terça-feira, 27 de março de 2007
segunda-feira, 26 de março de 2007
Todos diferentes, todos iguais...
Os quatro terrestres apreciavam a primeira saída da nave depois da longa viagem. Sergei Schmidt, germano-russo, o engenheiro de sistemas, filmava o mar em diversas gamas de frequência, pois estava intrigado com a fosforescência que por vezes aparecia na superficie líquida. Chegando ao topo da colina, avistaram a avenida que parecia ser um local de passeio muito apreciado pelos indígenas. Brigitta Eco, exo-bióloga, filha de pai sueco e mãe italiana, ajustou a viseira do capacete para o modo telescópico, observou uns momentos os arcturianos e exclamou:— Vejam, que giras são as crias!
Joshua Makulela era o chefe da missão. O transmissor implantado no ouvido emitiu um estalido e ele passou a dar atenção às mensagens que o controlo da nave lhe começou a enviar, informações de rotina, confirmação da reunião no dia seguinte com o Conselho Octópode. Quando terminou a transmissão, começou a ouvir a conversa que Takuji Barbosa mantinha com Brigitta:
— (...) e antes de entrar para a universidade, os meus pais mandaram-me um ano para o Japão. Fiquei em casa do meu avô, que era pescador na ilha de Rishiri, próximo da ponta norte de Hokkaido, e fui com ele algumas vezes pescar lulas gigantes. Eram muito parecidas com estes polvos andantes, a pesca era trabalhosa, mas davam uns bifes muito gostosos. Será que estes...
O nipobrasileiro interrompeu a frase e soltou uma gargalhada, a olhar para a cara incomodada de Brigitta, que além do mais era vegetariana. O chefe sentiu-se na obrigação de intervir:
— Barbosa – o tratamento pelo apelido mostrava que não estava satisfeito – outro comentário politicamente incorrecto como esse e serei obrigado a registá-lo no diário de bordo!
.................................................................
— Mamã, o que é aquilo? – perguntou o juvenil arcturiano, apontando com dois tentáculos de cor rosada, indicação clara do seu estádio ainda assexuado de evolução.
— Não se deve apontar – corrigiu a mãe, dirigindo uma das antenas de visão para a direcção indicada. Focando o olho multifacetado, observou o que tinha provocado o espanto do produto do seu ovo mais recente.
O filho mais velho, que se distraía saltitando sobre três tentáculos de cada vez, olhou e disse, exibindo os conhecimentos adquiridos numa aula de exobiologia:
— São bípedes. De onde virão, papá?
O pai arcturiano esclareceu a família.
— O “Notícias de Arcturus” falou deles. São de um planeta chamado Terra, que orbita uma estrela chamada Sol, na periferia da galáxia. Vieram em missão de contacto e não devem ser hostilizados.
— São bons para comer? – perguntou o filho, com o apêndice sugador a pulsar de antecipação.
— Não te ensinaram na escola que não se deve comer outras espécies inteligentes? – admoestou a mãe.
— Vamos continuar o nosso passeio – ordenou o pai, e a família prosseguiu a sua deslocação pela avenida marginal, cruzando-se com outros membros da sua espécie, que saudavam com um ritual função da hierarquia relativa, estabelecida pelo rigoroso (e muito complexo) protocolo arcturiano.
Os mais pequenos seguiam agora mais à frente, numa brincadeira em que o filho fingia que pretendia dar um nó em dois tentáculos do juvenil, que lhe escapava com guinchos de satisfação. E disse a mãe arcturiana:
— Não falei há pouco para não impressionar os miúdos, mas eles são tão... anormais, que até senti ondulações na epiderme. Imagina, apenas quatro tentáculos, e dois deles reservados para a locomoção!
Ao que o pai arcturiano retorquiu:
— Eu não sou xenófobo, mas acho mal que o Conselho Octópode autorize a entrada de alienígenas em zonas da cidade tradicionalmente reservadas ao lazer familiar!
sexta-feira, 23 de março de 2007
Em Delfos
Em Delfos vivia a pitonisa. Mas longe havia chegado a sua fama. Das profecias que fizera. Das soluções que dera a muitas questões importantes. De como salvara cidades da derrota.Uma caverna era a sua morada. Mas pelo trilho de terra batida que a ela conduzia mais gente passava do que por muitas estradas que levavam a templos dedicados a Zeus.
Ofertas se amontoavam na entrada. Poderosos e humildes ali acorriam, buscando remédio para as suas inquietações. E a todos a resposta era dada, embora nem todos a entendessem.
Um dia, a Delfos chegou um estrangeiro. Algo de indefinido, de misterioso, despertou a curiosidade local. É um guerreiro, dizia um, induzido pelo seu porte erecto, seu caminhar firme e seguro, embora despido de arrogância. É um mágico, outro afirmava, pois que o ouvi murmurar estranhas palavras, como de encantamento.
Na praça pública parou o estrangeiro. No chão, à sombra do carvalho milenário, se assentou. Do saco que trazia ao ombro tirou pão escuro e queijo branco de ovelha, e comeu. Algum tempo ficou, a cabeça apoiada nos joelhos, ninguém sabe se dormindo ou meditando. Levantou-se, bebeu água fresca do poço, tomou o cajado e o bornal e afastou-se em direcção à caverna da pitonisa.
Dentro, a luz trémula de algumas lâmpadas de azeite ocultava, mais do que revelava, o rosto da pitonisa. Envolta num manto escuro de lã grosseira, estava sentada, num banco tosco de madeira, junto do buraco de água fervente cujas emanações, alguns diziam, ajudavam o seu espírito a deixar o corpo durante os transes divinatórios. A um canto, uma jovem vestida com uma túnica branca, tocava de quando em quando uma flauta. Acordes tristes como lamentos, que morriam em múltiplos ecos nas paredes de rocha nua.
O estrangeiro parou a alguns passos da pitonisa. Com o joelho direito no chão, conforme o costume, falou:
- Mulher, tu cujo espírito tem acesso aos deuses do Olimpo e, segundo dizem, consegue até entrar no reino dos mortos e regressar de novo; tu, de cujas visões todos falam; tu que lês no futuro como se ele estivesse escrito na tua frente, ouve:
Viajar tem sido a minha vida, e procurar tem sido o meu destino. O pó de muitos caminhos já sujou as minhas sandálias. Conheci e aprendi com sacerdotes do Egipto, e com poderosos magos em terras ainda mais a Oriente. Desci ao Sul, onde feiticeiros negros me ensinaram a sua arte. Fui para Ocidente, até onde começa o grande mar que não tem fim. Viajei para o Norte, onde a terra é todo o ano branca e gelada, e onde tribos bárbaras oferecem vidas humanas em sacrifício aos seus deuses. Falei com mercadores e pedintes, guerreiros e pastores, escravos e homens livres. E nunca ninguém me deu a resposta ao que te vou perguntar:
Vale mais encontrar e perder, ou nunca encontrar?
É maior a tristeza depois do fim, ou a amargura por nunca haver princípio?
É melhor desejar, aceitando a dor, ou não desejar, escolhendo a ausência?
Assim falou o estrangeiro. Longamente a pitonisa olhou o fumo que saía da água fervente. Mas a sua boca manteve-se fechada. Ao fim de muito tempo o estrangeiro ergueu-se, deu meia volta e dirigiu-se para a saída da caverna, caminhando lentamente, os ombros curvados como se suportassem um enorme peso.
E nunca a pitonisa de Delfos encontrou a resposta para as perguntas do estrangeiro.
Porque, mesmo para os deuses do Olimpo, é mistério o que se passa no coração dos homens.
Esta estória, escrita há muitos anos, foi agora recuperada da arca das velharias...
sexta-feira, 2 de março de 2007
Seguem-se duas Mínimas em jeito de homenagem ao cartunista José Bandeira, inventor da modalidade, cujo Bandeira ao Vento visito com frequência.
Revelação
Quando percebeu que "peripatético" se tinha tornado um insulto, passou a dar aulas sentado.Idade
Eu ainda sou do tempo em que o adjectivo "ambicioso" era ofensivo.segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
Mais à distância de um click, desta vez "em estrangeiro"...
Uma versão em inglês ("Passing away") de um pequeno texto ("A Passagem") aqui postado em 31 de Janeiro deste ano foi publicada, juntamente com a versão original, no nº 232 de Bewildering Stories. De publicação semanal, esta revista electrónica apresenta "speculative fiction as well as non-fiction, namely poetry, articles, essays, reviews, and art".Vale a pena visitar.
Tomei conhecimento da Bewildering Stories na lista planetasf, uma espécie de Torre de Babel do século XXI, começada a construir por Sergio Gaut vel Hartman a partir da Argentina...
Consciência tranquila
“Tenho a minha consciência tranquila, Senhor Doutor Juiz”, declarou o arguido.“O arguido tem conhecimento de que o tribunal precisa de verificar a sua declaração. Queira exibir a sua consciência perante este tribunal”.
“Não a tenho comigo, Senhor Doutor Juiz. Deixo-a sempre em casa quando saio”.
“Mas o arguido sabe que a lei obriga qualquer cidadão a fazer-se acompanhar permanentemente da sua consciência”.
O arguido baixou a cabeça, numa assunção de culpa. O juiz emitiu um despacho aplicando ao arguido a coima prevista na lei por não se fazer acompanhar pela sua consciência e outro despacho a enviar um oficial de diligências à residência do arguido. A audiência foi suspensa aguardando cumprimento do segundo despacho.
Mais tarde, o relatório do oficial de diligências descreveria que, na sequência de busca efectuada à residência do arguido, os funcionários do tribunal tinham encontrado, num compartimento confortável mas fechado à chave, a consciência do arguido alimentada por via intravenosa, totalmente adormecida devido à administração maciça de tranquilizantes. O “cocktail” que lhe estava a ser administrado foi identificado pelo laboratório da Polícia como um poderoso anestesiante, refinado em laboratórios referenciados pela Interpol nas ilhas Cayman, Bahamas, Seychelles e zona franca da Madeira.
A análise efectuada mostrou vestígios de várias drogas com origem em tráfico de influências, vírgulas mal colocadas em despachos governamentais, coordenadas das rotas do comércio de armas e fraudes em operações financeiras em diversas bolsas um pouco por todo o mundo, tudo misturado com um forte agente branqueador.
Os cuidados de saúde à consciência do arguido eram prestados continuamente por uma equipa de jovens ucranianas, trabalhando por turnos, sem recibo, profissionais de enfermagem no seu país de origem mas presentemente trabalhadoras no “Luzes da Noite”, conhecido bar de alterne de propriedade do arguido.
Perante esta evidência recolhida, o juiz ordenou o internamento da consciência do arguido na unidade de cuidados intensivos do Hospital Central, devendo ser mantida sob vigilância e protecção policial, e o processo foi suspenso até à sua recuperação, para que possa ser citada como testemunha.
domingo, 4 de fevereiro de 2007
Eles...
(Espaço despido de adereços, neutro. António e Joaquim entram de lados opostos da cena.)
JOAQUIM
- Olá, António.
ANTÓNIO
- Viva, Joaquim. Como vão as coisas?
JOAQUIM
- Não te posso dizer, pá.
ANTÓNIO
- Não me podes dizer o quê?
JOAQUIM
- Não te posso dizer como vão as coisas se não me disseres antes a senha.
ANTÓNIO
- A senha? Qual senha?
JOAQUIM
- A senha que é preciso dizer para saber como vão as coisas.
ANTÓNIO
- Oh pá, este “como vão as coisas” era uma forma de expressão, assim como se diz “como vai isso”...
JOAQUIM
- Sim, sim. Eles avisaram-me sobre essas perguntas.
ANTÓNIO
- Eles? Eles quem?
JOAQUIM (como se não o tivesse ouvido)
- Sim, que às vezes havia perguntas que pareciam ingénuas, mas que eram capciosas, que tínhamos que estar atentos e vigilantes.
ANTÓNIO
- Mas eles quem?
JOAQUIM
- Não te posso dizer se não sabes a senha.
ANTÓNIO
- A senha, outra vez?
JOAQUIM
- Claro, a SENHA!
ANTÓNIO
- E como é que se obtém a senha?
JOAQUIM
- São eles que a dão.
ANTÓNIO
- Eles quem?
JOAQUIM
- Não te posso dizer porque não sabes a senha!
ANTÓNIO (fica calado uns segundos; depois, cauteloso...)
- São eles que mandam?
JOAQUIM
- Bem... Sim e não.
ANTÓNIO
- Sim e não...? O que é que isso quer dizer?
JOAQUIM (apontando vagamente para o fundo do palco)
- Bem, eles mandam, mas acima deles está... ELE.
ANTÓNIO
- Ele?
JOAQUIM
- ELE!!!
ANTÓNIO
- OK, OK, não te stresses... Então ELE é que manda?
JOAQUIM
- Claro!
ANTÓNIO (novamente cauteloso)
- E manda o quê?
JOAQUIM
- Ora, manda o que lhe apetecer...
JOAQUIM (mais afirmativo)
...mas sempre para o nosso bem!
ANTÓNIO
- Claro, com certeza. E não me podes dizer quem são eles?
JOAQUIM
- Nem penses! Se eles soubessem que eu tinha dito a alguém que não sabe a senha quem eles eram, eles castigavam-me.
ANTÓNIO
- Ai eles castigam?
JOAQUIM
- Claro, quando a gente não segue o Regulamento.
ANTÓNIO
- Regulamento? Que regulamento?
JOAQUIM
- Não te posso dizer porque
ANTÓNIO (interrompendo)
- Já sei, já sei! Porque não sei a senha.
JOAQUIM (sorrindo com satisfação)
- Vês como começas a perceber?
ANTÓNIO
- Sim, sim... Mas diz-me lá: e esse regulamento é assim... como...
JOAQUIM (um pouco enfadado)
- Ora, o Regulamento é um regulamento. Nunca viste um regulamento? Tem escrito o que tu podes e não podes fazer.
ANTÓNIO
- Tou a ver... e se eu quiser falar com eles, posso?
JOAQUIM
- Não, porque não sabes a senha.
( Olham um para o outro durante uns segundos)
JOAQUIM (em voz mais baixa, como se revelasse um segredo)
- São eles que falam contigo.
ANTÓNIO
- E como? Quando?
JOAQUIM
- Quando acharem que estás preparado.
ANTÓNIO
- Ah bom, então só tenho que esperar que eles me contactem.
JOAQUIM
- Sim, sim, eles sabem tudo, portanto vão descobrir quando tu estiveres preparado.
ANTÓNIO
- Bem, assim já fico mais descansado. Tchau, Joaquim, até qualquer dia.
JOAQUIM
- Tchau, António.
ANTÓNIO (sai de cena, enquanto comenta para a plateia)
- Sai-me cada um na rifa!
(Joaquim fica sozinho em palco. Certifica-se que António se foi embora, puxa do telemóvel, marca um número)
JOAQUIM
- Está? Serviço de contagem de pontos? É para dizer que fiz mais um contacto. Acho que se contactar mais dois já tenho direito ao bónus, não é? Obrigado.
(Desliga e passeia durante uns segundos, com ar satisfeito. Entra Alfredo)
JOAQUIM
- Olá, Alfredo.
ALFREDO
- Olá, Joaquim. Tás bom?
JOAQUIM
- Oh pá, não te posso dizer...
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
Marketing...
- Alberto, preciso de uma anedota com o Durão Barroso. Leve, de salão, nada de ordinário. Resposta tipo sorriso, mais do que gargalhada. Corrosiva q.b. Tem aqui o dossier com o público-alvo.- Mas, Dr. Sequeira, tenho entre mãos a análise da reacção à que lançámos há 10 dias com o Fernando Gomes. E estou a acabar o relatório da do Jorge Coelho.
- Arquive a do Gomes. O cliente mandou parar o trabalho, parece que já não precisa. Ponha o Francisco a acabar o relatório. Este trabalho é mais urgente e mais importante.
E em voz mais baixa, acrescentou:
- O cliente é um dos candidatos à liderança.
Alberto sabia que o que o Dr. Sequeira considerava urgente e importante era para ser feito ontem. Atirou-se ao trabalho. Uma hora depois, já tinha quatro ideias para seleccionar a que seria desenvolvida e apresentada ao cliente. Depois, uma vez aprovada, seguiria o trajecto normal pela rede de distribuição considerada a mais apropriada, que poderia incluir mailing lists na Net, grupos de IRC, apresentadores de televisão, alguns jornalistas… Alberto conhecia bem esta parte do negócio porque tinha começado por lá, antes de chegar a criativo. E sempre tinha achado curioso como ninguém se interrogava nunca sobre como nascia (e porque nascia…) uma anedota sobre uma figura pública…
O plim do seu computador interrompeu-lhe o devaneio, chamando-lhe a atenção para o monitor onde começou a deslizar um mail do Dr. Sequeira:
To: Criativos
Subject: Sessão de brain-storming às 14:00
Message: É necessário ter ideias sobre dirigentes desportivos para lançar logo que o “consenso nacional” for às malvas e começar a sério a guerra do Euro 2004.
Mais uma sessão de frita-miolos, pensou Alberto. Detestava essas reuniões, sobretudo quando lhe estragavam os planos. Pegou no telefone, desmarcou o almoço que tinha combinado e ligou em seguida para o restaurante a cancelar a reserva.
Bloqueou o computador e saiu do cubículo. No átrio da entrada, a recepcionista atendia um telefonema enquanto olhava atentamente as unhas da mão direita. Levantou os olhos e sorriu-lhe; ele retribuiu o sorriso com uma piscadela de olho e saiu da Sequeira & Freitas – Estudos de Opinião e Marketing, Lda.
Resolveu descer do 8º andar pelas escadas. A descida monótona dos degraus às vezes trazia-lhe ideias.
Antes de entrar na cafetaria, parou no quiosque dos jornais e comprou “A Bola”. A mesa do canto, com vista para a porta, estava livre. Sentou-se, pediu uma cerveja sem álcool e um cachorro e enquanto comia ia lendo o jornal, tentando apanhar as entrelinhas de algumas notícias para a sessão das duas: boatos malévolos, insinuações de corrupção, o material tinha que ser menos “punhos de renda” e mais estilo “guerra suja”. A terminar, bebeu um café duplo, pagou e saiu.
Quando regressou ao cubículo viu as horas. Faltavam 25 minutos para as duas, o que ainda lhe dava tempo para fazer um telefonema. O Paulo era engenheiro, trabalhava na construção civil e estava muito por dentro do que se passava com as obras nos estádios. Conseguiu apanhá-lo no telemóvel e teve uma proveitosa conversa durante cerca de 15 minutos, ao longo da qual foi tirando notas.
Quando terminou essa chamada, marcou o número da Susana, amiga do tempo da faculdade e jornalista numa das revistas “sociais”, que costumava estar sempre a par das últimas fofocas sobre os chamados colunáveis. Uma dica sobre um cantor cujo CD estava nos tops, uma informação super confidencial a respeito de uma actriz de teatro, outra sobre um manequim muito conhecido... Tudo material que, convenientemente trabalhado, transformado em piada ou anedota, poderia ser proposto para venda à concorrência das referidas personalidades. Alberto gostava de ter sempre qualquer coisa na manga, para o caso de o Dr. Sequeira se lembrar de pedir outras ideias no fim da reunião. E o lugar de director criativo só estava um degrau acima do seu nível actual...
Às 13 e 59, Alberto levantou-se e dirigiu-se para a sala de reuniões. O Dr. Sequeira detestava que se chegasse atrasado...
Escrito em Março de 2001, este texto nunca tinha visto a luz do dia. Tive preguiça de mudar os nomes, e decidi afixá-lo tal qual estava no disco. Espero que se mantenha "legível"...
quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
Acta da reunião do júri do concurso literário "Palavras nunca lidas"
Aos 15 de Março de 2004, decorreu a reunião final do júri, que deliberou:1. A necessária exclusão de uma das obras concorrentes por motivos alheios ao júri. Candidata na categoria "minimalista", vinha escrita numa folha com 2 por 3 centímetros. Quando da abertura do correio, a infeliz coincidência da porta e da janela abertas provocou uma corrente de ar em consequência da qual a obra, intitulada "A insustentável leveza da escrita", saiu pela janela, não podendo ser recuperada.
2. A forçada exclusão de uma outra obra cuja submissão tinha sido anunciada, e que entraria na categoria "maximalista". No dia limite para submeter originais concorrentes ocorreu uma greve de camionistas e o camião TIR fretado para transportar o manuscrito, que apropriadamente se intitulava "A Força da Gravidade", não conseguiu entrar antes de terminado o prazo.
3. A fase de pré-selecção foi depois realizada colocando os títulos das obras concorrentes em círculo e percorrendo os nomes sequencialmente no sentido dos ponteiros do relógio, enquanto os membros do júri entoavam em coro a conhecida rima
Um, dó, li, tá
Cara de amendoá
Um soleto
Coloreto
Um dó li tá
Desta forma foram sendo aleatoriamente eliminados sucessivos concorrentes até restar um grupo de 5 pré-finalistas.
4. Por curiosa coincidência, todas estas obras pré-seleccionadas se incluíam na categoria "prosa obrigada a letra", que exige que todas as palavras da obra em questão comecem com a mesma letra. Foram os seguintes os 5 pré-finalistas:
i) "Deverá Deodato divulgar dimensão da dívida? Deus, dura dúvida!"
Pseudónimo do autor: Duro Diamante
Trata-se de um exemplo da sub-categoria "intimismo existencialista". Ao fim de duzentas e trinta e sete páginas, Deodato continua indeciso sobre a resposta à pergunta colocada no título.
ii) "Alcina amava Afonso até às alturas ardentes"
Pseudónimo do autor: Artista Amoroso
Esta é uma obra situada dentro do sub-ramo "erótico" ou quiçá, em certos capítulos, "pornográfico". A relação entre os dois protagonistas é descrita com um detalhe capaz de fazer inveja ao manual de anatomia utilizado no 1º ano dos cursos de Medicina.
iii) "Efe, éne, éle, éme: exercício escrito espumoso, espúrio e espantado"
Pseudónimo do autor: Escritor Exposto
Integrada na literatura "formalístico-letrista", esta obra mostra ao longo das suas quase trezentas páginas a relação de um linguista com as letras, oscilando entre o amor e o ódio por vezes por razões fúteis, e outras mesmo sem razões.
iv) "Pedro partindo pedra, pensativo pousa picareta"
Pseudónimo do autor: Plúmbeo Pulmão
Desde a profissão do personagem principal até ao pseudónimo do autor (que insinua a sugestão de uma doença profissional), tudo nesta obra cheira a um neo-realismo serôdio que, dezenas de anos depois da queda da muralha da China, surge ainda de quando em vez em concursos literários.
v) "Zangado Zoroastro, zuniam zagaias, zagunchos, zagalotes..."
Pseudónimo do autor: Zéfiro Zumbi
Literatura "religioso-bélica", mais um das várias centenas de textos a reclamar-se de "high fantasy", produzidos por autores que foram ver a sessão especial non-stop da Trilogia do Senhor dos Anéis e quando regressaram a casa pegaram numa resma de folhas A4 e numa esferográfica, e descobriram que o seu futuro era escrever fantasia. O autor termina o manuscrito, não com a simples palavra "Fim", mas com um ameaçador "Fim do 1º volume".
5. Passando à votação final, o júri eliminou
i) Por unanimidade
"Deveria Deodato divulgar dimensão da dívida? Deus, dura dúvida!"
porque considerou que a dúvida sistemática tem um efeito deletério no tecido social, e esta obra constituiria um mau exemplo, principalmente para a juventude. O autor foi aconselhado a reduzi-la para um máximo de 15 páginas, e a fazer o protagonista tomar a decisão na página 14.
ii) Por unanimidade
"Pedro partindo pedra, pensativo pousa picareta"
porque os "amanhãs que cantam" já passaram de moda, até porque não se sabe se haverá amanhãs. E qualquer obra que fale em "solidariedade" e afins deve ter uma divulgação restrita, porque as consequências de tal divulgação são imprevisíveis.
iii) Por maioria
"Zangado Zoroastro, zuniam zagaias, zagunchos, zagalotes"
porque fantasia já há muita, e é preciso que o pessoal "caia no real". O empréstimo da casa, as prestações do carro, os concursos da televisão, as revistas do social, o futebol, essas sim devem ser as preocupações e actividades, em vez da leitura de livros sobre magia, espadas enfeitiçadas, e viagens infindáveis por causa de um anel ( ou de qualquer outro objecto!).
ficando assim apurados como finalistas
"Alcina amava Afonso até às alturas ardentes"; e
"Éfe, éne, éle, éme: exercício escrito espumoso, espúrio e espantado"
6. O júri decidiu, por maioria, atribuir o 1º lugar a
"Alcina amava Afonso até às alturas ardentes"
aplicando o critério da ordem alfabética aos dois finalistas.
Votou vencido o membro do júri Zeferino Zacarias, que em declaração de voto afirmou que, conforme defende na sua monografia "A ordem alfabética inversa – subsídios para a sua justificação" (publicada há vinte anos em edição de autor), a ordem a considerar deveria ser de Z para A e não de A para Z.
7. O júri decidiu, finalmente, propor a publicação da obra premiada numa colecção para adultos, em virtude de a mesma conter material eventualmente chocante, quase certamente perturbador para crianças e adolescentes, doentes com eczema, assessores de ministros, dirigentes desportivos, fanáticos do futebol em geral e outros espíritos fracos.
8. O júri ordenou então o transporte de todos os originais não premiados para o pátio interior do Palácio das Mil e Uma Noites, onde decorreu a reunião, e colocando-os em monte, pegou-lhes fogo. Tinha anoitecido, entretanto, e junto da fogueira os membros do júri congratularam-se com a rapidez com que decorreu o processo e com a importante contribuição dos concursos literários para o aumento da literacia da população, enquanto o dióxido de carbono e o vapor de água libertados na combustão de todo aquele papel se dissipavam na atmosfera contribuindo, ainda que de forma infinitesimal, para o agravamento do efeito de estufa e portanto para o aquecimento global do planeta.
Este texto foi premiado num concurso organizado pelo Luís Ene, numa sua outra encarnação, em 2004, no qual o júri foi constituído pelos próprios concorrentes.
sábado, 6 de janeiro de 2007
No céu nasceu uma estrela
Os alienígenas chegaram finalmente à Terra, por puro acaso; o piloto-chefe da frota tinha-se enganado no caminho. Mas contrariando as previsões apocalípticas dos pessimistas, eram uma espécie benemérita. O seu maior prazer era satisfazer os desejos dos outros.Perante visitantes tão ilustres, o Secretário-Geral da Liga dos Países Terrestres convidou os comandantes da frota a assistirem ao maior espectáculo do planeta: o festival de música “Queremos Ser Estrelas!”, envolvendo artistas concorrentes de todas as nações da Terra.
Mas os visitantes tinham um problema: levavam tudo à letra. E a distinção que faziam entre singular e plural era um pouco difusa.
Daí que, quando ouviram, na cerimónia de abertura do festival, as dezenas de milhares de concorrentes reunidos no palco gigante em Tombuctu gritar em coro “Queremos ser estrelas!”, o comandante-chefe da frota emitiu uma ordem para a nave-almirante, que com um poderoso feixe tractor puxou os concorrentes – e umas centenas adicionais de espectadores mais próximos do palco – e os levantou até atingirem a estratosfera. Aí os corpos foram envolvidos por um campo magnético fortíssimo e o plasma resultante, depois de injectado com uma mistura apropriada dos elementos deuteronómio e génesis, começou a desenvolver uma reacção em cadeia. O novo corpo celeste foi rebocado para a órbita da lua, onde ficou em posição diametralmente oposta ao satélite natural.
Duas semanas mais tarde, já a frota alienígena, após correcção da rota, tinha seguido viagem, o Secretário-Geral da Liga dos Países Terrestres repousava no jardim da sua casa de fim de semana, nos Alpes Suíços, e pensava: “Ainda bem que não lhes pedimos para acabar com a fome no mundo, ou para resolver o problema do aquecimento global... Sabe-se lá o que teriam feito!”
E entretanto observava a nova estrela que, naquela noite de lua nova, subia graciosamente no céu, a oriente...
domingo, 31 de dezembro de 2006
Reflexão sobre a carestia da escrita
Precisava de umas palavras para acabar o conto. Fui ao mercado. O governo devia ter mão nisto! Tudo caríssimo! Substantivos, adjectivos... um roubo! E os verbos? Passados, presentes, vá lá, mas os futuros!!!“Sabe, os futuros andam muito incertos”, justificou-se, profissional, o vendedor. “Embrulho?”
“Não, obrigado, é para escrever já.”
História trágico-cósmico-fronteiriça
Quando chegou ao fim do universo, o astronauta rejubilou: afinal era finito! Mas a natureza tem horror ao vazio; encostado ao universo havia outro. E o pessoal do SEF exigiu-lhe visto para entrar. Regressou, humilhado, e fez-se funcionário público. Carimbava os vistos aos turistas que queriam visitar o universo vizinho...Entre a insustentável leveza e o irremediável peso das palavras, a frustração do escritor perfeccionista
Escreveu com palavras leves. O conto escapou-lhe das mãos e subiu rapidamente no ar até se perder de vista.Recomeçou, usando palavras pesadas. O conto escorregou da folha de papel e afundou-se, irremediavelmente perdido.
Quando, persistente, acabou o terceiro, com palavras de densidade apropriada, já o prazo tinha sido ultrapassado.
sábado, 30 de dezembro de 2006
Entre o Dentro e o Fora há sempre uma fronteira, ainda que frágil
Dizia o Lado De Dentro, orgulhoso: “Eu contenho o início, o ovo!”“Mas eu incluo todo o universo, menos tu”, retorquia o Lado De Fora, enfático.
“Se continuam, salto daqui abaixo e mato-nos aos três!”, gritou a Casca, desesperada.
Palavras premonitórias: passou a dona da galinha, apeteceu-lhe um ovo estrelado...
Mini-saga (o texto, excluindo o título, tem exactamente 50 palavras) escrita em resposta a um desafio lançado na lista pelo Luís Rodrigues. Hão-de aparecer mais 3, já publicadas no site da Épica.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2006
O trabalho perfeito contém a sua própria recompensa
Tinha sobre a mesa todo o material necessário. A cada caixa de explosivo adicionou a quantidade apropriada de pregos de aço. Instalou os detonadores e efectuou as ligações eléctricas com uma atenção meticulosa. Montou a bateria e inspeccionou uma vez mais todo o conjunto.Colocou o cinturão, vestiu por cima o casacão largo; no bolso direito, a sua mão manteria o disparador apertado até ao momento certo.
Saiu de casa, respirou o ar fresco da manhã e com um sorriso de felicidade na face dirigiu-se para o autocarro quase cheio de crianças a caminho da escola.
Uma versão deste texto em espanhol encontra-se aqui, em resposta a um desafio de Sergio Gaut vel Hartman: textos com aprox. 100 palavras com o tema "Monstros". Agradeço à Mercedes a tradução.
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
Projecto: Natal
O gestor de sucesso ditava para o gravador:(...) o projecto aprovado pelo Conselho de Administração em Maio passado, tem estado a desenvolver-se a bom ritmo, tendo mesmo produzido algumas agradáveis surpresas.
Um – O crédito aos funcionários do grupo para ser aplicado em compras de Natal - acréscimo de vendas de 17,3% nos Brinquedos, 15,4% nos Electrodomésticos e 20,3% nos Livros/Discos.
Dois – A iluminação festiva colocada na área adjacente ao Centro provocou um acréscimo de frequência da ordem dos 12%.
Três – A campanha publicitária na TV, rádio e imprensa escrita, afinada produto a produto, tem causado, na semana seguinte a cada promoção, acréscimos de vendas entre 15 e 43%.
Carregou no Pause do gravador. Passeou o olhar em volta, as paredes forradas a madeira exótica, o mobiliário assinado por um designer famoso, alguns óleos de pintores conhecidos. A luz do intercomunicador piscou.
- Sim, Isabel?
- Senhor Presidente, tenho em linha o Padre Tomás Agostinho, da paróquia local, a pedir uma entrevista com o Senhor Presidente. O assunto é "Natal".
- Natal? - pensou o gestor de sucesso - Padre? Paróquia? Mas o que é que a religião tem a ver com este negócio do Natal?
sexta-feira, 8 de dezembro de 2006
Solenes exéquias
O coração do velho político tinha finalmente parado de bater. O elogio fúnebre a cargo de um correlegionário de longa data prosseguia vigoroso, indiferente aos bocejos disfarçados que começavam a surgir na enorme assistência que enchia a basílica.... pai extremoso ... esposo dedicado ... entrega total à causa pública...
Os representantes das dezoito empresas de cujos conselhos de administração fazia parte moviam afirmativamente a cabeça, com expressão compungida.
A consciência do dever de acção política, como um imperativo categórico, sempre marcou o seu carácter desde os tempos longínquos da sua militância juvenil. A sua acção foi sempre pautada pelo superior interesse nacional.
Os membros da comissão política do partido confirmavam, solenes, as palavras proferidas.
... secretário de Estado ... por várias vezes ministro ... embaixador plenipotenciário ... representante do país em vários organismos internacionais...
Na zona mais próxima da urna, reservada à família, o filho do finado pensava:
- Que chato este tipo, nunca mais se cala! E o velho que resolveu ter o enfarte na cama da amante. Felizmente a gaja soube calar-se... Mas o desastre foi ter esticado o pernil sem deixar a ninguém o número da conta na Suiça... Raios o partam!
Publicado na Minguante nº 0
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