segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Alterações climáticas

Uma das consequências imprevistas da diminuição do gelo ártico foi a antecipação do Fórum Fantástico. Leiam aqui o programa (a caminho de) completo.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O consumidor está muito desprotegido...

Quando despertou, estava sem orelhas. Ficou furioso! Acordou a mulher, que dormia a seu lado, e queixou-se:
"Tu já viste isto? Estes tipos da Limpeza enquanto dorme, SARL são uns aldrabões! O que é que dizia o prospecto? Levamos as peças depois de adormecer e trazemo-las de volta antes de acordar! Tretas! E agora sem orelhas, como é que eu vou trabalhar?"
A mulher tentou deitar água na fervura. "Olha, era pior se fosse o nariz. As orelhas ainda se disfarçam, está frio, pões o gorro de lã e um cachecol."
Mas ele continuava furioso. "E já é a segunda que fazem! Lembras-te quando faltou um dedo? E logo o do anel... E só o trouxeram dois dias depois, e com a unha por limpar... Na volta do trabalho passo pela agência e peço o Livro de Reclamações. Vão ter a Defesa do Consumidor à perna..."
A mulher encolheu os ombros. Até achava que ele ficava mais bonito sem orelhas, mas com ele tão zangado, não se atreveu a dizer nada...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Minguante nº 11

Fez dois anos! Não houve bolo, mas não faltaram Desejos...
Também lá estou a desejar que venham muitas futuras Minguantes, cada vez melhores...

RJIES - The shape of things to come...

Passou-se tudo muito depressa, ou talvez eu andasse meio distraído, a pensar nos dois anos que me faltam para a reforma.
Primeiro foi a paranoia das publicações. Claro que sempre tinha sido o aspecto mais importante na avaliação curricular, mas quando se começou a classificá-las com base nos factores de impacto das revistas, pareceu-me que se começava a exagerar.
E quando numa reunião comentei que os papers deviam contar 1/n, sendo n o número de autores, isso não me tornou muito popular, em especial perante os meus colegas que têm artigos em que a lista dos autores é maior do que o título do artigo.
Depois veio aquele novo regulamento que contabilizava tudo. Eu disse tudo? É que é mesmo tudo! Cada departamento tem que ser autosuficiente, e portanto a faculdade cobra-lhe a electricidade, o gás, a água, os telefones, os salários, o espaço ocupado por gabinetes e laboratórios a um tanto por metro quadrado, a limpeza, a segurança, etecetera, etecetera. Receitas? As propinas dos alunos, os overheads dos projectos, um tanto atribuído a cada aluno ensinado, outro tanto a cada publicação, e por aí fora.
Na 6ª feira ao almoço, enquanto os neoliberais entoavam loas a este original esquema de gestão, lembrei-me de comentar “Por este andar, ainda vão contabilizar o ar que respiramos dentro do campus da faculdade”.
Levei uma canelada do António, que estava sentado à minha frente, e quando olhei para o presidente do departamento vi que sorria de uma forma que me deixou um pouco inquieto...
No regresso do almoço, o António – conhecemo-nos há muitos anos, fomos colegas de curso – aproximou-se e disse-me em voz baixa, “És uma ganda besta, então agora dás-lhes ideias?”

Hoje, segunda feira, à entrada da faculdade, a segurança manda-me parar e sair do carro. É impressão minha ou até agora os seguranças não andavam armados? Entregam-me uma máscara, que me ajudam a colocar, que tem um contador que mede o ar respirado. Ainda tento protestar mas não tenho escolha, a alternativa é não entrar.
Quando me aproximo do edifício do departamento, um grupo de 4 colegas vem ter comigo, todos eles de máscara, naturalmente. Um deles é o António, que me diz “Precisamos que venhas aqui ao laboratório para veres uma coisa” e no caminho vai fazendo a conversa, “Estivemos a fazer umas contas, e a tua contribuição para o departamento é muito deficitária, publicas pouco, não tens cargos de gestão”, “Já tive!”, interrompo eu, “OK, mas esses não contam, agora não tens, os alunos não escolhem as tuas cadeiras”, interrompo novamente, “Se vocês não lhes pagassem para se inscreverem nas vossas talvez continuassem a escolher as minhas”, mas ele continua como se não me ouvisse, “e seria melhor para todos se pedisses já a reforma, porque assim o teu salário deixa de estar a cargo do departamento, e tens que decidir rapidamente, o Raul até já tem aqui o requerimento pronto, é só assinares...”, tenho que pensar depressa, eles são 4, conseguirão dominar-me facilmente, e o caminho por onde me conduzem leva à nova câmara de vácuo, destinada a simular as condições existentes no espaço exterior...

terça-feira, 22 de julho de 2008

Químicamente impuro

Sergio Gaut vel Hartman edita um site com o título acima - link na lista aqui à direita. "Minificciones, microcuentos, hiperbreves, relatos cortos (...) entre 40 y 130 palabras", o difícil é acompanhar o ritmo do aparecimento de novos textos. E as ilustrações são em geral escolhas perfeitas...
Agradecendo o convite, também lá estou: podem ver aqui a minha contribuição actualizada. Mas vão lá, porque todos os dias há novidades!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Reunião...

Era uma reunião secreta, num local secreto.
À volta de uma mesa com bebidas e aperitivos, vários homens, de fato cinzento e gravatas discretas, tomavam decisões.
Um deles disse: "O nosso Conselho de Administração votou ontem um aumento de 35 por cento para todos os membros. O departamento financeiro diz que para manter os lucros temos que aumentar a gasolina e o gasóleo em 5 cêntimos por litro".
"Stormfield tem afinal o dobro das reservas inicialmente previstas", disse outro. "Vamos subir o preço do crude em 2 dólares por barril".
"Mas isso não seria um motivo para baixar o preço?" perguntou um, sorrindo ironicamente.
"Não podemos dar sinais errados ao mercado", declarou o primeiro, provocando vários acenos de concordância.
"O presidente Bush espirrou duas vezes seguidas! Vamos aumentar a gasolina um dólar por galão".
A um canto da sala sentava-se um homem, este vestido de preto, que só bebia sumo, e que ia introduzindo num computador as alterações de preços ali decididas.
"O mercado livre e aberto é o ideal, porque da livre concorrência resulta naturalmente um abaixamento dos preços no consumidor", disse um dos que estavam à volta da mesa, muito sério.
Ficou tudo em silêncio e logo a seguir estalou uma gargalhada geral. Um dos homens engasgou-se até lhe sair uísque pelo nariz. Os outros deram-lhe palmadas nas costas.
E disse o que se tinha engasgado, ainda com as lágrimas nos olhos: "Oh pá, não contes anedotas quando eu estou a beber..."

sábado, 10 de maio de 2008

Minguante

Saiu o Nº 10, com o tema Vícios.
Lá está uma presença minha, ao lado de mais 52 produtores(as) de textos e imagens.
Só lá falta a biografia daquele escritor que estava tão viciado em estórias pequenas (por alguns designadas menores) que já lhe chamavam pedofiliterário...

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Natal em Little Town

O conto com o título acima foi publicado no ezine Somnium, no site do CFLC (Clube dos Leitores de Ficção Científica).
Aparecendo claramente fora da época natalina, justifica-se uma justificação: destinava-se a um número que deveria ser publicado no fim de ano mas que só agora viu a luz.
Estando fora de época, espero que não esteja "fora de prazo", no sentido habitual desta última expressão, o que poderia dar lugar à intervenção da ASAE...
Mas não consta por aí que "Natal é quando um homem quiser"?

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Negócios de PT

Foi cliente da PT durante dezenas de anos. Ficou farto de pagar mensalmente uma assinatura superior ao custo das chamadas que efectuava. E quando surgiu a possibilidade de mudar mantendo o número, mudou para a concorrência.
Quando à PT chegou a sua carta a requerer a transferência de número, recebeu um simpático telefonema com uma proposta que já não incluia a assinatura e cujo preço era marginalmente inferior ao da concorrência. Agradeceu e recusou, educadamente.
Pediu mentalmente desculpa à etnia cigana por todas as vezes que no passado tinha utilizado a expressão "negócio de ciganos", e jurou a si próprio que a partir daquela altura passaria, em circunstâncias análogas, a usar sempre a expressão "negócios de PT"!

Contos à dist. de 1 click (7): Leituras

Tendo como pretexto o Dia Mundial do Livro, ontem comemorado, uma ligação para o Tecnofantasia onde podem ler "Leituras"...

sábado, 19 de abril de 2008

Vida (quase) eterna

Eram os dez homens mais ricos do planeta. No conjunto, possuíam mais de 95 por cento da riqueza da Terra. Eram também responsáveis, através de decisões suas ou de empresas que dominavam ou de governos que controlavam, por quase tudo que sucedia aos habitantes do planeta.
Com uma pequena parcela das suas incomensuráveis fortunas, financiaram um Instituto de Investigação destinado a estudar o prolongamento da vida.
Ao fim de alguns anos, o Instituto produziu o primeiro resultado: um método de hibernação perfeito. As experiências, primeiro em animais, depois em voluntários pagos, mostraram que era possível colocar seres humanos de forma segura em animação suspensa.
Decidiram pôr-se a si próprios nessa condição durante um período de 500 anos. De acordo com as melhores projecções, esse período seria suficiente para que os maiores génios do mundo, a trabalhar no Instituto, descobrissem o tratamento de que resultaria a imortalidade.
No interior bem protegido de uma montanha, uma sala circular alojava os dez sarcófagos criogenados, com os respectivos sistemas de suporte de vida. Uma pequena central nuclear fornecia a energia necessária ao funcionamento de todo o complexo.

Um erro de programação fez com que o prazo para o despertar fosse fixado, não em 500, mas em 5000 anos.

Três mil anos após o início da hibernação, o planeta estava moribundo. Os recursos esgotados, o ar, a terra e os rios e mares poluídos, a população em rápido declínio... Mas aqueles que tinham sido os dez homens mais ricos da Terra continuavam a dormir o seu sono de séculos...

Passaram mais mil anos, e o leilão do sistema solar deu o resultado que era previsto. As melhores peças – a cintura de asteróides com os seus minerais extremamente valiosos, as luas de Júpiter ricas em hidrocarbonetos – foram arrematadas por poderosas confederações planetárias. O terceiro planeta, praticamente morto, foi comprado por um planeta longínquo, por um valor marginalmente superior ao preço base de licitação.


O chefe de projecto examinava os planos de construção da unidade offshore que ia ser montada para extrair metais da água do mar. Fazer recuperação de resíduos à escala planetária era uma actividade complicada: cumprir prazos utilizando equipamento de segunda e mão de obra pouco qualificada – ninguém queria vir enterrar-se num planeta morto a anos luz de casa. Neste caso particular, o único ponto favorável era que, devido à estupidez dos nativos entretanto desaparecidos, os teores de metais valiosos nos oceanos eram extremamente elevados.
A sua linha de pensamento foi interrompida pelo aparecimento de um subordinado que, depois de uma saudação ritual apressada, informou:
“Chefe, descobrimos a origem dos sinais que estávamos a obter. É uma pilha radioactiva, que ainda tem umas largas centenas de anos de vida útil!”
“Finalmente uma boa notícia! Retirem-na do local onde está e montem-na na nova unidade de extracção.”
Mas há um problema, chefe. A pilha está a alimentar o sistema de suporte de vida de dez sarcófagos que estão numa câmara escavada naquele bloco rochoso...”
“E o que está nos sarcófagos? Material orgânico, não é? Descarreguem o conteúdo nos tanques de alimentação da central hidropónica. Neste miserável planeta precisamos de todos os nutrientes que conseguirmos arranjar!”

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Bad Manners

O conto com o título acima acaba de aparecer no número 119 da revista online AntipodeanSF, dedicada à "short-short fiction" (cerca de 500 palavras).
Será praticamente impossível vir a publicar mais longe de casa...

sexta-feira, 28 de março de 2008

A Nanomoda

Houve um tempo em que a nanotecnologia era o que estava a dar: eram institutos, conferências, revistas científicas, patentes, spin-offs, acções cotadas na bolsa...
Mas os cientistas foram ficando cada vez mais pequeninos(*), e quando menos se esperava, a bolha nano rebentou, com as consequências por demais conhecidas: falências, desemprego, crise bolsista, reavivar dos nacionalismos, etc, etc.
Foi aí que apareceu a nova coqueluche: a picotecnologia.
E os profetas da desgraça anunciaram: "E isto não vai ficar por aqui..."

(*) Há dúvidas entre os linguistas se esta frase deve ser entendida num sentido real ou metafórico...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Minguante

Com um novo visual, saiu o Nº 9, com o tema Desemprego.
Para não ficar desempregado, lá tenho a minha pequena contribuição.
E um obrigado ao Fernando pela rapidez com que resolveu o problema do mail extraviado.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

A vida é como os elevadores...

Cilinha Pomar entrou em casa, fechou a porta, colocou a corrente de segurança, pousou o saco plástico com as compras na bancada ao lado do fogão e respirou fundo. Lá fora, nunca se sentia totalmente em segurança. Ali, na protecção relativa do minúsculo apartamento, podia baixar a guarda e voltar a ser ela própria.
Tomou um duche rápido – iam longe os tempos em que podia preguiçar num banho de espuma – limpou-se e vestiu um roupão felpudo. Pôs umas gotas de Allure, para ver se conseguia disfarçar o cheiro daquele horroroso Zara Woman que era obrigada a usar durante todo o dia. Foi ao mini-frigorífico e tirou uma garrafa de Martini Bianco; deitou dois dedos num copo, juntou-lhe gelo, uma rodela de limão e levou o copo para a mesinha da saleta. A seguir foi ao roupeiro, tirou uma mala que abriu e do fundo, onde estava escondido debaixo da roupa, retirou um molho de revistas que trouxe para a mesa. Sentou-se no sofá e deu início ao seu ritual diário: relembrar o passado.
Era uma operação ao mesmo tempo agradável e dolorosa. Enquanto bebia o Martini em pequenos goles folheava as velhas revistas, que em fotografias luminosas lhe mostravam um tempo em que a sua vida era um rodopio de festa em festa. Recepções, aniversários, inaugurações, festas disto e daquilo, e lá estava ela, loira e linda, no meio do beautiful people do qual fazia parte, a nata da sociedade, aparecendo em tudo o que acontecia de importante... Aqui no casamento da Mané Boboca, com um vestido lindo, um decote que fazia os homens virar a cabeça... Esta na festa de aniversário da revista Faces... E esta série na ilha da Poporapaca, onde tinha passado uma semana ma-ra-vi-lho-sa, tudo pago pela TV Global...
E agora ali estava ela, com o cabelo cortado e pintado de castanho, tendo que sair à rua vestida com roupas horrorosas, a trabalhar naquele pronto-a-vestir para sub-urbanas, tendo que disfarçar a postura, a forma de falar, enfim, todos os atributos que a faziam ser a Cilinha Pomar!
E sempre que pensa que a culpa de tudo isto é da debilóide da tia Patrucha, fica-lhe com um ódio que não pode!
Lembra-se como se fosse ontem, e rememora de forma quase masoquista todos os detalhes que conduziram à situação actual. Tinha estreado havia pouco tempo o programa Upstairs, e a Patrucha andou a ligar a meio mundo, avisando que ia aparecer nessa noite no programa: “Cilinha, filha, não se esqueça de me ver na télevisão!”
A entrevista foi decorrendo com aquelas baboseiras habituais, quando a Patrucha resolveu dizer à entrevistadora: “Querida, quem não é colunável, não existe!”
No dia seguinte, um daqueles jornais popularuchos resolve pespegar essa frase na primeira página, em letras garrafais: “Patrucha Gonçalves no Upstairs: Quem não é colunável, não existe!”. Nesse dia à noite os telejornais citavam o pasquim, os comentadores citavam os telejornais, as cartas aos directores continuavam a criticar, os editoriais ampliavam a notícia, e não tardou muito até haver multidões à porta da tia Patrucha que a insultavam quando ela entrava ou saía. Daí a começarem a atirar pedras às janelas foi um passo. E esta agressividade começou a alargar-se a todo o jet set. As revistas sociais tiveram de suspender a publicação, depois de várias edições terem sido destruídas por grupos de marginais que arrancavam os exemplares dos escaparates e os queimavam na rua.
O Pedro Avelar – o Pedrocas – apercebeu-se da má onda que estava a formar-se, porque nas redacções dos jornais sabe-se sempre tudo mais cedo, e avisou-nos para mantermos um low profile e se possível desaparecermos durante uns tempos.
Fui esconder-me na quinta da Mitucha, onde estivemos umas semanas em relativa segurança. Só não podíamos dar muito nas vistas, pelo que os passeios a cavalo pelas aldeias em redor e as festas à noite na praia estavam fora de questão. Cortei o cabelo – fartei-me de chorar olhando as madeixas loiras no chão – e pintei-o de castanho. E fora de casa passei a andar sempre de óculos escuros, uns óculos enormes, horrorosos.
Entretanto o Pedrocas – fico sempre espantada com os contactos que os jornalistas têm – conseguiu arranjar-me um bilhete de identidade falso. Fiquei-lhe toda agradecida, mas quando vi o nome por pouco não lhe apertei o pescoço: Cátia Vanessa! De todos os nomes do mundo, tinha que ser o nome sub-urbano por excelência!
Ele defendeu-se, dizendo que não se escolhem os nomes quando se compra um BI no mercado negro, é o que aparece. Isso não impediu que durante duas ou três semanas mal lhe tivesse falado. Cátia Vanessa, com franqueza, que horror!
Arranjei trabalho na Zara, todo o dia a dobrar camisolas, calças e saias que aquelas mongas tiram das prateleiras e largam de qualquer maneira em cima dos balcões. Uma estucha!

Cilinha interrompeu os seus pensamentos quando bebeu a última gota de Martini. Arrumou cuidadosamente a pilha de revistas, que tornou a meter na mala, e guardou a mala novamente no roupeiro. Sabia o perigo que corria em ter as revistas na sua posse, mas não conseguia destruí-las, seria como se destruisse uma parte de si própria.
Foi então preparar qualquer coisa para jantar: uma sanduiche de atum com pepino, alface e uma rodela de ovo cozido, em pão castanho. Tirou uma lata de coca-cola light do frigorífico e colocou tudo numa bandeja, que transportou para a mesinha da saleta.
Ligou a televisão enquanto comia. Não havia nada de jeito, agora que o Big Brother, Quinta das Celebridades e programas do género tinham acabado. Os concursos eram outra vez daqueles de perguntas, e ela aborrecia-se de assistir porque raramente conseguia adivinhar as respostas.
Estava a acabar de jantar quando tocou o telemóvel. Era a Mané, que despejou umas quantas banalidades, metendo no meio a seguinte frase: "O tempo vai manter-se estável nos próximos dias". O que queria dizer que a reunião seria na sexta-feira, no mesmo sítio, à mesma hora.
Se alguns meses atrás alguém dissesse à Cilinha que uma reunião de amigos tinha de ser clandestina, ela teria dado uma gargalhada. E no entanto, sexta-feira às 10 da noite, lá se dirigiu ela para um apartamento num 3º andar de uma casa no Bairro Alto, comportando-se com o ar mais natural possível, tentando assemelhar-se a qualquer das outras pessoas que se dirigem a um dos muitos bares da zona para começar a noite. Subiu as escadas e bateu à porta com a sequência combinada de pancadas.
O Chiquinho, dono do apartamento, ainda era seu primo afastado, mas só o costumava encontrar em festas estritamente familiares, porque ele tinha concentrado a sua atenção e esforço em tirar o curso de Arquitectura. Tinha depois comprado aquele apartamento onde instalara o atelier. Cilinha entrou na ampla sala, com esboços e desenhos pregados nas paredes e juntou-se ao grupo que já lá se encontrava, todos sentados em almofadas, em círculo, no chão.
No princípio tinha sido complicado estabelecer o funcionamento das reuniões, sobretudo porque alguns dos convocados não faziam a mais pequena ideia sobre o que era a clandestinidade.
Foi o Marinho Vilaça, que gostava de História, que leu um livro chamado "Memórias de um resistente" escrito por um tipo do PêCê no tempo do Salazar, e viu as técnicas usadas para se esconderem da polícia, e fez uma lista de recomendações que distribuiu e que todos passaram a cumprir religiosamente. E hoje já se conseguem rir do que se passou na primeira reunião, em que íam sendo todos apanhados porque a desmiolada da Kikas Marcela saiu do táxi como se fosse para uma festa na Quinta da Marinha. A sorte dela foi aparecer a polícia, mas não se safou de uns empurrões, uns apalpões e de ficar com o vestido todo sujo de vinho tinto e cerveja que lhe atiraram para cima!
Tiveram que passar a elaborar com muito mais cuidado a lista dos convocados para as reuniões.
O Pedro Avelar teve ele próprio algumas dificuldades quando as revistas sociais fecharam, mas escapou de ser despedido e foi integrado noutro jornal do grupo. No princípio sofreu alguma discriminação, mas essa atitude da parte dos colegas foi sendo diluída, porque ele é extremamente útil sempre que alguém precisa de alguma informação sobre alguém. O Pedro é um verdadeiro banco de dados sociais!
Diz ele que existe uma política generalizada nas empresas para admitir apenas licenciados para os Departamentos de Relações Públicas. “Isto é mau para nós”, pensa Cilinha. “Ser R.P. sempre foi uma forma natural de aplicarmos os nossos talentos.”
Em contrapartida, e ainda segundo o Pedro, os bancos estão a aliviar a vigilância às contas bancárias. Dentro de algum tempo poderá ser possível efectuar pequenos movimentos, sem dar muito nas vistas.

Três dias depois, ao fim da tarde, Cilinha está novamente dedicada à sua actividade favorita de folhear as mesmas revistas que já folheou mil vezes, quando toca o telemóvel. É o Pedrocas, com boas notícias:
"Cilinha, estás sentada? Então ouve. Comecei a trabalhar como assessor de imprensa do Secretário de Estado das Empresas e Sociedade Civil. Sim, sabes quem é, o Quim Vidigal, os pais tinham uma vivenda na rua onde morava a tia Fanocha. Mas agora ouve a parte melhor: o primeiro-ministro enviou um memorando a todos os membros do governo a dizer que nas aparições em público toda a gente deve aparecer bem vestida. Isto quer dizer que vai haver necessidade de contratar uns quantos assessores de imagem, e deve ser possível arranjar trabalho para alguns amigos. De qualquer modo e até lá, pianinho e poucas ondas, OK? Quando tiver mais novidades, ligo.”
Cilinha sente um formigueiro que lhe parece felicidade espalhar-se pelo corpo e espreguiça-se, como um gato ao sol. Pega na garrafa de Chivas que tem guardada para uma ocasião especial, põe dois cubos de gelo num copo e deita lentamente o uisque por cima. Roda o copo fazendo dançar as pedras de gelo. Vai buscar o iPod e percorre a lista das músicas gravadas até encontrar uma que lhe parece adequada, “I Can See Clearly Now”, e o som dos Hot House Flowers enche o pequeno apartamento:

(...) going to be a bright
Bright, bright
Sunshiny day!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Histórias do meu bairro

Os nossos problemas começaram com a Universidade para a Terceira Idade.
Mas é melhor começar pelo princípio: o nosso bairro é óptimo, um bocado envelhecido, mas toda a gente se dá bem.
É na leitaria “Estrela do Bairro” do Sr. António que nos costumamos encontrar todas as tardes. Aí ou, estando bom tempo, nos bancos do jardim em frente.
Uma tarde apareceram uns jovens que nós já conhecíamos porque trabalhavam como monitores nalgumas actividades promovidas pela Junta de Freguesia. Traziam uns papeis de uma coisa chamada Universidade para a Terceira Idade.
O primeiro a inscrever-se foi o Antunes. Contabilista reformado – é sempre ele que faz as contas quando jogamos às cartas ou ao dominó – inscreveu-se no curso de Economia e Gestão, e ficou particularmente interessado numa disciplina que se chamava “Economia para um mundo global”.
Quando veio da primeira aula parecia outro. Vinha maravilhado com o professor, “um rapaz novo, mas já com um MBA da Católica, vejam lá vocês!”. À terceira vez que disse que estava a gostar muito de fazer aquela cadeira, o Sr. Firmino atirou-lhe: “Mas ó Antunes, você agora é carpinteiro?”. Foi uma fartadela de riso, mas ele afinou, e o que safou a situação foi que a televisão começou a dar o desporto e todo o pessoal se calou para ver os resumos dos jogos.
E semana a semana, a situação foi-se degradando. Quando veio da terceira aula, começou com uma conversa de privatizar o banco que fica no sítio mais abrigado do jardim, para depois o alugar aos quartos-de-hora. Mas a Dona Etelvina que gosta de se sentar nesse banco a dar milho aos pombos e usa uma bengala grossa, foi-lhe dizendo: “Se me aparece alguém a dizer que tenho de pagar para me sentar naquele banco, leva logo uma bengalada.” E acompanhou a frase com um gesto ilustrativo, o que levou o Antunes, prudentemente, a deixar de falar no assunto.
Mas foi sol de pouca dura. Na semana seguinte já estava a tentar convencer o Sr. António a instituir consumo mínimo na leitaria, ou a alugar a Bola e o Record que estão sempre em cima do balcão para os clientes lerem.
O sr. António, que veio de Unhais da Serra aos 8 anos trabalhar como marçano, depois como empregado de mesa, até conseguir montar o seu próprio estabelecimento, olhou-o muito sério e disse: “Sr. Antunes, nunca ouviu dizer que 'quem sabe da tenda é o tendeiro'?”. E deixando-o a digerir o provérbio, foi passar o esfregão pela base da máquina de café.
À medida que o curso avançava, o Antunes foi piorando. A meio do semestre, depois de ter tido uma boa nota no teste – e já ninguém podia ouvir contar outra vez que o professor tinha elogiado perante a turma o seu desempenho – veio com outra ideia: lançar uma OPA sobre a mesa e as cadeiras existentes debaixo do caramanchão, onde o grupo da sueca, como lhe chamamos no gozo, gosta de passar as tardes de Verão a bater as cartas.
Obviamente que o grupo considerou a OPA hostil, e um deles, o Jaquim Baleizão, que foi pastor em novo, prometeu-lhe que na próxima vez que viesse com aquela conversa era corrido à pedrada. O Jaquim é homem para acertar numa lata vazia a vinte metros, pelo que o Antunes decidiu bater em retirada, resmungando contra a falta de cultura económica desta gente, incapazes de perceber as vantagens de deixar funcionar livremente o mercado.
As coisas estavam a começar a ficar feias, e alguns de nós foram falar com a Dona Teresa, que tinha sido enfermeira até se reformar do Júlio de Matos, e que também se tinha inscrito na Universidade para a Terceira Idade, onde andava a estudar "Medicinas alternativas". Já tinha feito "Acupunctura", e andava a fazer "Talassoterapia". Com as agulhas, ia praticando na vizinhança e já conseguia aliviar algumas dores, daquelas que aparecem quando a gente vai para velho.
Depois de conversarmos um bocado sobre o comportamento do Antunes, ela fez o diagnóstico:
"O Antunes está a descolar da realidade, isto acontece quando os caminhos por onde circula o prana no organismo se encontram obstruídos." Olhámos uns para os outros, um bocado confusos, mas ela parecia saber o que estava a dizer. "A acupunctura pode ajudar à desobstrução, mas não é suficiente. A talassoterapia, que eu ando a estudar agora, é considerada muito eficaz nestes casos. A sério, a sério, devia ser com água salgada, mas como o efeito principal é o banho frio, se calhar com água doce já dará efeito."
Começámos a discutir estas sugestões. A parte das agulhas era mais fácil: o Antunes tinha ficado bem impressionado com os resultados em alguns dos vizinhos, principalmente a Dona Leocádia, que andava sempre dorida da ciática e que agora, depois de umas sessões com as agulhas, caminhava ligeira como um pardalito. E como ele se queixava amiúde de dores de cabeça, não devia ser difícil convencê-lo a experimentar o tratamento. Já quanto ao banho frio...
Depois de excluída a ideia de pedir aos Bombeiros Voluntários do bairro para lhe dar uma esguichadela com a mangueira – o Sr. Rafael, que foi bombeiro, disse logo que aquilo era má ideia, porque a água sai da agulheta com muita pressão e ainda íamos magoar o Antunes – achámos que se calhar um mergulho no lago dos patos ia fazer o mesmo efeito.
E assim foi. Depois de a Dona Teresa lhe fazer um tratamento com as agulhas, fomos dar uma volta pelo jardim, e naquele sítio onde a vedação em volta do lago está caída – aliás já nos queixámos várias vezes ao Presidente da Junta de Freguesia – um de nós "desequilibrou-se", empurrou o Antunes que foi parar dentro de água. Claro que lhe acudimos imediatamente, ajudámo-lo a sair do lago, acompanhámo-lo a casa, e ficámos um pouco ansiosos à espera do resultado do tratamento.
Passados dois dias, o Antunes reapareceu, e parecia mais calmo. Mas nessa noite, estávamos na leitaria, e a televisão começou a dar uma mesa redonda com a participação de três economistas, ele arrancou com um chorrilho de insultos e só não atirou com a chávena da bica ao televisor porque o segurámos a tempo. Tivemos que o levar a dar uma volta ao quarteirão, ao fresco da noite, para ver se acalmava.
Devemos ter exagerado na dose do tratamento!
Agora até o Dr. Zeferino – gerente da Caixa ali no bairro, que é uma simpatia quando lá vamos todos os meses levantar a reforma – deixou de ir tomar a bica à "Estrela do Bairro", porque o Antunes começou a insultá-lo, de aldrabão para cima...
A Dona Joaquina tem andado a pesquisar lá no livro de acupunctura se descobre um tratamento para aplicar ao Antunes, mas o livro está escrito em chinês – foi-lhe emprestado pelo professor – e ela só consegue guiar-se pelos bonecos, portanto ainda vai levar algum tempo.
Mas estamos todos muito preocupados, até porque soubemos que o Antunes transferiu a matrícula do curso de "Economia e Gestão", que frequentava, para o de "Artes Marciais", e inscreveu-se nas disciplinas "Karaté para maiores de 60", "Defesa e ataque com armas brancas" e "Tiro ao arco".
Tememos o pior!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O caçador de programas

Preparei tudo com muito cuidado. A porta do computador disfarçada, mas não demasiado. O isco – os dados brutos do pessoal de uma empresa de dimensão média – era uma atracção irresistível para uma folha de cálculo.
Fiquei à espera. Um caçador tem que ser paciente. A porta conduzia a uma slice wall, que não oferecia qualquer obstáculo à entrada mas que destruiria o programa se ele tentasse sair.
Activei o alarme e fui tratar de outras coisas.
O primeiro a ser apanhado foi um programa meio idiota, devia ter sido escrito por um estudante do secundário. Nem precisei de lhe fazer testes para carregar no Delete. Anda muito programa estúpido a vaguear pela web!
Rearmei a ratoeira e aguardei.
Segundo alarme! Desta vez era caça mais grossa. Um programa comercial, mas infelizmente com o kernel da I.A. irremediavelmente corrompido. Devia ter pirado e fugido quando tentaram substitui-lo por um upgrade. Acontece com frequência.
Examinei-o com algum cuidado para tentar descobrir segmentos de código utilizáveis. Não encontrei nada interessante e matei-o.
Fui-me deitar. A meio da noite acordei com o alarme. Quando observei o programa que tinha apanhado, nem queria acreditar na minha sorte. Uma folha de cálculo multidimensional inteligente! Apliquei-lhe os testes da ISO-Uni 39400 e os resultados foram impecáveis. Aquele programa vai render muita guita! Tenho dois ou três clientes potenciais, mas em último caso posso sempre leiloá-lo no E-bay!

My nick is spider...

sábado, 15 de dezembro de 2007

Praxe

Uma notícia recente informa-nos que um estudante de um estabelecimento de ensino superior de Coimbra ficou paraplégico na sequência de uma "brincadeira" incluida na praxe académica a que estava a ser submetido.
Tenho exprimido frequentemente no meu local de trabalho, perante colegas e estudantes, a minha posição sobre a praxe. Sendo este um blogue de ficções, dedico o seguinte conto aos estudantes praxistas, cujo sadismo ou simples alarvidade os torna responsáveis por situações deste tipo, e às autoridades académicas, que assobiando para o lado perante acontecimentos desta índole, se demitem do papel disciplinar que deviam assumir: uns e outras não deviam fazer parte de uma comunidade académica digna desse nome.

Recepção aos caloiros

Jacinto Ataíde, Dux Veteranorum e Presidente por inerência da Comissão de Praxe, regressa a casa já a noite vai alta. O passo é um pouco incerto, porque acaba de passar umas horas com os outros praxistas, à volta de umas bejecas e outras coisas mais fortes e a relembrar entre gargalhadas os acontecimentos do dia.
A chegada dos caloiros é sempre uma festa! O que é preciso é que a malta se divirta à custa dos putos. E no ano que vem estes vão ser os mais entusiastas a praxar.
Bem podem os gajos do MAPA colar posters, que não têm sorte nenhuma. Movimento Anti Praxe Académica... Uma bosta! Devem ser dois ou três caramelos que imprimem os cartazes e andam depois a colá-los de noite, às escondidas...
Jacinto sente a necessidade de aliviar a bexiga. Lembra-se daquele brasileiro que uma vez lhe disse “Cara, cerveja você não compra, você aluga!”, e ri-se com vontade, enquanto se aproxima da porta de um prédio e urina contra a ombreira.
Quando fecha a braguilha parece-lhe ouvir passos. A rua é escura, caiu entretanto uma neblina através da qual a luz dos candeeiros se escoa com dificuldade. Jacinto sente um arrepio e traça a capa, tentando barrar a humidade que ensopa o ar nocturno.
Os passos ouvem-se agora com mais nitidez. Jacinto apressa-se ao longo da rua. Mais uns duzentos metros e chegará à segurança relativa da praça, bem iluminada por candeeiros de halogéneo. Contorna o tapume de um prédio em obras e subitamente do meio da neblina materializam-se três vultos a fechar-lhe a passagem.
Esboça um gesto de recuo mas os passos de há pouco chegaram agora junto de si. Está cercado.
Os vultos aproximam-se e Jacinto Ataíde verifica que estão mascarados, cada um com um passa-montanha que apenas lhe deixa ver os olhos. Encosta-se ao tapume e os outros fazem agora um semi-círculo à sua volta.
“Olha quem aqui temos, o Dux Veteranorum em pessoa! Então hoje já acabámos de praxar caloiros? Deves estar cansado...”
“Estivemos aqui a pensar que serias um praxista muito mais eficiente se experimentasses algumas das praxes na tua própria pessoa. Portanto vais dar uma voltinha connosco.”
Jacinto tenta mostrar uma coragem que não possui.
“E se eu não quiser?”
“Acontece-te isto”, responde o mascarado, e a mão avança com um objecto que toca no braço de Jacinto. Uma potente descarga eléctrica deixa-lhe o braço adormecido e tem que morder os lábios para não gritar. “O cabrão atacou-me com um taser”, pensa Jacinto, enquanto a dor se espalha por todo o braço, como se o tivesse mergulhado em água a ferver.
“Se não te portas bem levas outra... E agora toca a marchar no meio de nós, e juizinho!”
Dois dos mascarados dão o braço a Jacinto e com mais dois à frente e dois atrás, o grupo vai avançando ao longo da rua. Desembocam na praça, que contornam pelo lado dos bares, alguns dos acompanhantes de Jacinto exibem agora garrafas de cerveja das quais vão bebendo (ou fingindo que bebem?). Uma ou outra pessoa que com eles se cruza encara o grupo como mais um conjunto de foliões noctívagos.
Entram agora na zona residencial. O grupo faz parar Jacinto, um tira-lhe a capa que ainda trazia aos ombros, outro põe-lhe uma coleira ao pescoço, com uma trela, colocam-lhe uma venda preta nos olhos, dão-lhe um empurrão que o desequilibra, fica com as mãos e joelhos no chão, e qualquer tentativa para se levantar é rapidamente neutralizada com um forte puxão na trela.
“Então agora não achas graça, Bobby? Mas hoje de manhã rias como um alarve quando fazias isto aos caloiros”.
“Esta rua por onde vamos é onde os habitantes aqui do bairro costumam passear os cãezinhos. Vê onde pões as mãos...”
O aviso faz disparar um coro de gargalhadas no grupo.
Começam a andar. Segundos depois, a mão direita de Jacinto assenta em algo pastoso; o reflexo de retirar a mão quase o faz desequilibrar e ir com a cara ao chão. O que segura a trela dá-lhe um puxão e o passeio continua, com Jacinto de vez em quando a pisar excrementos com as mãos e os joelhos. Mesmo atrás da venda grossa que lhe colocaram Jacinto apercebe-se de alguns clarões súbitos, intercalados com risos abafados dos seus captores.
O grupo pára. O som do rodar de uma chave, mais o som metálico de um portão que se abre, depois o portão a fechar-se, e Jacinto sente que estão agora dentro de um compartimento (garagem? Armazém?).
“Acabou o passeio, Bobby. Mas o Bobby tem as patas todas suuujas! Temos que as lavar... Estende as patas, Bobby!”
Jacinto estende os braços, ouve água a correr e a seguir sente nas mãos um forte jacto de água, quem está a segurar na mangueira não a mantém fixa, os braços também já estão molhados, ao fim de algum tempo tem a roupa completamente encharcada.
“Agora que o Bobby já tomou banho, vai-se descalçar para brincar um bocadinho.”
O tom de ameaça na voz que falou não lhe deixa alternativa. Ainda vendado, Jacinto desfaz os nós dos atacadores, tira os sapatos, descalça as meias. Empurrado, cambaleia para a frente e recupera o equilíbrio a custo, o chão está escorregadio devido à utilização da mangueira, e os outros estão à volta dele, e empurram-no de uns para os outros, de vez em quando escorrega, várias vezes vai com as mãos e os joelhos ao chão, aí alguém lhe dá um pontapé no traseiro para o obrigar a levantar e tudo recomeça, nova série de empurrões, até que Jacinto atinge o limite, cai de joelhos, e chorando baba e ranho, implora aos seus agressores que parem.
No silêncio que se segue ouve-se a voz de um deles: “Fim da fase 2. Início da fase 3.”
Tiram-lhe a venda. Quando os seus olhos se habituam à luz, Jacinto observa o local onde se encontra. É um espaço amplo (uma garagem?), com chão de cimento, não tem janelas, numa das paredes uma torneira com uma mangueira ligada e enrolada no chão. Uma lâmpada suspensa do tecto espalha uma luz amarelada. Os seus captores mascarados estão vestidos de preto.
Um deles pega na capa de Jacinto e estende-a sobre o chão enlameado. “O Bobby está cansado e pode deitar-se um bocadinho no cobertor... deita, Bobby!” E acompanha as palavras de um gesto ameaçador com o taser.
Jacinto não tem alternativa que não seja obedecer.
“Agora o Bobby zanga-se e vai começar a rosnar e a rasgar o tapete com os dentes e as unhas...”
E a aproximação do taser faz com que Jacinto obedeça. Finca os dentes no tecido grosso da capa e rasga, e puxa, e outra vez, e outra, quando começa a rasgar com as mãos há alguém do grupo que o ameaça: “Com os dentes, com os dentes”, e lá volta a morder a capa, fincar os dentes e puxar com a cabeça até rasgar mais um bocado. E enquanto dura a operação, um deles dispara de vez em quando uma máquina fotográfica.
“Já chega”, diz o que parece se o líder do grupo. “Levanta-te!”.
Há um que traz uma cadeira e obrigam Jacinto a sentar-se. Colocam-lhe de novo uma venda, um deles segura-lha na cabeça com firmeza, ouve um zumbido que ainda está a tentar identificar quando sente a máquina a começar a cortar-lhe o cabelo. Mas o corte não é regular, e continuam a tirar fotografias.
Ao fim de alguns minutos, ouve comentários jocosos: “Oh, pá, mas tu és um artista! Tens que abrir um salão de cabeleireiro de homens!”. Segue-se um coro de risadas.
Tiram-lhe a venda. Um deles coloca a máquina num tripé frente à cadeira, o grupo posiciona-se à volta de Jacinto, obrigam-no a inclinar a cabeça e o que está junto da máquina carrega no temporizador e corre para se juntar ao grupo antes que o flash dispare.
Ordenam a Jacinto que se calce, dão-lhe a capa e um deles diz-lhe: “Agora pira-te! E é melhor tirares umas férias, que vais precisar”. E um coro de gargalhadas acompanha a saída apressada de Jacinto, que uma vez na rua anda um pouco ao acaso até se orientar e depois corre rapidamente na direcção da sua casa.
Entra no pequeno apartamento e no espelho do hall de entrada verifica o estado miserável em que o puseram. As calças esburacadas nos joelhos, a capa rasgada, a roupa completamente encharcada, e quando inclina a cabeça vê o que os sacanas fizeram: o cabelo que lhe cortaram desenha no topo da cabeça as letras M – A – P – A. Filhos da puta!
Pega numa tesoura e com lágrimas de raiva e humilhação a escorrer pelas faces, corta o cabelo o mais rente que pode. As letras continuam a ver-se. Põe creme no pincel da barba, espalha a espuma na cabeça e com a gilette acaba com os últimos vestígios de cabelo.

-------------- X --------------

No dia seguinte, quase 10 da manhã, os membros da comissão de praxe dão sinais de impaciência com o atraso do dux veteranorum. Os caloiros já foram agrupados no átrio da faculdade (“os curros”), está tudo pronto para começar o “tourear do caloiro”, e Jacinto Ataíde não há meio de aparecer. Não responde ao telemóvel nem ao telefone do apartamento onde mora.
“Ontem à noite ele não bebeu assim tanto para ficar de ressaca”, comenta um dos membros da comissão. Um outro mais impetuoso exclama: “Eu vou ver se ele está em casa”, e sai do edifício, mete-se no carro e arranca.
A comissão vai junto dos caloiros, e um deles com um megafone anuncia: “Caloiros, tenham calma, que daqui a pouco começa a festa...”
“Brava”, completa outro, e toda a comissão se ri, mas os risos soam um pouco a falso.
Quinze minutos depois (o apartamento de Jacinto não é longe) chega o colega que foi à sua procura. “Falei com a porteira do prédio: às 8 e meia da manhã ela estava a lavar o átrio da entrada, e viu o Jacinto sair do prédio e apanhar um táxi. Levava uma mala e um gorro de lã enterrado até às orelhas”.
“Num dia como hoje, com o Sol que está? Parece-me uma cena estranha...”
É nessa altura que, dentro do enorme grupo de caloiros, começam a soar gargalhadas. É uma situação tão insólita que deixa a comissão de praxe espantada: os caloiros costumam é estar com aquela atitude entre envergonhada e receosa, sem saber o que lhes vai acontecer a seguir. Os praxistas dirigem-se para a origem das gargalhadas, e empurrando sem cerimónia os caloiros que riem chegam à parede onde um placard exibe um conjunto de fotografias, que mostram o dux veteranorum de coleira e trela a ser conduzido como um cachorro, e outras onde se vê ele no chão a rasgar a capa com os dentes e outra ainda onde, sentado e rodeado por um grupo mascarado, inclina a cabeça para a frente, permitindo que se veja que o cabelo foi cortado de modo a formar a palavra MAPA.
A agitação cresce na multidão dos caloiros, que quase se atropelam para ver as fotos. E riem à gargalhada observando aquele que no dia anterior os praxava forçado a comportar-se daquela forma. A comissão de praxe sente que está a perder o controlo da situação, mas nenhum deles sabe o que fazer, e é aí que o sistema de difusão sonora do edifício começa a transmitir.
Sendo um acontecimento inesperado, toda a gente se cala. E sobre o silêncio agora existente jorra uma voz que implora clemência:
“... não, parem, por favor, chega, não aguento mais isto, não, não, por favor... não... não...”
E a litania transforma-se lentamente num choro convulsivo, que se prolonga durante cerca de um minuto, até parar bruscamente. E surge uma voz calma que anuncia:
“Caros caloiros, como certamente reconheceram, acabam de ouvir o praxista-mor, o auto-intitulado dux veteranorum, o próprio Jacinto Ataíde, na banda sonora correspondente às fotos que já tiveram ocasião de apreciar”.
Risos da parte de muitos caloiros. E a voz continua:
“E agora, caros caloiros, de que é que estão à espera para fazer o mesmo a essa cambada de palhaços de capa e batina, a essa auto-nomeada comissão de praxe? Mostrem-lhes que a humilhação acabou, CORRAM COM ELES!”
Os membros da comissão de praxe entreolham-se, sentindo alguma insegurança, começam lentamente a mover-se em direcção à saída, mas têm que passar através daquela multidão, e são só alguns instantes até o primeiro ser empurrado, puxarem a capa a outro, um terceiro levar uma palmada na nuca, outro um pontapé, e aquela massa de caloiros é como um animal selvagem que estivesse a acordar, há uma batina que se rasga quando o dono é agarrado e tenta desesperadamente libertar-se, há outro que é rasteirado e cai, leva dois pontapés e levanta-se a correr, e há agora uma multidão enfurecida que corre atrás dos membros da comissão de praxe que de roupa rasgada e alguns hematomas fogem desesperadamente em direcção ao portão de saída da faculdade.

-------------- X --------------

A essa hora Jacinto Ataíde segue de comboio para a Beira, o gorro de lã na cabeça. Olhando sem ver as árvores que deslizam velozmente do outro lado da janela, vai ruminando ainda a humilhação de que foi vítima na noite anterior. “Filhos da puta do MAPA”, é tudo o que as lembranças dolorosas o deixam verbalizar, enquanto a distância entre ele e Lisboa vai aumentando...

Grageas, 100 cuentos breves de todo el mundo



O miniconto "Reflexões sobre a carestia da escrita" (aqui publicado no último dia do ano passado) foi agora, na sua versão em castelhano, incluído na antologia Grageas, editada por Sergio Gaut vel Hartman, e que será lançada na Argentina no próximo dia 19.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Contagem decrescente (2)

A revista online argentina Axxón, editada por Eduardo Carletti, traz no número especial de Dezembro uma colecção de micro (nano?) estórias, intitulada Cuenta regressiva (II) em que a primeira tem 60 palavras, a segunda 59, etc e a última 0 (isso mesmo, zero!) palavras. Desta vez tenho lá duas: a número 54 e a última...