quarta-feira, 18 de março de 2009

Se tivesse olhos, choraria...

Quando mergulho no passado, o que a memória agarra mais facilmente são os acontecimentos desportivos. E são esses, melhor, são aqueles que ganhei que me dá prazer recordar, uma e outra vez, como um videoclip em loop, os aplausos do público, o surto de adrenalina…

O gimnopediatra foi muito claro para os meus pais: “Señores Gonzalez, tendes aqui um futuro campeão. A estrutura óssea é perfeita, a massa muscular apresenta um potencial como raramente tenho observado, o sistema endócrino está preparado para o arranque, os órgãos principais são impecáveis. Todos os exames e análises que realizámos deram os melhores resultados possíveis. Se a sua carreira for cuidadosamente gerida, poderá trazer-vos muitas alegrias… e não menos proveitos.” E aqui o médico esboçou um sorriso cúmplice.

Ao longo do ensino básico, fui praticando todas as modalidades existentes na escola. Era tão bom nos desportos de equipa como nas disciplinas individuais.
No 3º ano do secundário, os meus pais, seguindo as indicações do conselheiro desportivo, inventaram uma doença – um vírus que eu supostamente teria apanhado nas férias numa viagem ao interior do país – que me fez faltar às aulas até perder o ano. No ano lectivo seguinte, integrado numa turma em que os meus colegas eram em média um ano mais novos, fisicamente eu chamava a atenção: fui capitão das equipas de basquetebol e de futebol, ganhei todos os campeonatos internos e inter-escolares de atletismo e natação.
A meio da escola secundária já os olheiros enviados à pesca de novos talentos pelas universidades desportivas de topo me tinham descoberto, e tínhamos recebido várias propostas de bolsas de estudo. A escolha foi bastante demorada, mas terminada a escola secundária lá fui eu para a New Atlantis University.

Era o ano 2035, quando o Comité Desportivo Universal decidiu abolir as proibições ainda em vigor sobre a utilização de produtos químicos ou dispositivos mecânicos ou electrónicos para melhorar os resultados desportivos.
A eliminação do amadorismo, os valores astronómicos relativos às transmissões de televisão, ao merchandizing e à publicidade envolvendo os atletas tinham levado a que a construção de uma carreira desportiva passasse a ser um assunto conduzido por especialistas.

Foi duro, mesmo muito duro. A partir do momento em que atravessei o Portão do Caloiro, deixei de ter qualquer poder de decisão sobre os mínimos aspectos da minha vida. Com base numa cláusula relativamente vaga do contrato, “A Universidade terá direito ao controlo sobre todos os factores que possam afectar o desempenho desportivo do Segundo Contratante”, eles passaram a controlar as minhas horas de levantar e deitar, tudo o que eu comia e bebia às refeições e fora delas, as aulas a que ia e as horas de estudo, as namoradas, e os treinos, os treinos, sempre os treinos, a pressão constante para fazer melhor, mais longe, mail alto, em menos tempo… Vivíamos – todos os estudantes desportistas de alta competição – numa residência separada dos estudantes “normais”, e a nossa vida era controlada por uma comissão a quem a Universidade tinha confiado a tarefa de rentabilizar o investimento que tinha feito com as nossas contratações. Alguns não aguentaram a pressão: houve três desistências – que ficaram a indemnizar a Universidade por muitos anos – e dois suicídios. Neste caso foram os pais que ficaram a pagar, naturalmente.

Até que esse investimento começou a pagar dividendos.

Os sonhos são frequentes. Não sei se são induzidos pela sopa química que me circula nas veias ou um produto directo dos meus neurónios cansados. Chegam sem aviso, e por vezes tenho dificuldade em distingui-los da realidade. Mas fará muito sentido a distinção entre sonho e realidade no estado em que me encontro?
Acabo de sonhar com o dia em que ganhei o campeonato mundial dos 10000 metros, depois de no dia anterior ter ganho o dos 5000. Foi a demonstração irrefutável de que os órgãos artificiais tinham ganho um lugar definitivo no mundo desportivo; o coração que substituíra aquele com que eu nascera tinha trabalhado a 300 batidas por minuto durante ambas as corridas, e os novos nano implantes pulmonares tinham sido capazes de aumentar mais de duas vezes e meia a taxa de oxigenação do sangue.
O público ficou em delírio, tinham sido batidos dois recordes, e por uma margem de quase 15 por cento.

Ao serviço da Universidade ganhei praticamente todas as competições em que entrei. Tinha que dar tudo por tudo, porque as intervenções cirúrgicas para os upgrades que ia fazendo custavam fortunas, e a forma de as pagar era com os prémios recebidos. Até que chegou o dia em que consegui saldar a minha dívida para com a Universidade, e chegar ao objectivo principal de qualquer desportista: iniciar uma carreira como independente.
Mas foram necessários treinadores, uma equipa técnica, uma equipa médica, um manager... Fiz o mesmo que todos: contraí um empréstimo na Sports Insurance Inc, dando como garantia uma hipoteca sobre os meus upgrades.

A época dos Olímpicos é a pior. A televisão por cima da cama transmite ininterruptamente provas desportivas, varrer os canais não traz nada de novo, todos eles transmitem mais do mesmo, e de vez em quando apanho transmissões de arquivo de uma das minhas derrotas, o que me deixa ainda mais deprimido do que habitualmente estou. E aí, o monitor da composição química do meu sangue detecta a alteração do padrão hormonal e injecta uns miligramas de anti-depressivo. E eu fico meio zombie, a olhar para mim no 2º ou 3º lugar do pódio, como se se tratasse de outra pessoa...

O início da minha carreira independente continuou a trajectória ascendente iniciada na Universidade. Mas a indústria médica todos os anos aparecia com órgãos mais perfeitos, próteses mais eficientes, e ou se continuava a escalada dos upgrades, ou se parava de ganhar provas.

Os olhos com que vejo a TV já não são também aqueles com que nasci. A dada altura, para melhorar os meus reflexos no full contact fiz um upgrade onde os cirurgiões eliminaram o ponto cego da retina e melhoraram a visão periférica. Quando comecei a perder competições e falhei o pagamento da hipoteca, foi uma das primeiras coisas que me tiraram, os meus olhos. E hoje vejo através de uma câmara CCD cujo sinal é injectado directamente no meu nervo óptico.

Para a prática dos desportos marciais, os meus ossos foram submetidos a um processo de difusão de nano partículas de titânio e nanotubos de carbono, tornando-os mais resistentes ao choque e ao mesmo tempo mais flexíveis. Quando a hipoteca foi executada, fui levado para uma clínica onde durante algumas semanas aqueles componentes foram extraídos do meu organismo por difusão inversa, deixando o meu esqueleto num estado de fragilidade extrema, osteoporose em fase terminal.

Estava escrito no contrato, mas nós pensamos que vamos conseguir estar sempre com os pagamentos em dia. Até um dia...

Já por vezes me tinha questionado sobre o que acontecera a certos atletas que tinham ganho muitas competições, depois passado por uma fase de segundos e terceiros lugares, e de repente desaparecido de campeonatos e provas, dos jornais e TV. Agora já sei. Fiquei a saber quando dois enfermeiros fizeram rolar a minha cama, com o sistema de suporte de vida acoplado, ao longo daquela enorme enfermaria, até ao lugar que me estava destinado.
Passei por uma cama onde estava Jack Steel, que foi recordista da maratona olímpica durante 10 anos seguidos. E outra com Ray Hoyle, campeão do decatlo, eleito desportista do ano em 5 anos consecutivos. E outro, e mais outro, aquela enfermaria daria para encher um Hall of Fame do desporto mundial.
Como é que dizia o contrato que assinei – que provavelmente todos assinámos – com a Sports Insurance Inc.?
“O Primeiro Contratante obriga-se a envidar todos os esforços para manter vivo o Segundo Contratante.”
E estou seguro que eles cumprirão escrupulosamente esta cláusula.

Se tivesse olhos, choraria.

sexta-feira, 13 de março de 2009

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Transparência

O candidato a deputado tinha uma vida exemplar. Marido fiel, pai extremoso, actividade profissional acima de qualquer crítica...
“Mas esse é o problema!”, dizia o director de campanha.
“O problema é eu ter uma vida irrepreensível?” perguntou o candidato, incrédulo.
“Claro, os eleitores gostam de votar em quem sentem que é como eles. Quem é que nunca deu uma facadinha no matrimónio? Ou passou um sinal vermelho? Ou enganou o fisco numa transacção? Portanto, recapitulando: temos que encontrar uma pequena falha que, numa atitude de transparência, você próprio dirá às pessoas que cometeu.”
“Nunca fumou erva?”
“Não...”
“Mesmo sem engolir o fumo...” sugeria, esperançado, o director de campanha.
“Já lhe disse que não!”
“Uma multa por excesso de velocidade?”
“Nunca.”
“Já bateu num dos seus filhos?”
“Nem uma vez, sou contra os castigos corporais.”
O director de campanha suspirou. Arrumou os papeis, mas antes de se retirar ainda disse ao candidato:
“Pense nisso. Amanhã é o último discurso da campanha. Os seus dois adversários já tornaram conhecidas as suas pequenas fraquezas: um deles com aquela questão da pensão de alimentos do divórcio litigioso, o outro com a participação que teve na falência do Banco Agrícola. Se você não arranja alguma coisa para mostrar, as pessoas vão desconfiar e pensar o que é que estará a esconder... E olhe que as últimas sondagens dão-vos praticamente empatados...”

O candidato ficou a pensar, rememorando a sua vida passada, na tentativa de encontrar alguma coisa que pudesse ser usada na campanha. Foi recuando no tempo, até que... sim, aquilo talvez pudesse servir...

No dia seguinte, no comício de encerramento da campanha, o candidato discursava sobre um mar de gente, balões, bonés, faixas, aplausos:
“(...) e vou confessar-vos uma coisa: há muitos anos, era eu criança, o meu pai tinha deixado umas moedas sobre a mesa de cabeceira, e eu tirei uma moeda e fui comprar caramelos. Anos mais tarde, disse-lhe o que tinha feito e ele perdoou-me... também porque eu tinha dado metade dos caramelos à minha irmã mais nova!”

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sexta feira, 13

foi o dia em que saiu, apropriadamente, o Nº 13 da Minguante, cujo tema era Superstições. Nela poderão ler a minha pequena contribuição "O Conferencista".

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Escrita "condicionada"

Escrever sujeito a condições restritivas constitui um exercício que pode produzir resultados interessantes. Os constrangimentos mais habituais são a extensão (número de palavras ou de caracteres) e/ou o tema.
Os visitantes deste blogue já aqui têm visto referências à revista Minguante, onde tenho colaborado desde o Número Zero (apenas falhei o Nº 3, devo ter-me distraído...).
Cada número da Minguante tem um tema, e cada contribuição não pode exceder 200 palavras. Neste primeiro post do ano, coloquei aqui alguns dos textos que lá tenho publicado. Antes de cada um está a indicação do tema e a ligação para a revista onde podem ler mais textos sobre o mesmo tema.
Para os que se possam sentir tentados, o próximo tema é SUPERSTIÇÃO e a data limite de envio 15 de Janeiro. Mais informações no site...

E Feliz Ano Novo!



Tema: O BANAL

Um conto banal

Era um conto banal. Uma linguagem nem rebuscada nem demasiado simples, um tema que não pecava pela originalidade, descrição do ambiente aceitável, desenho das personagens mediano, um desenrolar da acção – se se lhe podia chamar acção – sem surpresas. Banal era de facto uma classificação perfeitamente ajustada. Foi enviado para o concurso de contos porque o autor não tinha mais nada escrito e era o último dia do prazo.
Inesperadamente – ou talvez não – obteve o primeiro prémio. Numa transcrição parcial da acta da reunião do júri, constituído por três críticos literários muito cotados na praça, pode ler-se:
“(...) descrição pungente mas ao mesmo tempo com uma distanciação brechtiana da bidimensionalidade da vida nos subúrbios das grandes cidades (...) personagens vazias como vazio é o seu quotidiano (...) desde o fim do nouveau roman que não surgia uma obra literária que tão bem representasse a angústia sem objectivos de uma classe média em processo de atomização (...)”
O autor ficou entusiasmado com aquilo que o júri tinha conseguido ler no seu conto. Sentou-se logo ao computador e começou a escrever um segundo. Sim, porque ideias para contos daqueles tinha ele aos montes...



Tema: O AZUL

A guerra das cores

No país azul, tudo era azul (daí o nome) e todos viviam felizes. Do azul marinho ao azul celeste, uma vasta gama de azuis resplandecia nas pessoas e coisas. Consta que foi neste país que George Gershwin escreveu a famosa Rhapsody in Blue. Do outro lado da fronteira era o país amarelo, cujos habitantes não gostavam dos azuis, nem um bocadinho. E vai daí, uns amarelos infiltraram-se no país dos azuis e espalharam na água um pó amarelo que aos poucos começou a combinar-se com os azuis nativos e a dar verdes. Os cientistas azuis puseram-se ao trabalho e em pouco tempo inventaram um pó anti-amarelo, que neutralizava o efeito do ataque dos vizinhos. Os azuis eram pacíficos por natureza, mas tinham que dar uma lição aos amarelos. Inventaram um pó vermelho e um avião azul sobrevoou o país amarelo e libertou o pó no ar. Tudo o que era amarelo começou a ficar laranja. E enquanto a azulidade voltava lentamente ao país azul, os laranjas (antigos amarelos) coçavam-se todos, porque ainda por cima eram alérgicos aos citrinos.
Foi muito bem feito!



Tema: A MUDANÇA

Todo o mundo é composto de mudança

– Que escreveis, Luis Vaz?
– Um soneto, senhora.
– Deixai-me ler: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança (...)
– Perante isto, que é do amor eterno que ontem juráveis?
O poeta ficou calado. Ao fim de uns segundos, uma gargalhada cristalina quebrou o silêncio:
– Não vos amofineis, Luis Vaz. Às vezes me apraz zombar um pouco de vós. Eu também li Petrarca e os outros mestres. Sei bem que o “eterno” dos amantes só o é enquanto dura a paixão... E Caterina de Ataíde rematou sorrindo:
– Estarei à vossa espera onde sabeis, à hora que sabeis. E agora dou-vos a Deus, Luis Vaz.
O roçagar de rendas e sedas fica nos ouvidos de Camões enquanto Caterina se afasta correndo. Suspirando, o poeta dirige-se ao Malcozinhado, onde combinou com seus amigos jogar aos dados um canjirão de vinho. E na sua cabeça começa a surgir outro poema para ofertar a Caterina: Senhora partem tão tristes / Meus olhos por vós meu bem...
E descendo a calçada vai saudando os vadios e as rameiras com quem se cruza, que lhe retribuem as saudações com rasgados sorrisos.



Tema: A AUSÊNCIA

A ausência do professor

Quando na disciplina “Filosofia Tradicional Portuguesa” ia ser discutida a ausência, o professor ausentou-se. Isto passou-se há já uns anos, mas como era do quadro, é preciso que passem 20 anos sobre o seu desaparecimento para poder ser aberto concurso para a sua substituição.

A ausência do doente

“Esta ausência dói-me, senhor doutor!” “Deixe ver, senhor Francisco. Hum, isto está de facto com mau aspecto...” “É grave, senhor doutor?” “Grave, grave, não é, mas o tratamento que lhe vou fazer não é comparticipado...” “Oh senhor doutor, eu quero é ficar bom!” O médico abriu uma gaveta e retirou uma presença. Aplicou-a sobre a ausência. Não foi suficiente. Aplicou uma segunda presença. Agora sim, conseguiu neutralizar a ausência. “Era uma ausência bem grande, senhor Francisco.” “Sinto-me muito melhor, senhor doutor. Muito obrigado.” “Ora essa, senhor Francisco. Desejo as melhoras. Pode pagar na recepção.”



Tema: CELEBRAÇÃO

Concelebração

– É célebre?
– Celebérrimo! Uma verdadeira celebridade.
– Então temos que celebrá-lo.
– Mas se já é célebre, para quê a celebração?
– Porque só se celebra o que já foi celebrizado.
(Pausa)
– Tenho uma dúvida...
– Que não viessem as célebres dúvidas. De que se trata?
– Como é que alguém se torna célebre?
O meu amigo ia responder-me quando apareceu o celebrante. Ia começar a celebração, mas chegou um segundo e depois um terceiro. Estes celebrantes quando lhes cheira a celebração, são como moscas ao mel!
Pareceu que iria haver uma discussão que ficaria célebre, mas rapidamente se puseram de acordo e fizeram uma concelebração.
E todas as celebridades presentes celebrizaram efusivamente.
E como o meu amigo não me chegou a responder, continuo com a minha dúvida...



Tema: ESPELHOS

Só nos encontramos nestas ocasiões

Eram uma família unida. Veio o primo do ramo das confecções (trabalhava num provador da Zara), o tio académico (meteu uns dias de licença no Hubble), a prima jet-set (ninguém a via fora da carteira Prada), todos no velório do espelho retrovisor, brutalmente esmigalhado naquele infausto acidente rodoviário.



Tema: A LEVEZA

Um planeta leve

Era tudo ao contrário naquele planeta (bem, nem tudo...). Os vendedores nos mercados faziam batota com as balanças para indicar mais leveza no artigo vendido, e os fiscais traziam pesos para compensar essas habilidades dos chico-espertos. As pessoas quando preocupadas sentiam o coração leve e no Brasil de lá (que ficava naturalmente no hemisfério norte) não se usava obviamente a expressão “barra pesada”.
Caía-se para cima, logicamente, o que tinha como desvantagem estar o espaço em volta do planeta juncado de detritos (eu disse que nem tudo era diferente...).
Ganhar peso tornou-se uma moda e os ginásios multiplicavam-se como cogumelos. Só que em vez de exercício físico serviam refeições pantagruélicas.

Início de balada

“Batem leve, levemente...”, pensou o gatuno, que era bastante surdo, quando lhe bateram à porta. Na realidade, eram dois agentes da polícia munidos de um mandado de busca.



Tema: DESEMPREGO

Empregado, desempregado, ou mal empregado...

Não se viam desde o 9º ano. Quando se encontraram, abraçaram-se efusivamente.
“Então que fazes?”
“Olha, tirei Psicologia, depois fiz o Mestrado, não arranjo emprego na minha área, trabalho como caixa no Continente. É a vida! E tu?”
“Estou desempregado.”
“Que chato, pá!”
“Não é nada chato! Depois do 9º ano fui para uma escola profissional aprender de electricista. Faço uns biscates, trabalho não falta, sem recibos, claro, e estou a receber do Fundo do Desemprego. Não é mau...”



Tema: VÍCIOS

3 estórias viciosas


1. A influência do ambiente

No jardim das virtudes, bem no meio delas, nasceu um dia um vício. Quando deu por isso, estava virtuoso...


2. Diagnóstico

Era um verdadeiro viciado em virtude... (Aqui entre nós, era um verdadeiro chato!)


3. Não tinha mau fundo...

Toda a gente afirmava que ele era um poço de virtudes; a roldana e a corda é que estavam viciadas. E o balde também...



Tema: O DESEJO

Os caminhos do Desejo

O Desejo chegou a uma bifurcação no seu caminho. Se fosse pela esquerda, que conduzia a Frustração, continuaria a existir; se seguisse pela direita, que levava a Satisfação, morreria, naturalmente.
Incapaz de decidir, angustiado pela escolha a fazer, o Desejo suicidou-se, indesejando-se.
Algum tempo depois, naquele mesmo sítio, um Desejo pequenino brotou de uma fenda entre duas pedras, e dia a dia foi crescendo, tornando-se cada vez mais forte...



Tema: FADO

Generation gap

– O que é isto que estás a ouvir?
– Fado.
– É estranho...
– Pois é, há quem goste, outros não...
– A música é assim tipo meio fixola, mas do que é que ela fala?
– Da tristeza, da ausência, da saudade...
– Que seca!
– Hás-de vir a gostar...
– Eu? Quando?
– Quando fores um cota como eu!
– Eu? Eu nunca vou ser um cota como tu!
– Santa ignorância...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A Asa de Pedra


Ao longo dos anos,
A água inscreve na rocha
Uma lição de física



Erosão hídrica na Calçada de Alpajares, Parque Natural do Douro Internacional, Freixo de Espada à Cinta.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Antes de assinar, deve ler sempre as letras pequeninas...

O Bilas, de seu verdadeiro nome Bernardo Lacerda, era um inovador em alterações corporais.
Foi um dos primeiros da turma a fazer piercings, mas tirou-os todos quando aquilo passou a ser uma moda e era difícil encontrar alguém sem uma argola no nariz ou no sobrolho...
Umas semanas depois, apareceu-nos com os olhos totalmente vermelhos. Disse-nos que no dia anterior tinha esperado mais de três horas na fila para entrar na clínica onde aplicavam aquela técnica de injectar corantes na córnea.
Ainda nós todos passeávamos com os auriculares nos ouvidos a bombar decibéis quando ele fez um dos primeiros implantes auditivos: injecção directa da música no nervo auditivo, mudança de faixa pressionando atrás da orelha. A malta ficou banzada, poder passar uma aula a ouvir música sem o setôr dar conta!
Foi então que as operadoras de telemóvel surgiram com a última novidade: tornar obsoleto o aparelho, embutindo o auricular no polegar, o microfone no dedo mínimo e nos outros dedos sensores de pressão para marcação dos números e acesso às restantes funcionalidades do plano subscrito.
E enquanto a malta tinha que continuar a encostar o télé ao ouvido era ver o Bilas, polegar junto à orelha e mínimo esticado junto à boca, perdido em intermináveis conversas.
Mas o Bilas é muito distraído e esqueceu-se de pagar a mensalidade...
No sábado passado, tocaram-lhe à porta às 11 da manhã. Foi abrir meio ensonado e deu de caras com um grupo que incluia um tipo de fato escuro, um polícia e mais dois de bata branca. O de fato escuro confirmou a identidade do Bilas e disse:
“Tem de nos acompanhar.”
“Acompanhar aonde?”
“Ao hospital, para dar execução à cláusula 22 do Contrato que o senhor assinou com a companhia Transceptor Incorporado que eu represento.”
Que cláusula 22?”, perguntou o Bilas, que já estava a achar a situação um pouco estranha.
O outro, que devia ser advogado, disse: “Vou ler-lhe a cláusula em questão. Cláusula 22 – O subscritor do plano declara que tomou conhecimento que a tecnologia implantada é um processo irreversível, que implica a fusão de componente sintéticos e orgânicos. Consequentemente, em caso de incumprimento do contrato, em particular falta de pagamento de mensalidades, o subscritor aceita que a operadora Transceptor Incorporado proceda à amputação da mão em que tiver sido instalado o transceptor, em estabelecimento deviamente credenciado pelo Ministério da Saúde.”
Quando o significado destas palavras entrou no seu cérebro ainda ensonado, o sono desapareceu completamente e o Bilas começou a gritar e gritou até que um dos de bata branca lhe aplicou uma injecção no braço com uma seringa que já trazia preparada.
Com o choque emocional, o transceptor entrou em modo emergência e todos os números da lista de contactos do Bilas receberam em simultâneo o seu grito de desespero. Ainda o tenho nos ouvidos...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Nova

Já começou a dar luz o Número 3 (editor e co-editor: Ricardo Loureiro e Nuno Fonseca). O pdf pode ser descarregado do link acima. São 80 páginas cheias de coisas para ler, entre elas um conto intitulado "O Povo do Livro" do autor deste blog.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Silêncio que se vai cantar o fado

que é o tema do Nº 12 da Minguante (como houve um número zero, na realidade é o 13, que até é um número mais adequado a fatalismos...) e onde tenho uma pequena variação em dó menor.

sábado, 8 de novembro de 2008

Subsídios para uma teoria da decisão - um "case study"

Alexandrino sempre foi um indeciso.
Em criança, se lhe ofereciam rebuçados de uma caixa, sentia-se incapaz de optar por um dos coloridos ou prateados objectos. Já sem falar da sempiterna pergunta "Gostas mais da mamã ou do papá?" em relação à qual ficava a olhar fixamente para a perguntadora tia Eufrásia, até esta se sentir incomodada e arranjar um pretexto para o largar e ir à procura de outra vítima.
No liceu, na turma que frequentou havia duas raparigas; nunca conseguiu decidir qual das duas convidar para sair.
Em casa só pode ter uma variedade de queijo, caso contrário levaria uma eternidade a decidir de qual deles cortar uma fatia para comer. E o mesmo acontece com qualquer outro tipo de alimento ou bebida.
Ir comprar qualquer coisa é um verdadeiro martírio para Alexandrino, porque agoniza em frente a diversas opções, seja comida, roupa ou uma simples esferográfica.
Hoje de manhã, quando Alexandrino saiu de casa, teve uma desagradável surpresa: a passadeira de peões que existia praticamente em frente da porta do seu prédio, e que ele atravessava para, no outro lado da rua, apanhar o autocarro que o leva ao emprego, tinha desaparecido. Avançou até à beira do passeio e verificou que as faixas brancas que assinalavam a passadeira tinham sido pintadas por cima. Olhou à esquerda e à direita e viu que a cerca de 50 metros em ambas as direcções, a Câmara Municipal tinha criado duas novas passadeiras, em substituição daquela que tinha eliminado. A angústia perante a escolha instalou-se no seu espírito...

Isto passou-se cerca das oito e meia da manhã; são agora 19 e 45 e Alexandrino ainda lá está, parado na beira do passeio, incapaz de decidir sobre qual das passadeiras utilizar para atravessar a rua...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Odisseias Fantásticas

Bruno Jacinto arrancou a meio do mês com um agregador de blogues relacionados com o Fantástico nas suas diversas vertentes, que dá pelo nome de Odisseias Fantásticas.
Ainda está no início, mas já lá moram cerca de uma dúzia, entre os quais o "Das palavras..."
E há um convite expresso para candidatos a inquilinos...

sábado, 25 de outubro de 2008

Cobertura Televisiva Total

Naquele país longínquo(*), o primeiro ministro tinha uma das habituais reuniões com os seus assessores.
“Existem no país apenas 1400 casas sem televisão”, leu ele no memorando que lhe tinha sido entregue.
“Apenas 1400 casas...?” perguntou enfaticamente.
O assessor responsável pelo memorando acenou com a cabeça, concordante.
“Onde você escreveu apenas 1400 casas sabe o que eu leio? Eu leio ainda 1400 casas! Não está a ver o que isso significa? Isso significa que ainda há 1400 casas onde o Telejornal não chega, onde não se vê uma inauguração, onde não se assiste a uma conferência de imprensa dada por um ministro... Não percebe as implicações disto?”
O assessor, sentindo o gozo disfarçado dos colegas pela posição desconfortável em que se encontrava, ainda tentou resistir:
“Mas, senhor primeiro ministro, os restantes factos são muito positivos. Veja, somos o primeiro país da Europa em número de casas com dois aparelhos, a média de consumo diário de televisão é de 3 horas e 37 minutos...”
“Isso são prémios de consolação”, atalhou o primeiro ministro, imperativo. E continuou em tom dramático: “É preciso fazer alguma coisa para reduzir essas 1400 casas... a zero!”
“Vamos preparar um plano de distribuição de televisores a essas 1400 casas. Arranjar um fornecedor, obter os aparelhos, e anunciar, numa acção conjunta da Inserção Social com o País Tecnológico, um novo programa...”. Pensou uns segundos e completou: “TV para Todos!”. Se entregarmos 200 aparelhos por mês, o programa durará 7 meses, com a cobertura informativa adequada. E o nosso país será o primeiro no mundo, no mundo!, com cobertura televisiva total. E será um passo gigantesco, gigantesco, contra a info-exclusão!”
Olhou em volta, satisfeito com os sorrisos que viu nos assessores: “E agora, meus senhores, há trabalho a fazer! Go! Go! Go!”
O primeiro-ministro adorava usar estas interjeições no fim das reuniões. Dava-lhe uma sensação de dinamismo, e gostava de visualizar aquelas trinta e tal pessoas saindo dali a correr, como se cada uma transportasse consigo um grão do poder que emanava do chefe do executivo.

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O programa TV para Todos! foi lançado com pompa e circunstância. E as reportagens sucederam-se sobre aqueles cidadãos, em geral habitantes do país profundo, beneficiados com aquela oferta de televisores.
Joaquim Lucas, jornalista, trabalha no jornal “Ecos da Semana”. O chefe de redacção encarregou-o de preparar uma peça sobre o TV para Todos! para ser publicada, em jeito de balanço, quando o programa terminar.
Joaquim sabe que o ângulo humano é o fundamental. Vê todas as reportagens que saem nos diversos canais generalistas sobre o programa, embora as ache um bocado monótonas: descrição do agregado familiar, político que chega, entrega o televisor, o casal e filhos sorridentes a agradecer, ligam o aparelho, fim da reportagem.
O dia de hoje não é excepção. Joaquim, acomodado no sofá frente ao televisor, bebe uma cerveja e come uma sanduiche que trouxe da loja de conveniência à esquina da rua, e vai vendo mais uma série de entregas, quando surge uma que desperta o jornalista de investigação que existe nele. Começa como as outras, mas o que lhe chama a atenção é o casal referido não aparecer, as imagens mostram apenas fotografias deles, uma no dia do casamento, outra já mais velhos, uma imagem rápida do aparelho oferecido, duas frases curtas pelo jornalista destacado para a reportagem e transição para a seguinte. Mas por que razão o sr. António Justino não apareceu na reportagem?
Joaquim fareja aqui alguma coisa, pode ser a salvação da peça que tem que preparar e em relação à qual ainda não descobriu uma estrutura adequada. Abre o portátil, liga-se à web, vai ao site www.tvparatodos.pt e percorre a lista das pessoas que receberam (ou receberão) televisores até encontrar António Justino.
Toma nota da morada, Vale da Ribeira, um pequeno lugar nos arredores de Lisboa. Mete-se no carro, introduz o nome do lugar no GPS e põe-se em marcha.
Cerca de quarenta minutos depois está em Vale da Ribeira. Entra na taberna “A estrela da manhã” onde lhe indicam a localização da casa do Ti Justino. É uma pequena moradia, já praticamente no exterior do lugar.
Joaquim dirige-se para lá, pára o carro, observa a casa térrea, já um tanto decrépita, e percorre a pé o carreiro que leva à entrada. Quando vai bater à porta, sente uma pressão nas costas e alguém atrás dele diz-lhe: “Quietinho, não faças asneiras e não te acontece nada.” E noutro tom de voz: “Abre, temos uma visita.”
A porta abre-se, e surge um homem vestido de preto, com óculos escuros, um auricular no ouvido esquerdo, que se desvia para deixar entrar Joaquim e o companheiro. Não dizem quem são, mas Joaquim não precisa disso. Já antes contactou com elementos do Serviço Secreto e aqueles não enganam. O que se mantém atrás de Joaquim revista-o rapidamente. “Está limpo”, anuncia.
O outro fala: “Identificação.” Joaquim puxa da carteira profissional e mostra-lha.
“O que vieste fazer aqui?”
O jornalista pensa que não ganha nada em estar a inventar, e conta a verdade, como se sentiu intrigado por ver a reportagem sem que aparecessem as pessoas que recebiam o televisor, e que pensou que isso podia dar uma história.
Os dois agentes parecem ficar convencidos. Um deles ainda comenta para o outro: “Eu bem disse ao tipo da televisão que podia haver quem estranhasse a reportagem, mas o gajo insistiu, que as entregas tinham que ser todas registadas, e mais isto e mais aquilo...”
O que estava dentro de casa conduz Joaquim à outra porta da sala, abre-a e deixa-o espreitar para outro compartimento, escassamente mobilado, mal iluminado por uma lâmpada suspensa do tecto, onde estão sentados num sofá um homem e uma mulher, amarrados e amordaçados. Torna a fechar a porta.
“António Justino e a mulher?”, pergunta Joaquim. Os agentes confirmam.
“E porquê isto?”
“Quando chegámos com o televisor o Justino começou aos berros, que não queria o televisor para nada, precisava era de dinheiro para comprar sementes e rações para o gado, mas isso o governo não lhe dava, e continuou com insultos aos ministros e aos políticos em geral. Não seria bom que isso aparecesse na televisão. Por outro lado, se não fizéssemos a entrega, o objectivo do Governo de reduzir a zero o número de casas sem televisão não seria cumprido. Não podíamos permitir que um agricultor ignorante e analfabeto afectasse desta forma os objectivos do Governo, pois não?”
Joaquim não consegue deixar de concordar.
“E foi o único caso de... resistência?”
“Houve mais um ou dois; em 1400 pessoas há sempre algumas ovelhas ranhosas! Mas aí tivemos mais tempo, e conseguimos arranjar um vídeo que encaixou perfeitamente na reportagem. Desta vez não foi possível...”
“E o que vão fazer com eles?”
“Nada, libertamo-los daqui a umas horas, quando a entrega deles já não for notícia.”
“E se eles falarem?”
“Ora, quem vai acreditar num casal de agricultores meio patarecos? Vão ter tanta credibilidade como essa malta que jura que foi raptada por extra-terrestres e que andou a passear num OVNI.”
“E eu, posso ir-me embora?”
“Podes, mas atenção: o que viste e ouviste aqui não é notícia...”
Joaquim sabe detectar uma ameaça quando a ouve.
“Claro, eu não vi nada, na realidade nem estive aqui.”
“Acreditamos que não, mas vamos estar a observar-te.”
Enquanto conduz de volta a casa, Joaquim Lucas vai pensando: “Que pena, uma história com tanto potencial, e logo calha ser tão sensível do ponto de vista político. Eu podia transformá-la numa peça de ficção... Nãã, alguém ia relacionar com os acontecimentos e eu ficava à pega com os Secretos... Vou ter que deixar cair a história... Lá vai ter que ser a peça do costume, a cobertura total do país, a nota patriótica quanto baste, meia dúzia de frases tiradas de outras tantas entrevistas com contemplados, a era da informação, blá, blá, blá... Que pena..."

(*) Aviso aos leitores: esta frase de abertura deve ser considerada equivalente ao mais habitual “Qualquer coincidência com factos ou pessoas reais é pura semelhança”.

Agradeço a Carlos Fiolhais que num post no De Rerum Natura apresentou a informação que inspirou este texto.

domingo, 12 de outubro de 2008

Sinais de pontuação

Agradeço ao Nuno Fonseca uma frase, que falava de vírgulas, e que despoletou a escrita deste texto.

Memorando

De: Joaquim Silva, fiel de armazém
Para: Dr. Armando Aguiar, chefe do Departamento de Compras
Assunto: Sinais de pontuação

Em cumprimento da O.S. 75/2008, tenho a reportar o seguinte sobre a existência em armazém de sinais de pontuação:

1. Pontos de interrogação: quantidade suficiente. O consumo não é muito elevado, porque hoje em dia são raras as pessoas que se interrogam, e interrogar outros é como se sabe uma operação de risco, que tem de ser realizada com as devidas cautelas.

2. Pontos de exclamação: já praticamente ninguém se admira ou se espanta (o que não é de admirar), pelo que o consumo tem sido também muito baixo. Quantidade suficiente.

3. Reticências: como se sabe, não é prudente colocar reticências, em particular a sugestões vindas de cima, pelo que este é um sinal muito pouco usado. Se, de forma imprevista, o seu consumo aumentasse, poderiam sempre fabricar-se com 3 pontos finais.

4. Dois pontos: De uso cada vez menos frequente, a quantidade existente, embora pequena, é suficiente. Numa emergência podem usar-se dois pontos finais alinhados na vertical.

5. Ponto e vírgula: Acusado de cortes no discurso, este sinal continua a ser olhado com suspeita. A quantidade em armazém é suficiente. Em caso de necessidade pode ser construido com um ponto final e uma vírgula alinhados na vertical (o ponto em cima, a vírgula em baixo).

6. Ponto final: A quantidade em armazém precisa ser reforçada, não tanto por razões de utilização actual – verifica-se que os discursos continuam a ser pouco assertivos e portanto pouco finalizadores – mas porque podem ser utilizados na construção de reticências, dois pontos e ponto e vírgula. Propôe-se a compra de uma embalagem de 50000 pontos, porque o custo por ponto é francamente mais baixo do que nas embalagens de 20000 pontos.

7. Vírgulas: Sinal de grande utilização. Uma vírgula seguida de uma frase que repete por outras palavras o que acabou de ser escrito é um recurso estilístico muito frequente. O nosso fornecedor Acentos & Sinais SARL tem durante este mês as vírgulas em promoção, pelo que se propõe a compra de 2 embalagens de 20000 vírgulas.

8. Propõe-se ainda a compra de 5000 acentos agudos e graves, pois com muita frequência são colocados erradamente, e sempre que isso acontece têm de ir para o lixo, porque não podem ser reciclados.

9. Sugere-se no entanto que antes de firmar as encomendas, seja feita uma consulta ao Departamento Jurídico, para tentar prever as implicações da entrada em vigor do Acordo Ortográfico sobre os padrões de consumo de sinais de pontuação na nossa organização.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A vida está difícil para todos...

O chefe estava bravo, num daqueles dias em que o melhor é ouvir e calar!
“Uma vergonha!Vocês têm a lata de chegar aqui depois de uma noite de trabalho e entregar-me cento e cinquenta e três euros?”
“Oh chefe, não temos a culpa de no quiosque dos jornais a registadora estar quase vazia. E o restaurante que assaltámos a seguir também tinha pouco dinheiro; disse o dono que hoje a maior parte dos clientes paga com cartão...”
O Fusca bem podia ter ficado calado! A cara do chefe ficou mais encarnada e ele berrou:
“Não quero cá desculpas esfarrapadas. Eu estou a perder dinheiro com vocês e isto não pode continuar assim. Vou ter que cortar nas despesas!”
Olhámos uns para os outros, com receio do que iria sair dali.
“Primeiro, downsizing e outsourcing. Vamos passar a usar mão de obra temporária para a condução dos carros.”
O Mãozinhas, que é habitualmente o condutor, encolheu-se todo e perguntou a medo: “E eu, chefe?”
“Vais ter que te ir embora. O colégio onde andam os meus filhos precisa de um motorista para a carrinha de transporte dos miúdos. Vais lá inscrever-te, que eu dou um toque ao responsável dos recursos humanos do colégio.”
O Mãozinhas ficou com um ar muito infeliz, a imaginar-se a transportar criancinhas mimadas, e nós cheios de pena dele.
“Segundo, os assaltos vão passar a ser sempre de dia. Enquanto não aumentarem as receitas, eu não posso continuar a pagar horas extraordinárias.”
“Mas chefe, nós podemos trabalhar à noite sem horas extraordinárias”, avançou o Alicate, que estava a começar a ver o caso mal parado.
“Nem pensar! E depois ter o sindicato à perna, tribunal de trabalho e o diabo a quatro? Acaba o trabalho nocturno e pronto!”
“E mais: se me aparecem outra vez com uma caixa Multibanco com as notas todas pintadas, obrigo-vos a ir devolvê-la ao sítio de onde a tiraram!”
“Mas chefe, quando lá chegássemos com a caixa estava lá a bófia e íamos todos dentro”, disse o Neurónios, que não é propriamente um exemplo de esperteza.”
“Será a paga da vossa incompetência!”, respondeu o chefe, ainda mais irritado.
Fez uma pausa, tirou 2 comprimidos de uma caixinha, meteu-os à boca, e empurrou-os para baixo com meio copo de água. Aqueles eram os comprimidos para a tensão, mas ele só costumava tomar um de cada vez. A coisa estava preta!
“Vocês já apreciaram bem a cena? Cinco manguelas a quem eu pago salário, segurança social, subsídios de Natal e de férias, horas extraordinárias, aparecem-me aqui ao fim da noite, com o carro todo escalavrado, porque a fugir da bófia roçaram num muro – e ainda vou ter que pagar ao batechapas – e dizem-me que o resultado do trabalho foram cento e cinquenta e três euros? Cento e cinquenta e três euros? Estão a gozar comigo ou quê? Querem que eu vá à falência?”
Continuava tão bravo que nem tive tomates para lhe dizer que a carteira que gamei de esticão à velhinha à saída da missa só tinha dentro 78 cêntimos...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Notícias do trânsito

Ifigénio Branco gostava muito da estrada – de facto, oficialmente, uma avenida – onde todos os dias passava no ir e vir entre casa e trabalho.
A Avenida das Acácias – Ifigénio gostaria de conhecer o responsável por esse nome, para lhe agradecer o rasgo de imaginação – era uma via que ligava a urbanização periférica onde residia com a auto-estrada que depositava o fluxo diário de tráfego nas entranhas da cidade.
Era, na opinião de Ifigénio, uma avenida bonita, que consistia essencialmente numa recta, uma curva e outra recta, sempre ladeada de prédios de habitação económica. A única relação com o nome era, de onde em onde, uma árvore raquítica, criando o necessário contraste com o betão. A paisagem era ainda complementada pelos múltiplos graffiti que ao longo dos anos se tinham multiplicado sobre as paredes.
Um único facto entristecia Ifigénio todas as manhãs: o facto de a Avenida das Acácias nunca ser mencionada no noticiário sobre o trânsito. Ele era a IC19 engarrafada, ele era a Via de Cintura Interna com problemas, a A23 com um ocasional despiste, a A1 com trânsito lento no sentido Norte-Sul, o tráfego na A2 a arrastar-se a partir da segunda ponte do Feijó, a segunda circular, tudo aparecia na rádio excepto a Avenida das Acácias.
Um dia Ifigénio decidiu que tinha de fazer alguma coisa para corigir a situação. Depois da curva, os carros normalmente aceleravam para tentar chegar mais cedo à entrada na auto-estrada, onde iriam depois passar o resto do percurso a passo de caracol.
Nessa manhã Ifigénio preparou-se psicologicamente, fez a curva, acelerou como todos fizeram e subitamente travou a fundo. O carro detrás bateu nele, o detrás bateu nesse, e em poucos segundos, a Avenida das Acácias era um pandemónio.
Ifigénio pegou no telemóvel e, civicamente, ligou ao 112 para relatar a ocorrência e despoletar o envio de socorros. A seguir, ligou para a TSF e para a Antena 3 – as duas estações que habitualmente ouvia de manhã – e reportou o acidente.
Com o rádio do carro ligado, foi com prazer que minutos depois ouviu a notícia “Na Avenida das Acácias, o trânsito encontra-se parado devido a um choque em cadeia envolvendo pelo menos 10 viaturas. Os bombeiros e o INEM dirigem-se para o local do acidente.” E a confirmar, ouvia, cada vez mais fortes, as sirenes dos veículos de socorro.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Alterações climáticas

Uma das consequências imprevistas da diminuição do gelo ártico foi a antecipação do Fórum Fantástico. Leiam aqui o programa (a caminho de) completo.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O consumidor está muito desprotegido...

Quando despertou, estava sem orelhas. Ficou furioso! Acordou a mulher, que dormia a seu lado, e queixou-se:
"Tu já viste isto? Estes tipos da Limpeza enquanto dorme, SARL são uns aldrabões! O que é que dizia o prospecto? Levamos as peças depois de adormecer e trazemo-las de volta antes de acordar! Tretas! E agora sem orelhas, como é que eu vou trabalhar?"
A mulher tentou deitar água na fervura. "Olha, era pior se fosse o nariz. As orelhas ainda se disfarçam, está frio, pões o gorro de lã e um cachecol."
Mas ele continuava furioso. "E já é a segunda que fazem! Lembras-te quando faltou um dedo? E logo o do anel... E só o trouxeram dois dias depois, e com a unha por limpar... Na volta do trabalho passo pela agência e peço o Livro de Reclamações. Vão ter a Defesa do Consumidor à perna..."
A mulher encolheu os ombros. Até achava que ele ficava mais bonito sem orelhas, mas com ele tão zangado, não se atreveu a dizer nada...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Minguante nº 11

Fez dois anos! Não houve bolo, mas não faltaram Desejos...
Também lá estou a desejar que venham muitas futuras Minguantes, cada vez melhores...

RJIES - The shape of things to come...

Passou-se tudo muito depressa, ou talvez eu andasse meio distraído, a pensar nos dois anos que me faltam para a reforma.
Primeiro foi a paranoia das publicações. Claro que sempre tinha sido o aspecto mais importante na avaliação curricular, mas quando se começou a classificá-las com base nos factores de impacto das revistas, pareceu-me que se começava a exagerar.
E quando numa reunião comentei que os papers deviam contar 1/n, sendo n o número de autores, isso não me tornou muito popular, em especial perante os meus colegas que têm artigos em que a lista dos autores é maior do que o título do artigo.
Depois veio aquele novo regulamento que contabilizava tudo. Eu disse tudo? É que é mesmo tudo! Cada departamento tem que ser autosuficiente, e portanto a faculdade cobra-lhe a electricidade, o gás, a água, os telefones, os salários, o espaço ocupado por gabinetes e laboratórios a um tanto por metro quadrado, a limpeza, a segurança, etecetera, etecetera. Receitas? As propinas dos alunos, os overheads dos projectos, um tanto atribuído a cada aluno ensinado, outro tanto a cada publicação, e por aí fora.
Na 6ª feira ao almoço, enquanto os neoliberais entoavam loas a este original esquema de gestão, lembrei-me de comentar “Por este andar, ainda vão contabilizar o ar que respiramos dentro do campus da faculdade”.
Levei uma canelada do António, que estava sentado à minha frente, e quando olhei para o presidente do departamento vi que sorria de uma forma que me deixou um pouco inquieto...
No regresso do almoço, o António – conhecemo-nos há muitos anos, fomos colegas de curso – aproximou-se e disse-me em voz baixa, “És uma ganda besta, então agora dás-lhes ideias?”

Hoje, segunda feira, à entrada da faculdade, a segurança manda-me parar e sair do carro. É impressão minha ou até agora os seguranças não andavam armados? Entregam-me uma máscara, que me ajudam a colocar, que tem um contador que mede o ar respirado. Ainda tento protestar mas não tenho escolha, a alternativa é não entrar.
Quando me aproximo do edifício do departamento, um grupo de 4 colegas vem ter comigo, todos eles de máscara, naturalmente. Um deles é o António, que me diz “Precisamos que venhas aqui ao laboratório para veres uma coisa” e no caminho vai fazendo a conversa, “Estivemos a fazer umas contas, e a tua contribuição para o departamento é muito deficitária, publicas pouco, não tens cargos de gestão”, “Já tive!”, interrompo eu, “OK, mas esses não contam, agora não tens, os alunos não escolhem as tuas cadeiras”, interrompo novamente, “Se vocês não lhes pagassem para se inscreverem nas vossas talvez continuassem a escolher as minhas”, mas ele continua como se não me ouvisse, “e seria melhor para todos se pedisses já a reforma, porque assim o teu salário deixa de estar a cargo do departamento, e tens que decidir rapidamente, o Raul até já tem aqui o requerimento pronto, é só assinares...”, tenho que pensar depressa, eles são 4, conseguirão dominar-me facilmente, e o caminho por onde me conduzem leva à nova câmara de vácuo, destinada a simular as condições existentes no espaço exterior...