para a presunção da sua inocência.
Submetido a julgamento sumário, foi condenado à fogueira, executado e as suas cinzas deitadas ao mar.
Foi também a partir daí incrementada a vigilância sobre os cientistas, que nas palavras do inquisidor-mor, "são capazes dos actos mais vis para tentar provar as suas teorias erróneas".

domingo, 28 de agosto de 2011

Notícias do Concílio do Mercado (III)


Em simultâneo com as sessões plenárias, uma comissão de peritos trabalha activamente nas questões terminológicas. Sabendo o Concílio que muitas das grandes controvérsias históricas estão relacionadas com o significado a dar às palavras, foi decidido estabelecer, não só uma lista de palavras a usar, mas também outra lista, não menos importante, das palavras a não usar - o Index Palavrorum.
Nesta segunda lista, uma das primeiras palavras a entrar foi "trabalho", substituída pelos termos "recursos humanos" ou, preferencialmente, "capital humano".
Como exemplo, seguem-se mais algumas palavras colocadas no Index, cada uma seguida da correspondente palavra a usar:

especulador --> investidor
lucro --> justa retribuição
trabalhador --> colaborador
solidariedade --> assistência

Esta tarefa deverá continuar mesmo depois do encerramento do Concílio, pois as forças do Mal estão sempre a produzir novas palavras destinadas a confundir os fieis, e os servidores do Mercado têm de manter-se   vigilantes.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Notícias do Concílio do Mercado (II)


Ao fim da segunda semana de trabalhos, foi lida pelo porta-voz autorizado uma nova declaração, estabelecendo como um dogma de Fé a possibilidade de crescimento contínuo num sistema finito.
Consta que, durante a discussão, foi aventada a possibilidade de declarar heréticos acima de qualquer remissão todos aqueles - em geral com formação nas ciências físicas, mas muitos equipados apenas com o sólido bom-senso - que tivessem alguma vez afirmado a impossibilidade de tal crescimento permanente. Mas acabou por prevalecer a tese mais moderada de que as afirmações respeitantes ao comportamento da divindade Mercado, sendo do âmbito teológico, e consequentemente do domínio da Fé, não são susceptíveis de ser confirmadas ou infirmadas por leigos.
"Ad majorem mercado gloriam", assim concluia a declaração, que como de costume, não teve direito a perguntas.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Notícias do Concílio do Mercado (I)


Terminada a primeira sessão do Concílio, foi a decisão mais importante divulgada numa conferência de imprensa sem direito a perguntas.
O Concílio decretou a infalibilidade das Agências de Rating, únicos intermediários reconhecidos entre a divindade do Mercado e o "Homus economicus".
E mais decretou que quem, por qualquer meio, exprima dúvidas sobre este dogma agora formulado, verá imediatamente o seu rating passado à categoria "lixo", ficando impedido de aceder no futuro à presença da Divindade.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Do sótão da memória...

Há muitos anos, era o (meu) mundo mais novo, um colega e amigo contou-me uma história que se tinha passado com a filhota dele, no infantário que frequentava.
Queixava-se ela que um coleguinha lhe batia. E ele, meio distraído durante a queixa, atirou-lhe: "Olha, bate-lhe tu também!".
A filha replicou: "Não, que ele é mais grande, e depois bate-me mais...". Reflectiu um pouco, e acrescentou: "Já sei, vou bater ao Zezinho, que é mais pequeno do que eu!".
O meu amigo ficou subitamente atento, e lá teve que explicar à filha que não era dessa forma que as coisas se passavam, porque o Zezinho não tinha culpa nenhuma que o outro menino lhe batesse, e por aí fora...

E por que será que ao pensar sobre o que vai acontecer ao meu subsídio de Natal me veio à memória esta história com mais de 30 anos? Ele há coisas...

domingo, 10 de julho de 2011

A taxa de desemprego

Um comunicado do IEFP esclarece que o súbito agravamento da taxa de desemprego é devido à cessação de actividade de um elevado número de pessoas cujo "core business" consistia em dizer mal do ex-primeiro ministro José Sócrates.
Muitos destes recém-desempregados têm feito fila à porta dos Centros de Emprego, mas o IEFP comunica que ainda não abriram vagas para, de forma massiva, dizer mal do novo primeiro ministro Pedro Passos Coelho. Esses postos de trabalho serão criados logo que termine o "estado de graça" e nessa altura o Instituto divulgará esse facto através de Edital.
Foram recentemente criados alguns empregos para dizer mal das agências de rating. Os candidatos tiveram que frequentar um curso de formação, mas as poucas vagas foram rapidamente preenchidas por políticos, comentadores encartados, jornalistas e outros profissionais do mesmo tipo. Consta que o curso de formação foi muito exigente (rotações de 180º são sempre difíceis de interiorizar), mas como pode ser verificado na generalidade dos meios de comunicação social, todos os alunos passaram com excelente aproveitamento.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

"Livros" + "100"

A revista Os Meus Livros, para comemorar o seu número 100, organizou um concurso de contos até 100 palavras, que incluissem obrigatoriamente as palavras livros e 100.
Podem ler o conto vencedor aqui, no blogue da revista.

E é assim que vou receber o último livro do Afonso Cruz ...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

À atenção do ministro Nuno Crato


Exmo senhor ministro
É um facto conhecido que os docentes do ensino superior se queixam com frequência do tempo gasto na avaliação dos alunos: trabalhos, seminários, apresentações, testes, exames (1ª época, 2ª época, época especial)...
Os recentes acontecimentos na cena político/económica envolvendo a queda do rating da República deram-me uma ideia que poderá solucionar aquele problema. Em vez de classificar os trabalhos e exames, os professores emitirão a sua "opinião" sobre o aluno, qualquer coisa nestes termos: "independentemente do que aqui está", e poderão apontar com um dedo displicente para a pilha de trabalhos e testes produzidos pelo aluno, "tenho um feeling que você não vai conseguir passar de ano, e portanto leva um 9. E tome nota que fica com um outlook negativo, portanto fique à espera de um 6 ou 7 para a próxima."
Veja-se o tempo poupado ao sobrecarregado dia de trabalho de um docente!
E a cereja no topo do bolo é que os alunos terão de pagar para os docentes emitirem essa "opinião" baseada nesse feeling, resolvendo assim em simultâneo dois problemas crónicos: a sobrecarga dos professores e o subfinanciamento das instituições.
Naturalmente que, vivendo nós neste financeirismo totalitarista em que tudo tem um preço, tenho a expectativa de ser recompensado por esta ideia brilhante, por exemplo na forma de uma percentagem (a negociar) dos ganhos financeiros das instituições que adoptarem esta nova metodologia, da qual já submeti o respectivo pedido de patente.

Com as mais cordiais saudações académicas

terça-feira, 24 de maio de 2011

PALAVRAS

Na praça pública, o homem levantou-se e disse, enquanto ia mostrando um a um os dedos da mão direita:

“Destino
Presença
Catástrofe
Futuro
Passado”

“Está louco!”, pensaram vários.
“Está possuído pelo demónio”, disse um.
“É um profeta”, disse outro.
“A palavra mais importante é Destino”, gritou um terceiro.
“Não é, não, é Futuro”, berrou outro.
A confusão generalizou-se, com todos a gritar ao mesmo tempo, defendendo os seus pontos de vista.
E foi desta forma que nasceram os Destinólicos, os Presencistas, os Catastrofistas, os Futurólicos e os Passadistas, que desde então se têm digladiado continuamente, como rezam as crónicas da cidade.
Quanto ao homem na origem de tudo isto, cujo nome a história não registou, depois de ter falado, afastou-se calmamente, e nessa tarde, contemplando o sol poente, já não se lembrava do que tinha dito de manhã.