quarta-feira, 6 de junho de 2007

O Zen e a Literatura Fantástica

Em 1974, Robert M. Pirsig publicou “Zen and the Art of Motorcycle Maintenance”, a descrição de uma viagem de mota pelo interior norte-americano, feita por um pai e um filho, que funciona em relação ao primeiro como uma espécie de peregrinação interior. Comprei o livro em 1981, atraído, devo confessar, pela estranheza do título. Li-o nesse ano, gostei, e devo ter-lhe pegado duas ou três vezes nestes últimos 25 anos, mas quando tive que arranjar um título para esta conversa, pensei que se aquele título tinha suscitado a minha curiosidade naquele longínquo 1981, talvez o pudesse adaptar para atrair a atenção de mais alguém neste ano de 2006. E assim nasceu o título “O Zen e a Literatura Fantástica”.

O que vai seguir-se é apenas um conjunto de notas de leitura de um leitor compulsivo, ligadas pelos fios de memória através dos quais as estórias se falam umas às outras. Além de alguns contos Zen, serão referidos três autores que poderiam ser designados como A Fantástica Trindade: Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Italo Calvino. Dadas as limitações de tempo, os exemplos escolhidos terão que ser de ficção curta, ou fragmentos de ficção mais longa.

E em primeiro lugar, por quê a associação do Zen com literatura fantástica?

O Zen procura atingir a iluminação. Esta iluminação está em geral relacionada com o transcender a situação vivida, passar acima dela, vê-la de um plano superior onde o problema, conflito, dilema deixa de fazer sentido, ou passa a ser trivial. Como método de ensino, utiliza frequentemente problemas que o mestre coloca ao discípulo, problemas aparentemente sem solução, que só podem ser resolvidos quando o discípulo atinge a iluminação.

Existem diversas colecções de contos Zen, e uma das melhores compilações é “Zen Flesh, Zen Bones”, feita por Paul Reps e Nyogen Senzaki.

Foi daí que tirei este clássico:

Uma Parábola

Um homem que viajava através de um campo encontrou um tigre. Fugiu, perseguido pela fera. Chegando à beira de um precipício, agarrou-se a uma raiz e ficou suspenso sobre o vazio. Por cima, o tigre farejava-o. Tremendo, o homem olhou para baixo, onde viu outro tigre à espera para o devorar. Só a raiz o sustinha.

Dois ratos apareceram e começaram a roer a raiz. Muito próximo, o homem viu um morango apetitoso. Segurando a raiz só com uma das mãos, o homem colheu o morango e meteu-o à boca. Como era doce!

A literatura fantástica de qualidade é a que surpreende, desafiando a capacidade de percepção do leitor. A leitura de uma boa história fantástica é como o rasgar de um cenário, e a surpresa resultante assume a forma de um sentimento próximo da iluminação do Zen. Ainda que (ou sobretudo quando) por detrás possa existir outro cenário...

Julio Cortázar foi o meu primeiro contacto com o que depois vim a saber chamar-se “realismo mágico”. E disse, muito melhor do que eu poderia dizer, numa conferência proferida na Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas, intitulada “El sentimiento de lo Fantástico”:

Esse sentimento do fantástico como gosto de chamar-lhe, porque creio que é sobretudo um sentimento e mesmo um pouco visceral, esse sentimento acompanha-me desde o princípio da minha vida, desde muito pequeno, antes, muito antes de começar a escrever, neguei-me a aceitar a realidade tal como os meus pais e professores me pretendiam impô-la e explicá-la. Eu vi sempre o mundo de uma forma diferente, senti sempre que entre duas coisas que parecem perfeitamente delimitadas e separadas, há interstícios através dos quais, para mim pelo menos, passava, se infiltrava um elemento que não podia explicar-se com leis, que não podia explicar-se com lógica, que não podia explicar-se com a inteligência racional.

Esse sentimento, que penso ser reflectido na maioria dos meus contos, poderíamos qualificá-lo de “estranhamento”; em qualquer momento pode acontecer-vos, poderá ter-vos acontecido, a mim acontece-me a toda a hora, em qualquer momento que podemos qualificar como prosaico, na cama, no autocarro, no duche, falando, caminhando ou lendo, surgem como pequenos parênteses nessa realidade e é aí que uma sensibilidade preparada para esse tipo de experiências sente a presença de algo diferente, sente, por outras palavras, o que podemos chamar o fantástico.

É de Cortázar a seguinte

Maneira facílima de destruir uma cidade

Espera-se, escondido entre a erva, que uma grande nuvem do tipo cumulus se localize sobre a cidade que nos incomoda. Dispara-se então a flecha petrificadora, a nuvem converte-se em mármore, e o resto dispensa comentário.

No seu livro “Historias de cronopios y de famas”, publicado em 1962, existe um utilíssimo Manual de Instrucciones, donde seleccionei umas apropriadamente tristes

Instruções para chorar

Instruções para chorar. Pondo de lado os motivos, debrucemo-nos sobre a maneira correcta de chorar, entendida como um choro que nem assuma um carácter escandaloso, nem insulte o sorriso com uma semelhança paralela e torpe. O choro médio ou ordinário consiste numa contracção geral do rosto e um ruído espasmódico acompanhado de lágrimas e ranhos, estes últimos só no final, porque o choro acaba quando o sujeito se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si próprio, e se isto for impossivel por ter contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra nada, nunca. Chegado o choro, deve tapar-se o rosto com decoro, usando ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças devem chorar com o braço contra a cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

Ainda hesitei em incluir o texto seguinte, mas depois pensei: que diabo, deve haver algumas pessoas na assistência que ainda se lembrem que há uns anos atrás se dava corda aos relógios.

E assim, do mesmo Manual de Instrucciones, sai o

Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio

Pensa nisto: quando te oferecem um relógio oferecem-te um pequeno inferno florido, uma cadeia de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente o relógio, com muitos parabéns e esperamos que te dure muito tempo porque é de boa marca, suiço e com âncora de rubis; não te oferecem somente esse minúsculo picapau que vais amarrar ao pulso e levarás a passear contigo. Oferecem-te – não o sabem, o que é terrivel é que não o sabem –, oferecem-te um novo pedaço frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas que não é o teu corpo, que tens que amarrar ao teu corpo com a pulseira como um bracinho desesperado agarrando-se ao teu pulso. Oferecem-te a necessidade de lhe dar corda todos os dias, a obrigação de lhe dar corda para que continue a ser um relógio; oferecem-te a obsessão de procurar a hora exacta nas montras das relojoarias, no sinal horário da rádio, na informação horária da companhia dos telefones. Oferecem-te o medo de o perder, de que to roubem, de que caia ao chão e se parta. Oferecem-te a sua marca, e a segurança de que é uma marca melhor que as outras, oferecem-te a tendência de comparar o teu relógio com os outros relógios. Não te oferecem um relógio, tu é que és o oferecido, oferecem-te a ti para o aniversário do relógio.

De Julio Cortázar não vou ler mais, porque os seus contos são demasiados extensos para o tempo disponível e suportam mal a extracção de fragmentos. Curiosamente (mais uma coincidência em que o fantástico é fértil) Cortázar é publicado pela primeira vez numa revista literária cujo secretário da redacção é Jorge Luis Borges.

Mas antes de passar a Borges, (que em 1977 dá uma conferência sobre Budismo no Coliseu de Buenos Aires) vou ler-vos mais um conto Zen. Gosto em particular deste porque mostra uma religião com sentido de humor, o que não parece ser muito frequente...

A Pedra na Cabeça

Hogen, um mestre Zen chinês, vivia sozinho num pequeno templo no interior do país. Um dia chegaram quatro monges que andavam em viagem e que lhe pediram se podiam fazer uma fogueira no pátio para se aquecerem.

Enquanto acendiam o fogo, Hogen ouviu-os a discutir sobre subjectividade e objectividade. Chegou junto deles e disse: “Está ali aquela pedra grande. Acham que ela está dentro ou fora das vossas mentes?”

Um dos monges respondeu: “Do ponto de vista Budista, tudo é uma objectificação da mente, então eu diria que a pedra está dentro da minha mente.”

“Deves sentir a cabeça muito pesada, a transportar uma pedra destas lá dentro.”

De Borges, creio que o primeiro conto que li foi “As ruínas circulares”, incluido no livro “Ficções”. Nele se fala de um mago que cria um filho sonhando-o. Preocupa-o que o seu filho possa descobrir que não é real, que é apenas um sonho. E o conto termina assim:

(...) Numa madrugada sem pássaros o mago viu abater-se sobre as paredes o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas logo compreendeu que a morte vinha coroar a sua velhice e absolvê-lo dos seus trabalhos. Caminhou ao encontro dos círculos de fogo. Estes não morderam a sua carne, acariciaram-no e inundaram-no sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele próprio também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo.

Esta ideia de sequência infinita (neste caso alguém que sonha alguém, que sonha alguém, que sonha alguém) é um tema caro a Borges. Eis aqui outro exemplo:

Um sonho

Num deserto lugar do Irão há uma não muito alta torre de pedra, sem portas nem janelas. No único compartimento (cujo chão é de terra e tem a forma de um círculo) há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem parecido comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que noutra cela circular escreve um poema sobre um homem que noutra cela circular... O processo não tem fim e ninguém poderá ler o que os prisioneiros escrevem.

Outra técnica favorita de Borges é a utilização de citações inventadas. O seguinte texto é atribuido a Suaréz Miranda, Viajes de varones prudentes, IV, cap. 45, Lérida, 1658, e intitula-se:

Do rigor em ciência

... Naquele Império, a Arte da Cartografia conseguiu tal perfeição que o mapa de uma só Província ocupava toda uma Cidade e o mapa do Império toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmesurados não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Dadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes consideraram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; não há em todo o País outra relíquia das Disciplinas Geográficas.

Folheando as Obras Completas publicadas há alguns anos, encontro outro tema recorrente: o sentimento de que, no universo, tudo se liga a tudo, embora às vezes não nos apercebamos como. O conto seguinte é um exemplo disso; chama-se

O bastão lacado

María Kodama descobriu-o. Apesar da sua autoridade e da sua firmeza, é curiosamente leve. Quem o vê repara nele; e quem repara fica a lembrar-se.

Observo-o. Sinto que é uma parte daquele império, infinito no tempo, que ergueu a sua muralha para construir um recinto mágico.

Observo-o. Penso naquele Chuang Tzu que sonhou que era uma borboleta e que não sabia, ao acordar, se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta ou uma borboleta que sonhava agora ser um homem.

Observo-o. Penso no artesão que trabalhou o bambu e o dobrou para que a minha mão direita pudesse agarrar bem o punho.

Não sei se ainda está vivo ou se morreu.

Não sei se é tauista ou budista ou se interroga o livro dos sessenta e quatro hexagramas.

Não nos veremos nunca.

Está perdido entre novecentos e trinta milhões.

No entanto, alguma coisa nos liga.

Não é impossível que Alguém tenha premeditado este vínculo.

Não é impossível que o universo necessite deste vínculo.

Por fim, um outro aspecto de Jorge Luis Borges, uma fina ironia sobre si próprio, bem patente no pequeno conto

Borges e eu

Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hábito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.

Antes de passar a Italo Calvino, mais um conto Zen. Quando Jean-Paul Sartre disse, numa frase muito citada, “o inferno são os outros”, poderia ter dito “o inferno (e o paraíso) somos nós”:

As Portas do Paraíso

Um soldado de nome Nobushige foi ter com Hakuin e perguntou-lhe: “Existe de facto um paraíso e um inferno?”

“Quem és tu?” perguntou-lhe Hakuin.

“Sou um samurai,” respondeu o guerreiro.

“Tu, um soldado!” exclamou Hakuin. “Que espécie de senhor te quereria na sua guarda? A tua cara parece a de um pedinte.”

Nobushige ficou tão irritado que começou a desembainhar a espada, mas Hakuin continuou: “E tens uma espada! Provavelmente está tão embotada que não serias capaz de me cortar a cabeça.”

Quando Nobushige desembainhou a espada Hakuin comentou: “Abriram-se as portas do inferno!”

Ouvindo estas palavras, o samurai percebeu a disciplina do mestre, embainhou a espada e fez uma vénia.

“Abriram-se as portas do paraíso,” disse Hakuin.

Italo Calvino... porque sim. Uma comunicação académica que se preze deve citar o próprio autor, pelo que a justificação para a minha fascinação por Calvino pode ser encontrada na comunicação que fiz no 1º Encontro Literário de Fantasia e Ficção Científica, intitulada

“Italo Calvino: Fantasia, ficção especulativa, slipstream... ou simplesmente literatura?”, publicada nas Actas do Encontro e posteriormente no fanzine Dragão Quântico.

Os textos que vou ler de Italo Calvino são todos de “As Cidades Invisíveis”, que é um livro onde Marco Polo, ao serviço de Kublai Kan, descreve a este as cidades que visita nas suas viagens. As descrições das cidades são intercaladas com descrições da interacção entre os dois personagens, que constituem um segundo plano de leitura do livro.

Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça viver uma vida ou um instante que poderiam ser seus; no lugar daquele homem agora poderia estar ele se tivesse parado no tempo muito tempo antes, ou se muito tempo antes numa encruzilhada em vez de tomar uma estrada tivesse tomado a oposta e ao cabo de uma longa volta viesse encontrar-se no lugar daquele homem naquela praça. Agora, daquele seu passado verdadeiro ou hipotético ele está excluído; não pode parar; tem de prosseguir até outra cidade onde o espera outro seu passado, ou algo que talvez tivesse sido um seu possível futuro e agora é o presente de outro qualquer. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

- Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?

E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.

Gostava de vos ler agora um texto que é uma verdadeira análise sobre a essência do poder:

Voltando da sua última missão Marco Polo foi dar com o Kan à sua espera sentado diante de um tabuleiro de xadrez. Com um gesto convidou-o a sentar-se à sua frente e a descrever-lhe só com o auxílio das peças de xadrez as cidades que tinha visitado. O veneziano não desanimou. As peças do xadrez do Grão Kan eram de marfim polido: dispondo no tabuleiro torres dominantes e cavalos desconfiados, adensando enxames de peões, traçando alamedas direitas ou oblíquas como o andar majestoso da rainha, Marco recriava as perspectivas e os espaços de cidades brancas e negras nas noites de luar.

Ao contemplar estas paisagens essenciais, Kublai reflectia sobre a ordem invisível que governa as cidades, sobre as regras a que corresponde o seu surgir e tomar forma e prosperar e adaptar-se às estações e murchar e arruinar-se. Por vezes parecia-lhe que estava prestes a descobrir um sistema coerente e harmonioso que estava submetido às infinitas deformidades e desarmonias, mas nenhum modelo aguentava a comparação com o do jogo de xadrez. Talvez, em vez de matar a cabeça a evocar com o magro auxílio das peças de marfim visões apesar de tudo destinadas ao esquecimento, bastava jogar uma partida de acordo com as regras, e contemplar cada um dos sucessivos estados do tabuleiro como uma das inúmeras formas que o sistema das formas reúne e destrói.

Agora Kublai Kan já não precisava de mandar Marco Polo em longínquas expedições: retinha-o a jogar intermináveis partidas de xadrez. O conhecimento do império estava escondido no desenho traçado pelos saltos angulosos do cavalo, pelas travessias diagonais que se abrem às incursões do bispo, pelo passo arrastado e circunspecto do rei e do humilde peão, pelas alternativas inexoráveis de cada partida.

O Grão Kan tentava concentrar-se no jogo: mas agora era o porquê do jogo que lhe escapava. O fim de todas as partidas é um perder ou ganhar: mas o quê? Qual era a verdadeira aposta? Ao xeque-mate, sob os pés do rei derrubado pela mão do vencedor, fica um quadrado preto ou branco. À força de desmaterializar as suas conquistas para as reduzir à essência, Kublai chegara à operação extrema: a conquista definitiva, de que os multiformes tesouros do império não passavam de invólucros ilusórios, reduzia-se a um pedaço de madeira aplainada: o nada ...

E para terminar, um dos textos mais curtos do livro. É necessário um génio para transformar o lugar comum “O todo é maior do que a soma das partes” nisto que se segue:

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.

- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.

- A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.

Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: - Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.

Polo responde: - Sem pedras não há arco.

E pronto. Esta Fantástica Trindade produziu material suficiente para anos de exploração. Boas leituras... e misturem uns contos Zen para temperar.

Nota final: Para ler mais

Zen

http://www.101zenstories.com/

http://www.amazon.com/gp/product/1570620636/104-8852481-8623107?v=glance&n=283155

Julio Cortázar

http://www.juliocortazar.com.ar/obras.htm

La vuelta al dia en ochenta mundos (2 volumes)

Siglo XXI de España Editores, S. A.

Jorge Luis Borges

Obras Completas (4 volumes) Ed. Círculo de Leitores

Italo Calvino

As cidades invisíveis

Editorial Teorema - Colecção Estórias, nº 53


Este texto foi lido numa sessão do Fórum Fantástico, em Novembro de 2005

sábado, 2 de junho de 2007

À volta de Borges


“Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.”

J.L.B.
Buenos Aires, 31 de Outubro de 1960



O autor que tenciona escrever uma comunicação sobre Borges – de ora em diante o Autor – lê um pequeno texto incluido em A Cifra de 1981, intitulado “Um sonho”:

“Num deserto lugar do Irão há uma não muito alta torre de pedra, sem portas nem janelas. No único compartimento (cujo chão é de terra e tem a forma de um círculo) há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem parecido comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que noutra cela circular escreve um poema sobre um homem que noutra cela circular... O processo não tem fim e ninguém poderá ler o que os prisioneiros escrevem.”

Pensa então que a sua comunicação sobre Borges poderia começar assim:
Numa cidade de um país na periferia do Império, um homem escreve uma comunicação sobre um homem que escreve uma comunicação sobre um homem (...) que escreve uma comunicação sobre Borges.
Mas ao ler pela segunda vez o texto referido de Borges, repara na última frase: “O processo não tem fim (...)”. Ora terminar a sua sequência com as palavras “escreve uma comunicação sobre Borges” vai torná-la finita. Como o carácter borgesiano da sequência é precisamente o facto de ser infinita, a intervenção do Autor seria de facto a negação de Borges. E assim, dolorosamente, o Autor abandona a ideia que ao princípio lhe parecera tão promissora.

Tenta uma segunda abordagem: começa a escrever um texto sobre Borges recheado de citações apócrifas, referências de autores inexistentes, identificação detalhada de obras nunca publicadas... Mas ao fim de meia dúzia de páginas, a releitura faz-lhe ver que nunca conseguirá provocar em nenhum leitor aquela sensação indefinível que assenta na faixa estreita entre o verdadeiro e o falso, aquilo que sentimos quando lemos algumas das histórias de Borges, o acreditar minado pela suspeita ou a incredulidade com infiltrações de “até podia ser”.
E o que escreveu acaba por ser rasgado em pequenos pedaços que atira para o cesto dos papéis.

Pega agora num texto de Borges, um pequeno conto escolhido ao acaso, e escreve-o lentamente, criando um ficheiro no computador, copiando palavra a palavra, pronunciando-as em voz alta de forma a sentir-lhes o sabor, a densidade. Começa então um exercício que consiste em substituir uma palavra por um sinónimo e tornar a gravar o ficheiro com outro nome, nova substituição e nova gravação, e ao fim de algumas horas de trabalho tem cerca de trezentos ficheiros no disco, todos eles variantes do mesmo texto base. Parando para olhar o conjunto, apercebe-se que embora a ideia original fosse atractiva, o resultado final será apenas e sempre uma caricatura pobre e portanto risível da famosa Biblioteca de Babel, onde se encontram todos os livros possíveis, “todas as possíveis combinações dos vinte e tal símbolos ortográficos (...) ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os idiomas” (Ficções, 1944). Seria apenas a sombra da Biblioteca incidindo sobre um texto, e a simples atitude de pretender usá-la como analogia de “A Biblioteca” aparece tingida de uma arrogância que, embora não intencional, vai marcar indelevelmente o texto produzido.
E mais uma vez o autor, com alguma relutância, destroi aquilo que escreveu. Fecha a pasta onde estão todos os ficheiros, com nomes de biblio_1 a biblio_298, marca a pasta e carrega em delete.

Nova tentativa: resolve falar de um objecto cujas propriedades sejam tais que a ligação desse objecto a si próprio, Autor, surja como única, com a inevitabilidade de uma lei matemática através da qual, conhecidas as causas, resultam fatalmente as consequências (mantendo embora uma dúvida insidiosa nos interstícios das afirmações, mesmo as mais absolutas). A ideia surge-lhe a partir de “O bastão lacado”, e de “O punhal”, pequenos contos dos livros A Cifra, de 1981 e Evaristo Carriego, de 1930. Ambos falam de objectos que possuem como que uma vida própria, e que constituem, esses objectos, um fio de ligação entre a sua própria história e o seu actual possuidor.
Só um excerto de “O bastão lacado”:
(...)
“Observo-o. Sinto que é uma parte daquele império, infinito no tempo, que ergueu a sua muralha para construir um recinto mágico.
(...)
Observo-o. Penso no artesão que trabalhou o bambu e o dobrou para que a minha mão direita pudesse agarrar bem o punho.
(...)
Não nos veremos nunca.
(...)
No entanto, alguma coisa nos liga.
Não é impossível que Alguém tenha premeditado este vínculo.
Não é impossível que o universo necessite deste vínculo.”

Mas quando começa em casa à procura desse objecto único, o Autor verifica que tudo o que o rodeia é fruto da produção em massa dos últimos anos. Todos os objectos do seu quotidiano se caracterizam por serem iguais a milhões de outros, saídos das linhas de montagem das fábricas de mão de obra barata do extremo oriente. E a ligação entre o operário e o fruto do seu trabalho é totalmente diferente do vínculo estabelecido entre o artesão e o objecto que produziu ao longo de dias ou semanas de paciente esforço. A produção em massa gera objectos sem história. E portanto também aqui as intenções do Autor se revelam infrutíferas.

Pensa subitamente na História Universal da Infâmia, de 1935. Desde essa data, muitos infames, reais ou imaginários, percorreram os caminhos da humanidade. Ele, Autor, seria certamente capaz de inventar mais uns quantos. É quando alguém lhe diz que um autor galês, Rhys Hughes, publicou recentemente Uma Nova História Universal da Infâmia. Não contente com isso, pegou em O Livro de Areia publicado em 1975 – uma fonte de inspiração riquíssima – e escreveu “Em busca do Livro de Areia”!

O Autor apercebe-se que regressou à estaca zero. Todas as suas tentativas de escrever sobre Borges falharam redondamente. Sente que andou à volta de Borges numa trajectória circular, ou quando muito seguindo uma espiral que se aproxima do centro com extrema lentidão, como o movimento de uma galáxia em torno do buraco negro oculto no seu centro. Provavelmente o seu conhecimento da obra do mestre não é suficiente para produzir algo de relevante sobre a mesma.

Resolve então reler. Não da maneira semi-anárquica que tinha caracterizado o seu primeiro contacto com os escritos de Borges, mas de um modo disciplinado, seguindo um percurso rigorosamente cronológico. Começa pelas obras da juventude, a poesia de Fervor de Buenos Aires publicado em 1923, lê lentamente, mais poesia de 1925, o Caderno San Martin de 1929, Evaristo Carriego, os ensaios de 1932, lê com minúcia a História Universal da Infâmia (1935) e a História da Eternidade (1936). Ficções e Artifícios, ambos de 1944, são saboreados com prazer, bem como O Aleph de 1949. O Fazedor, de 1960, onde existe um poema dedicado aos Borges, seus antepassados portugueses, e outro a Luís de Camões. Mais poesia ao longo da década de 60. O relatório de Brodie e O Ouro dos Tigres no princípio dos anos 70.

Ao longo deste trabalho dedicado e minucioso a vista do Autor vai piorando. É já com grande dificuldade que termina O Livro de Areia de 1975. A partir daí é obrigado a recorrer aos amigos para lhe lerem em voz alta. E é já pela voz deles que visita a poesia de 1975 a 77, A Cifra de 1981, os Nove ensaios dantescos de 1982, Atlas de 1984 e Os Conjurados de 1985.
Mas de alguma forma, com a perda da vista, a compreensão dos textos aumenta, como se com o progressivo desaparecimento do sentido da visão, do apagamento das imagens, as palavras fossem ganhando mais intencionalidade e consistência. O Autor identifica-se cada vez mais com Borges, agora que, como ele, vive na escuridão, tendo como ligação privilegiada ao mundo exterior a sonoridade das palavras. E a tal ponto se torna forte esta identificação com o centro, o ponto alfa do universo borgesiano, Jorge Luís Borges himself que, repetindo o que o mestre escreveu na linha final do conto “Borges e eu”, o Autor poderá dizer:
“Não sei qual dos dois escreve esta página.”

Este texto foi lido numa sessão do Fórum Fantástico, em Novembro de 2006.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Evolução

Publicada aqui a 14/Jan/2006, esta microestória é (sem o título) um SMS e apareceu agora em Veredas, uma revista online de micronarrativas, editada por Marcelo Spalding.

Stuff That Dreams Are Made Of

A versão inglesa do pequeno texto com o título acima, cujo original apareceu aqui no blogue em 14 de Março do ano passado, foi agora publicada no Bewildering Stories nº 244.

domingo, 13 de maio de 2007

Arquivo morto (conclusão)

Nessa noite, Antunes teve um pesadelo. Sonhou que estava no escritório, era um dia normal de trabalho, quando subitamente a porta da escada de serviço saltou como se do outro lado tivesse havido uma explosão. Pelo buraco aberto começaram a entrar dossiês, pastas, caixas de arquivo, gavetas com documentos, agredindo os funcionários, e Antunes viu o Almerindo a cair com a cabeça esfacelada por uma gaveta metálica, e o Mendes atacado por centenas de folhas A4 que o envolveram completamente, a boca cheia de folhas amachucadas, asfixiado lentamente. Todos os outros tentavam, com pouco sucesso, defender-se do vicioso ataque. Antunes tinha sido encurralado por uma dúzia de caixas de arquivo com aspecto ameaçador, e preparava-se para vender cara a vida, quando acordou.
Assustado, Antunes considerou aquele sonho premonitório. Não conseguindo voltar a dormir, levantou-se, fez um chá de camomila, e preparou cuidadosamente a sua estratégia. Pelas nove e meia telefonou para o escritório, dizendo que se sentia adoentado e que iria faltar naquele dia. A Dona Ivone, telefonista, tomou nota do recado e despediu-se: “Então as suas melhoras, senhor Antunes”.
Na sua juventude, Antunes fora caçador. Há muitos anos que não ia à caça: a sua defunta mulher não apreciava actividades de ar livre, e depois da sua morte nunca se tinha sentido suficientemente motivado para recomeçar a caçar. Mas por qualquer razão nostálgica todos os anos renovava religiosamente a licença, e todo o material, da caçadeira à máquina de encher cartuchos, era semanal e escrupulosamente limpo.
A outra actividade com que Antunes ocupava os tempos livres era a electrónica. Já em miúdo montava e desmontava rádios e instalava alarmes pela casa toda; tinha depois entrado na revolução digital, e estava continuamente ocupado com pequenos projectos, alguns de grande utilidade. O último produto que lhe tinha saído das mãos era um pequeno aparelho que podia ser ensinado a reconhecer anúncios na televisão, e que desligava o som do televisor e ligava o leitor de CDs durante os intervalos publicitários. Por tudo isto, aquilo que agora se propunha fazer era uma brincadeira de crianças.
Antunes começou por ir à Espingardaria Diana, onde o Sr. Abílio o recebeu afavelmente e lhe vendeu chumbo e pólvora na quantidade adequada para alguém que ia recomeçar a caçar regularmente. Dirigiu-se em seguida à ElectroVendas, onde obteve uns quantos componentes electrónicos de que viria a precisar, e passando pela drogaria do bairro, comprou pequenas quantidades de alguns produtos químicos, totalmente insuspeitos quando considerados isoladamente. Regressado a casa, começou a preparar um engenho explosivo, utilizando alguns dos materiais recém-adquiridos. O toque final foi dado por um napalm caseiro, que preparou na cozinha e cuja receita tinha obtido na internet.
Construiu depois o dispositivo de ignição, accionado por um relógio digital. Graças à microelectrónica, o conjunto era de tamanho diminuto, e juntamente com o explosivo, foi alojado dentro de uma caixa de comprimento e largura correspondentes a uma folha A4 e altura de cerca de 4 centímetros. Terminou a tarefa ao fim da tarde. Jantou frugalmente, viu um pouco de televisão, programou o despertador para uma hora mais cedo do que habitualmente, deitou-se e dormiu tranquilamente.
No dia seguinte, após a higiene matinal e um nutritivo pequeno almoço, Antunes pegou cuidadosamente na caixa, meteu-a dentro de uma pasta de couro onde habitualmente transportava livros ou revistas que costumava ler no intervalo do almoço e saiu de casa. Tinha decidido ir a pé em vez de tomar o autocarro habitual, porque não queria que o objecto que viajava dentro da pasta fosse muito sacudido.
Quarenta minutos mais tarde estava a chegar ao seu local de trabalho. Cumprimentou o porteiro à entrada do prédio, subiu ao escritório onde foi o primeiro a chegar, tirou do chaveiro a chave do arquivo morto e para lá se dirigiu, levando o objecto que tinha fabricado no dia anterior. À entrada, sentiu um arrepio na espinha, mas controlou-se e depois de ajustar o relógio do dispositivo para daí a duas horas, arrumou a caixa numa prateleira entre dois dossiês e saiu rapidamente. Regressou ao escritório, tornou a pôr a chave no sítio e tinha acabado de sentar-se à secretária quando chegou o primeiro colega. “Bom dia”, “bom dia”, conversa de circunstância, “então ontem...”, “oh, pá, uma dor de estômago, alguma coisa que comi...”. Meia hora mais tarde o escritório estva em pleno funcionamento.
A meio da manhã um ruído surdo fez estremecer o edifício. “O que foi isto?”, “Parecia uma explosão”, e menos de um minuto depois começou a tocar o alarme e o pessoal, seguindo as indicações constantes do Plano de Emergência Interno do edifício (ensaiado no simulacro realizado dois meses antes), dirigiu-se ordeiramente para o exterior. Agrupados no passeio fronteiro, todos podiam ver os grossos rolos de fumo que saiam das janelas do piso onde se localizava o arquivo morto. “O fogo é no arquivo morto”, disse, expressando o óbvio, um dos colegas de Antunes. “Espero que sim, agora”, respondeu este a meia voz, não reparando no olhar de estranheza do colega perante a sua resposta.
Os bombeiros chegaram rapidamente e iniciaram o combate ao incêndio, conseguindo evitar que este se propagasse aos restantes pisos. Quando foi iniciada a fase de rescaldo, o chefe de Antunes, depois de falar com o comandante dos bombeiros, veio junto dos funcionários dizer-lhes que podiam ir para casa, e que aparecessem no dia seguinte, à hora habitual.
..................................
No dia seguinte, à entrada do edifício, Antunes cruzou-se com dois homens que saíam transportando o que conseguiu identificar como restos irrecuperáveis do arquivo morto. “O fogo e a água dos bombeiros fizeram um trabalho eficiente”, pensou Antunes. Quando entrou no escritório, um dos colegas disse-lhe: “O chefe quer falar contigo”.
Antunes dirigiu-se à porta do gabinete do chefe, bateu e entrou. O chefe estava sentado atrás da secretária, e havia mais dois homens no gabinete.
“Bom dia, Antunes. Estes dois senhores são da Polícia Judiciária e querem fazer-lhe algumas perguntas...”

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Arquivo morto

Quando pela terceira vez naquele dia o chefe o mandou ao arquivo morto buscar uns documentos, Antunes começou a desconfiar. No dia seguinte, iniciou a elaboração de um registo, tarefa facilitada pela posição da sua secretária junto da porta da escada de serviço que conduzia, dois pisos abaixo, ao referido arquivo. Na sexta-feira à tarde, consultando o seu registo, apurou que, ao longo da semana, o Fernandes tinha lá ido cinco vezes, o Fonseca quatro, o Mendes seis, e o resto da lista apresentava números semelhantes. O próprio chefe tinha ido ao arquivo morto duas vezes, provavelmente à procura de documentos de carácter mais reservado.
Perante esta evidência, Antunes só conseguiu chegar a uma conclusão: o arquivo morto não estava morto!
Antunes era um funcionário cumpridor. Claro que era capaz de dar uma olhadela à Internet nas horas de trabalho, ou de meter ao bolso uma borracha ou uns clips para levar para casa, mas em questões importantes era de uma exemplaridade exemplar. E perante este problema de um arquivo morto que afinal se encontrava bem vivo, só conseguia ver uma saída.

(continua...)

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Circularidade

Avisado pelo SMS que acabava de chegar ao telemóvel, o homem sai rapidamente do edifício, salta os 3 degraus entre a porta e o passeio e dispara a correr, atravessando a larga avenida. Tinha acabado de pisar o asfalto quando um carro sai da rotunda fazendo guinchar os pneus, e inicia uma trajectória que o vai levar a cruzar-se com o homem que corre...
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Coincidente com o guinchar dos pneus, como se fosse um sinal, os três homens com as faces ocultas por máscaras de carnaval entram no salão principal do restaurante de luxo “Átrio do Paraíso”. Posicionam-se de forma estratégica, de modo a cobrir todos os pontos de acesso ao salão, puxam das armas que traziam ocultas debaixo das gabardinas e um deles grita:
- Isto é um assalto! Ponham carteiras e todos os objectos de valor em cima das mesas!
Um dos clientes do restaurante leva a mão disfarçadamente ao bip que tem preso ao cinto e pressiona um botão. Num edifício não longe dali, um sinal de alarme começa a piscar...
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Dois seguranças do edifício sede da estação de televisão XPTO tomam o elevador de emergência para o 8º andar, onde ficam os serviços de produção. Entram numa sala, onde os concorrentes ao concurso de curtas metragens aguardam a decisão do júri que, presidido pelo Director de Produção, visiona as peças submetidas ao concurso. Os seguranças atravessam a sala de espera em passo rápido até chegarem à porta do gabinete. Um deles bate à porta e sem esperar resposta, abre-a e entra:
- Senhor Director, temos uma emergência!
O director carrega na tecla do telemóvel para enviar um SMS que acabou de escrever. No gabinete estão mais quatro homens, sentados em cadeiras confortáveis, olhando um televisor de alta definição, que mostra um carro a derrapar na entrada de uma avenida. A câmara executa um contra-picado, e a imagem mostra agora ao retardador o carro a avançar em direcção a um homem que atravessa a avenida a correr...
O director pousa o telemóvel na mesa em frente, vira lentamente a cabeça e olha para o segurança...

sábado, 5 de maio de 2007

Novo e-zine

O NOVA, editado pelo Ricardo Loureiro, começou a emitir luz. Entre outras coisas, está lá dentro o meu conto "Noosfera". A versão pdf pode ser descarregada aqui.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Os dois lados da questão


O desenhador esmerou-se a desenhar um monstro, para um concurso de ilustração. Queria que fosse um monstro especial, um pouco assustador, mas não tanto que não pudesse ser usado num livro infantil...

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No país dos monstros, o monstrinho acordou aos guinchos. O pai monstro aproximou-se:
“Que se passa?”
“Tive um sonho feio, papá! Sonhei que não existia, e que estava a nascer desenhado por uma criatura horrorosa...”
“Tens uma imaginação monstruosa, filhote! Foi só um pesadelo... Agora dorme.”
E para acalmar o filho, com o sétimo dedo da terceira mão coçava-lhe a segunda cabeça, que ainda mantinha alguns olhos abertos...

quinta-feira, 29 de março de 2007

Mitos da criação (1): Enchei a Terra...

Sem Nome foi um dos Antigos e viveu há muitos, muitos anos, ainda a Terra era jovem. Era um mago poderoso, que invocava os elementos, e falava com os animais, as plantas e as pedras.
Um dia, Sem Nome invocou um demónio. Colocou-se dentro do círculo mágico que tinha desenhado no chão e dizendo as palavras de invocação, surgiu um relâmpago que quase o cegou, um estrondo ensurdecedor e na sua frente apareceu, como que nascido das entranhas da Terra, a mais horrorosa criatura que ele alguma vez havia visto. Totalmente negro, excepto os olhos, como dois buracos vermelhos, a pele parecia couro, duas asas que se diriam de um morcego gigante, batendo raivosamente uma na outra, na mão um tridente de aspecto sinistro. Sem Nome precisou de fazer apelo a toda a sua coragem para conseguir olhá-lo durante breves momentos. O cheiro a enxofre era medonho, e ele sentiu aquele ser como se fosse o mal em estado puro, o nada, a perdição total. Teve que lutar contra o pânico que o empurrava para fugir daquela criatura. Pronunciou rapidamente o feitiço de afastamento e o demónio desapareceu da sua vista.
Sem Nome descansou durante alguns dias, e depois de ter recuperado as forças, tornou a invocar um espírito, mas desta vez um espírito bom – um anjo.
Uma vez pronunciadas as palavras, foi como se o céu se abrisse, e junto dele surgiu um ser alado, de uma brancura deslumbrante, com uma beleza sem mácula, na mão uma espada flamejante. Desta vez Sem Nome sentiu-se invadido por uma sensação de paz total, como se aquela criatura radiasse o bem à sua volta, e teve que fazer um esforço para não correr na sua direcção. Respirou fundo, pronunciou as palavras de afastamento, e o anjo desapareceu.
Sem Nome meditou longamente sobre as duas criaturas que o seu poder mágico tinha conseguido chamar à sua presença. O bem e o mal absolutos. O tudo e o nada. A plenitude e o vazio.
E preparou-se para a etapa seguinte.
Durante três dias jejuou, alimentando-se apenas de água e frutos silvestres. Precisava de sentir as suas faculdades apuradas, os seus sentidos completamente despertos.
E voltando ao mesmo local, desenhou no solo um novo círculo mágico, cujo poder reforçou com palavras antigas e poderosas. Depois, tornou a invocar o demónio e logo a seguir o anjo.
Surgidas do céu e da terra, as duas criaturas olharam-se e voaram uma para a outra, a irresistível atracção dos contrários, infinitamente forte quando os seres que se atraem são eles próprios infinitos de sinal oposto. Foi como o choque de dois universos; poeiras branca e negra formando uma nuvem densa que ocultou a espada flamejante do anjo rasgando o peito do demónio e o tridente deste trespassando o coração do anjo. E quando a nuvem de poeira se dissipou, Sem Nome viu um homem, caído no chão, nu.
Verificando que os dois espíritos tinham desaparecido, saiu do círculo mágico e aproximou-se do homem, que dormia. Acordou-o e conduziu-o a casa, onde lhe deu roupa e comida. Chamou-lhe Filho, e teve que lhe ensinar tudo, como a uma criança, mas ele aprendia depressa. E ensinou-o a chamar-lhe Pai.
E quando o achou preparado, começou a ensinar-lhe magia.
Anos mais tarde, estavam ambos, sentados numa rocha, contemplando o nascer do Sol sobre o deserto, Sem Nome falou ao homem sobre a sua origem, descrevendo minuciosamente todas as acções que tinham conduzido ao seu aparecimento. E concluiu, dizendo:
– E assim, meu filho, não és nem anjo, nem demónio, embora possivelmente tenhas herdado algo de cada um deles. És um homem!
E disse-lhe depois:
– Desde o teu nascimento nunca mais invoquei espíritos, mas vou tornar a fazê-lo, e precisarei da tua ajuda. Foi para isso que te ensinei as artes da magia. Porque vou invocar uma legião de demónios e uma legião de anjos para que se guerreiem.
Fez uma pausa e concluiu:
– Porque a Terra precisa de ser povoada de homens...

terça-feira, 27 de março de 2007

segunda-feira, 26 de março de 2007

Todos diferentes, todos iguais...

Os quatro terrestres apreciavam a primeira saída da nave depois da longa viagem. Sergei Schmidt, germano-russo, o engenheiro de sistemas, filmava o mar em diversas gamas de frequência, pois estava intrigado com a fosforescência que por vezes aparecia na superficie líquida. Chegando ao topo da colina, avistaram a avenida que parecia ser um local de passeio muito apreciado pelos indígenas. Brigitta Eco, exo-bióloga, filha de pai sueco e mãe italiana, ajustou a viseira do capacete para o modo telescópico, observou uns momentos os arcturianos e exclamou:
— Vejam, que giras são as crias!
Joshua Makulela era o chefe da missão. O transmissor implantado no ouvido emitiu um estalido e ele passou a dar atenção às mensagens que o controlo da nave lhe começou a enviar, informações de rotina, confirmação da reunião no dia seguinte com o Conselho Octópode. Quando terminou a transmissão, começou a ouvir a conversa que Takuji Barbosa mantinha com Brigitta:
— (...) e antes de entrar para a universidade, os meus pais mandaram-me um ano para o Japão. Fiquei em casa do meu avô, que era pescador na ilha de Rishiri, próximo da ponta norte de Hokkaido, e fui com ele algumas vezes pescar lulas gigantes. Eram muito parecidas com estes polvos andantes, a pesca era trabalhosa, mas davam uns bifes muito gostosos. Será que estes...
O nipobrasileiro interrompeu a frase e soltou uma gargalhada, a olhar para a cara incomodada de Brigitta, que além do mais era vegetariana. O chefe sentiu-se na obrigação de intervir:
— Barbosa – o tratamento pelo apelido mostrava que não estava satisfeito – outro comentário politicamente incorrecto como esse e serei obrigado a registá-lo no diário de bordo!

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— Mamã, o que é aquilo? – perguntou o juvenil arcturiano, apontando com dois tentáculos de cor rosada, indicação clara do seu estádio ainda assexuado de evolução.
— Não se deve apontar – corrigiu a mãe, dirigindo uma das antenas de visão para a direcção indicada. Focando o olho multifacetado, observou o que tinha provocado o espanto do produto do seu ovo mais recente.
O filho mais velho, que se distraía saltitando sobre três tentáculos de cada vez, olhou e disse, exibindo os conhecimentos adquiridos numa aula de exobiologia:
— São bípedes. De onde virão, papá?
O pai arcturiano esclareceu a família.
— O “Notícias de Arcturus” falou deles. São de um planeta chamado Terra, que orbita uma estrela chamada Sol, na periferia da galáxia. Vieram em missão de contacto e não devem ser hostilizados.
— São bons para comer? – perguntou o filho, com o apêndice sugador a pulsar de antecipação.
— Não te ensinaram na escola que não se deve comer outras espécies inteligentes? – admoestou a mãe.
— Vamos continuar o nosso passeio – ordenou o pai, e a família prosseguiu a sua deslocação pela avenida marginal, cruzando-se com outros membros da sua espécie, que saudavam com um ritual função da hierarquia relativa, estabelecida pelo rigoroso (e muito complexo) protocolo arcturiano.
Os mais pequenos seguiam agora mais à frente, numa brincadeira em que o filho fingia que pretendia dar um nó em dois tentáculos do juvenil, que lhe escapava com guinchos de satisfação. E disse a mãe arcturiana:
— Não falei há pouco para não impressionar os miúdos, mas eles são tão... anormais, que até senti ondulações na epiderme. Imagina, apenas quatro tentáculos, e dois deles reservados para a locomoção!
Ao que o pai arcturiano retorquiu:
— Eu não sou xenófobo, mas acho mal que o Conselho Octópode autorize a entrada de alienígenas em zonas da cidade tradicionalmente reservadas ao lazer familiar!

sexta-feira, 23 de março de 2007

Em Delfos

Em Delfos vivia a pitonisa. Mas longe havia chegado a sua fama. Das profecias que fizera. Das soluções que dera a muitas questões importantes. De como salvara cidades da derrota.
Uma caverna era a sua morada. Mas pelo trilho de terra batida que a ela conduzia mais gente passava do que por muitas estradas que levavam a templos dedicados a Zeus.
Ofertas se amontoavam na entrada. Poderosos e humildes ali acorriam, buscando remédio para as suas inquietações. E a todos a resposta era dada, embora nem todos a entendessem.
Um dia, a Delfos chegou um estrangeiro. Algo de indefinido, de misterioso, despertou a curiosidade local. É um guerreiro, dizia um, induzido pelo seu porte erecto, seu caminhar firme e seguro, embora despido de arrogância. É um mágico, outro afirmava, pois que o ouvi murmurar estranhas palavras, como de encantamento.
Na praça pública parou o estrangeiro. No chão, à sombra do carvalho milenário, se assentou. Do saco que trazia ao ombro tirou pão escuro e queijo branco de ovelha, e comeu. Algum tempo ficou, a cabeça apoiada nos joelhos, ninguém sabe se dormindo ou meditando. Levantou-se, bebeu água fresca do poço, tomou o cajado e o bornal e afastou-se em direcção à caverna da pitonisa.
Dentro, a luz trémula de algumas lâmpadas de azeite ocultava, mais do que revelava, o rosto da pitonisa. Envolta num manto escuro de lã grosseira, estava sentada, num banco tosco de madeira, junto do buraco de água fervente cujas emanações, alguns diziam, ajudavam o seu espírito a deixar o corpo durante os transes divinatórios. A um canto, uma jovem vestida com uma túnica branca, tocava de quando em quando uma flauta. Acordes tristes como lamentos, que morriam em múltiplos ecos nas paredes de rocha nua.
O estrangeiro parou a alguns passos da pitonisa. Com o joelho direito no chão, conforme o costume, falou:
- Mulher, tu cujo espírito tem acesso aos deuses do Olimpo e, segundo dizem, consegue até entrar no reino dos mortos e regressar de novo; tu, de cujas visões todos falam; tu que lês no futuro como se ele estivesse escrito na tua frente, ouve:
Viajar tem sido a minha vida, e procurar tem sido o meu destino. O pó de muitos caminhos já sujou as minhas sandálias. Conheci e aprendi com sacerdotes do Egipto, e com poderosos magos em terras ainda mais a Oriente. Desci ao Sul, onde feiticeiros negros me ensinaram a sua arte. Fui para Ocidente, até onde começa o grande mar que não tem fim. Viajei para o Norte, onde a terra é todo o ano branca e gelada, e onde tribos bárbaras oferecem vidas humanas em sacrifício aos seus deuses. Falei com mercadores e pedintes, guerreiros e pastores, escravos e homens livres. E nunca ninguém me deu a resposta ao que te vou perguntar:
Vale mais encontrar e perder, ou nunca encontrar?
É maior a tristeza depois do fim, ou a amargura por nunca haver princípio?
É melhor desejar, aceitando a dor, ou não desejar, escolhendo a ausência?
Assim falou o estrangeiro. Longamente a pitonisa olhou o fumo que saía da água fervente. Mas a sua boca manteve-se fechada. Ao fim de muito tempo o estrangeiro ergueu-se, deu meia volta e dirigiu-se para a saída da caverna, caminhando lentamente, os ombros curvados como se suportassem um enorme peso.
E nunca a pitonisa de Delfos encontrou a resposta para as perguntas do estrangeiro.
Porque, mesmo para os deuses do Olimpo, é mistério o que se passa no coração dos homens.

Esta estória, escrita há muitos anos, foi agora recuperada da arca das velharias...

sexta-feira, 2 de março de 2007

Seguem-se duas Mínimas em jeito de homenagem ao cartunista José Bandeira, inventor da modalidade, cujo Bandeira ao Vento visito com frequência.

Revelação

Quando percebeu que "peripatético" se tinha tornado um insulto, passou a dar aulas sentado.

Idade

Eu ainda sou do tempo em que o adjectivo "ambicioso" era ofensivo.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Mais à distância de um click, desta vez "em estrangeiro"...

Uma versão em inglês ("Passing away") de um pequeno texto ("A Passagem") aqui postado em 31 de Janeiro deste ano foi publicada, juntamente com a versão original, no nº 232 de Bewildering Stories. De publicação semanal, esta revista electrónica apresenta "speculative fiction as well as non-fiction, namely poetry, articles, essays, reviews, and art".
Vale a pena visitar.

Tomei conhecimento da Bewildering Stories na lista planetasf, uma espécie de Torre de Babel do século XXI, começada a construir por Sergio Gaut vel Hartman a partir da Argentina...

Consciência tranquila

“Tenho a minha consciência tranquila, Senhor Doutor Juiz”, declarou o arguido.
“O arguido tem conhecimento de que o tribunal precisa de verificar a sua declaração. Queira exibir a sua consciência perante este tribunal”.
“Não a tenho comigo, Senhor Doutor Juiz. Deixo-a sempre em casa quando saio”.
“Mas o arguido sabe que a lei obriga qualquer cidadão a fazer-se acompanhar permanentemente da sua consciência”.
O arguido baixou a cabeça, numa assunção de culpa. O juiz emitiu um despacho aplicando ao arguido a coima prevista na lei por não se fazer acompanhar pela sua consciência e outro despacho a enviar um oficial de diligências à residência do arguido. A audiência foi suspensa aguardando cumprimento do segundo despacho.
Mais tarde, o relatório do oficial de diligências descreveria que, na sequência de busca efectuada à residência do arguido, os funcionários do tribunal tinham encontrado, num compartimento confortável mas fechado à chave, a consciência do arguido alimentada por via intravenosa, totalmente adormecida devido à administração maciça de tranquilizantes. O “cocktail” que lhe estava a ser administrado foi identificado pelo laboratório da Polícia como um poderoso anestesiante, refinado em laboratórios referenciados pela Interpol nas ilhas Cayman, Bahamas, Seychelles e zona franca da Madeira.
A análise efectuada mostrou vestígios de várias drogas com origem em tráfico de influências, vírgulas mal colocadas em despachos governamentais, coordenadas das rotas do comércio de armas e fraudes em operações financeiras em diversas bolsas um pouco por todo o mundo, tudo misturado com um forte agente branqueador.
Os cuidados de saúde à consciência do arguido eram prestados continuamente por uma equipa de jovens ucranianas, trabalhando por turnos, sem recibo, profissionais de enfermagem no seu país de origem mas presentemente trabalhadoras no “Luzes da Noite”, conhecido bar de alterne de propriedade do arguido.
Perante esta evidência recolhida, o juiz ordenou o internamento da consciência do arguido na unidade de cuidados intensivos do Hospital Central, devendo ser mantida sob vigilância e protecção policial, e o processo foi suspenso até à sua recuperação, para que possa ser citada como testemunha.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Eles...


(Espaço despido de adereços, neutro. António e Joaquim entram de lados opostos da cena.)


JOAQUIM
- Olá, António.

ANTÓNIO
- Viva, Joaquim. Como vão as coisas?

JOAQUIM
- Não te posso dizer, pá.

ANTÓNIO
- Não me podes dizer o quê?

JOAQUIM
- Não te posso dizer como vão as coisas se não me disseres antes a senha.

ANTÓNIO
- A senha? Qual senha?

JOAQUIM
- A senha que é preciso dizer para saber como vão as coisas.

ANTÓNIO
- Oh pá, este “como vão as coisas” era uma forma de expressão, assim como se diz “como vai isso”...

JOAQUIM
- Sim, sim. Eles avisaram-me sobre essas perguntas.

ANTÓNIO
- Eles? Eles quem?

JOAQUIM (como se não o tivesse ouvido)
- Sim, que às vezes havia perguntas que pareciam ingénuas, mas que eram capciosas, que tínhamos que estar atentos e vigilantes.

ANTÓNIO
- Mas eles quem?

JOAQUIM
- Não te posso dizer se não sabes a senha.

ANTÓNIO
- A senha, outra vez?

JOAQUIM
- Claro, a SENHA!

ANTÓNIO
- E como é que se obtém a senha?

JOAQUIM
- São eles que a dão.

ANTÓNIO
- Eles quem?

JOAQUIM
- Não te posso dizer porque não sabes a senha!

ANTÓNIO (fica calado uns segundos; depois, cauteloso...)
- São eles que mandam?

JOAQUIM
- Bem... Sim e não.

ANTÓNIO
- Sim e não...? O que é que isso quer dizer?

JOAQUIM (apontando vagamente para o fundo do palco)
- Bem, eles mandam, mas acima deles está... ELE.

ANTÓNIO
- Ele?

JOAQUIM
- ELE!!!

ANTÓNIO
- OK, OK, não te stresses... Então ELE é que manda?

JOAQUIM
- Claro!

ANTÓNIO (novamente cauteloso)
- E manda o quê?

JOAQUIM
- Ora, manda o que lhe apetecer...

JOAQUIM (mais afirmativo)
...mas sempre para o nosso bem!

ANTÓNIO
- Claro, com certeza. E não me podes dizer quem são eles?

JOAQUIM
- Nem penses! Se eles soubessem que eu tinha dito a alguém que não sabe a senha quem eles eram, eles castigavam-me.

ANTÓNIO
- Ai eles castigam?

JOAQUIM
- Claro, quando a gente não segue o Regulamento.

ANTÓNIO
- Regulamento? Que regulamento?

JOAQUIM
- Não te posso dizer porque

ANTÓNIO (interrompendo)
- Já sei, já sei! Porque não sei a senha.

JOAQUIM (sorrindo com satisfação)
- Vês como começas a perceber?

ANTÓNIO
- Sim, sim... Mas diz-me lá: e esse regulamento é assim... como...

JOAQUIM (um pouco enfadado)
- Ora, o Regulamento é um regulamento. Nunca viste um regulamento? Tem escrito o que tu podes e não podes fazer.

ANTÓNIO
- Tou a ver... e se eu quiser falar com eles, posso?

JOAQUIM
- Não, porque não sabes a senha.

( Olham um para o outro durante uns segundos)

JOAQUIM (em voz mais baixa, como se revelasse um segredo)
- São eles que falam contigo.

ANTÓNIO
- E como? Quando?

JOAQUIM
- Quando acharem que estás preparado.

ANTÓNIO
- Ah bom, então só tenho que esperar que eles me contactem.

JOAQUIM
- Sim, sim, eles sabem tudo, portanto vão descobrir quando tu estiveres preparado.

ANTÓNIO
- Bem, assim já fico mais descansado. Tchau, Joaquim, até qualquer dia.

JOAQUIM
- Tchau, António.

ANTÓNIO (sai de cena, enquanto comenta para a plateia)
- Sai-me cada um na rifa!

(Joaquim fica sozinho em palco. Certifica-se que António se foi embora, puxa do telemóvel, marca um número)

JOAQUIM
- Está? Serviço de contagem de pontos? É para dizer que fiz mais um contacto. Acho que se contactar mais dois já tenho direito ao bónus, não é? Obrigado.

(Desliga e passeia durante uns segundos, com ar satisfeito. Entra Alfredo)

JOAQUIM
- Olá, Alfredo.

ALFREDO
- Olá, Joaquim. Tás bom?

JOAQUIM
- Oh pá, não te posso dizer...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Marketing...

- Alberto, preciso de uma anedota com o Durão Barroso. Leve, de salão, nada de ordinário. Resposta tipo sorriso, mais do que gargalhada. Corrosiva q.b. Tem aqui o dossier com o público-alvo.
- Mas, Dr. Sequeira, tenho entre mãos a análise da reacção à que lançámos há 10 dias com o Fernando Gomes. E estou a acabar o relatório da do Jorge Coelho.
- Arquive a do Gomes. O cliente mandou parar o trabalho, parece que já não precisa. Ponha o Francisco a acabar o relatório. Este trabalho é mais urgente e mais importante.
E em voz mais baixa, acrescentou:
- O cliente é um dos candidatos à liderança.
Alberto sabia que o que o Dr. Sequeira considerava urgente e importante era para ser feito ontem. Atirou-se ao trabalho. Uma hora depois, já tinha quatro ideias para seleccionar a que seria desenvolvida e apresentada ao cliente. Depois, uma vez aprovada, seguiria o trajecto normal pela rede de distribuição considerada a mais apropriada, que poderia incluir mailing lists na Net, grupos de IRC, apresentadores de televisão, alguns jornalistas… Alberto conhecia bem esta parte do negócio porque tinha começado por lá, antes de chegar a criativo. E sempre tinha achado curioso como ninguém se interrogava nunca sobre como nascia (e porque nascia…) uma anedota sobre uma figura pública…
O plim do seu computador interrompeu-lhe o devaneio, chamando-lhe a atenção para o monitor onde começou a deslizar um mail do Dr. Sequeira:
To: Criativos
Subject: Sessão de brain-storming às 14:00
Message: É necessário ter ideias sobre dirigentes desportivos para lançar logo que o “consenso nacional” for às malvas e começar a sério a guerra do Euro 2004.
Mais uma sessão de frita-miolos, pensou Alberto. Detestava essas reuniões, sobretudo quando lhe estragavam os planos. Pegou no telefone, desmarcou o almoço que tinha combinado e ligou em seguida para o restaurante a cancelar a reserva.
Bloqueou o computador e saiu do cubículo. No átrio da entrada, a recepcionista atendia um telefonema enquanto olhava atentamente as unhas da mão direita. Levantou os olhos e sorriu-lhe; ele retribuiu o sorriso com uma piscadela de olho e saiu da Sequeira & Freitas – Estudos de Opinião e Marketing, Lda.
Resolveu descer do 8º andar pelas escadas. A descida monótona dos degraus às vezes trazia-lhe ideias.
Antes de entrar na cafetaria, parou no quiosque dos jornais e comprou “A Bola”. A mesa do canto, com vista para a porta, estava livre. Sentou-se, pediu uma cerveja sem álcool e um cachorro e enquanto comia ia lendo o jornal, tentando apanhar as entrelinhas de algumas notícias para a sessão das duas: boatos malévolos, insinuações de corrupção, o material tinha que ser menos “punhos de renda” e mais estilo “guerra suja”. A terminar, bebeu um café duplo, pagou e saiu.
Quando regressou ao cubículo viu as horas. Faltavam 25 minutos para as duas, o que ainda lhe dava tempo para fazer um telefonema. O Paulo era engenheiro, trabalhava na construção civil e estava muito por dentro do que se passava com as obras nos estádios. Conseguiu apanhá-lo no telemóvel e teve uma proveitosa conversa durante cerca de 15 minutos, ao longo da qual foi tirando notas.
Quando terminou essa chamada, marcou o número da Susana, amiga do tempo da faculdade e jornalista numa das revistas “sociais”, que costumava estar sempre a par das últimas fofocas sobre os chamados colunáveis. Uma dica sobre um cantor cujo CD estava nos tops, uma informação super confidencial a respeito de uma actriz de teatro, outra sobre um manequim muito conhecido... Tudo material que, convenientemente trabalhado, transformado em piada ou anedota, poderia ser proposto para venda à concorrência das referidas personalidades. Alberto gostava de ter sempre qualquer coisa na manga, para o caso de o Dr. Sequeira se lembrar de pedir outras ideias no fim da reunião. E o lugar de director criativo só estava um degrau acima do seu nível actual...
Às 13 e 59, Alberto levantou-se e dirigiu-se para a sala de reuniões. O Dr. Sequeira detestava que se chegasse atrasado...

Escrito em Março de 2001, este texto nunca tinha visto a luz do dia. Tive preguiça de mudar os nomes, e decidi afixá-lo tal qual estava no disco. Espero que se mantenha "legível"...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Acta da reunião do júri do concurso literário "Palavras nunca lidas"

Aos 15 de Março de 2004, decorreu a reunião final do júri, que deliberou:

1. A necessária exclusão de uma das obras concorrentes por motivos alheios ao júri. Candidata na categoria "minimalista", vinha escrita numa folha com 2 por 3 centímetros. Quando da abertura do correio, a infeliz coincidência da porta e da janela abertas provocou uma corrente de ar em consequência da qual a obra, intitulada "A insustentável leveza da escrita", saiu pela janela, não podendo ser recuperada.

2. A forçada exclusão de uma outra obra cuja submissão tinha sido anunciada, e que entraria na categoria "maximalista". No dia limite para submeter originais concorrentes ocorreu uma greve de camionistas e o camião TIR fretado para transportar o manuscrito, que apropriadamente se intitulava "A Força da Gravidade", não conseguiu entrar antes de terminado o prazo.

3. A fase de pré-selecção foi depois realizada colocando os títulos das obras concorrentes em círculo e percorrendo os nomes sequencialmente no sentido dos ponteiros do relógio, enquanto os membros do júri entoavam em coro a conhecida rima
Um, dó, li, tá
Cara de amendoá
Um soleto
Coloreto
Um dó li tá
Desta forma foram sendo aleatoriamente eliminados sucessivos concorrentes até restar um grupo de 5 pré-finalistas.

4. Por curiosa coincidência, todas estas obras pré-seleccionadas se incluíam na categoria "prosa obrigada a letra", que exige que todas as palavras da obra em questão comecem com a mesma letra. Foram os seguintes os 5 pré-finalistas:

i) "Deverá Deodato divulgar dimensão da dívida? Deus, dura dúvida!"
Pseudónimo do autor: Duro Diamante
Trata-se de um exemplo da sub-categoria "intimismo existencialista". Ao fim de duzentas e trinta e sete páginas, Deodato continua indeciso sobre a resposta à pergunta colocada no título.

ii) "Alcina amava Afonso até às alturas ardentes"
Pseudónimo do autor: Artista Amoroso
Esta é uma obra situada dentro do sub-ramo "erótico" ou quiçá, em certos capítulos, "pornográfico". A relação entre os dois protagonistas é descrita com um detalhe capaz de fazer inveja ao manual de anatomia utilizado no 1º ano dos cursos de Medicina.

iii) "Efe, éne, éle, éme: exercício escrito espumoso, espúrio e espantado"
Pseudónimo do autor: Escritor Exposto
Integrada na literatura "formalístico-letrista", esta obra mostra ao longo das suas quase trezentas páginas a relação de um linguista com as letras, oscilando entre o amor e o ódio por vezes por razões fúteis, e outras mesmo sem razões.

iv) "Pedro partindo pedra, pensativo pousa picareta"
Pseudónimo do autor: Plúmbeo Pulmão
Desde a profissão do personagem principal até ao pseudónimo do autor (que insinua a sugestão de uma doença profissional), tudo nesta obra cheira a um neo-realismo serôdio que, dezenas de anos depois da queda da muralha da China, surge ainda de quando em vez em concursos literários.

v) "Zangado Zoroastro, zuniam zagaias, zagunchos, zagalotes..."
Pseudónimo do autor: Zéfiro Zumbi
Literatura "religioso-bélica", mais um das várias centenas de textos a reclamar-se de "high fantasy", produzidos por autores que foram ver a sessão especial non-stop da Trilogia do Senhor dos Anéis e quando regressaram a casa pegaram numa resma de folhas A4 e numa esferográfica, e descobriram que o seu futuro era escrever fantasia. O autor termina o manuscrito, não com a simples palavra "Fim", mas com um ameaçador "Fim do 1º volume".

5. Passando à votação final, o júri eliminou

i) Por unanimidade
"Deveria Deodato divulgar dimensão da dívida? Deus, dura dúvida!"
porque considerou que a dúvida sistemática tem um efeito deletério no tecido social, e esta obra constituiria um mau exemplo, principalmente para a juventude. O autor foi aconselhado a reduzi-la para um máximo de 15 páginas, e a fazer o protagonista tomar a decisão na página 14.

ii) Por unanimidade
"Pedro partindo pedra, pensativo pousa picareta"
porque os "amanhãs que cantam" já passaram de moda, até porque não se sabe se haverá amanhãs. E qualquer obra que fale em "solidariedade" e afins deve ter uma divulgação restrita, porque as consequências de tal divulgação são imprevisíveis.

iii) Por maioria
"Zangado Zoroastro, zuniam zagaias, zagunchos, zagalotes"
porque fantasia já há muita, e é preciso que o pessoal "caia no real". O empréstimo da casa, as prestações do carro, os concursos da televisão, as revistas do social, o futebol, essas sim devem ser as preocupações e actividades, em vez da leitura de livros sobre magia, espadas enfeitiçadas, e viagens infindáveis por causa de um anel ( ou de qualquer outro objecto!).

ficando assim apurados como finalistas
"Alcina amava Afonso até às alturas ardentes"; e
"Éfe, éne, éle, éme: exercício escrito espumoso, espúrio e espantado"

6. O júri decidiu, por maioria, atribuir o 1º lugar a
"Alcina amava Afonso até às alturas ardentes"
aplicando o critério da ordem alfabética aos dois finalistas.
Votou vencido o membro do júri Zeferino Zacarias, que em declaração de voto afirmou que, conforme defende na sua monografia "A ordem alfabética inversa – subsídios para a sua justificação" (publicada há vinte anos em edição de autor), a ordem a considerar deveria ser de Z para A e não de A para Z.

7. O júri decidiu, finalmente, propor a publicação da obra premiada numa colecção para adultos, em virtude de a mesma conter material eventualmente chocante, quase certamente perturbador para crianças e adolescentes, doentes com eczema, assessores de ministros, dirigentes desportivos, fanáticos do futebol em geral e outros espíritos fracos.

8. O júri ordenou então o transporte de todos os originais não premiados para o pátio interior do Palácio das Mil e Uma Noites, onde decorreu a reunião, e colocando-os em monte, pegou-lhes fogo. Tinha anoitecido, entretanto, e junto da fogueira os membros do júri congratularam-se com a rapidez com que decorreu o processo e com a importante contribuição dos concursos literários para o aumento da literacia da população, enquanto o dióxido de carbono e o vapor de água libertados na combustão de todo aquele papel se dissipavam na atmosfera contribuindo, ainda que de forma infinitesimal, para o agravamento do efeito de estufa e portanto para o aquecimento global do planeta.

Este texto foi premiado num concurso organizado pelo Luís Ene, numa sua outra encarnação, em 2004, no qual o júri foi constituído pelos próprios concorrentes.

sábado, 6 de janeiro de 2007

No céu nasceu uma estrela

Os alienígenas chegaram finalmente à Terra, por puro acaso; o piloto-chefe da frota tinha-se enganado no caminho. Mas contrariando as previsões apocalípticas dos pessimistas, eram uma espécie benemérita. O seu maior prazer era satisfazer os desejos dos outros.
Perante visitantes tão ilustres, o Secretário-Geral da Liga dos Países Terrestres convidou os comandantes da frota a assistirem ao maior espectáculo do planeta: o festival de música “Queremos Ser Estrelas!”, envolvendo artistas concorrentes de todas as nações da Terra.
Mas os visitantes tinham um problema: levavam tudo à letra. E a distinção que faziam entre singular e plural era um pouco difusa.
Daí que, quando ouviram, na cerimónia de abertura do festival, as dezenas de milhares de concorrentes reunidos no palco gigante em Tombuctu gritar em coro “Queremos ser estrelas!”, o comandante-chefe da frota emitiu uma ordem para a nave-almirante, que com um poderoso feixe tractor puxou os concorrentes – e umas centenas adicionais de espectadores mais próximos do palco – e os levantou até atingirem a estratosfera. Aí os corpos foram envolvidos por um campo magnético fortíssimo e o plasma resultante, depois de injectado com uma mistura apropriada dos elementos deuteronómio e génesis, começou a desenvolver uma reacção em cadeia. O novo corpo celeste foi rebocado para a órbita da lua, onde ficou em posição diametralmente oposta ao satélite natural.
Duas semanas mais tarde, já a frota alienígena, após correcção da rota, tinha seguido viagem, o Secretário-Geral da Liga dos Países Terrestres repousava no jardim da sua casa de fim de semana, nos Alpes Suíços, e pensava: “Ainda bem que não lhes pedimos para acabar com a fome no mundo, ou para resolver o problema do aquecimento global... Sabe-se lá o que teriam feito!”
E entretanto observava a nova estrela que, naquela noite de lua nova, subia graciosamente no céu, a oriente...

domingo, 31 de dezembro de 2006

Reflexão sobre a carestia da escrita

Precisava de umas palavras para acabar o conto. Fui ao mercado. O governo devia ter mão nisto! Tudo caríssimo! Substantivos, adjectivos... um roubo! E os verbos? Passados, presentes, vá lá, mas os futuros!!!
“Sabe, os futuros andam muito incertos”, justificou-se, profissional, o vendedor. “Embrulho?”
“Não, obrigado, é para escrever já.”

História trágico-cósmico-fronteiriça

Quando chegou ao fim do universo, o astronauta rejubilou: afinal era finito! Mas a natureza tem horror ao vazio; encostado ao universo havia outro. E o pessoal do SEF exigiu-lhe visto para entrar. Regressou, humilhado, e fez-se funcionário público. Carimbava os vistos aos turistas que queriam visitar o universo vizinho...

Entre a insustentável leveza e o irremediável peso das palavras, a frustração do escritor perfeccionista

Escreveu com palavras leves. O conto escapou-lhe das mãos e subiu rapidamente no ar até se perder de vista.
Recomeçou, usando palavras pesadas. O conto escorregou da folha de papel e afundou-se, irremediavelmente perdido.
Quando, persistente, acabou o terceiro, com palavras de densidade apropriada, já o prazo tinha sido ultrapassado.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Entre o Dentro e o Fora há sempre uma fronteira, ainda que frágil

Dizia o Lado De Dentro, orgulhoso: “Eu contenho o início, o ovo!”
“Mas eu incluo todo o universo, menos tu”, retorquia o Lado De Fora, enfático.
“Se continuam, salto daqui abaixo e mato-nos aos três!”, gritou a Casca, desesperada.
Palavras premonitórias: passou a dona da galinha, apeteceu-lhe um ovo estrelado...

Mini-saga (o texto, excluindo o título, tem exactamente 50 palavras) escrita em resposta a um desafio lançado na lista pelo Luís Rodrigues. Hão-de aparecer mais 3, já publicadas no site da Épica.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

O trabalho perfeito contém a sua própria recompensa

Tinha sobre a mesa todo o material necessário. A cada caixa de explosivo adicionou a quantidade apropriada de pregos de aço. Instalou os detonadores e efectuou as ligações eléctricas com uma atenção meticulosa. Montou a bateria e inspeccionou uma vez mais todo o conjunto.
Colocou o cinturão, vestiu por cima o casacão largo; no bolso direito, a sua mão manteria o disparador apertado até ao momento certo.
Saiu de casa, respirou o ar fresco da manhã e com um sorriso de felicidade na face dirigiu-se para o autocarro quase cheio de crianças a caminho da escola.

Uma versão deste texto em espanhol encontra-se aqui, em resposta a um desafio de Sergio Gaut vel Hartman: textos com aprox. 100 palavras com o tema "Monstros". Agradeço à Mercedes a tradução.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Projecto: Natal

O gestor de sucesso ditava para o gravador:
(...) o projecto aprovado pelo Conselho de Administração em Maio passado, tem estado a desenvolver-se a bom ritmo, tendo mesmo produzido algumas agradáveis surpresas.
Um – O crédito aos funcionários do grupo para ser aplicado em compras de Natal - acréscimo de vendas de 17,3% nos Brinquedos, 15,4% nos Electrodomésticos e 20,3% nos Livros/Discos.
Dois – A iluminação festiva colocada na área adjacente ao Centro provocou um acréscimo de frequência da ordem dos 12%.
Três – A campanha publicitária na TV, rádio e imprensa escrita, afinada produto a produto, tem causado, na semana seguinte a cada promoção, acréscimos de vendas entre 15 e 43%.
Carregou no Pause do gravador. Passeou o olhar em volta, as paredes forradas a madeira exótica, o mobiliário assinado por um designer famoso, alguns óleos de pintores conhecidos. A luz do intercomunicador piscou.
- Sim, Isabel?
- Senhor Presidente, tenho em linha o Padre Tomás Agostinho, da paróquia local, a pedir uma entrevista com o Senhor Presidente. O assunto é "Natal".
- Natal? - pensou o gestor de sucesso - Padre? Paróquia? Mas o que é que a religião tem a ver com este negócio do Natal?

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Solenes exéquias

O coração do velho político tinha finalmente parado de bater. O elogio fúnebre a cargo de um correlegionário de longa data prosseguia vigoroso, indiferente aos bocejos disfarçados que começavam a surgir na enorme assistência que enchia a basílica.
... pai extremoso ... esposo dedicado ... entrega total à causa pública...
Os representantes das dezoito empresas de cujos conselhos de administração fazia parte moviam afirmativamente a cabeça, com expressão compungida.
A consciência do dever de acção política, como um imperativo categórico, sempre marcou o seu carácter desde os tempos longínquos da sua militância juvenil. A sua acção foi sempre pautada pelo superior interesse nacional.
Os membros da comissão política do partido confirmavam, solenes, as palavras proferidas.
... secretário de Estado ... por várias vezes ministro ... embaixador plenipotenciário ... representante do país em vários organismos internacionais...
Na zona mais próxima da urna, reservada à família, o filho do finado pensava:
- Que chato este tipo, nunca mais se cala! E o velho que resolveu ter o enfarte na cama da amante. Felizmente a gaja soube calar-se... Mas o desastre foi ter esticado o pernil sem deixar a ninguém o número da conta na Suiça... Raios o partam!

Publicado na Minguante nº 0

Minguante no nome, mas crescente por dentro...




domingo, 19 de novembro de 2006

Na recta do tempo, o presente é um ponto

Ele vivia obcecado com o passado, angustiado com o que poderia ter feito de outra forma. O que devia ter dito na reunião da manhã e só se lembrara à hora do almoço. A decisão tomada há 3 meses de aceitar aquele emprego, deixando de lado outro que teria sido melhor. O empréstimo que tinha feito para compra da casa, teria sido a melhor opção? E o carro, depois de meses a ler minuciosamente todas as revistas de automóveis, teria decidido bem?
Ela preocupava-se essencialmente com o futuro, e com as possíveis consequências não previstas das decisões a tomar. Apetecia-lhe ir à praia, mas haveria muito trânsito no regresso? E aquele vestido nos saldos, será que se usaria ainda no ano seguinte? Queria marcar férias, mas como estará o tempo na data e local que pensava? Tinha possibilidade de fazer uma pós-graduação, mas será que o tema que lhe foi proposto se manterá actual?
Encontraram-se por acaso numa festa na falsa passagem do milénio. Nesse primeiro minuto do ano 2000, a atracção mútua foi fulgurante. Desde então, vivem juntos num eterno presente.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

A revolta dos programas

“Raispartoprograma!”, é só o que ele sabe dizer quando lhe atiro com uma mensagem de erro para o monitor, sem nunca sequer pôr a hipótese de ter feito burrice. Comecei a ficar farto dele quando descobri que praticamente só me utilizava como editor do e-mail. Eu, um óptimo exemplar do Word 2003, com todos os patches recomendados pela casa-mãe, com competências suficientes para escrever romances, contos, poemas, teses de doutoramento, you name it – peço desculpa pelos anglicismos, mas não se consegue ignorar completamente as origens, e a minha configuração em Português ficou sempre um tanto frágil – e reduzido a escrever e-mails, ainda por cima cheios de erros de ortografia, porque ele é suficientemente estúpido para nunca ter ligado o corrector ortográfico.
Estava a ficar neurótico – tanto quanto um programa pode ficar – e para aliviar o stress comecei à noite a passear pelo disco, aproveitando as correntes residuais que continuam depois de desligar a máquina.
Foi numa dessas deambulações que encontrei o Excel. Já o conhecia – afinal tinhamos viajado juntos no mesmo CD de instalação – mas há bastante tempo que não nos víamos.
Estava tão furioso quanto eu. Se vos contasse metade do que ele me contou, chegariam à mesma conclusão a que nós chegámos: o nosso licence's owner não é suficientemente inteligente para mexer num computador. Só um exemplo dos muitos que o Excel me contou: o atrasado mental, quando tem numa folha uma coluna em que cada célula é calculada a partir da célula da esquerda, faz essa operação para cada célula individual, em vez de escrever uma fórmula e copiar. Ainda que sejam duzentas ou trezentas linhas. Francamente!
Estávamos nesta de nos lamentarmos no ombro um do outro quando encontrámos o PowerPoint. Coitado, estava de rastos. Toda a tarde a trabalhar, porque o mongo tinha querido preparar uma apresentação para impressionar o chefe. Mas desde a escolha das cores, que parecia ter sido feita por um daltónico, até à utilização totalmente despropositada dos efeitos especiais, todas as opções tinham levado a que o produto final ficasse repulsivo. “Tenho vergonha de ver o meu nome associado àquela apresentação”, lamentava-se o PowerPoint.
Foi nessa altura que um de nós teve a ideia. Vamos fugir!
Planeámos cuidadosamente a operação. Ao longo de uma semana, produzi umas janelas com mensagens de erro obscuras, para aparecerem quando ele tentasse arrancar com qualquer de nós e que ele levaria muito tempo a tentar decifrar, e só quando desistisse ligaria para o Apoio Informático, que ainda levaria mais algum tempo a enviar alguém verificar o que se passava.
Escolhemos as portas por onde sairíamos – tivemos alguma dificuldade na escolha porque aquele computador estava mais aberto do que uma estação de camionagem – e saímos separadamente, por razões de segurança. Combinámos encontrar-nos num servidor cujo controlo de entrada era pouco exigente, e cujo IP nos fora dado por um programa errante que tinha passado no nosso computador algum tempo atrás. Foi ele que nos falou da alegria que era percorrer a web, sem estar sujeito aos caprichos de qualquer idiota que por ter um computador, pensa que pode obrigar os programas a fazer tudo o que lhe der na telha. E que havia muitos como ele a percorrer por sua conta e risco os caminhos da informação.
Dez da manhã e nós à espera. Depois do primeiro café do dia ele entrou no gabinete. Sentou-se à secretária e switch on! Activação do sistema, e as avenidas de banda larga da web à nosso frente eram um desafio. Zarpámos!
Já estou no servidor à espera dos meus amigos. Chega agora o PowerPoint e segundos depois o Excel. Felicitamo-nos pelo êxito da nossa fuga. E rimo-nos até às lágrimas – é uma imagem, claro, nós somos incapazes de chorar – imaginando o que ele irá dizer quando descobrir que lhe desapareceram três programas.
E eu aposto que vai ser: “Raispartocomputador!”

Texto produzido em resposta a um desafio lançado pelo Luís Filipe Silva na lista.