sábado, 2 de junho de 2007

À volta de Borges


“Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.”

J.L.B.
Buenos Aires, 31 de Outubro de 1960



O autor que tenciona escrever uma comunicação sobre Borges – de ora em diante o Autor – lê um pequeno texto incluido em A Cifra de 1981, intitulado “Um sonho”:

“Num deserto lugar do Irão há uma não muito alta torre de pedra, sem portas nem janelas. No único compartimento (cujo chão é de terra e tem a forma de um círculo) há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem parecido comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que noutra cela circular escreve um poema sobre um homem que noutra cela circular... O processo não tem fim e ninguém poderá ler o que os prisioneiros escrevem.”

Pensa então que a sua comunicação sobre Borges poderia começar assim:
Numa cidade de um país na periferia do Império, um homem escreve uma comunicação sobre um homem que escreve uma comunicação sobre um homem (...) que escreve uma comunicação sobre Borges.
Mas ao ler pela segunda vez o texto referido de Borges, repara na última frase: “O processo não tem fim (...)”. Ora terminar a sua sequência com as palavras “escreve uma comunicação sobre Borges” vai torná-la finita. Como o carácter borgesiano da sequência é precisamente o facto de ser infinita, a intervenção do Autor seria de facto a negação de Borges. E assim, dolorosamente, o Autor abandona a ideia que ao princípio lhe parecera tão promissora.

Tenta uma segunda abordagem: começa a escrever um texto sobre Borges recheado de citações apócrifas, referências de autores inexistentes, identificação detalhada de obras nunca publicadas... Mas ao fim de meia dúzia de páginas, a releitura faz-lhe ver que nunca conseguirá provocar em nenhum leitor aquela sensação indefinível que assenta na faixa estreita entre o verdadeiro e o falso, aquilo que sentimos quando lemos algumas das histórias de Borges, o acreditar minado pela suspeita ou a incredulidade com infiltrações de “até podia ser”.
E o que escreveu acaba por ser rasgado em pequenos pedaços que atira para o cesto dos papéis.

Pega agora num texto de Borges, um pequeno conto escolhido ao acaso, e escreve-o lentamente, criando um ficheiro no computador, copiando palavra a palavra, pronunciando-as em voz alta de forma a sentir-lhes o sabor, a densidade. Começa então um exercício que consiste em substituir uma palavra por um sinónimo e tornar a gravar o ficheiro com outro nome, nova substituição e nova gravação, e ao fim de algumas horas de trabalho tem cerca de trezentos ficheiros no disco, todos eles variantes do mesmo texto base. Parando para olhar o conjunto, apercebe-se que embora a ideia original fosse atractiva, o resultado final será apenas e sempre uma caricatura pobre e portanto risível da famosa Biblioteca de Babel, onde se encontram todos os livros possíveis, “todas as possíveis combinações dos vinte e tal símbolos ortográficos (...) ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os idiomas” (Ficções, 1944). Seria apenas a sombra da Biblioteca incidindo sobre um texto, e a simples atitude de pretender usá-la como analogia de “A Biblioteca” aparece tingida de uma arrogância que, embora não intencional, vai marcar indelevelmente o texto produzido.
E mais uma vez o autor, com alguma relutância, destroi aquilo que escreveu. Fecha a pasta onde estão todos os ficheiros, com nomes de biblio_1 a biblio_298, marca a pasta e carrega em delete.

Nova tentativa: resolve falar de um objecto cujas propriedades sejam tais que a ligação desse objecto a si próprio, Autor, surja como única, com a inevitabilidade de uma lei matemática através da qual, conhecidas as causas, resultam fatalmente as consequências (mantendo embora uma dúvida insidiosa nos interstícios das afirmações, mesmo as mais absolutas). A ideia surge-lhe a partir de “O bastão lacado”, e de “O punhal”, pequenos contos dos livros A Cifra, de 1981 e Evaristo Carriego, de 1930. Ambos falam de objectos que possuem como que uma vida própria, e que constituem, esses objectos, um fio de ligação entre a sua própria história e o seu actual possuidor.
Só um excerto de “O bastão lacado”:
(...)
“Observo-o. Sinto que é uma parte daquele império, infinito no tempo, que ergueu a sua muralha para construir um recinto mágico.
(...)
Observo-o. Penso no artesão que trabalhou o bambu e o dobrou para que a minha mão direita pudesse agarrar bem o punho.
(...)
Não nos veremos nunca.
(...)
No entanto, alguma coisa nos liga.
Não é impossível que Alguém tenha premeditado este vínculo.
Não é impossível que o universo necessite deste vínculo.”

Mas quando começa em casa à procura desse objecto único, o Autor verifica que tudo o que o rodeia é fruto da produção em massa dos últimos anos. Todos os objectos do seu quotidiano se caracterizam por serem iguais a milhões de outros, saídos das linhas de montagem das fábricas de mão de obra barata do extremo oriente. E a ligação entre o operário e o fruto do seu trabalho é totalmente diferente do vínculo estabelecido entre o artesão e o objecto que produziu ao longo de dias ou semanas de paciente esforço. A produção em massa gera objectos sem história. E portanto também aqui as intenções do Autor se revelam infrutíferas.

Pensa subitamente na História Universal da Infâmia, de 1935. Desde essa data, muitos infames, reais ou imaginários, percorreram os caminhos da humanidade. Ele, Autor, seria certamente capaz de inventar mais uns quantos. É quando alguém lhe diz que um autor galês, Rhys Hughes, publicou recentemente Uma Nova História Universal da Infâmia. Não contente com isso, pegou em O Livro de Areia publicado em 1975 – uma fonte de inspiração riquíssima – e escreveu “Em busca do Livro de Areia”!

O Autor apercebe-se que regressou à estaca zero. Todas as suas tentativas de escrever sobre Borges falharam redondamente. Sente que andou à volta de Borges numa trajectória circular, ou quando muito seguindo uma espiral que se aproxima do centro com extrema lentidão, como o movimento de uma galáxia em torno do buraco negro oculto no seu centro. Provavelmente o seu conhecimento da obra do mestre não é suficiente para produzir algo de relevante sobre a mesma.

Resolve então reler. Não da maneira semi-anárquica que tinha caracterizado o seu primeiro contacto com os escritos de Borges, mas de um modo disciplinado, seguindo um percurso rigorosamente cronológico. Começa pelas obras da juventude, a poesia de Fervor de Buenos Aires publicado em 1923, lê lentamente, mais poesia de 1925, o Caderno San Martin de 1929, Evaristo Carriego, os ensaios de 1932, lê com minúcia a História Universal da Infâmia (1935) e a História da Eternidade (1936). Ficções e Artifícios, ambos de 1944, são saboreados com prazer, bem como O Aleph de 1949. O Fazedor, de 1960, onde existe um poema dedicado aos Borges, seus antepassados portugueses, e outro a Luís de Camões. Mais poesia ao longo da década de 60. O relatório de Brodie e O Ouro dos Tigres no princípio dos anos 70.

Ao longo deste trabalho dedicado e minucioso a vista do Autor vai piorando. É já com grande dificuldade que termina O Livro de Areia de 1975. A partir daí é obrigado a recorrer aos amigos para lhe lerem em voz alta. E é já pela voz deles que visita a poesia de 1975 a 77, A Cifra de 1981, os Nove ensaios dantescos de 1982, Atlas de 1984 e Os Conjurados de 1985.
Mas de alguma forma, com a perda da vista, a compreensão dos textos aumenta, como se com o progressivo desaparecimento do sentido da visão, do apagamento das imagens, as palavras fossem ganhando mais intencionalidade e consistência. O Autor identifica-se cada vez mais com Borges, agora que, como ele, vive na escuridão, tendo como ligação privilegiada ao mundo exterior a sonoridade das palavras. E a tal ponto se torna forte esta identificação com o centro, o ponto alfa do universo borgesiano, Jorge Luís Borges himself que, repetindo o que o mestre escreveu na linha final do conto “Borges e eu”, o Autor poderá dizer:
“Não sei qual dos dois escreve esta página.”

Este texto foi lido numa sessão do Fórum Fantástico, em Novembro de 2006.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Evolução

Publicada aqui a 14/Jan/2006, esta microestória é (sem o título) um SMS e apareceu agora em Veredas, uma revista online de micronarrativas, editada por Marcelo Spalding.

Stuff That Dreams Are Made Of

A versão inglesa do pequeno texto com o título acima, cujo original apareceu aqui no blogue em 14 de Março do ano passado, foi agora publicada no Bewildering Stories nº 244.

domingo, 13 de maio de 2007

Arquivo morto (conclusão)

Nessa noite, Antunes teve um pesadelo. Sonhou que estava no escritório, era um dia normal de trabalho, quando subitamente a porta da escada de serviço saltou como se do outro lado tivesse havido uma explosão. Pelo buraco aberto começaram a entrar dossiês, pastas, caixas de arquivo, gavetas com documentos, agredindo os funcionários, e Antunes viu o Almerindo a cair com a cabeça esfacelada por uma gaveta metálica, e o Mendes atacado por centenas de folhas A4 que o envolveram completamente, a boca cheia de folhas amachucadas, asfixiado lentamente. Todos os outros tentavam, com pouco sucesso, defender-se do vicioso ataque. Antunes tinha sido encurralado por uma dúzia de caixas de arquivo com aspecto ameaçador, e preparava-se para vender cara a vida, quando acordou.
Assustado, Antunes considerou aquele sonho premonitório. Não conseguindo voltar a dormir, levantou-se, fez um chá de camomila, e preparou cuidadosamente a sua estratégia. Pelas nove e meia telefonou para o escritório, dizendo que se sentia adoentado e que iria faltar naquele dia. A Dona Ivone, telefonista, tomou nota do recado e despediu-se: “Então as suas melhoras, senhor Antunes”.
Na sua juventude, Antunes fora caçador. Há muitos anos que não ia à caça: a sua defunta mulher não apreciava actividades de ar livre, e depois da sua morte nunca se tinha sentido suficientemente motivado para recomeçar a caçar. Mas por qualquer razão nostálgica todos os anos renovava religiosamente a licença, e todo o material, da caçadeira à máquina de encher cartuchos, era semanal e escrupulosamente limpo.
A outra actividade com que Antunes ocupava os tempos livres era a electrónica. Já em miúdo montava e desmontava rádios e instalava alarmes pela casa toda; tinha depois entrado na revolução digital, e estava continuamente ocupado com pequenos projectos, alguns de grande utilidade. O último produto que lhe tinha saído das mãos era um pequeno aparelho que podia ser ensinado a reconhecer anúncios na televisão, e que desligava o som do televisor e ligava o leitor de CDs durante os intervalos publicitários. Por tudo isto, aquilo que agora se propunha fazer era uma brincadeira de crianças.
Antunes começou por ir à Espingardaria Diana, onde o Sr. Abílio o recebeu afavelmente e lhe vendeu chumbo e pólvora na quantidade adequada para alguém que ia recomeçar a caçar regularmente. Dirigiu-se em seguida à ElectroVendas, onde obteve uns quantos componentes electrónicos de que viria a precisar, e passando pela drogaria do bairro, comprou pequenas quantidades de alguns produtos químicos, totalmente insuspeitos quando considerados isoladamente. Regressado a casa, começou a preparar um engenho explosivo, utilizando alguns dos materiais recém-adquiridos. O toque final foi dado por um napalm caseiro, que preparou na cozinha e cuja receita tinha obtido na internet.
Construiu depois o dispositivo de ignição, accionado por um relógio digital. Graças à microelectrónica, o conjunto era de tamanho diminuto, e juntamente com o explosivo, foi alojado dentro de uma caixa de comprimento e largura correspondentes a uma folha A4 e altura de cerca de 4 centímetros. Terminou a tarefa ao fim da tarde. Jantou frugalmente, viu um pouco de televisão, programou o despertador para uma hora mais cedo do que habitualmente, deitou-se e dormiu tranquilamente.
No dia seguinte, após a higiene matinal e um nutritivo pequeno almoço, Antunes pegou cuidadosamente na caixa, meteu-a dentro de uma pasta de couro onde habitualmente transportava livros ou revistas que costumava ler no intervalo do almoço e saiu de casa. Tinha decidido ir a pé em vez de tomar o autocarro habitual, porque não queria que o objecto que viajava dentro da pasta fosse muito sacudido.
Quarenta minutos mais tarde estava a chegar ao seu local de trabalho. Cumprimentou o porteiro à entrada do prédio, subiu ao escritório onde foi o primeiro a chegar, tirou do chaveiro a chave do arquivo morto e para lá se dirigiu, levando o objecto que tinha fabricado no dia anterior. À entrada, sentiu um arrepio na espinha, mas controlou-se e depois de ajustar o relógio do dispositivo para daí a duas horas, arrumou a caixa numa prateleira entre dois dossiês e saiu rapidamente. Regressou ao escritório, tornou a pôr a chave no sítio e tinha acabado de sentar-se à secretária quando chegou o primeiro colega. “Bom dia”, “bom dia”, conversa de circunstância, “então ontem...”, “oh, pá, uma dor de estômago, alguma coisa que comi...”. Meia hora mais tarde o escritório estva em pleno funcionamento.
A meio da manhã um ruído surdo fez estremecer o edifício. “O que foi isto?”, “Parecia uma explosão”, e menos de um minuto depois começou a tocar o alarme e o pessoal, seguindo as indicações constantes do Plano de Emergência Interno do edifício (ensaiado no simulacro realizado dois meses antes), dirigiu-se ordeiramente para o exterior. Agrupados no passeio fronteiro, todos podiam ver os grossos rolos de fumo que saiam das janelas do piso onde se localizava o arquivo morto. “O fogo é no arquivo morto”, disse, expressando o óbvio, um dos colegas de Antunes. “Espero que sim, agora”, respondeu este a meia voz, não reparando no olhar de estranheza do colega perante a sua resposta.
Os bombeiros chegaram rapidamente e iniciaram o combate ao incêndio, conseguindo evitar que este se propagasse aos restantes pisos. Quando foi iniciada a fase de rescaldo, o chefe de Antunes, depois de falar com o comandante dos bombeiros, veio junto dos funcionários dizer-lhes que podiam ir para casa, e que aparecessem no dia seguinte, à hora habitual.
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No dia seguinte, à entrada do edifício, Antunes cruzou-se com dois homens que saíam transportando o que conseguiu identificar como restos irrecuperáveis do arquivo morto. “O fogo e a água dos bombeiros fizeram um trabalho eficiente”, pensou Antunes. Quando entrou no escritório, um dos colegas disse-lhe: “O chefe quer falar contigo”.
Antunes dirigiu-se à porta do gabinete do chefe, bateu e entrou. O chefe estava sentado atrás da secretária, e havia mais dois homens no gabinete.
“Bom dia, Antunes. Estes dois senhores são da Polícia Judiciária e querem fazer-lhe algumas perguntas...”

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Arquivo morto

Quando pela terceira vez naquele dia o chefe o mandou ao arquivo morto buscar uns documentos, Antunes começou a desconfiar. No dia seguinte, iniciou a elaboração de um registo, tarefa facilitada pela posição da sua secretária junto da porta da escada de serviço que conduzia, dois pisos abaixo, ao referido arquivo. Na sexta-feira à tarde, consultando o seu registo, apurou que, ao longo da semana, o Fernandes tinha lá ido cinco vezes, o Fonseca quatro, o Mendes seis, e o resto da lista apresentava números semelhantes. O próprio chefe tinha ido ao arquivo morto duas vezes, provavelmente à procura de documentos de carácter mais reservado.
Perante esta evidência, Antunes só conseguiu chegar a uma conclusão: o arquivo morto não estava morto!
Antunes era um funcionário cumpridor. Claro que era capaz de dar uma olhadela à Internet nas horas de trabalho, ou de meter ao bolso uma borracha ou uns clips para levar para casa, mas em questões importantes era de uma exemplaridade exemplar. E perante este problema de um arquivo morto que afinal se encontrava bem vivo, só conseguia ver uma saída.

(continua...)

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Circularidade

Avisado pelo SMS que acabava de chegar ao telemóvel, o homem sai rapidamente do edifício, salta os 3 degraus entre a porta e o passeio e dispara a correr, atravessando a larga avenida. Tinha acabado de pisar o asfalto quando um carro sai da rotunda fazendo guinchar os pneus, e inicia uma trajectória que o vai levar a cruzar-se com o homem que corre...
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Coincidente com o guinchar dos pneus, como se fosse um sinal, os três homens com as faces ocultas por máscaras de carnaval entram no salão principal do restaurante de luxo “Átrio do Paraíso”. Posicionam-se de forma estratégica, de modo a cobrir todos os pontos de acesso ao salão, puxam das armas que traziam ocultas debaixo das gabardinas e um deles grita:
- Isto é um assalto! Ponham carteiras e todos os objectos de valor em cima das mesas!
Um dos clientes do restaurante leva a mão disfarçadamente ao bip que tem preso ao cinto e pressiona um botão. Num edifício não longe dali, um sinal de alarme começa a piscar...
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Dois seguranças do edifício sede da estação de televisão XPTO tomam o elevador de emergência para o 8º andar, onde ficam os serviços de produção. Entram numa sala, onde os concorrentes ao concurso de curtas metragens aguardam a decisão do júri que, presidido pelo Director de Produção, visiona as peças submetidas ao concurso. Os seguranças atravessam a sala de espera em passo rápido até chegarem à porta do gabinete. Um deles bate à porta e sem esperar resposta, abre-a e entra:
- Senhor Director, temos uma emergência!
O director carrega na tecla do telemóvel para enviar um SMS que acabou de escrever. No gabinete estão mais quatro homens, sentados em cadeiras confortáveis, olhando um televisor de alta definição, que mostra um carro a derrapar na entrada de uma avenida. A câmara executa um contra-picado, e a imagem mostra agora ao retardador o carro a avançar em direcção a um homem que atravessa a avenida a correr...
O director pousa o telemóvel na mesa em frente, vira lentamente a cabeça e olha para o segurança...

sábado, 5 de maio de 2007

Novo e-zine

O NOVA, editado pelo Ricardo Loureiro, começou a emitir luz. Entre outras coisas, está lá dentro o meu conto "Noosfera". A versão pdf pode ser descarregada aqui.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Os dois lados da questão


O desenhador esmerou-se a desenhar um monstro, para um concurso de ilustração. Queria que fosse um monstro especial, um pouco assustador, mas não tanto que não pudesse ser usado num livro infantil...

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No país dos monstros, o monstrinho acordou aos guinchos. O pai monstro aproximou-se:
“Que se passa?”
“Tive um sonho feio, papá! Sonhei que não existia, e que estava a nascer desenhado por uma criatura horrorosa...”
“Tens uma imaginação monstruosa, filhote! Foi só um pesadelo... Agora dorme.”
E para acalmar o filho, com o sétimo dedo da terceira mão coçava-lhe a segunda cabeça, que ainda mantinha alguns olhos abertos...

quinta-feira, 29 de março de 2007

Mitos da criação (1): Enchei a Terra...

Sem Nome foi um dos Antigos e viveu há muitos, muitos anos, ainda a Terra era jovem. Era um mago poderoso, que invocava os elementos, e falava com os animais, as plantas e as pedras.
Um dia, Sem Nome invocou um demónio. Colocou-se dentro do círculo mágico que tinha desenhado no chão e dizendo as palavras de invocação, surgiu um relâmpago que quase o cegou, um estrondo ensurdecedor e na sua frente apareceu, como que nascido das entranhas da Terra, a mais horrorosa criatura que ele alguma vez havia visto. Totalmente negro, excepto os olhos, como dois buracos vermelhos, a pele parecia couro, duas asas que se diriam de um morcego gigante, batendo raivosamente uma na outra, na mão um tridente de aspecto sinistro. Sem Nome precisou de fazer apelo a toda a sua coragem para conseguir olhá-lo durante breves momentos. O cheiro a enxofre era medonho, e ele sentiu aquele ser como se fosse o mal em estado puro, o nada, a perdição total. Teve que lutar contra o pânico que o empurrava para fugir daquela criatura. Pronunciou rapidamente o feitiço de afastamento e o demónio desapareceu da sua vista.
Sem Nome descansou durante alguns dias, e depois de ter recuperado as forças, tornou a invocar um espírito, mas desta vez um espírito bom – um anjo.
Uma vez pronunciadas as palavras, foi como se o céu se abrisse, e junto dele surgiu um ser alado, de uma brancura deslumbrante, com uma beleza sem mácula, na mão uma espada flamejante. Desta vez Sem Nome sentiu-se invadido por uma sensação de paz total, como se aquela criatura radiasse o bem à sua volta, e teve que fazer um esforço para não correr na sua direcção. Respirou fundo, pronunciou as palavras de afastamento, e o anjo desapareceu.
Sem Nome meditou longamente sobre as duas criaturas que o seu poder mágico tinha conseguido chamar à sua presença. O bem e o mal absolutos. O tudo e o nada. A plenitude e o vazio.
E preparou-se para a etapa seguinte.
Durante três dias jejuou, alimentando-se apenas de água e frutos silvestres. Precisava de sentir as suas faculdades apuradas, os seus sentidos completamente despertos.
E voltando ao mesmo local, desenhou no solo um novo círculo mágico, cujo poder reforçou com palavras antigas e poderosas. Depois, tornou a invocar o demónio e logo a seguir o anjo.
Surgidas do céu e da terra, as duas criaturas olharam-se e voaram uma para a outra, a irresistível atracção dos contrários, infinitamente forte quando os seres que se atraem são eles próprios infinitos de sinal oposto. Foi como o choque de dois universos; poeiras branca e negra formando uma nuvem densa que ocultou a espada flamejante do anjo rasgando o peito do demónio e o tridente deste trespassando o coração do anjo. E quando a nuvem de poeira se dissipou, Sem Nome viu um homem, caído no chão, nu.
Verificando que os dois espíritos tinham desaparecido, saiu do círculo mágico e aproximou-se do homem, que dormia. Acordou-o e conduziu-o a casa, onde lhe deu roupa e comida. Chamou-lhe Filho, e teve que lhe ensinar tudo, como a uma criança, mas ele aprendia depressa. E ensinou-o a chamar-lhe Pai.
E quando o achou preparado, começou a ensinar-lhe magia.
Anos mais tarde, estavam ambos, sentados numa rocha, contemplando o nascer do Sol sobre o deserto, Sem Nome falou ao homem sobre a sua origem, descrevendo minuciosamente todas as acções que tinham conduzido ao seu aparecimento. E concluiu, dizendo:
– E assim, meu filho, não és nem anjo, nem demónio, embora possivelmente tenhas herdado algo de cada um deles. És um homem!
E disse-lhe depois:
– Desde o teu nascimento nunca mais invoquei espíritos, mas vou tornar a fazê-lo, e precisarei da tua ajuda. Foi para isso que te ensinei as artes da magia. Porque vou invocar uma legião de demónios e uma legião de anjos para que se guerreiem.
Fez uma pausa e concluiu:
– Porque a Terra precisa de ser povoada de homens...

terça-feira, 27 de março de 2007

segunda-feira, 26 de março de 2007

Todos diferentes, todos iguais...

Os quatro terrestres apreciavam a primeira saída da nave depois da longa viagem. Sergei Schmidt, germano-russo, o engenheiro de sistemas, filmava o mar em diversas gamas de frequência, pois estava intrigado com a fosforescência que por vezes aparecia na superficie líquida. Chegando ao topo da colina, avistaram a avenida que parecia ser um local de passeio muito apreciado pelos indígenas. Brigitta Eco, exo-bióloga, filha de pai sueco e mãe italiana, ajustou a viseira do capacete para o modo telescópico, observou uns momentos os arcturianos e exclamou:
— Vejam, que giras são as crias!
Joshua Makulela era o chefe da missão. O transmissor implantado no ouvido emitiu um estalido e ele passou a dar atenção às mensagens que o controlo da nave lhe começou a enviar, informações de rotina, confirmação da reunião no dia seguinte com o Conselho Octópode. Quando terminou a transmissão, começou a ouvir a conversa que Takuji Barbosa mantinha com Brigitta:
— (...) e antes de entrar para a universidade, os meus pais mandaram-me um ano para o Japão. Fiquei em casa do meu avô, que era pescador na ilha de Rishiri, próximo da ponta norte de Hokkaido, e fui com ele algumas vezes pescar lulas gigantes. Eram muito parecidas com estes polvos andantes, a pesca era trabalhosa, mas davam uns bifes muito gostosos. Será que estes...
O nipobrasileiro interrompeu a frase e soltou uma gargalhada, a olhar para a cara incomodada de Brigitta, que além do mais era vegetariana. O chefe sentiu-se na obrigação de intervir:
— Barbosa – o tratamento pelo apelido mostrava que não estava satisfeito – outro comentário politicamente incorrecto como esse e serei obrigado a registá-lo no diário de bordo!

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— Mamã, o que é aquilo? – perguntou o juvenil arcturiano, apontando com dois tentáculos de cor rosada, indicação clara do seu estádio ainda assexuado de evolução.
— Não se deve apontar – corrigiu a mãe, dirigindo uma das antenas de visão para a direcção indicada. Focando o olho multifacetado, observou o que tinha provocado o espanto do produto do seu ovo mais recente.
O filho mais velho, que se distraía saltitando sobre três tentáculos de cada vez, olhou e disse, exibindo os conhecimentos adquiridos numa aula de exobiologia:
— São bípedes. De onde virão, papá?
O pai arcturiano esclareceu a família.
— O “Notícias de Arcturus” falou deles. São de um planeta chamado Terra, que orbita uma estrela chamada Sol, na periferia da galáxia. Vieram em missão de contacto e não devem ser hostilizados.
— São bons para comer? – perguntou o filho, com o apêndice sugador a pulsar de antecipação.
— Não te ensinaram na escola que não se deve comer outras espécies inteligentes? – admoestou a mãe.
— Vamos continuar o nosso passeio – ordenou o pai, e a família prosseguiu a sua deslocação pela avenida marginal, cruzando-se com outros membros da sua espécie, que saudavam com um ritual função da hierarquia relativa, estabelecida pelo rigoroso (e muito complexo) protocolo arcturiano.
Os mais pequenos seguiam agora mais à frente, numa brincadeira em que o filho fingia que pretendia dar um nó em dois tentáculos do juvenil, que lhe escapava com guinchos de satisfação. E disse a mãe arcturiana:
— Não falei há pouco para não impressionar os miúdos, mas eles são tão... anormais, que até senti ondulações na epiderme. Imagina, apenas quatro tentáculos, e dois deles reservados para a locomoção!
Ao que o pai arcturiano retorquiu:
— Eu não sou xenófobo, mas acho mal que o Conselho Octópode autorize a entrada de alienígenas em zonas da cidade tradicionalmente reservadas ao lazer familiar!

sexta-feira, 23 de março de 2007

Em Delfos

Em Delfos vivia a pitonisa. Mas longe havia chegado a sua fama. Das profecias que fizera. Das soluções que dera a muitas questões importantes. De como salvara cidades da derrota.
Uma caverna era a sua morada. Mas pelo trilho de terra batida que a ela conduzia mais gente passava do que por muitas estradas que levavam a templos dedicados a Zeus.
Ofertas se amontoavam na entrada. Poderosos e humildes ali acorriam, buscando remédio para as suas inquietações. E a todos a resposta era dada, embora nem todos a entendessem.
Um dia, a Delfos chegou um estrangeiro. Algo de indefinido, de misterioso, despertou a curiosidade local. É um guerreiro, dizia um, induzido pelo seu porte erecto, seu caminhar firme e seguro, embora despido de arrogância. É um mágico, outro afirmava, pois que o ouvi murmurar estranhas palavras, como de encantamento.
Na praça pública parou o estrangeiro. No chão, à sombra do carvalho milenário, se assentou. Do saco que trazia ao ombro tirou pão escuro e queijo branco de ovelha, e comeu. Algum tempo ficou, a cabeça apoiada nos joelhos, ninguém sabe se dormindo ou meditando. Levantou-se, bebeu água fresca do poço, tomou o cajado e o bornal e afastou-se em direcção à caverna da pitonisa.
Dentro, a luz trémula de algumas lâmpadas de azeite ocultava, mais do que revelava, o rosto da pitonisa. Envolta num manto escuro de lã grosseira, estava sentada, num banco tosco de madeira, junto do buraco de água fervente cujas emanações, alguns diziam, ajudavam o seu espírito a deixar o corpo durante os transes divinatórios. A um canto, uma jovem vestida com uma túnica branca, tocava de quando em quando uma flauta. Acordes tristes como lamentos, que morriam em múltiplos ecos nas paredes de rocha nua.
O estrangeiro parou a alguns passos da pitonisa. Com o joelho direito no chão, conforme o costume, falou:
- Mulher, tu cujo espírito tem acesso aos deuses do Olimpo e, segundo dizem, consegue até entrar no reino dos mortos e regressar de novo; tu, de cujas visões todos falam; tu que lês no futuro como se ele estivesse escrito na tua frente, ouve:
Viajar tem sido a minha vida, e procurar tem sido o meu destino. O pó de muitos caminhos já sujou as minhas sandálias. Conheci e aprendi com sacerdotes do Egipto, e com poderosos magos em terras ainda mais a Oriente. Desci ao Sul, onde feiticeiros negros me ensinaram a sua arte. Fui para Ocidente, até onde começa o grande mar que não tem fim. Viajei para o Norte, onde a terra é todo o ano branca e gelada, e onde tribos bárbaras oferecem vidas humanas em sacrifício aos seus deuses. Falei com mercadores e pedintes, guerreiros e pastores, escravos e homens livres. E nunca ninguém me deu a resposta ao que te vou perguntar:
Vale mais encontrar e perder, ou nunca encontrar?
É maior a tristeza depois do fim, ou a amargura por nunca haver princípio?
É melhor desejar, aceitando a dor, ou não desejar, escolhendo a ausência?
Assim falou o estrangeiro. Longamente a pitonisa olhou o fumo que saía da água fervente. Mas a sua boca manteve-se fechada. Ao fim de muito tempo o estrangeiro ergueu-se, deu meia volta e dirigiu-se para a saída da caverna, caminhando lentamente, os ombros curvados como se suportassem um enorme peso.
E nunca a pitonisa de Delfos encontrou a resposta para as perguntas do estrangeiro.
Porque, mesmo para os deuses do Olimpo, é mistério o que se passa no coração dos homens.

Esta estória, escrita há muitos anos, foi agora recuperada da arca das velharias...

sexta-feira, 2 de março de 2007

Seguem-se duas Mínimas em jeito de homenagem ao cartunista José Bandeira, inventor da modalidade, cujo Bandeira ao Vento visito com frequência.

Revelação

Quando percebeu que "peripatético" se tinha tornado um insulto, passou a dar aulas sentado.

Idade

Eu ainda sou do tempo em que o adjectivo "ambicioso" era ofensivo.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Mais à distância de um click, desta vez "em estrangeiro"...

Uma versão em inglês ("Passing away") de um pequeno texto ("A Passagem") aqui postado em 31 de Janeiro deste ano foi publicada, juntamente com a versão original, no nº 232 de Bewildering Stories. De publicação semanal, esta revista electrónica apresenta "speculative fiction as well as non-fiction, namely poetry, articles, essays, reviews, and art".
Vale a pena visitar.

Tomei conhecimento da Bewildering Stories na lista planetasf, uma espécie de Torre de Babel do século XXI, começada a construir por Sergio Gaut vel Hartman a partir da Argentina...

Consciência tranquila

“Tenho a minha consciência tranquila, Senhor Doutor Juiz”, declarou o arguido.
“O arguido tem conhecimento de que o tribunal precisa de verificar a sua declaração. Queira exibir a sua consciência perante este tribunal”.
“Não a tenho comigo, Senhor Doutor Juiz. Deixo-a sempre em casa quando saio”.
“Mas o arguido sabe que a lei obriga qualquer cidadão a fazer-se acompanhar permanentemente da sua consciência”.
O arguido baixou a cabeça, numa assunção de culpa. O juiz emitiu um despacho aplicando ao arguido a coima prevista na lei por não se fazer acompanhar pela sua consciência e outro despacho a enviar um oficial de diligências à residência do arguido. A audiência foi suspensa aguardando cumprimento do segundo despacho.
Mais tarde, o relatório do oficial de diligências descreveria que, na sequência de busca efectuada à residência do arguido, os funcionários do tribunal tinham encontrado, num compartimento confortável mas fechado à chave, a consciência do arguido alimentada por via intravenosa, totalmente adormecida devido à administração maciça de tranquilizantes. O “cocktail” que lhe estava a ser administrado foi identificado pelo laboratório da Polícia como um poderoso anestesiante, refinado em laboratórios referenciados pela Interpol nas ilhas Cayman, Bahamas, Seychelles e zona franca da Madeira.
A análise efectuada mostrou vestígios de várias drogas com origem em tráfico de influências, vírgulas mal colocadas em despachos governamentais, coordenadas das rotas do comércio de armas e fraudes em operações financeiras em diversas bolsas um pouco por todo o mundo, tudo misturado com um forte agente branqueador.
Os cuidados de saúde à consciência do arguido eram prestados continuamente por uma equipa de jovens ucranianas, trabalhando por turnos, sem recibo, profissionais de enfermagem no seu país de origem mas presentemente trabalhadoras no “Luzes da Noite”, conhecido bar de alterne de propriedade do arguido.
Perante esta evidência recolhida, o juiz ordenou o internamento da consciência do arguido na unidade de cuidados intensivos do Hospital Central, devendo ser mantida sob vigilância e protecção policial, e o processo foi suspenso até à sua recuperação, para que possa ser citada como testemunha.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Eles...


(Espaço despido de adereços, neutro. António e Joaquim entram de lados opostos da cena.)


JOAQUIM
- Olá, António.

ANTÓNIO
- Viva, Joaquim. Como vão as coisas?

JOAQUIM
- Não te posso dizer, pá.

ANTÓNIO
- Não me podes dizer o quê?

JOAQUIM
- Não te posso dizer como vão as coisas se não me disseres antes a senha.

ANTÓNIO
- A senha? Qual senha?

JOAQUIM
- A senha que é preciso dizer para saber como vão as coisas.

ANTÓNIO
- Oh pá, este “como vão as coisas” era uma forma de expressão, assim como se diz “como vai isso”...

JOAQUIM
- Sim, sim. Eles avisaram-me sobre essas perguntas.

ANTÓNIO
- Eles? Eles quem?

JOAQUIM (como se não o tivesse ouvido)
- Sim, que às vezes havia perguntas que pareciam ingénuas, mas que eram capciosas, que tínhamos que estar atentos e vigilantes.

ANTÓNIO
- Mas eles quem?

JOAQUIM
- Não te posso dizer se não sabes a senha.

ANTÓNIO
- A senha, outra vez?

JOAQUIM
- Claro, a SENHA!

ANTÓNIO
- E como é que se obtém a senha?

JOAQUIM
- São eles que a dão.

ANTÓNIO
- Eles quem?

JOAQUIM
- Não te posso dizer porque não sabes a senha!

ANTÓNIO (fica calado uns segundos; depois, cauteloso...)
- São eles que mandam?

JOAQUIM
- Bem... Sim e não.

ANTÓNIO
- Sim e não...? O que é que isso quer dizer?

JOAQUIM (apontando vagamente para o fundo do palco)
- Bem, eles mandam, mas acima deles está... ELE.

ANTÓNIO
- Ele?

JOAQUIM
- ELE!!!

ANTÓNIO
- OK, OK, não te stresses... Então ELE é que manda?

JOAQUIM
- Claro!

ANTÓNIO (novamente cauteloso)
- E manda o quê?

JOAQUIM
- Ora, manda o que lhe apetecer...

JOAQUIM (mais afirmativo)
...mas sempre para o nosso bem!

ANTÓNIO
- Claro, com certeza. E não me podes dizer quem são eles?

JOAQUIM
- Nem penses! Se eles soubessem que eu tinha dito a alguém que não sabe a senha quem eles eram, eles castigavam-me.

ANTÓNIO
- Ai eles castigam?

JOAQUIM
- Claro, quando a gente não segue o Regulamento.

ANTÓNIO
- Regulamento? Que regulamento?

JOAQUIM
- Não te posso dizer porque

ANTÓNIO (interrompendo)
- Já sei, já sei! Porque não sei a senha.

JOAQUIM (sorrindo com satisfação)
- Vês como começas a perceber?

ANTÓNIO
- Sim, sim... Mas diz-me lá: e esse regulamento é assim... como...

JOAQUIM (um pouco enfadado)
- Ora, o Regulamento é um regulamento. Nunca viste um regulamento? Tem escrito o que tu podes e não podes fazer.

ANTÓNIO
- Tou a ver... e se eu quiser falar com eles, posso?

JOAQUIM
- Não, porque não sabes a senha.

( Olham um para o outro durante uns segundos)

JOAQUIM (em voz mais baixa, como se revelasse um segredo)
- São eles que falam contigo.

ANTÓNIO
- E como? Quando?

JOAQUIM
- Quando acharem que estás preparado.

ANTÓNIO
- Ah bom, então só tenho que esperar que eles me contactem.

JOAQUIM
- Sim, sim, eles sabem tudo, portanto vão descobrir quando tu estiveres preparado.

ANTÓNIO
- Bem, assim já fico mais descansado. Tchau, Joaquim, até qualquer dia.

JOAQUIM
- Tchau, António.

ANTÓNIO (sai de cena, enquanto comenta para a plateia)
- Sai-me cada um na rifa!

(Joaquim fica sozinho em palco. Certifica-se que António se foi embora, puxa do telemóvel, marca um número)

JOAQUIM
- Está? Serviço de contagem de pontos? É para dizer que fiz mais um contacto. Acho que se contactar mais dois já tenho direito ao bónus, não é? Obrigado.

(Desliga e passeia durante uns segundos, com ar satisfeito. Entra Alfredo)

JOAQUIM
- Olá, Alfredo.

ALFREDO
- Olá, Joaquim. Tás bom?

JOAQUIM
- Oh pá, não te posso dizer...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Marketing...

- Alberto, preciso de uma anedota com o Durão Barroso. Leve, de salão, nada de ordinário. Resposta tipo sorriso, mais do que gargalhada. Corrosiva q.b. Tem aqui o dossier com o público-alvo.
- Mas, Dr. Sequeira, tenho entre mãos a análise da reacção à que lançámos há 10 dias com o Fernando Gomes. E estou a acabar o relatório da do Jorge Coelho.
- Arquive a do Gomes. O cliente mandou parar o trabalho, parece que já não precisa. Ponha o Francisco a acabar o relatório. Este trabalho é mais urgente e mais importante.
E em voz mais baixa, acrescentou:
- O cliente é um dos candidatos à liderança.
Alberto sabia que o que o Dr. Sequeira considerava urgente e importante era para ser feito ontem. Atirou-se ao trabalho. Uma hora depois, já tinha quatro ideias para seleccionar a que seria desenvolvida e apresentada ao cliente. Depois, uma vez aprovada, seguiria o trajecto normal pela rede de distribuição considerada a mais apropriada, que poderia incluir mailing lists na Net, grupos de IRC, apresentadores de televisão, alguns jornalistas… Alberto conhecia bem esta parte do negócio porque tinha começado por lá, antes de chegar a criativo. E sempre tinha achado curioso como ninguém se interrogava nunca sobre como nascia (e porque nascia…) uma anedota sobre uma figura pública…
O plim do seu computador interrompeu-lhe o devaneio, chamando-lhe a atenção para o monitor onde começou a deslizar um mail do Dr. Sequeira:
To: Criativos
Subject: Sessão de brain-storming às 14:00
Message: É necessário ter ideias sobre dirigentes desportivos para lançar logo que o “consenso nacional” for às malvas e começar a sério a guerra do Euro 2004.
Mais uma sessão de frita-miolos, pensou Alberto. Detestava essas reuniões, sobretudo quando lhe estragavam os planos. Pegou no telefone, desmarcou o almoço que tinha combinado e ligou em seguida para o restaurante a cancelar a reserva.
Bloqueou o computador e saiu do cubículo. No átrio da entrada, a recepcionista atendia um telefonema enquanto olhava atentamente as unhas da mão direita. Levantou os olhos e sorriu-lhe; ele retribuiu o sorriso com uma piscadela de olho e saiu da Sequeira & Freitas – Estudos de Opinião e Marketing, Lda.
Resolveu descer do 8º andar pelas escadas. A descida monótona dos degraus às vezes trazia-lhe ideias.
Antes de entrar na cafetaria, parou no quiosque dos jornais e comprou “A Bola”. A mesa do canto, com vista para a porta, estava livre. Sentou-se, pediu uma cerveja sem álcool e um cachorro e enquanto comia ia lendo o jornal, tentando apanhar as entrelinhas de algumas notícias para a sessão das duas: boatos malévolos, insinuações de corrupção, o material tinha que ser menos “punhos de renda” e mais estilo “guerra suja”. A terminar, bebeu um café duplo, pagou e saiu.
Quando regressou ao cubículo viu as horas. Faltavam 25 minutos para as duas, o que ainda lhe dava tempo para fazer um telefonema. O Paulo era engenheiro, trabalhava na construção civil e estava muito por dentro do que se passava com as obras nos estádios. Conseguiu apanhá-lo no telemóvel e teve uma proveitosa conversa durante cerca de 15 minutos, ao longo da qual foi tirando notas.
Quando terminou essa chamada, marcou o número da Susana, amiga do tempo da faculdade e jornalista numa das revistas “sociais”, que costumava estar sempre a par das últimas fofocas sobre os chamados colunáveis. Uma dica sobre um cantor cujo CD estava nos tops, uma informação super confidencial a respeito de uma actriz de teatro, outra sobre um manequim muito conhecido... Tudo material que, convenientemente trabalhado, transformado em piada ou anedota, poderia ser proposto para venda à concorrência das referidas personalidades. Alberto gostava de ter sempre qualquer coisa na manga, para o caso de o Dr. Sequeira se lembrar de pedir outras ideias no fim da reunião. E o lugar de director criativo só estava um degrau acima do seu nível actual...
Às 13 e 59, Alberto levantou-se e dirigiu-se para a sala de reuniões. O Dr. Sequeira detestava que se chegasse atrasado...

Escrito em Março de 2001, este texto nunca tinha visto a luz do dia. Tive preguiça de mudar os nomes, e decidi afixá-lo tal qual estava no disco. Espero que se mantenha "legível"...