quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Antes de assinar, deve ler sempre as letras pequeninas...

O Bilas, de seu verdadeiro nome Bernardo Lacerda, era um inovador em alterações corporais.
Foi um dos primeiros da turma a fazer piercings, mas tirou-os todos quando aquilo passou a ser uma moda e era difícil encontrar alguém sem uma argola no nariz ou no sobrolho...
Umas semanas depois, apareceu-nos com os olhos totalmente vermelhos. Disse-nos que no dia anterior tinha esperado mais de três horas na fila para entrar na clínica onde aplicavam aquela técnica de injectar corantes na córnea.
Ainda nós todos passeávamos com os auriculares nos ouvidos a bombar decibéis quando ele fez um dos primeiros implantes auditivos: injecção directa da música no nervo auditivo, mudança de faixa pressionando atrás da orelha. A malta ficou banzada, poder passar uma aula a ouvir música sem o setôr dar conta!
Foi então que as operadoras de telemóvel surgiram com a última novidade: tornar obsoleto o aparelho, embutindo o auricular no polegar, o microfone no dedo mínimo e nos outros dedos sensores de pressão para marcação dos números e acesso às restantes funcionalidades do plano subscrito.
E enquanto a malta tinha que continuar a encostar o télé ao ouvido era ver o Bilas, polegar junto à orelha e mínimo esticado junto à boca, perdido em intermináveis conversas.
Mas o Bilas é muito distraído e esqueceu-se de pagar a mensalidade...
No sábado passado, tocaram-lhe à porta às 11 da manhã. Foi abrir meio ensonado e deu de caras com um grupo que incluia um tipo de fato escuro, um polícia e mais dois de bata branca. O de fato escuro confirmou a identidade do Bilas e disse:
“Tem de nos acompanhar.”
“Acompanhar aonde?”
“Ao hospital, para dar execução à cláusula 22 do Contrato que o senhor assinou com a companhia Transceptor Incorporado que eu represento.”
Que cláusula 22?”, perguntou o Bilas, que já estava a achar a situação um pouco estranha.
O outro, que devia ser advogado, disse: “Vou ler-lhe a cláusula em questão. Cláusula 22 – O subscritor do plano declara que tomou conhecimento que a tecnologia implantada é um processo irreversível, que implica a fusão de componente sintéticos e orgânicos. Consequentemente, em caso de incumprimento do contrato, em particular falta de pagamento de mensalidades, o subscritor aceita que a operadora Transceptor Incorporado proceda à amputação da mão em que tiver sido instalado o transceptor, em estabelecimento deviamente credenciado pelo Ministério da Saúde.”
Quando o significado destas palavras entrou no seu cérebro ainda ensonado, o sono desapareceu completamente e o Bilas começou a gritar e gritou até que um dos de bata branca lhe aplicou uma injecção no braço com uma seringa que já trazia preparada.
Com o choque emocional, o transceptor entrou em modo emergência e todos os números da lista de contactos do Bilas receberam em simultâneo o seu grito de desespero. Ainda o tenho nos ouvidos...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Nova

Já começou a dar luz o Número 3 (editor e co-editor: Ricardo Loureiro e Nuno Fonseca). O pdf pode ser descarregado do link acima. São 80 páginas cheias de coisas para ler, entre elas um conto intitulado "O Povo do Livro" do autor deste blog.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Silêncio que se vai cantar o fado

que é o tema do Nº 12 da Minguante (como houve um número zero, na realidade é o 13, que até é um número mais adequado a fatalismos...) e onde tenho uma pequena variação em dó menor.

sábado, 8 de novembro de 2008

Subsídios para uma teoria da decisão - um "case study"

Alexandrino sempre foi um indeciso.
Em criança, se lhe ofereciam rebuçados de uma caixa, sentia-se incapaz de optar por um dos coloridos ou prateados objectos. Já sem falar da sempiterna pergunta "Gostas mais da mamã ou do papá?" em relação à qual ficava a olhar fixamente para a perguntadora tia Eufrásia, até esta se sentir incomodada e arranjar um pretexto para o largar e ir à procura de outra vítima.
No liceu, na turma que frequentou havia duas raparigas; nunca conseguiu decidir qual das duas convidar para sair.
Em casa só pode ter uma variedade de queijo, caso contrário levaria uma eternidade a decidir de qual deles cortar uma fatia para comer. E o mesmo acontece com qualquer outro tipo de alimento ou bebida.
Ir comprar qualquer coisa é um verdadeiro martírio para Alexandrino, porque agoniza em frente a diversas opções, seja comida, roupa ou uma simples esferográfica.
Hoje de manhã, quando Alexandrino saiu de casa, teve uma desagradável surpresa: a passadeira de peões que existia praticamente em frente da porta do seu prédio, e que ele atravessava para, no outro lado da rua, apanhar o autocarro que o leva ao emprego, tinha desaparecido. Avançou até à beira do passeio e verificou que as faixas brancas que assinalavam a passadeira tinham sido pintadas por cima. Olhou à esquerda e à direita e viu que a cerca de 50 metros em ambas as direcções, a Câmara Municipal tinha criado duas novas passadeiras, em substituição daquela que tinha eliminado. A angústia perante a escolha instalou-se no seu espírito...

Isto passou-se cerca das oito e meia da manhã; são agora 19 e 45 e Alexandrino ainda lá está, parado na beira do passeio, incapaz de decidir sobre qual das passadeiras utilizar para atravessar a rua...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Odisseias Fantásticas

Bruno Jacinto arrancou a meio do mês com um agregador de blogues relacionados com o Fantástico nas suas diversas vertentes, que dá pelo nome de Odisseias Fantásticas.
Ainda está no início, mas já lá moram cerca de uma dúzia, entre os quais o "Das palavras..."
E há um convite expresso para candidatos a inquilinos...

sábado, 25 de outubro de 2008

Cobertura Televisiva Total

Naquele país longínquo(*), o primeiro ministro tinha uma das habituais reuniões com os seus assessores.
“Existem no país apenas 1400 casas sem televisão”, leu ele no memorando que lhe tinha sido entregue.
“Apenas 1400 casas...?” perguntou enfaticamente.
O assessor responsável pelo memorando acenou com a cabeça, concordante.
“Onde você escreveu apenas 1400 casas sabe o que eu leio? Eu leio ainda 1400 casas! Não está a ver o que isso significa? Isso significa que ainda há 1400 casas onde o Telejornal não chega, onde não se vê uma inauguração, onde não se assiste a uma conferência de imprensa dada por um ministro... Não percebe as implicações disto?”
O assessor, sentindo o gozo disfarçado dos colegas pela posição desconfortável em que se encontrava, ainda tentou resistir:
“Mas, senhor primeiro ministro, os restantes factos são muito positivos. Veja, somos o primeiro país da Europa em número de casas com dois aparelhos, a média de consumo diário de televisão é de 3 horas e 37 minutos...”
“Isso são prémios de consolação”, atalhou o primeiro ministro, imperativo. E continuou em tom dramático: “É preciso fazer alguma coisa para reduzir essas 1400 casas... a zero!”
“Vamos preparar um plano de distribuição de televisores a essas 1400 casas. Arranjar um fornecedor, obter os aparelhos, e anunciar, numa acção conjunta da Inserção Social com o País Tecnológico, um novo programa...”. Pensou uns segundos e completou: “TV para Todos!”. Se entregarmos 200 aparelhos por mês, o programa durará 7 meses, com a cobertura informativa adequada. E o nosso país será o primeiro no mundo, no mundo!, com cobertura televisiva total. E será um passo gigantesco, gigantesco, contra a info-exclusão!”
Olhou em volta, satisfeito com os sorrisos que viu nos assessores: “E agora, meus senhores, há trabalho a fazer! Go! Go! Go!”
O primeiro-ministro adorava usar estas interjeições no fim das reuniões. Dava-lhe uma sensação de dinamismo, e gostava de visualizar aquelas trinta e tal pessoas saindo dali a correr, como se cada uma transportasse consigo um grão do poder que emanava do chefe do executivo.

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O programa TV para Todos! foi lançado com pompa e circunstância. E as reportagens sucederam-se sobre aqueles cidadãos, em geral habitantes do país profundo, beneficiados com aquela oferta de televisores.
Joaquim Lucas, jornalista, trabalha no jornal “Ecos da Semana”. O chefe de redacção encarregou-o de preparar uma peça sobre o TV para Todos! para ser publicada, em jeito de balanço, quando o programa terminar.
Joaquim sabe que o ângulo humano é o fundamental. Vê todas as reportagens que saem nos diversos canais generalistas sobre o programa, embora as ache um bocado monótonas: descrição do agregado familiar, político que chega, entrega o televisor, o casal e filhos sorridentes a agradecer, ligam o aparelho, fim da reportagem.
O dia de hoje não é excepção. Joaquim, acomodado no sofá frente ao televisor, bebe uma cerveja e come uma sanduiche que trouxe da loja de conveniência à esquina da rua, e vai vendo mais uma série de entregas, quando surge uma que desperta o jornalista de investigação que existe nele. Começa como as outras, mas o que lhe chama a atenção é o casal referido não aparecer, as imagens mostram apenas fotografias deles, uma no dia do casamento, outra já mais velhos, uma imagem rápida do aparelho oferecido, duas frases curtas pelo jornalista destacado para a reportagem e transição para a seguinte. Mas por que razão o sr. António Justino não apareceu na reportagem?
Joaquim fareja aqui alguma coisa, pode ser a salvação da peça que tem que preparar e em relação à qual ainda não descobriu uma estrutura adequada. Abre o portátil, liga-se à web, vai ao site www.tvparatodos.pt e percorre a lista das pessoas que receberam (ou receberão) televisores até encontrar António Justino.
Toma nota da morada, Vale da Ribeira, um pequeno lugar nos arredores de Lisboa. Mete-se no carro, introduz o nome do lugar no GPS e põe-se em marcha.
Cerca de quarenta minutos depois está em Vale da Ribeira. Entra na taberna “A estrela da manhã” onde lhe indicam a localização da casa do Ti Justino. É uma pequena moradia, já praticamente no exterior do lugar.
Joaquim dirige-se para lá, pára o carro, observa a casa térrea, já um tanto decrépita, e percorre a pé o carreiro que leva à entrada. Quando vai bater à porta, sente uma pressão nas costas e alguém atrás dele diz-lhe: “Quietinho, não faças asneiras e não te acontece nada.” E noutro tom de voz: “Abre, temos uma visita.”
A porta abre-se, e surge um homem vestido de preto, com óculos escuros, um auricular no ouvido esquerdo, que se desvia para deixar entrar Joaquim e o companheiro. Não dizem quem são, mas Joaquim não precisa disso. Já antes contactou com elementos do Serviço Secreto e aqueles não enganam. O que se mantém atrás de Joaquim revista-o rapidamente. “Está limpo”, anuncia.
O outro fala: “Identificação.” Joaquim puxa da carteira profissional e mostra-lha.
“O que vieste fazer aqui?”
O jornalista pensa que não ganha nada em estar a inventar, e conta a verdade, como se sentiu intrigado por ver a reportagem sem que aparecessem as pessoas que recebiam o televisor, e que pensou que isso podia dar uma história.
Os dois agentes parecem ficar convencidos. Um deles ainda comenta para o outro: “Eu bem disse ao tipo da televisão que podia haver quem estranhasse a reportagem, mas o gajo insistiu, que as entregas tinham que ser todas registadas, e mais isto e mais aquilo...”
O que estava dentro de casa conduz Joaquim à outra porta da sala, abre-a e deixa-o espreitar para outro compartimento, escassamente mobilado, mal iluminado por uma lâmpada suspensa do tecto, onde estão sentados num sofá um homem e uma mulher, amarrados e amordaçados. Torna a fechar a porta.
“António Justino e a mulher?”, pergunta Joaquim. Os agentes confirmam.
“E porquê isto?”
“Quando chegámos com o televisor o Justino começou aos berros, que não queria o televisor para nada, precisava era de dinheiro para comprar sementes e rações para o gado, mas isso o governo não lhe dava, e continuou com insultos aos ministros e aos políticos em geral. Não seria bom que isso aparecesse na televisão. Por outro lado, se não fizéssemos a entrega, o objectivo do Governo de reduzir a zero o número de casas sem televisão não seria cumprido. Não podíamos permitir que um agricultor ignorante e analfabeto afectasse desta forma os objectivos do Governo, pois não?”
Joaquim não consegue deixar de concordar.
“E foi o único caso de... resistência?”
“Houve mais um ou dois; em 1400 pessoas há sempre algumas ovelhas ranhosas! Mas aí tivemos mais tempo, e conseguimos arranjar um vídeo que encaixou perfeitamente na reportagem. Desta vez não foi possível...”
“E o que vão fazer com eles?”
“Nada, libertamo-los daqui a umas horas, quando a entrega deles já não for notícia.”
“E se eles falarem?”
“Ora, quem vai acreditar num casal de agricultores meio patarecos? Vão ter tanta credibilidade como essa malta que jura que foi raptada por extra-terrestres e que andou a passear num OVNI.”
“E eu, posso ir-me embora?”
“Podes, mas atenção: o que viste e ouviste aqui não é notícia...”
Joaquim sabe detectar uma ameaça quando a ouve.
“Claro, eu não vi nada, na realidade nem estive aqui.”
“Acreditamos que não, mas vamos estar a observar-te.”
Enquanto conduz de volta a casa, Joaquim Lucas vai pensando: “Que pena, uma história com tanto potencial, e logo calha ser tão sensível do ponto de vista político. Eu podia transformá-la numa peça de ficção... Nãã, alguém ia relacionar com os acontecimentos e eu ficava à pega com os Secretos... Vou ter que deixar cair a história... Lá vai ter que ser a peça do costume, a cobertura total do país, a nota patriótica quanto baste, meia dúzia de frases tiradas de outras tantas entrevistas com contemplados, a era da informação, blá, blá, blá... Que pena..."

(*) Aviso aos leitores: esta frase de abertura deve ser considerada equivalente ao mais habitual “Qualquer coincidência com factos ou pessoas reais é pura semelhança”.

Agradeço a Carlos Fiolhais que num post no De Rerum Natura apresentou a informação que inspirou este texto.

domingo, 12 de outubro de 2008

Sinais de pontuação

Agradeço ao Nuno Fonseca uma frase, que falava de vírgulas, e que despoletou a escrita deste texto.

Memorando

De: Joaquim Silva, fiel de armazém
Para: Dr. Armando Aguiar, chefe do Departamento de Compras
Assunto: Sinais de pontuação

Em cumprimento da O.S. 75/2008, tenho a reportar o seguinte sobre a existência em armazém de sinais de pontuação:

1. Pontos de interrogação: quantidade suficiente. O consumo não é muito elevado, porque hoje em dia são raras as pessoas que se interrogam, e interrogar outros é como se sabe uma operação de risco, que tem de ser realizada com as devidas cautelas.

2. Pontos de exclamação: já praticamente ninguém se admira ou se espanta (o que não é de admirar), pelo que o consumo tem sido também muito baixo. Quantidade suficiente.

3. Reticências: como se sabe, não é prudente colocar reticências, em particular a sugestões vindas de cima, pelo que este é um sinal muito pouco usado. Se, de forma imprevista, o seu consumo aumentasse, poderiam sempre fabricar-se com 3 pontos finais.

4. Dois pontos: De uso cada vez menos frequente, a quantidade existente, embora pequena, é suficiente. Numa emergência podem usar-se dois pontos finais alinhados na vertical.

5. Ponto e vírgula: Acusado de cortes no discurso, este sinal continua a ser olhado com suspeita. A quantidade em armazém é suficiente. Em caso de necessidade pode ser construido com um ponto final e uma vírgula alinhados na vertical (o ponto em cima, a vírgula em baixo).

6. Ponto final: A quantidade em armazém precisa ser reforçada, não tanto por razões de utilização actual – verifica-se que os discursos continuam a ser pouco assertivos e portanto pouco finalizadores – mas porque podem ser utilizados na construção de reticências, dois pontos e ponto e vírgula. Propôe-se a compra de uma embalagem de 50000 pontos, porque o custo por ponto é francamente mais baixo do que nas embalagens de 20000 pontos.

7. Vírgulas: Sinal de grande utilização. Uma vírgula seguida de uma frase que repete por outras palavras o que acabou de ser escrito é um recurso estilístico muito frequente. O nosso fornecedor Acentos & Sinais SARL tem durante este mês as vírgulas em promoção, pelo que se propõe a compra de 2 embalagens de 20000 vírgulas.

8. Propõe-se ainda a compra de 5000 acentos agudos e graves, pois com muita frequência são colocados erradamente, e sempre que isso acontece têm de ir para o lixo, porque não podem ser reciclados.

9. Sugere-se no entanto que antes de firmar as encomendas, seja feita uma consulta ao Departamento Jurídico, para tentar prever as implicações da entrada em vigor do Acordo Ortográfico sobre os padrões de consumo de sinais de pontuação na nossa organização.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A vida está difícil para todos...

O chefe estava bravo, num daqueles dias em que o melhor é ouvir e calar!
“Uma vergonha!Vocês têm a lata de chegar aqui depois de uma noite de trabalho e entregar-me cento e cinquenta e três euros?”
“Oh chefe, não temos a culpa de no quiosque dos jornais a registadora estar quase vazia. E o restaurante que assaltámos a seguir também tinha pouco dinheiro; disse o dono que hoje a maior parte dos clientes paga com cartão...”
O Fusca bem podia ter ficado calado! A cara do chefe ficou mais encarnada e ele berrou:
“Não quero cá desculpas esfarrapadas. Eu estou a perder dinheiro com vocês e isto não pode continuar assim. Vou ter que cortar nas despesas!”
Olhámos uns para os outros, com receio do que iria sair dali.
“Primeiro, downsizing e outsourcing. Vamos passar a usar mão de obra temporária para a condução dos carros.”
O Mãozinhas, que é habitualmente o condutor, encolheu-se todo e perguntou a medo: “E eu, chefe?”
“Vais ter que te ir embora. O colégio onde andam os meus filhos precisa de um motorista para a carrinha de transporte dos miúdos. Vais lá inscrever-te, que eu dou um toque ao responsável dos recursos humanos do colégio.”
O Mãozinhas ficou com um ar muito infeliz, a imaginar-se a transportar criancinhas mimadas, e nós cheios de pena dele.
“Segundo, os assaltos vão passar a ser sempre de dia. Enquanto não aumentarem as receitas, eu não posso continuar a pagar horas extraordinárias.”
“Mas chefe, nós podemos trabalhar à noite sem horas extraordinárias”, avançou o Alicate, que estava a começar a ver o caso mal parado.
“Nem pensar! E depois ter o sindicato à perna, tribunal de trabalho e o diabo a quatro? Acaba o trabalho nocturno e pronto!”
“E mais: se me aparecem outra vez com uma caixa Multibanco com as notas todas pintadas, obrigo-vos a ir devolvê-la ao sítio de onde a tiraram!”
“Mas chefe, quando lá chegássemos com a caixa estava lá a bófia e íamos todos dentro”, disse o Neurónios, que não é propriamente um exemplo de esperteza.”
“Será a paga da vossa incompetência!”, respondeu o chefe, ainda mais irritado.
Fez uma pausa, tirou 2 comprimidos de uma caixinha, meteu-os à boca, e empurrou-os para baixo com meio copo de água. Aqueles eram os comprimidos para a tensão, mas ele só costumava tomar um de cada vez. A coisa estava preta!
“Vocês já apreciaram bem a cena? Cinco manguelas a quem eu pago salário, segurança social, subsídios de Natal e de férias, horas extraordinárias, aparecem-me aqui ao fim da noite, com o carro todo escalavrado, porque a fugir da bófia roçaram num muro – e ainda vou ter que pagar ao batechapas – e dizem-me que o resultado do trabalho foram cento e cinquenta e três euros? Cento e cinquenta e três euros? Estão a gozar comigo ou quê? Querem que eu vá à falência?”
Continuava tão bravo que nem tive tomates para lhe dizer que a carteira que gamei de esticão à velhinha à saída da missa só tinha dentro 78 cêntimos...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Notícias do trânsito

Ifigénio Branco gostava muito da estrada – de facto, oficialmente, uma avenida – onde todos os dias passava no ir e vir entre casa e trabalho.
A Avenida das Acácias – Ifigénio gostaria de conhecer o responsável por esse nome, para lhe agradecer o rasgo de imaginação – era uma via que ligava a urbanização periférica onde residia com a auto-estrada que depositava o fluxo diário de tráfego nas entranhas da cidade.
Era, na opinião de Ifigénio, uma avenida bonita, que consistia essencialmente numa recta, uma curva e outra recta, sempre ladeada de prédios de habitação económica. A única relação com o nome era, de onde em onde, uma árvore raquítica, criando o necessário contraste com o betão. A paisagem era ainda complementada pelos múltiplos graffiti que ao longo dos anos se tinham multiplicado sobre as paredes.
Um único facto entristecia Ifigénio todas as manhãs: o facto de a Avenida das Acácias nunca ser mencionada no noticiário sobre o trânsito. Ele era a IC19 engarrafada, ele era a Via de Cintura Interna com problemas, a A23 com um ocasional despiste, a A1 com trânsito lento no sentido Norte-Sul, o tráfego na A2 a arrastar-se a partir da segunda ponte do Feijó, a segunda circular, tudo aparecia na rádio excepto a Avenida das Acácias.
Um dia Ifigénio decidiu que tinha de fazer alguma coisa para corigir a situação. Depois da curva, os carros normalmente aceleravam para tentar chegar mais cedo à entrada na auto-estrada, onde iriam depois passar o resto do percurso a passo de caracol.
Nessa manhã Ifigénio preparou-se psicologicamente, fez a curva, acelerou como todos fizeram e subitamente travou a fundo. O carro detrás bateu nele, o detrás bateu nesse, e em poucos segundos, a Avenida das Acácias era um pandemónio.
Ifigénio pegou no telemóvel e, civicamente, ligou ao 112 para relatar a ocorrência e despoletar o envio de socorros. A seguir, ligou para a TSF e para a Antena 3 – as duas estações que habitualmente ouvia de manhã – e reportou o acidente.
Com o rádio do carro ligado, foi com prazer que minutos depois ouviu a notícia “Na Avenida das Acácias, o trânsito encontra-se parado devido a um choque em cadeia envolvendo pelo menos 10 viaturas. Os bombeiros e o INEM dirigem-se para o local do acidente.” E a confirmar, ouvia, cada vez mais fortes, as sirenes dos veículos de socorro.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Alterações climáticas

Uma das consequências imprevistas da diminuição do gelo ártico foi a antecipação do Fórum Fantástico. Leiam aqui o programa (a caminho de) completo.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O consumidor está muito desprotegido...

Quando despertou, estava sem orelhas. Ficou furioso! Acordou a mulher, que dormia a seu lado, e queixou-se:
"Tu já viste isto? Estes tipos da Limpeza enquanto dorme, SARL são uns aldrabões! O que é que dizia o prospecto? Levamos as peças depois de adormecer e trazemo-las de volta antes de acordar! Tretas! E agora sem orelhas, como é que eu vou trabalhar?"
A mulher tentou deitar água na fervura. "Olha, era pior se fosse o nariz. As orelhas ainda se disfarçam, está frio, pões o gorro de lã e um cachecol."
Mas ele continuava furioso. "E já é a segunda que fazem! Lembras-te quando faltou um dedo? E logo o do anel... E só o trouxeram dois dias depois, e com a unha por limpar... Na volta do trabalho passo pela agência e peço o Livro de Reclamações. Vão ter a Defesa do Consumidor à perna..."
A mulher encolheu os ombros. Até achava que ele ficava mais bonito sem orelhas, mas com ele tão zangado, não se atreveu a dizer nada...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Minguante nº 11

Fez dois anos! Não houve bolo, mas não faltaram Desejos...
Também lá estou a desejar que venham muitas futuras Minguantes, cada vez melhores...

RJIES - The shape of things to come...

Passou-se tudo muito depressa, ou talvez eu andasse meio distraído, a pensar nos dois anos que me faltam para a reforma.
Primeiro foi a paranoia das publicações. Claro que sempre tinha sido o aspecto mais importante na avaliação curricular, mas quando se começou a classificá-las com base nos factores de impacto das revistas, pareceu-me que se começava a exagerar.
E quando numa reunião comentei que os papers deviam contar 1/n, sendo n o número de autores, isso não me tornou muito popular, em especial perante os meus colegas que têm artigos em que a lista dos autores é maior do que o título do artigo.
Depois veio aquele novo regulamento que contabilizava tudo. Eu disse tudo? É que é mesmo tudo! Cada departamento tem que ser autosuficiente, e portanto a faculdade cobra-lhe a electricidade, o gás, a água, os telefones, os salários, o espaço ocupado por gabinetes e laboratórios a um tanto por metro quadrado, a limpeza, a segurança, etecetera, etecetera. Receitas? As propinas dos alunos, os overheads dos projectos, um tanto atribuído a cada aluno ensinado, outro tanto a cada publicação, e por aí fora.
Na 6ª feira ao almoço, enquanto os neoliberais entoavam loas a este original esquema de gestão, lembrei-me de comentar “Por este andar, ainda vão contabilizar o ar que respiramos dentro do campus da faculdade”.
Levei uma canelada do António, que estava sentado à minha frente, e quando olhei para o presidente do departamento vi que sorria de uma forma que me deixou um pouco inquieto...
No regresso do almoço, o António – conhecemo-nos há muitos anos, fomos colegas de curso – aproximou-se e disse-me em voz baixa, “És uma ganda besta, então agora dás-lhes ideias?”

Hoje, segunda feira, à entrada da faculdade, a segurança manda-me parar e sair do carro. É impressão minha ou até agora os seguranças não andavam armados? Entregam-me uma máscara, que me ajudam a colocar, que tem um contador que mede o ar respirado. Ainda tento protestar mas não tenho escolha, a alternativa é não entrar.
Quando me aproximo do edifício do departamento, um grupo de 4 colegas vem ter comigo, todos eles de máscara, naturalmente. Um deles é o António, que me diz “Precisamos que venhas aqui ao laboratório para veres uma coisa” e no caminho vai fazendo a conversa, “Estivemos a fazer umas contas, e a tua contribuição para o departamento é muito deficitária, publicas pouco, não tens cargos de gestão”, “Já tive!”, interrompo eu, “OK, mas esses não contam, agora não tens, os alunos não escolhem as tuas cadeiras”, interrompo novamente, “Se vocês não lhes pagassem para se inscreverem nas vossas talvez continuassem a escolher as minhas”, mas ele continua como se não me ouvisse, “e seria melhor para todos se pedisses já a reforma, porque assim o teu salário deixa de estar a cargo do departamento, e tens que decidir rapidamente, o Raul até já tem aqui o requerimento pronto, é só assinares...”, tenho que pensar depressa, eles são 4, conseguirão dominar-me facilmente, e o caminho por onde me conduzem leva à nova câmara de vácuo, destinada a simular as condições existentes no espaço exterior...

terça-feira, 22 de julho de 2008

Químicamente impuro

Sergio Gaut vel Hartman edita um site com o título acima - link na lista aqui à direita. "Minificciones, microcuentos, hiperbreves, relatos cortos (...) entre 40 y 130 palabras", o difícil é acompanhar o ritmo do aparecimento de novos textos. E as ilustrações são em geral escolhas perfeitas...
Agradecendo o convite, também lá estou: podem ver aqui a minha contribuição actualizada. Mas vão lá, porque todos os dias há novidades!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Reunião...

Era uma reunião secreta, num local secreto.
À volta de uma mesa com bebidas e aperitivos, vários homens, de fato cinzento e gravatas discretas, tomavam decisões.
Um deles disse: "O nosso Conselho de Administração votou ontem um aumento de 35 por cento para todos os membros. O departamento financeiro diz que para manter os lucros temos que aumentar a gasolina e o gasóleo em 5 cêntimos por litro".
"Stormfield tem afinal o dobro das reservas inicialmente previstas", disse outro. "Vamos subir o preço do crude em 2 dólares por barril".
"Mas isso não seria um motivo para baixar o preço?" perguntou um, sorrindo ironicamente.
"Não podemos dar sinais errados ao mercado", declarou o primeiro, provocando vários acenos de concordância.
"O presidente Bush espirrou duas vezes seguidas! Vamos aumentar a gasolina um dólar por galão".
A um canto da sala sentava-se um homem, este vestido de preto, que só bebia sumo, e que ia introduzindo num computador as alterações de preços ali decididas.
"O mercado livre e aberto é o ideal, porque da livre concorrência resulta naturalmente um abaixamento dos preços no consumidor", disse um dos que estavam à volta da mesa, muito sério.
Ficou tudo em silêncio e logo a seguir estalou uma gargalhada geral. Um dos homens engasgou-se até lhe sair uísque pelo nariz. Os outros deram-lhe palmadas nas costas.
E disse o que se tinha engasgado, ainda com as lágrimas nos olhos: "Oh pá, não contes anedotas quando eu estou a beber..."

sábado, 10 de maio de 2008

Minguante

Saiu o Nº 10, com o tema Vícios.
Lá está uma presença minha, ao lado de mais 52 produtores(as) de textos e imagens.
Só lá falta a biografia daquele escritor que estava tão viciado em estórias pequenas (por alguns designadas menores) que já lhe chamavam pedofiliterário...

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Natal em Little Town

O conto com o título acima foi publicado no ezine Somnium, no site do CFLC (Clube dos Leitores de Ficção Científica).
Aparecendo claramente fora da época natalina, justifica-se uma justificação: destinava-se a um número que deveria ser publicado no fim de ano mas que só agora viu a luz.
Estando fora de época, espero que não esteja "fora de prazo", no sentido habitual desta última expressão, o que poderia dar lugar à intervenção da ASAE...
Mas não consta por aí que "Natal é quando um homem quiser"?

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Negócios de PT

Foi cliente da PT durante dezenas de anos. Ficou farto de pagar mensalmente uma assinatura superior ao custo das chamadas que efectuava. E quando surgiu a possibilidade de mudar mantendo o número, mudou para a concorrência.
Quando à PT chegou a sua carta a requerer a transferência de número, recebeu um simpático telefonema com uma proposta que já não incluia a assinatura e cujo preço era marginalmente inferior ao da concorrência. Agradeceu e recusou, educadamente.
Pediu mentalmente desculpa à etnia cigana por todas as vezes que no passado tinha utilizado a expressão "negócio de ciganos", e jurou a si próprio que a partir daquela altura passaria, em circunstâncias análogas, a usar sempre a expressão "negócios de PT"!

Contos à dist. de 1 click (7): Leituras

Tendo como pretexto o Dia Mundial do Livro, ontem comemorado, uma ligação para o Tecnofantasia onde podem ler "Leituras"...

sábado, 19 de abril de 2008

Vida (quase) eterna

Eram os dez homens mais ricos do planeta. No conjunto, possuíam mais de 95 por cento da riqueza da Terra. Eram também responsáveis, através de decisões suas ou de empresas que dominavam ou de governos que controlavam, por quase tudo que sucedia aos habitantes do planeta.
Com uma pequena parcela das suas incomensuráveis fortunas, financiaram um Instituto de Investigação destinado a estudar o prolongamento da vida.
Ao fim de alguns anos, o Instituto produziu o primeiro resultado: um método de hibernação perfeito. As experiências, primeiro em animais, depois em voluntários pagos, mostraram que era possível colocar seres humanos de forma segura em animação suspensa.
Decidiram pôr-se a si próprios nessa condição durante um período de 500 anos. De acordo com as melhores projecções, esse período seria suficiente para que os maiores génios do mundo, a trabalhar no Instituto, descobrissem o tratamento de que resultaria a imortalidade.
No interior bem protegido de uma montanha, uma sala circular alojava os dez sarcófagos criogenados, com os respectivos sistemas de suporte de vida. Uma pequena central nuclear fornecia a energia necessária ao funcionamento de todo o complexo.

Um erro de programação fez com que o prazo para o despertar fosse fixado, não em 500, mas em 5000 anos.

Três mil anos após o início da hibernação, o planeta estava moribundo. Os recursos esgotados, o ar, a terra e os rios e mares poluídos, a população em rápido declínio... Mas aqueles que tinham sido os dez homens mais ricos da Terra continuavam a dormir o seu sono de séculos...

Passaram mais mil anos, e o leilão do sistema solar deu o resultado que era previsto. As melhores peças – a cintura de asteróides com os seus minerais extremamente valiosos, as luas de Júpiter ricas em hidrocarbonetos – foram arrematadas por poderosas confederações planetárias. O terceiro planeta, praticamente morto, foi comprado por um planeta longínquo, por um valor marginalmente superior ao preço base de licitação.


O chefe de projecto examinava os planos de construção da unidade offshore que ia ser montada para extrair metais da água do mar. Fazer recuperação de resíduos à escala planetária era uma actividade complicada: cumprir prazos utilizando equipamento de segunda e mão de obra pouco qualificada – ninguém queria vir enterrar-se num planeta morto a anos luz de casa. Neste caso particular, o único ponto favorável era que, devido à estupidez dos nativos entretanto desaparecidos, os teores de metais valiosos nos oceanos eram extremamente elevados.
A sua linha de pensamento foi interrompida pelo aparecimento de um subordinado que, depois de uma saudação ritual apressada, informou:
“Chefe, descobrimos a origem dos sinais que estávamos a obter. É uma pilha radioactiva, que ainda tem umas largas centenas de anos de vida útil!”
“Finalmente uma boa notícia! Retirem-na do local onde está e montem-na na nova unidade de extracção.”
Mas há um problema, chefe. A pilha está a alimentar o sistema de suporte de vida de dez sarcófagos que estão numa câmara escavada naquele bloco rochoso...”
“E o que está nos sarcófagos? Material orgânico, não é? Descarreguem o conteúdo nos tanques de alimentação da central hidropónica. Neste miserável planeta precisamos de todos os nutrientes que conseguirmos arranjar!”

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Bad Manners

O conto com o título acima acaba de aparecer no número 119 da revista online AntipodeanSF, dedicada à "short-short fiction" (cerca de 500 palavras).
Será praticamente impossível vir a publicar mais longe de casa...

sexta-feira, 28 de março de 2008

A Nanomoda

Houve um tempo em que a nanotecnologia era o que estava a dar: eram institutos, conferências, revistas científicas, patentes, spin-offs, acções cotadas na bolsa...
Mas os cientistas foram ficando cada vez mais pequeninos(*), e quando menos se esperava, a bolha nano rebentou, com as consequências por demais conhecidas: falências, desemprego, crise bolsista, reavivar dos nacionalismos, etc, etc.
Foi aí que apareceu a nova coqueluche: a picotecnologia.
E os profetas da desgraça anunciaram: "E isto não vai ficar por aqui..."

(*) Há dúvidas entre os linguistas se esta frase deve ser entendida num sentido real ou metafórico...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Minguante

Com um novo visual, saiu o Nº 9, com o tema Desemprego.
Para não ficar desempregado, lá tenho a minha pequena contribuição.
E um obrigado ao Fernando pela rapidez com que resolveu o problema do mail extraviado.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

A vida é como os elevadores...

Cilinha Pomar entrou em casa, fechou a porta, colocou a corrente de segurança, pousou o saco plástico com as compras na bancada ao lado do fogão e respirou fundo. Lá fora, nunca se sentia totalmente em segurança. Ali, na protecção relativa do minúsculo apartamento, podia baixar a guarda e voltar a ser ela própria.
Tomou um duche rápido – iam longe os tempos em que podia preguiçar num banho de espuma – limpou-se e vestiu um roupão felpudo. Pôs umas gotas de Allure, para ver se conseguia disfarçar o cheiro daquele horroroso Zara Woman que era obrigada a usar durante todo o dia. Foi ao mini-frigorífico e tirou uma garrafa de Martini Bianco; deitou dois dedos num copo, juntou-lhe gelo, uma rodela de limão e levou o copo para a mesinha da saleta. A seguir foi ao roupeiro, tirou uma mala que abriu e do fundo, onde estava escondido debaixo da roupa, retirou um molho de revistas que trouxe para a mesa. Sentou-se no sofá e deu início ao seu ritual diário: relembrar o passado.
Era uma operação ao mesmo tempo agradável e dolorosa. Enquanto bebia o Martini em pequenos goles folheava as velhas revistas, que em fotografias luminosas lhe mostravam um tempo em que a sua vida era um rodopio de festa em festa. Recepções, aniversários, inaugurações, festas disto e daquilo, e lá estava ela, loira e linda, no meio do beautiful people do qual fazia parte, a nata da sociedade, aparecendo em tudo o que acontecia de importante... Aqui no casamento da Mané Boboca, com um vestido lindo, um decote que fazia os homens virar a cabeça... Esta na festa de aniversário da revista Faces... E esta série na ilha da Poporapaca, onde tinha passado uma semana ma-ra-vi-lho-sa, tudo pago pela TV Global...
E agora ali estava ela, com o cabelo cortado e pintado de castanho, tendo que sair à rua vestida com roupas horrorosas, a trabalhar naquele pronto-a-vestir para sub-urbanas, tendo que disfarçar a postura, a forma de falar, enfim, todos os atributos que a faziam ser a Cilinha Pomar!
E sempre que pensa que a culpa de tudo isto é da debilóide da tia Patrucha, fica-lhe com um ódio que não pode!
Lembra-se como se fosse ontem, e rememora de forma quase masoquista todos os detalhes que conduziram à situação actual. Tinha estreado havia pouco tempo o programa Upstairs, e a Patrucha andou a ligar a meio mundo, avisando que ia aparecer nessa noite no programa: “Cilinha, filha, não se esqueça de me ver na télevisão!”
A entrevista foi decorrendo com aquelas baboseiras habituais, quando a Patrucha resolveu dizer à entrevistadora: “Querida, quem não é colunável, não existe!”
No dia seguinte, um daqueles jornais popularuchos resolve pespegar essa frase na primeira página, em letras garrafais: “Patrucha Gonçalves no Upstairs: Quem não é colunável, não existe!”. Nesse dia à noite os telejornais citavam o pasquim, os comentadores citavam os telejornais, as cartas aos directores continuavam a criticar, os editoriais ampliavam a notícia, e não tardou muito até haver multidões à porta da tia Patrucha que a insultavam quando ela entrava ou saía. Daí a começarem a atirar pedras às janelas foi um passo. E esta agressividade começou a alargar-se a todo o jet set. As revistas sociais tiveram de suspender a publicação, depois de várias edições terem sido destruídas por grupos de marginais que arrancavam os exemplares dos escaparates e os queimavam na rua.
O Pedro Avelar – o Pedrocas – apercebeu-se da má onda que estava a formar-se, porque nas redacções dos jornais sabe-se sempre tudo mais cedo, e avisou-nos para mantermos um low profile e se possível desaparecermos durante uns tempos.
Fui esconder-me na quinta da Mitucha, onde estivemos umas semanas em relativa segurança. Só não podíamos dar muito nas vistas, pelo que os passeios a cavalo pelas aldeias em redor e as festas à noite na praia estavam fora de questão. Cortei o cabelo – fartei-me de chorar olhando as madeixas loiras no chão – e pintei-o de castanho. E fora de casa passei a andar sempre de óculos escuros, uns óculos enormes, horrorosos.
Entretanto o Pedrocas – fico sempre espantada com os contactos que os jornalistas têm – conseguiu arranjar-me um bilhete de identidade falso. Fiquei-lhe toda agradecida, mas quando vi o nome por pouco não lhe apertei o pescoço: Cátia Vanessa! De todos os nomes do mundo, tinha que ser o nome sub-urbano por excelência!
Ele defendeu-se, dizendo que não se escolhem os nomes quando se compra um BI no mercado negro, é o que aparece. Isso não impediu que durante duas ou três semanas mal lhe tivesse falado. Cátia Vanessa, com franqueza, que horror!
Arranjei trabalho na Zara, todo o dia a dobrar camisolas, calças e saias que aquelas mongas tiram das prateleiras e largam de qualquer maneira em cima dos balcões. Uma estucha!

Cilinha interrompeu os seus pensamentos quando bebeu a última gota de Martini. Arrumou cuidadosamente a pilha de revistas, que tornou a meter na mala, e guardou a mala novamente no roupeiro. Sabia o perigo que corria em ter as revistas na sua posse, mas não conseguia destruí-las, seria como se destruisse uma parte de si própria.
Foi então preparar qualquer coisa para jantar: uma sanduiche de atum com pepino, alface e uma rodela de ovo cozido, em pão castanho. Tirou uma lata de coca-cola light do frigorífico e colocou tudo numa bandeja, que transportou para a mesinha da saleta.
Ligou a televisão enquanto comia. Não havia nada de jeito, agora que o Big Brother, Quinta das Celebridades e programas do género tinham acabado. Os concursos eram outra vez daqueles de perguntas, e ela aborrecia-se de assistir porque raramente conseguia adivinhar as respostas.
Estava a acabar de jantar quando tocou o telemóvel. Era a Mané, que despejou umas quantas banalidades, metendo no meio a seguinte frase: "O tempo vai manter-se estável nos próximos dias". O que queria dizer que a reunião seria na sexta-feira, no mesmo sítio, à mesma hora.
Se alguns meses atrás alguém dissesse à Cilinha que uma reunião de amigos tinha de ser clandestina, ela teria dado uma gargalhada. E no entanto, sexta-feira às 10 da noite, lá se dirigiu ela para um apartamento num 3º andar de uma casa no Bairro Alto, comportando-se com o ar mais natural possível, tentando assemelhar-se a qualquer das outras pessoas que se dirigem a um dos muitos bares da zona para começar a noite. Subiu as escadas e bateu à porta com a sequência combinada de pancadas.
O Chiquinho, dono do apartamento, ainda era seu primo afastado, mas só o costumava encontrar em festas estritamente familiares, porque ele tinha concentrado a sua atenção e esforço em tirar o curso de Arquitectura. Tinha depois comprado aquele apartamento onde instalara o atelier. Cilinha entrou na ampla sala, com esboços e desenhos pregados nas paredes e juntou-se ao grupo que já lá se encontrava, todos sentados em almofadas, em círculo, no chão.
No princípio tinha sido complicado estabelecer o funcionamento das reuniões, sobretudo porque alguns dos convocados não faziam a mais pequena ideia sobre o que era a clandestinidade.
Foi o Marinho Vilaça, que gostava de História, que leu um livro chamado "Memórias de um resistente" escrito por um tipo do PêCê no tempo do Salazar, e viu as técnicas usadas para se esconderem da polícia, e fez uma lista de recomendações que distribuiu e que todos passaram a cumprir religiosamente. E hoje já se conseguem rir do que se passou na primeira reunião, em que íam sendo todos apanhados porque a desmiolada da Kikas Marcela saiu do táxi como se fosse para uma festa na Quinta da Marinha. A sorte dela foi aparecer a polícia, mas não se safou de uns empurrões, uns apalpões e de ficar com o vestido todo sujo de vinho tinto e cerveja que lhe atiraram para cima!
Tiveram que passar a elaborar com muito mais cuidado a lista dos convocados para as reuniões.
O Pedro Avelar teve ele próprio algumas dificuldades quando as revistas sociais fecharam, mas escapou de ser despedido e foi integrado noutro jornal do grupo. No princípio sofreu alguma discriminação, mas essa atitude da parte dos colegas foi sendo diluída, porque ele é extremamente útil sempre que alguém precisa de alguma informação sobre alguém. O Pedro é um verdadeiro banco de dados sociais!
Diz ele que existe uma política generalizada nas empresas para admitir apenas licenciados para os Departamentos de Relações Públicas. “Isto é mau para nós”, pensa Cilinha. “Ser R.P. sempre foi uma forma natural de aplicarmos os nossos talentos.”
Em contrapartida, e ainda segundo o Pedro, os bancos estão a aliviar a vigilância às contas bancárias. Dentro de algum tempo poderá ser possível efectuar pequenos movimentos, sem dar muito nas vistas.

Três dias depois, ao fim da tarde, Cilinha está novamente dedicada à sua actividade favorita de folhear as mesmas revistas que já folheou mil vezes, quando toca o telemóvel. É o Pedrocas, com boas notícias:
"Cilinha, estás sentada? Então ouve. Comecei a trabalhar como assessor de imprensa do Secretário de Estado das Empresas e Sociedade Civil. Sim, sabes quem é, o Quim Vidigal, os pais tinham uma vivenda na rua onde morava a tia Fanocha. Mas agora ouve a parte melhor: o primeiro-ministro enviou um memorando a todos os membros do governo a dizer que nas aparições em público toda a gente deve aparecer bem vestida. Isto quer dizer que vai haver necessidade de contratar uns quantos assessores de imagem, e deve ser possível arranjar trabalho para alguns amigos. De qualquer modo e até lá, pianinho e poucas ondas, OK? Quando tiver mais novidades, ligo.”
Cilinha sente um formigueiro que lhe parece felicidade espalhar-se pelo corpo e espreguiça-se, como um gato ao sol. Pega na garrafa de Chivas que tem guardada para uma ocasião especial, põe dois cubos de gelo num copo e deita lentamente o uisque por cima. Roda o copo fazendo dançar as pedras de gelo. Vai buscar o iPod e percorre a lista das músicas gravadas até encontrar uma que lhe parece adequada, “I Can See Clearly Now”, e o som dos Hot House Flowers enche o pequeno apartamento:

(...) going to be a bright
Bright, bright
Sunshiny day!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Histórias do meu bairro

Os nossos problemas começaram com a Universidade para a Terceira Idade.
Mas é melhor começar pelo princípio: o nosso bairro é óptimo, um bocado envelhecido, mas toda a gente se dá bem.
É na leitaria “Estrela do Bairro” do Sr. António que nos costumamos encontrar todas as tardes. Aí ou, estando bom tempo, nos bancos do jardim em frente.
Uma tarde apareceram uns jovens que nós já conhecíamos porque trabalhavam como monitores nalgumas actividades promovidas pela Junta de Freguesia. Traziam uns papeis de uma coisa chamada Universidade para a Terceira Idade.
O primeiro a inscrever-se foi o Antunes. Contabilista reformado – é sempre ele que faz as contas quando jogamos às cartas ou ao dominó – inscreveu-se no curso de Economia e Gestão, e ficou particularmente interessado numa disciplina que se chamava “Economia para um mundo global”.
Quando veio da primeira aula parecia outro. Vinha maravilhado com o professor, “um rapaz novo, mas já com um MBA da Católica, vejam lá vocês!”. À terceira vez que disse que estava a gostar muito de fazer aquela cadeira, o Sr. Firmino atirou-lhe: “Mas ó Antunes, você agora é carpinteiro?”. Foi uma fartadela de riso, mas ele afinou, e o que safou a situação foi que a televisão começou a dar o desporto e todo o pessoal se calou para ver os resumos dos jogos.
E semana a semana, a situação foi-se degradando. Quando veio da terceira aula, começou com uma conversa de privatizar o banco que fica no sítio mais abrigado do jardim, para depois o alugar aos quartos-de-hora. Mas a Dona Etelvina que gosta de se sentar nesse banco a dar milho aos pombos e usa uma bengala grossa, foi-lhe dizendo: “Se me aparece alguém a dizer que tenho de pagar para me sentar naquele banco, leva logo uma bengalada.” E acompanhou a frase com um gesto ilustrativo, o que levou o Antunes, prudentemente, a deixar de falar no assunto.
Mas foi sol de pouca dura. Na semana seguinte já estava a tentar convencer o Sr. António a instituir consumo mínimo na leitaria, ou a alugar a Bola e o Record que estão sempre em cima do balcão para os clientes lerem.
O sr. António, que veio de Unhais da Serra aos 8 anos trabalhar como marçano, depois como empregado de mesa, até conseguir montar o seu próprio estabelecimento, olhou-o muito sério e disse: “Sr. Antunes, nunca ouviu dizer que 'quem sabe da tenda é o tendeiro'?”. E deixando-o a digerir o provérbio, foi passar o esfregão pela base da máquina de café.
À medida que o curso avançava, o Antunes foi piorando. A meio do semestre, depois de ter tido uma boa nota no teste – e já ninguém podia ouvir contar outra vez que o professor tinha elogiado perante a turma o seu desempenho – veio com outra ideia: lançar uma OPA sobre a mesa e as cadeiras existentes debaixo do caramanchão, onde o grupo da sueca, como lhe chamamos no gozo, gosta de passar as tardes de Verão a bater as cartas.
Obviamente que o grupo considerou a OPA hostil, e um deles, o Jaquim Baleizão, que foi pastor em novo, prometeu-lhe que na próxima vez que viesse com aquela conversa era corrido à pedrada. O Jaquim é homem para acertar numa lata vazia a vinte metros, pelo que o Antunes decidiu bater em retirada, resmungando contra a falta de cultura económica desta gente, incapazes de perceber as vantagens de deixar funcionar livremente o mercado.
As coisas estavam a começar a ficar feias, e alguns de nós foram falar com a Dona Teresa, que tinha sido enfermeira até se reformar do Júlio de Matos, e que também se tinha inscrito na Universidade para a Terceira Idade, onde andava a estudar "Medicinas alternativas". Já tinha feito "Acupunctura", e andava a fazer "Talassoterapia". Com as agulhas, ia praticando na vizinhança e já conseguia aliviar algumas dores, daquelas que aparecem quando a gente vai para velho.
Depois de conversarmos um bocado sobre o comportamento do Antunes, ela fez o diagnóstico:
"O Antunes está a descolar da realidade, isto acontece quando os caminhos por onde circula o prana no organismo se encontram obstruídos." Olhámos uns para os outros, um bocado confusos, mas ela parecia saber o que estava a dizer. "A acupunctura pode ajudar à desobstrução, mas não é suficiente. A talassoterapia, que eu ando a estudar agora, é considerada muito eficaz nestes casos. A sério, a sério, devia ser com água salgada, mas como o efeito principal é o banho frio, se calhar com água doce já dará efeito."
Começámos a discutir estas sugestões. A parte das agulhas era mais fácil: o Antunes tinha ficado bem impressionado com os resultados em alguns dos vizinhos, principalmente a Dona Leocádia, que andava sempre dorida da ciática e que agora, depois de umas sessões com as agulhas, caminhava ligeira como um pardalito. E como ele se queixava amiúde de dores de cabeça, não devia ser difícil convencê-lo a experimentar o tratamento. Já quanto ao banho frio...
Depois de excluída a ideia de pedir aos Bombeiros Voluntários do bairro para lhe dar uma esguichadela com a mangueira – o Sr. Rafael, que foi bombeiro, disse logo que aquilo era má ideia, porque a água sai da agulheta com muita pressão e ainda íamos magoar o Antunes – achámos que se calhar um mergulho no lago dos patos ia fazer o mesmo efeito.
E assim foi. Depois de a Dona Teresa lhe fazer um tratamento com as agulhas, fomos dar uma volta pelo jardim, e naquele sítio onde a vedação em volta do lago está caída – aliás já nos queixámos várias vezes ao Presidente da Junta de Freguesia – um de nós "desequilibrou-se", empurrou o Antunes que foi parar dentro de água. Claro que lhe acudimos imediatamente, ajudámo-lo a sair do lago, acompanhámo-lo a casa, e ficámos um pouco ansiosos à espera do resultado do tratamento.
Passados dois dias, o Antunes reapareceu, e parecia mais calmo. Mas nessa noite, estávamos na leitaria, e a televisão começou a dar uma mesa redonda com a participação de três economistas, ele arrancou com um chorrilho de insultos e só não atirou com a chávena da bica ao televisor porque o segurámos a tempo. Tivemos que o levar a dar uma volta ao quarteirão, ao fresco da noite, para ver se acalmava.
Devemos ter exagerado na dose do tratamento!
Agora até o Dr. Zeferino – gerente da Caixa ali no bairro, que é uma simpatia quando lá vamos todos os meses levantar a reforma – deixou de ir tomar a bica à "Estrela do Bairro", porque o Antunes começou a insultá-lo, de aldrabão para cima...
A Dona Joaquina tem andado a pesquisar lá no livro de acupunctura se descobre um tratamento para aplicar ao Antunes, mas o livro está escrito em chinês – foi-lhe emprestado pelo professor – e ela só consegue guiar-se pelos bonecos, portanto ainda vai levar algum tempo.
Mas estamos todos muito preocupados, até porque soubemos que o Antunes transferiu a matrícula do curso de "Economia e Gestão", que frequentava, para o de "Artes Marciais", e inscreveu-se nas disciplinas "Karaté para maiores de 60", "Defesa e ataque com armas brancas" e "Tiro ao arco".
Tememos o pior!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O caçador de programas

Preparei tudo com muito cuidado. A porta do computador disfarçada, mas não demasiado. O isco – os dados brutos do pessoal de uma empresa de dimensão média – era uma atracção irresistível para uma folha de cálculo.
Fiquei à espera. Um caçador tem que ser paciente. A porta conduzia a uma slice wall, que não oferecia qualquer obstáculo à entrada mas que destruiria o programa se ele tentasse sair.
Activei o alarme e fui tratar de outras coisas.
O primeiro a ser apanhado foi um programa meio idiota, devia ter sido escrito por um estudante do secundário. Nem precisei de lhe fazer testes para carregar no Delete. Anda muito programa estúpido a vaguear pela web!
Rearmei a ratoeira e aguardei.
Segundo alarme! Desta vez era caça mais grossa. Um programa comercial, mas infelizmente com o kernel da I.A. irremediavelmente corrompido. Devia ter pirado e fugido quando tentaram substitui-lo por um upgrade. Acontece com frequência.
Examinei-o com algum cuidado para tentar descobrir segmentos de código utilizáveis. Não encontrei nada interessante e matei-o.
Fui-me deitar. A meio da noite acordei com o alarme. Quando observei o programa que tinha apanhado, nem queria acreditar na minha sorte. Uma folha de cálculo multidimensional inteligente! Apliquei-lhe os testes da ISO-Uni 39400 e os resultados foram impecáveis. Aquele programa vai render muita guita! Tenho dois ou três clientes potenciais, mas em último caso posso sempre leiloá-lo no E-bay!

My nick is spider...

sábado, 15 de dezembro de 2007

Praxe

Uma notícia recente informa-nos que um estudante de um estabelecimento de ensino superior de Coimbra ficou paraplégico na sequência de uma "brincadeira" incluida na praxe académica a que estava a ser submetido.
Tenho exprimido frequentemente no meu local de trabalho, perante colegas e estudantes, a minha posição sobre a praxe. Sendo este um blogue de ficções, dedico o seguinte conto aos estudantes praxistas, cujo sadismo ou simples alarvidade os torna responsáveis por situações deste tipo, e às autoridades académicas, que assobiando para o lado perante acontecimentos desta índole, se demitem do papel disciplinar que deviam assumir: uns e outras não deviam fazer parte de uma comunidade académica digna desse nome.

Recepção aos caloiros

Jacinto Ataíde, Dux Veteranorum e Presidente por inerência da Comissão de Praxe, regressa a casa já a noite vai alta. O passo é um pouco incerto, porque acaba de passar umas horas com os outros praxistas, à volta de umas bejecas e outras coisas mais fortes e a relembrar entre gargalhadas os acontecimentos do dia.
A chegada dos caloiros é sempre uma festa! O que é preciso é que a malta se divirta à custa dos putos. E no ano que vem estes vão ser os mais entusiastas a praxar.
Bem podem os gajos do MAPA colar posters, que não têm sorte nenhuma. Movimento Anti Praxe Académica... Uma bosta! Devem ser dois ou três caramelos que imprimem os cartazes e andam depois a colá-los de noite, às escondidas...
Jacinto sente a necessidade de aliviar a bexiga. Lembra-se daquele brasileiro que uma vez lhe disse “Cara, cerveja você não compra, você aluga!”, e ri-se com vontade, enquanto se aproxima da porta de um prédio e urina contra a ombreira.
Quando fecha a braguilha parece-lhe ouvir passos. A rua é escura, caiu entretanto uma neblina através da qual a luz dos candeeiros se escoa com dificuldade. Jacinto sente um arrepio e traça a capa, tentando barrar a humidade que ensopa o ar nocturno.
Os passos ouvem-se agora com mais nitidez. Jacinto apressa-se ao longo da rua. Mais uns duzentos metros e chegará à segurança relativa da praça, bem iluminada por candeeiros de halogéneo. Contorna o tapume de um prédio em obras e subitamente do meio da neblina materializam-se três vultos a fechar-lhe a passagem.
Esboça um gesto de recuo mas os passos de há pouco chegaram agora junto de si. Está cercado.
Os vultos aproximam-se e Jacinto Ataíde verifica que estão mascarados, cada um com um passa-montanha que apenas lhe deixa ver os olhos. Encosta-se ao tapume e os outros fazem agora um semi-círculo à sua volta.
“Olha quem aqui temos, o Dux Veteranorum em pessoa! Então hoje já acabámos de praxar caloiros? Deves estar cansado...”
“Estivemos aqui a pensar que serias um praxista muito mais eficiente se experimentasses algumas das praxes na tua própria pessoa. Portanto vais dar uma voltinha connosco.”
Jacinto tenta mostrar uma coragem que não possui.
“E se eu não quiser?”
“Acontece-te isto”, responde o mascarado, e a mão avança com um objecto que toca no braço de Jacinto. Uma potente descarga eléctrica deixa-lhe o braço adormecido e tem que morder os lábios para não gritar. “O cabrão atacou-me com um taser”, pensa Jacinto, enquanto a dor se espalha por todo o braço, como se o tivesse mergulhado em água a ferver.
“Se não te portas bem levas outra... E agora toca a marchar no meio de nós, e juizinho!”
Dois dos mascarados dão o braço a Jacinto e com mais dois à frente e dois atrás, o grupo vai avançando ao longo da rua. Desembocam na praça, que contornam pelo lado dos bares, alguns dos acompanhantes de Jacinto exibem agora garrafas de cerveja das quais vão bebendo (ou fingindo que bebem?). Uma ou outra pessoa que com eles se cruza encara o grupo como mais um conjunto de foliões noctívagos.
Entram agora na zona residencial. O grupo faz parar Jacinto, um tira-lhe a capa que ainda trazia aos ombros, outro põe-lhe uma coleira ao pescoço, com uma trela, colocam-lhe uma venda preta nos olhos, dão-lhe um empurrão que o desequilibra, fica com as mãos e joelhos no chão, e qualquer tentativa para se levantar é rapidamente neutralizada com um forte puxão na trela.
“Então agora não achas graça, Bobby? Mas hoje de manhã rias como um alarve quando fazias isto aos caloiros”.
“Esta rua por onde vamos é onde os habitantes aqui do bairro costumam passear os cãezinhos. Vê onde pões as mãos...”
O aviso faz disparar um coro de gargalhadas no grupo.
Começam a andar. Segundos depois, a mão direita de Jacinto assenta em algo pastoso; o reflexo de retirar a mão quase o faz desequilibrar e ir com a cara ao chão. O que segura a trela dá-lhe um puxão e o passeio continua, com Jacinto de vez em quando a pisar excrementos com as mãos e os joelhos. Mesmo atrás da venda grossa que lhe colocaram Jacinto apercebe-se de alguns clarões súbitos, intercalados com risos abafados dos seus captores.
O grupo pára. O som do rodar de uma chave, mais o som metálico de um portão que se abre, depois o portão a fechar-se, e Jacinto sente que estão agora dentro de um compartimento (garagem? Armazém?).
“Acabou o passeio, Bobby. Mas o Bobby tem as patas todas suuujas! Temos que as lavar... Estende as patas, Bobby!”
Jacinto estende os braços, ouve água a correr e a seguir sente nas mãos um forte jacto de água, quem está a segurar na mangueira não a mantém fixa, os braços também já estão molhados, ao fim de algum tempo tem a roupa completamente encharcada.
“Agora que o Bobby já tomou banho, vai-se descalçar para brincar um bocadinho.”
O tom de ameaça na voz que falou não lhe deixa alternativa. Ainda vendado, Jacinto desfaz os nós dos atacadores, tira os sapatos, descalça as meias. Empurrado, cambaleia para a frente e recupera o equilíbrio a custo, o chão está escorregadio devido à utilização da mangueira, e os outros estão à volta dele, e empurram-no de uns para os outros, de vez em quando escorrega, várias vezes vai com as mãos e os joelhos ao chão, aí alguém lhe dá um pontapé no traseiro para o obrigar a levantar e tudo recomeça, nova série de empurrões, até que Jacinto atinge o limite, cai de joelhos, e chorando baba e ranho, implora aos seus agressores que parem.
No silêncio que se segue ouve-se a voz de um deles: “Fim da fase 2. Início da fase 3.”
Tiram-lhe a venda. Quando os seus olhos se habituam à luz, Jacinto observa o local onde se encontra. É um espaço amplo (uma garagem?), com chão de cimento, não tem janelas, numa das paredes uma torneira com uma mangueira ligada e enrolada no chão. Uma lâmpada suspensa do tecto espalha uma luz amarelada. Os seus captores mascarados estão vestidos de preto.
Um deles pega na capa de Jacinto e estende-a sobre o chão enlameado. “O Bobby está cansado e pode deitar-se um bocadinho no cobertor... deita, Bobby!” E acompanha as palavras de um gesto ameaçador com o taser.
Jacinto não tem alternativa que não seja obedecer.
“Agora o Bobby zanga-se e vai começar a rosnar e a rasgar o tapete com os dentes e as unhas...”
E a aproximação do taser faz com que Jacinto obedeça. Finca os dentes no tecido grosso da capa e rasga, e puxa, e outra vez, e outra, quando começa a rasgar com as mãos há alguém do grupo que o ameaça: “Com os dentes, com os dentes”, e lá volta a morder a capa, fincar os dentes e puxar com a cabeça até rasgar mais um bocado. E enquanto dura a operação, um deles dispara de vez em quando uma máquina fotográfica.
“Já chega”, diz o que parece se o líder do grupo. “Levanta-te!”.
Há um que traz uma cadeira e obrigam Jacinto a sentar-se. Colocam-lhe de novo uma venda, um deles segura-lha na cabeça com firmeza, ouve um zumbido que ainda está a tentar identificar quando sente a máquina a começar a cortar-lhe o cabelo. Mas o corte não é regular, e continuam a tirar fotografias.
Ao fim de alguns minutos, ouve comentários jocosos: “Oh, pá, mas tu és um artista! Tens que abrir um salão de cabeleireiro de homens!”. Segue-se um coro de risadas.
Tiram-lhe a venda. Um deles coloca a máquina num tripé frente à cadeira, o grupo posiciona-se à volta de Jacinto, obrigam-no a inclinar a cabeça e o que está junto da máquina carrega no temporizador e corre para se juntar ao grupo antes que o flash dispare.
Ordenam a Jacinto que se calce, dão-lhe a capa e um deles diz-lhe: “Agora pira-te! E é melhor tirares umas férias, que vais precisar”. E um coro de gargalhadas acompanha a saída apressada de Jacinto, que uma vez na rua anda um pouco ao acaso até se orientar e depois corre rapidamente na direcção da sua casa.
Entra no pequeno apartamento e no espelho do hall de entrada verifica o estado miserável em que o puseram. As calças esburacadas nos joelhos, a capa rasgada, a roupa completamente encharcada, e quando inclina a cabeça vê o que os sacanas fizeram: o cabelo que lhe cortaram desenha no topo da cabeça as letras M – A – P – A. Filhos da puta!
Pega numa tesoura e com lágrimas de raiva e humilhação a escorrer pelas faces, corta o cabelo o mais rente que pode. As letras continuam a ver-se. Põe creme no pincel da barba, espalha a espuma na cabeça e com a gilette acaba com os últimos vestígios de cabelo.

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No dia seguinte, quase 10 da manhã, os membros da comissão de praxe dão sinais de impaciência com o atraso do dux veteranorum. Os caloiros já foram agrupados no átrio da faculdade (“os curros”), está tudo pronto para começar o “tourear do caloiro”, e Jacinto Ataíde não há meio de aparecer. Não responde ao telemóvel nem ao telefone do apartamento onde mora.
“Ontem à noite ele não bebeu assim tanto para ficar de ressaca”, comenta um dos membros da comissão. Um outro mais impetuoso exclama: “Eu vou ver se ele está em casa”, e sai do edifício, mete-se no carro e arranca.
A comissão vai junto dos caloiros, e um deles com um megafone anuncia: “Caloiros, tenham calma, que daqui a pouco começa a festa...”
“Brava”, completa outro, e toda a comissão se ri, mas os risos soam um pouco a falso.
Quinze minutos depois (o apartamento de Jacinto não é longe) chega o colega que foi à sua procura. “Falei com a porteira do prédio: às 8 e meia da manhã ela estava a lavar o átrio da entrada, e viu o Jacinto sair do prédio e apanhar um táxi. Levava uma mala e um gorro de lã enterrado até às orelhas”.
“Num dia como hoje, com o Sol que está? Parece-me uma cena estranha...”
É nessa altura que, dentro do enorme grupo de caloiros, começam a soar gargalhadas. É uma situação tão insólita que deixa a comissão de praxe espantada: os caloiros costumam é estar com aquela atitude entre envergonhada e receosa, sem saber o que lhes vai acontecer a seguir. Os praxistas dirigem-se para a origem das gargalhadas, e empurrando sem cerimónia os caloiros que riem chegam à parede onde um placard exibe um conjunto de fotografias, que mostram o dux veteranorum de coleira e trela a ser conduzido como um cachorro, e outras onde se vê ele no chão a rasgar a capa com os dentes e outra ainda onde, sentado e rodeado por um grupo mascarado, inclina a cabeça para a frente, permitindo que se veja que o cabelo foi cortado de modo a formar a palavra MAPA.
A agitação cresce na multidão dos caloiros, que quase se atropelam para ver as fotos. E riem à gargalhada observando aquele que no dia anterior os praxava forçado a comportar-se daquela forma. A comissão de praxe sente que está a perder o controlo da situação, mas nenhum deles sabe o que fazer, e é aí que o sistema de difusão sonora do edifício começa a transmitir.
Sendo um acontecimento inesperado, toda a gente se cala. E sobre o silêncio agora existente jorra uma voz que implora clemência:
“... não, parem, por favor, chega, não aguento mais isto, não, não, por favor... não... não...”
E a litania transforma-se lentamente num choro convulsivo, que se prolonga durante cerca de um minuto, até parar bruscamente. E surge uma voz calma que anuncia:
“Caros caloiros, como certamente reconheceram, acabam de ouvir o praxista-mor, o auto-intitulado dux veteranorum, o próprio Jacinto Ataíde, na banda sonora correspondente às fotos que já tiveram ocasião de apreciar”.
Risos da parte de muitos caloiros. E a voz continua:
“E agora, caros caloiros, de que é que estão à espera para fazer o mesmo a essa cambada de palhaços de capa e batina, a essa auto-nomeada comissão de praxe? Mostrem-lhes que a humilhação acabou, CORRAM COM ELES!”
Os membros da comissão de praxe entreolham-se, sentindo alguma insegurança, começam lentamente a mover-se em direcção à saída, mas têm que passar através daquela multidão, e são só alguns instantes até o primeiro ser empurrado, puxarem a capa a outro, um terceiro levar uma palmada na nuca, outro um pontapé, e aquela massa de caloiros é como um animal selvagem que estivesse a acordar, há uma batina que se rasga quando o dono é agarrado e tenta desesperadamente libertar-se, há outro que é rasteirado e cai, leva dois pontapés e levanta-se a correr, e há agora uma multidão enfurecida que corre atrás dos membros da comissão de praxe que de roupa rasgada e alguns hematomas fogem desesperadamente em direcção ao portão de saída da faculdade.

-------------- X --------------

A essa hora Jacinto Ataíde segue de comboio para a Beira, o gorro de lã na cabeça. Olhando sem ver as árvores que deslizam velozmente do outro lado da janela, vai ruminando ainda a humilhação de que foi vítima na noite anterior. “Filhos da puta do MAPA”, é tudo o que as lembranças dolorosas o deixam verbalizar, enquanto a distância entre ele e Lisboa vai aumentando...

Grageas, 100 cuentos breves de todo el mundo



O miniconto "Reflexões sobre a carestia da escrita" (aqui publicado no último dia do ano passado) foi agora, na sua versão em castelhano, incluído na antologia Grageas, editada por Sergio Gaut vel Hartman, e que será lançada na Argentina no próximo dia 19.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Contagem decrescente (2)

A revista online argentina Axxón, editada por Eduardo Carletti, traz no número especial de Dezembro uma colecção de micro (nano?) estórias, intitulada Cuenta regressiva (II) em que a primeira tem 60 palavras, a segunda 59, etc e a última 0 (isso mesmo, zero!) palavras. Desta vez tenho lá duas: a número 54 e a última...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Vai ser lançado no dia 1 de Dezembro

em Porto Alegre e tenho pena de não poder estar presente no lançamento...

(Clique na imagem para aumentar)



A minha contribuição é o miniconto Entre o Dentro e o Fora há sempre uma fronteira, ainda que frágil, que podem ler aqui no "Das Palavras...", se recuarem a 30 de Dezembro do ano passado.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

"Prosperamente os ventos assoprando"



é o que desejamos para acompanhar a trajectória da antologia "Por Universos Nunca Dantes Navegados", lançada ao espaço no Fórum Fantástico 2007, e que transporta no bojo uma introdução (carta de marear, melhor, de universar, porque de universos se trata) do editor, mais 14 contos de 13 autores, portugueses e brasileiros, entre os quais me incluo.
Mais informação sobre a antologia, bem como sobre a forma de aquisição, pode ser vista aqui.

sábado, 10 de novembro de 2007

“De cabeça para baixo” ou “De pernas para o ar”? Você decide!

Começou quando o ministro das finanças mandou para casa uma funcionária doente, tomando a seu cargo a decisão de um serviço que devia ter tomado essa decisão. A seguir, o ministro da saúde escolheu pessoalmente a tinta para pintar as paredes da nova sala de espera do hospital de cebolinho de cima, bem como o tipo de flores de plástico que deviam ornamentar a jarra colocada na mesa da recepção. O ministro da educação ocupou-se ele próprio do regulamento sobre a venda de chupa-chupas na cantina da escola básica de trás-do-sol-posto, e o ministro das obras públicas foi verificar o nó da gravata dos portageiros da auto-estrada que vai ligar os dois novos aeroportos internacionais a construir até 2100.
Por razões de simetria, que tem uma forte influência no astral do país – facto confirmado por 97,23% dos astrólogos de serviço – as novas normas do código da estrada passaram a ser decididas pelos frequentadores do Centro Comercial Colombo no primeiro sábado de cada mês, e o orçamento geral do estado passa a ser aprovado pela assistência à final da taça de portugal, tendo os jogadores de ambas as equipas naturalmente direito de veto.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Minguante


Isto está a tornar-se um hábito...
Vejam no nº 8, que acaba de sair, as minhas microcontribuições. E tudo o resto, claro! O tema é A Leveza.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Uma fábula anarquista

Naquele país longínquo, o poder era uma árvore. Grande, de longos ramos. E muita gente vivia à sombra do poder.
Esses tinham medo que o poder caísse na rua. Assim, os ramos mais pesados eram escorados para evitar esse tão perigoso evento.
Até que entre aqueles que não estavam à sombra, começou a grassar a revolta. E a palavra de ordem era "Queimar!". E uma noite foram junto da árvore, acumularam erva seca em redor do tronco e deitaram-lhe fogo.
O poder era já seco, estéril, e a árvore ardeu bem. Na manhã seguinte, só restava o tronco calcinado.
Mas as raízes da árvore tinham chegado longe, e poucas semanas depois surgiam rebentos um pouco por todo o lado e novos poderes apareceram e se multiplicaram. Pequenos poderes, mas poderes na mesma.
E uma nova palavra de ordem começou a circular, cada vez com mais insistência: "Cortar e queimar!".
E uma noite, ao sinal combinado, equipas bem treinadas cortaram todas as árvores que tinham nascido da velha árvore do poder, fizeram o mesmo ao tronco desta, que se mantinha ainda de pé, juntaram toda a madeira cortada e acenderam uma fogueira gigantesca. E em volta dela festejaram!
E na manhã seguinte, foi a primeira vez que naquele país foi possível dizer, com verdade, que o Sol nasceu para todos...

domingo, 7 de outubro de 2007

Cerejeiras Plaza

Venha disfrutar de uma vista desimpedida do maravilhoso eixo Norte-Sul.
Todas as janelas com vidros simples para poder apreciar o ruído contínuo do tráfego automóvel.
Chegue à varanda (1,5 metros quadrados) de manhã e encha os pulmões com uma agradável mistura que inclui CO2, CO e PAHs.
Não temos garagens, mas os arrumadores da zona são muito simpáticos.

O Banco "Ponha a Corda ao Pescoço e Viva Feliz" financiou este empreendimento e financiará a sua aquisição: sem entrada inicial, acabe de pagar quando for velhinho ou, melhor ainda, faça pagar os seus filhos e netos!

domingo, 23 de setembro de 2007

H2O

"Não percebo o interesse de andar à procura de água em Marte. Ainda se fosse vinho..." balbuciou o homem com a voz entaramelada, olhando com ar melancólico para a garrafa quase vazia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O conto que se segue obteve o 3º prémio no 1º Concurso Nautilus de FC, e foi publicado no nº 72 (Junho 99) do fanzine Somnium, CLFC, SP, Brasil. Em Janeiro de 2002 apareceu no site E-nigma, editado por Jorge Candeias. Na altura em que os diversos canais apresentam as novas grelhas, achei que também devia dar a minha contribuição para a temática audio-visual.

Ascensão e Queda da Telenovela

Nota prévia: O presente trabalho foi preparado no âmbito da disciplina Television: Sociology and Technology do mestrado em Politica y Mass-Media leccionado na Universidad Camilo Torres, Florida, Confederación de Norte-América. A tradução para publicação na "Revista de Multimédia Ecran" foi feita pelo autor.


Segundo alguns autores, como Oliveira (1987), as origens da telenovela ("soap" na terminologia anglo-saxónica) devem procurar-se nos rádio-romances, muito populares na década de 50 (antes da expansão generalizada da televisão), geralmente patrocinados por marcas de detergentes, e estes por sua vez nos romances por fascículos (inícios do século XX). A este ponto de vista opõem-se fortemente Santos e Andrade (1989) que, baseando-se numa análise multidimensional da especificidade dos meios de informação utilizados, demonstram magistralmente que o sucesso da telenovela é uma função muito forte da identificação visual entre os diversos sectores socio-culturais do público tele-espectador e os personagens da novela.
A tendência para o alargamento do espaço ocupado pelas telenovelas tinha começado nos anos 70, e prolongou-se pelos 80. As sondagens mostravam que o público gostava de saber todos os pormenores, mesmo os mais irrelevantes, da vida dos actores, confundindo estes muitas vezes com os personagens que interpretavam.
Pereira (1984) mostrou que 73,9 por cento das conversas em locais de trabalho e transportes públicos tinham como tema a novela em exibição diária. Favorecida ao mesmo tempo pelo poder político, por razões que Aguiar (1988) analisa exaustivamente, eram frequentes, no fim da década de 80, novelas que se prolongavam durante anos, com três horas de exibição diárias.
No ano 2002 surgiu o conceito de "telenovela total", desenvolvido por Ayrton (2001, 2002), um MacLuhanista dissidente. Este autor opõe-se às teses que consideram como factores determinantes na evolução do género a ascensão do Brasil ao grupo dos "5 maiores" e a passagem da população hispânica nos EUA acima dos 50 por cento, propondo antes uma teoria baseada em argumentos pós-jungianos.
O número de horas foi aumentando até que, em 2006, a BBC/Globo/CBS mostrava, simultaneamente em 4 canais diferentes, 24 horas por dia, a vida dos 4 personagens principais da novela. Os satélites retransmissores tinham circuitos de atraso que sincronizavam a transmissão com a hora local dos países para onde a novela era enviada. Desta forma, os espectadores podiam acompanhar, em tempo real, a vida do seu personagem favorito. Houve alguma oposição da Sociedade Contra a Invasão da Privacidade dos Cidadãos, mas a acção que moveu contra aquela multinacional foi rejeitada pelo Tribunal de Haia.
Materializou-se assim a coincidência entre espectáculo e vida real. "Life is show and show is life" era o motto do departamento de produção de "A vida de Antonio, Brigitte, Cristina e Dave", os ABCD como eram familiarmente conhecidos por centenas de milhões de espectadores. Antonio (mexicano, hispano-índio, 32 anos) podia ser observado vinte e quatro horas por dia no Canal 17; os Canais 23 e 25 davam conta de todos os acontecimentos nas vidas de Brigitte (francesa, loira, 38 anos) e Cristina (brasileira, de ascendência japonesa, 29 anos); e o Canal 29 apresentava Dave (americano, negro, 35 anos). Algumas regiões tiveram necessidade de legislar contra a existência de televisores de pulso nos locais de trabalho.
O mercado televisivo era no entanto um mercado muito volátil. Cerca de dois anos após o início da "telenovela total", os índices de audiência começaram a dar sinais de enfraquecer. Os produtores eram naturalmente perfeitos conhecedores dos códigos do género, compilados anos antes por Baresi (2004). Assim, sabendo que o coeficiente de empatia público/personagens, verificadas certas condições, tende para um máximo quando estas são colocadas numa situação difícil, fizeram com que Brigitte sofresse um acidente doméstico de que resultaram algumas queimaduras de 3º grau, internamento numa clínica, cirurgia plástica, várias semanas de recuperação.
O índice WATCH ponderado (obtido de 6 em 6 horas com base num universo fixo, corrigido por flutuações demográficas) subiu 3 pontos, mas recomeçou a descer.
Foi necessário então provocar um acidente de automóvel no qual Dave sofreu várias fracturas expostas, com a necessidade subsequente de três intervenções cirúrgicas. Embora as sondagens spot mostrassem que as cenas hospitalares traziam um aumento de audiência pontual, o índice apenas atenuou a sua descida.
Quando foi concluído, sem sombra de dúvida, que se estava perante uma vaga de fundo, uma reunião ao mais alto nível teve lugar secretamente na BBC/Globo/CBS. Depois de uma apreciação dos índices de audiência, a decisão de terminar o programa foi unânime. Entre uma proposta de um fim gradual (fazendo desaparecer os personagens um a um, o que poderia reforçar momentaneamente a audiência em relação aos sobreviventes) e outra de um final súbito e mais dramático, foi aprovada a segunda, por 7 votos contra 2. Para concretizar o final, foi feita uma simulação da espectacularidade de um acidente aéreo e de um aquático, sendo escolhido o segundo, dado o muito maior impacto emocional dos destroços e corpos a boiar, sangue a espalhar-se na água, etc. Foi assim decidido que os quatro personagens principais iriam a bordo de um iate e que este explodiria, presumivelmente devido a um curto-circuito (Anon., 2008).
E foi o que ocorreu, 3 dias após esta reunião. A explosão do iate, mostrada em simultâneo pelos 4 canais da "telenovela total", bateu o record absoluto de audiência. A publicidade exibida atingiu preços astronómicos (Watch, 2008). À data em que escrevemos este texto, prossegue ainda a batalha jurídica entre a SPAT (Sociedade Protectora dos Artistas de Televisão) e a BBC/Globo/CBS.
Alguns autores, como Kellog (2011), consideram que os acontecimentos descritos constituem o climax do género, argumentando que o máximo de empatia implica um meio bidimensional, e que a holovisão, com a introdução da tridimensionalidade, constitui um processo de reprodução "demasiado real". Outros opinam que estes argumentos são semelhantes aos utilizados várias décadas atrás quando da introdução da cor no cinema. Prosseguem entretanto as investigações (muito activas, segundo consta, na Confederação do Pacífico Ocidental) sobre a introdução do cheiro em produções holovisivas, com a intenção de, a médio prazo, se chegar ao espectáculo totalmente sensorial. Estes desenvolvimentos demasiado recentes estão todavia fora do âmbito do presente trabalho.


REFERÊNCIAS

Aguiar, V. (1988), "O poder e a comunicação social - simbiose ou parasitismo?", Editora Problemas e Soluções, Lisboa, Portugal.
Anon. (2008), Actas do julgamento SPAT vs BBC/Globo/CBS, p. 3125-3157, Tribunal Internacional de Haia, Holanda.
Ayrton, F. A. (2001), "The total soap opera concept", International Journal of Mass-Media Studies, 27, p. 361-384.
Ayrton, F. A. (2002), "Total Soap Opera - The Life Show", Art & Science Press, S. Francisco, U.S.A.
Baresi, D. (2004), "Television - Syntax, Semantics, Semiotics", World University Press, Amsterdam, Nederlands.
Kellog, W. (2011), "SPAT vs BBC/Globo/CBS - incident or end of an era?", Sociometrics and Mediatics Journal, 32, p. 315-332.
Oliveira, P. A. (1987), "As origens da telenovela", tese de doutoramento, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade de Lisboa-Sintra, Portugal.
Pereira, J. P. (1984), "Análise estatística do público da telenovela", 2º Congreso Latino-Americano de Comunicacion y Publicidad, Buenos Aires, Argentina.
Santos A. e L. Andrade (1989), "Telenovela - relação biunívoca entre argumento e público", Relatório de progresso do Projecto Integrado sobre Atividade Mediática, Escola de Engenharia Social, Universidade de São Paulo, Brasil.
Watch (2008), Worldvision Yearbook.

sábado, 15 de setembro de 2007

Intermezzo Gastronómico

Passou junto ao que anos atrás se designava por "loja dos 300" e entre a diversa mercadoria exposta à porta, chamou-lhe a atenção uma caixa com letras que diziam "Ventilador de sobremesa". Percebeu do que se tratava - a foto da ventoinha ao lado das letras não deixava lugar a dúvidas - e pensou "Isto deve ser o resultado de uma tradução de cantonês para português feita por alguém que não sabe muito bem nem uma língua nem a outra". E esqueceu o assunto.
À hora do costume foi com os colegas do costume almoçar à tasca do costume. No final da refeição a D. Rosa, esposa do proprietário, veio à mesa anunciar: "Sobremesa temos mousse, pudim flan, melão e uvas." E sem pensar, ele disparou: "Não tem ventiladores?"
A face incrédula da D. Rosa e a gargalhada colectiva dos seus colegas impediram-no de se concentrar e descobrir a razão daquela estúpida pergunta.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

As "correntes" parecem estar (outra vez) na moda. O Luis Ene meteu-me numa: "10 Livros que Não Mudaram a Minha Vida".
Visto que 1) não era preciso rezar a São Judas Tadeu; e 2) não havia ameaças à integridade física de quem interrompesse a corrente, resolvi alinhar.
E saiu isto:

A Lista de Todas as Listas

Produzia listas de forma obsessiva. Ao princípio era um hobby, mas cedo se tornara a sua actividade principal, dominante, exclusiva. Fazia listas de tudo: de livros, filmes, discos, cidades, países, actores, políticos, receitas de cozinha, animais, plantas, monumentos e de cada classe segundo vários critérios: os maiores, os mais pequenos, os melhores, os piores, os mais antigos, em suma, tudo o que fosse comparável podia ser (e era) objecto de uma lista.
Quando foi desafiado para escrever a lista dos "10 Livros que Não
Mudaram a Minha Vida", sorriu. Foi à "Lista de Todas as Listas", mas
quando acabou de percorrê-la (o que lhe levou bastante tempo como é
fácil de calcular) verificou que nunca tinha feito uma lista dos livros
que não tinham mudado a sua vida. Era obviamente necessário corrigir essa falta.
Mas não se preocupou grandemente: a Lista de Todas as Listas era um "work in progress" e logo descobriu uma forma de fácilmente lhe acrescentar o que lhe tinha sido pedido. Como tinha a "Lista de todos os livros que já li" e a "Lista dos livros que mudaram a minha vida", bastaria subtrair a segunda da primeira, et voilá!
Foi então à procura das duas listas mencionadas, mas aí surgiu um problema: o sistema de catalogação que usava na "Lista de Todas as Listas" deixava muito a desejar (entre outras razões porque ele estava sempre a introduzir-lhe modificações...): atribuia números às listas e havia depois uma "Lista de localização de listas" que fazia corresponder locais de arquivo a esses números. Mas essa Lista de localização de listas tinha sido deslocalizada pelo que, com muita pena, não lhe foi possível responder ao desafio que lhe fora lançado. Nem a "Lista dos blogues para continuar correntes" conseguiu encontrar...
Maior do que a intensidade da sua obsessão pela feitura de listas, era a sua total e completa ausência de sentido de arrumação!

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Capital humano

“Está ali, senhor comissário”, dizia em voz baixa o gerente da dependência, apontando disfarçadamente.
O comissário olhou e viu um homem metido num saco-cama, sentado num sofá. Nas mãos tinha um livro de que lia passagens, interrompendo de vez em quando a leitura para passear o olhar em volta, observando ora os clientes, ora os cartazes anunciando os diversos produtos financeiros disponibilizados pelo Banco.
“Violento?” perguntou o Comissário.
“De forma alguma”, respondeu o gerente. “Entrou quando abrimos a porta, trazia uma pequena mochila às costas e um saco plástico na mão, enfiou-se no saco-cama e sentou-se ali...”
“Bem, vou falar com ele. O senhor fique aqui.”
O agente da autoridade dirige-se ao homem sentado. O gerente, afastado, observa.
“Bom dia, sou o comissário Neves, da PSP. O senhor é...?”
“António Lima, senhor comissário.”
“Senhor Lima, pode explicar-me por que se instalou desta forma aqui no Banco?”
“Com certeza, senhor comissário. Já podia ter explicado ao gerente, se ele estivesse menos nervoso e me ouvisse, em vez de estar sempre a dizer em voz baixa vá-se embora! vá-se embora!
“Então conte lá...”
“Sabe, senhor comissário, até há uns dias atrás eu era um funcionário administrativo da empresa Almeida & Almeida, fabricantes de sapatos. Trabalhei lá durante desassete anos...
Sempre me considerei parte do pessoal da empresa, até que há dois anos houve grandes modificações, a empresa chamou uns consultores que andaram por lá a fazer perguntas e a escrever relatórios, e uma das consequências foi que a Secção de Pessoal passou a ser o Departamento de Recursos Humanos.
Não gostei! Senti que passar a ser considerado um recurso – embora humano – me punha ao nível da fotocopiadora ou do relógio de ponto. Mas não disse nada...
Há seis meses, a Almeida & Almeida foi comprada por uma multinacional, a “Shoes for All”. Puseram à frente da empresa um destes jovens com o diploma do MBA ainda com a tinta fresca, e em poucos dias deixámos de ser recursos humanos e passámos a ser capital humano.
Na semana passada ficou clara a intenção da aquisição: a administração anunciou que ia desactivar as secções de fabrico, passando a empresa a funcionar como armazém e centro de distribuição para o material da “Shoes for All” fabricado pelos pequeninos escravos no extremo oriente. A óptima carteira de clientes da Almeida & Almeida foi a cereja no topo do bolo.
E assim, de uma assentada, 90 por cento do capital humano foi despedido! E tudo para o bem da economia...”
“Chegado a este ponto, pensei assim: António, quem é que guarda o capital? Os bancos. Então, se tu és capital - embora humano – procura um banco que te guarde. E foi assim que vim para aqui.”
“Eu fiz a minha parte, agora o Banco tem que fazer a parte dele, não é assim?”
O homem tinha feito esta descrição num tom calmo, pausado, olhando o comissário nos olhos. Este reflectia no que tinha ouvido e pensava para si: “Mais um que se passou, o desemprego faz destas coisas às pessoas”, mas ao mesmo tempo uma pequenina dúvida surgia no seu estruturado sistema mental, onde o Bem e o Mal ocupavam posiçõs nítidas, e essa dúvida crescia, insidiosa, “e se o homem tivesse alguma razão?”, e a dúvida a crescer, a crescer, e o comissário levantou-se e disse:
“Desculpe-me só um momento.”
Afastou-se alguns metros e ligou o telefone.
“Chefe, temos aqui um pequeno problema. Preciso que me envie alguém da Psicologia para ajudar a negociar uma situação. OK, fico à espera.
Olhou para o homem. António Lima tinha regressado à leitura do livro, alheado do que se passava à sua volta... E na cabeça do comissário Neves, as palavras capital humano soavam cada vez mais estranhas...