sexta-feira, 2 de julho de 2010

2

Durante muito tempo, os dois uns que o constituíam tinham de ser diferentes, só dessa forma um 2 era legal e moral.
Mas depois passou a ser legal os dois uns serem iguais. Alguns disseram que podia ser legal, mas não era moral, mas os 2 com uns iguais nem os ouviram...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

1

Era o primeiro, e sentia orgulho nisso. Está bem, havia o zero, mas quem dava importância a um número que nem era bem número, que tinha vindo lá da India, ou Arábia, ninguém sabia ao certo...
Foi então que se deu a invasão dos negativos. Eram como imagens no espelho dos números já existentes, mas todos traziam agarrado um sinal menos.
A recta dos números ficou horizontal, porque agora havia dois conjuntos a crescer para infinito de um e outro lado do zero. Este aparecia como uma espécie de fiel da balança, o que obviamente lhe dava estatuto!
E o número 1, ao perder importância, deixou de se sentir um número natural...

domingo, 16 de maio de 2010

Nos autores não se pode confiar...

Quando chegou ao fim da estrada, Joaquim encontrou um cartaz que dizia:
"A história acaba aqui."
Desconfiado, espreitou por detrás do cartaz; e nessa altura Joaquim, personagem de romance, ficou com a certeza que o autor o tentava enganar... Ali era apenas o fim do capítulo III, e atrás do cartaz começava o capítulo IV!

sábado, 8 de maio de 2010

Os portugueses estão sempre a queixar-se


de maleitas. Pois agora podem escolher de uma lista de doenças inventadas pelos mais criativos escritores do mundo.
 
Almanaque do Dr. Thackery T.
Lambshead de Doenças
Excêntricas e Desacreditadas
Vários Autores

Publicado pela primeira vez em 1915, durante a I Grande Guerra, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas foi durante trinta anos difundido a médicos de todo o mundo em folhas de carbono ou fotocópias. O trabalho do Dr. Lambshead inspirou génios clínicos de todo o mundo, e Portugal não foi excepção, encontrando no Dr. Anófeles Calamar Trindade e no seu Compêndio Médico de Doenças Notáveis e Invulgares uma referência incontornável.
Por ocasião da primeira edição portuguesa do Almanaque, foi o próprio Dr. Lambshead, agora com mais de cem anos de idade, que decidiu confiar a edição às mãos capazes, se bem que ainda jovens, do Dr. João Seixas. É a ele que coube a tarefa de reunir novas descobertas propostas por um formidável leque de eminentes especialistas médicos portugueses, seguindo na peugada do grande pioneiro clínico Dr. Anófeles Calamar Trindade. Pela primeira vez, as suas descobertas são apresentadas num volume único e insubstituível, onde se juntam ao trabalho de colegas norte-americanos e britânicos de grande reputação como o Dr. Alan Moore, Dr. Neil Gaiman, Dr. Jeff Vandermeer ou o Dr. China Miéville, entre muitos outros.

Data de lançamento: 21 de Maio de 2010

(O texto anterior foi extraído do press-release da Editora Saída de Emergência)

Só quero acrescentar que também eu vesti a bata branca, puz o estetoscópio ao pescoço e apresentei um dos casos clínicos que poderão ser lidos neste livro. A "minha" doença intitula-se Insideout. E mais não digo (segredo profissional, juramento de Hipócrates e essas coisas...).

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Open Day

O mini-conto "Open Day", afixado aqui no "Das Palavras..." no dia 8 de Janeiro p.p., foi o vencedor do Concurso de Mini-Contos IST/Simetria de 2009.
Uma selecção dos contos concorrentes foi exposta no campus do IST no Taguspark, onde tiveram lugar outras actividades inseridas nas comemorações do Dia do Livro.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Ciência passou pela Assembleia da República... mas não se demorou!

Já faltou mais para que os bolseiros de investigação deixem cair os "direitos elementares" e passem a reivindicar "direitos alimentares"!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Prémios...

Perante as notícias recentes de prémios a gestores, justificados por terem excedido os objectivos fixados, lembrei-me de um poema de Bertold Brecht, lido há muitos anos. Em menos de um minuto (viva a web!) encontrei-o aqui e não resisti a "roubá-lo". Os grandes autores continuam sempre actuais...

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

sábado, 3 de abril de 2010

A floresta

A floresta era muito antiga. Diziam os mais velhos da aldeia que já os avós dos seus avós a tinham conhecido naquela colina. Diziam também que há muitos anos os magos nela se reuniam para a celebração dos seus rituais. E os habitantes da aldeia evitavam aproximar-se da floresta e muito menos atravessá-la.
Contava-se na aldeia que uma vez um lenhador tinha decidido ir lá cortar lenha e, segundo uns, não tinha voltado, segundo outros, tinha regressado enlouquecido, sem dizer coisa com coisa.

quarta-feira, 31 de março de 2010

STOP PRESS!   ULTIMA HORA!

Acaba de ser descoberta a forma como as agèncias de rating produziam as previsões sobre a saúde económica futura de países e empresas.
Numa cave bem escondida de olhares indiscretos, foram encontrados o Professor Mamadu, a taróloga Maya e o Professor Fofana, a quem eram arrancadas previsões sob ameaça de serem deixados morrer à fome.
As previsões dos astrólogos eram depois introduzidas num aparelho - os peritos do FBI estão ainda a investigar o funcionamento desse dispositivo, descrito por uma testemunha como "parecido com uma máquina de fabricar chouriços" - do qual saíam os famosos rótulos AAA, AA+ e quejandos, que tanto frisson provocavam no mundo financeiro e não só.
Consta que o argumento desta saga já foi comprado por uma conhecida produtora de televisão internacional, que tenciona fazer um reality show onde os concorrentes serão os governadores dos Bancos Centrais, sendo o 1º prémio um depósito de valor não divulgado num offshore à escolha do premiado.

domingo, 28 de março de 2010

O vento desfralda as bandeiras... e despenteia as cabeças!

Será que os meninos que se divertem a hastear bandeiras azuis e brancas em locais públicos quereriam, se voltasse a monarquia, que o rei fosse quem eu estou a pensar?

Ahahahahahahahahahah!!!

Vacina contra a estupidez

Quando foi inventada a vacina contra a estupidez, as autoridades de saúde pública compraram umas centenas de milhares de doses. Mas apesar de uma campanha de divulgação massiva, os postos de vacinação continuaram praticamente desertos.
"É um bom sinal", disse o comentador.
"Bom sinal? Por quê?", inquiriu o entrevistador.
"As pessoas são estúpidas, mas não suficientemente estúpidas para admitir que o são!", esclareceu o comentador com um sorriso de auto-satisfação.

PEC

O meu PEC era outra coisa...

quinta-feira, 18 de março de 2010

No Brasil...

O conto ETERNIDADE, que apareceu em Fevereiro de 2005 no site da Épica, foi agora publicado no Contos Fantásticos, site brasileiro administrado por Afonso Pereira, a quem agradeço a divulgação.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Bang nº 7

Acaba de ser publicada a Bang! nº 7 que, após uma interrupção, regressa às edições em papel.
Pode ser comprada no site da editora
Saída de Emergência.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

DESEJO INCONTROLÁVEL DE SER DONO DO MUNDO (DIDSDDM)

Personae gigantismus; Mundus dominium voluntas

Primeiro caso conhecido
Perde-se na noite dos tempos o registo do primeiro caso desta doença. Battleshout & Littleone (1953)  propuseram a teoria de que o incidente que faria despoletar a doença nas populações pré-históricas era o som de um fémur a partir qualquer outro objecto mais frágil; esta teoria foi liminarmente rejeitada por alguns participantes na conferência que também tinham visto o filme “2001 – Odisseia no Espaço”. Na sequência deste incidente, aqueles autores foram acusados de plágio e os seus nomes retirados do “Who’s Who in Medical Research”.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Uma notícia geométrica

(modesta homenagem a Edwin Abbott, autor de Flatland)

Era um quadrado perfeito (os seus lados mediam cada um 7 centímetros, com um erro inferior a 1 micrómetro). E sendo extremamente vaidoso, estava sempre a gabar-se. O que irritava muitas outras figuras geométricas.
Um dia, à saída do livro de geometria, um gang de triângulos escalenos apanhou-o e deu-lhe um ensaio de pancada. Ficou com um lado partido e um vértice muito maltratado.
Levado ao hospital geométrico, teve azar com o médico que o atendeu na urgência, um octógono que era especialista em áreas e não em segmentos de recta, e que ao reparar o seu lado partido deixou os dois fragmentos desalinhados.
E foi assim que o quadrado perfeito passou a ser um pentágono. E ainda por cima irregular!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Open Day

“Aqui é o Departamento de Informática Neo-Cartesiana”, explicou o guia ao grupo de visitantes. “As designações obsoletas hardware e software foram abolidas e substituídas por corpo e alma. Deixou de haver engenheiros de hardware e software, há agora médicos e psiquiatras.”
Sinais de agitação surgiram no átrio da entrada. Conduzido por dois seguranças, um homem vestido de preto, com um colarinho branco e segurando debaixo do braço uma maleta cuja tampa tinha uma cruz em baixo relevo, foi rapidamente levado ao elevador e subiu com um dos guardas.
O guia dirigiu-se ao outro segurança e perguntou: “O que se passa?”
“Tivemos um alerta da Secção Fundamentalista do Departamento. Uma impressora começou a vomitar papel impresso com estranhos símbolos, e como naquela Secção não acreditam na medicina, chamaram um padre para lhe aplicar um exorcismo.”

sábado, 2 de janeiro de 2010

SOS (Sindicalismo dos Órgãos de Soberania)

Começou com os juízes. Não era bem um sindicato, era uma associação sindical, embora distinguir a diferença exija um curso de Direito.
A Assembleia da República ficou com inveja. “Então somos menos que eles?”, questionavam-se os deputados. E dito e feito: assembleia constituinte do sindicato, estatutos, direito de tendência, naturalmente, eleições dos corpos gerentes. Aprovado mais depressa do que muitas leis.
O Governo não se quis ficar atrás. Foi ainda mais rápido, porque o número de sócios era muito menor. O PM presidente, o ministro das finanças tesoureiro, um secretário de Estado a secretário – já tinha o nome – mais dois vogais e pronto. E direito de tendência, quando viesse um governo de coligação, logo se veria.
O Presidente da República é que não alinhou. Sendo o único sócio teria que acumular todos os cargos da direcção. Esqueceu o assunto e foi presidir.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal em Little Town

O tenente Patrick O’Neill conhecia a cidade como poucos, e muito particularmente a zona conhecida como Little Town, onde fora nascido e criado. Tirando o período em que frequentara a Academia da Polícia, sempre ali vivera.
Conhecia não só a superfície, que os cidadãos bem comportados conhecem, mas também muito do que ocorria nos becos escuros, nas salas das traseiras de bares e locais semelhantes ou em certos salões geralmente considerados acima de toda a suspeita. Durante os séculos dezanove e vinte, Little Town tinha-se expandido quase como um patchwork, um crescimento entre orgânico e anárquico, à medida que vagas sucessivas de imigrantes iam chegando, fugindo da fome ou das perseguições políticas ou religiosas.
Mas O’Neill gostava dos velhos edifícios, conhecia os donos das pequenas lojas, tinha amigos em todas as comunidades que faziam de Little Town aquilo que ela tinha de único.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009


A volta ao dia em 80 mundos

Numa passagem pela FNAC - e sim, o Brinca comigo! está lá à venda, na estante Ficção Científica ;) - acabo de ver A volta ao dia em 80 mundos, de Julio Cortázar - um dos membros da Fantástica Trindade que preside ao meu culto literário pessoal - recentemente publicada pela Cavalo de Ferro.
Quando regressei a casa não pude deixar de ir folhear a edição de bolso do original, comprada em Março de 1974 - quem diria o que ia acontecer um mês depois - pela módica quantia de 84 escudos (os dois volumes!).
Para os leitores de idade menos avançada, 200 escudos <> 1 euro :)
A edição é de 1970, da Siglo XXI de España Editores, S.A., publicada em Madrid, anunciada como "Quinta edición, primera de bolsillo". A primeira edição foi no México em 1967; as três seguintes foram em Buenos Aires, em 1968.
Para informação dos meus amigos bibliófilos - olá Pedro Marques :) - aqui vão também as capas.
É Cortázar no seu melhor, como um festival de fogo de artifício!