domingo, 30 de julho de 2006

O Quadro

Quando o homem chegou a casa e desembrulhou o quadro que tinha comprado, a mulher barafustou:
- O que iria dizer a tia Hermínia, uma pintura com cinco mulheres nuas, cinco, dizia ela, e abria a mão gorducha para dar ênfase às suas palavras.
O homem pendurou o quadro ao lado da televisão. Uma vez em que assistia semanal e pacatamente ao concurso, pareceu-lhe que uma das ninfas que brincavam no meio das árvores lhe acenava. Passou a observar o quadro com mais atenção.
Uma noite em que a mulher lavava a louça na cozinha, o homem tomou uma decisão. Levantou-se do sofá, dirigiu-se ao quadro e passou para dentro dele.
Quando a mulher veio à sala, com o pano da louça e um prato nas mãos, para lhe contar o último mexerico do prédio, não o viu. No dia seguinte, comunicou à polícia o desaparecimento do homem. Dois meses mais tarde, pegou no quadro que representava quatro ninfas brincando no bosque e atirou-o para o lixo. Nunca tinha gostado daquela pouca-vergonha ali pendurada na parede!

Em 2007, este texto fará 20 anos. O ficheiro wav é uma imagem da sua estreia em público, pela voz de António Santos.


QUADRO_blog.WAV
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terça-feira, 25 de julho de 2006

O Sentido da História

No meio do nevoeiro caminhavam
guiados por um mapa com cem anos.
Lutaram contra homens e fantasmas
animados sempre pela esperança
de chegar ao horizonte prometido.

Quando o ruído da queda do muro dispersou o nevoeiro
viram que o horizonte estava mais longe
e concluíram que o autor do mapa
muito provavelmente não sabia
geografia…

sábado, 22 de julho de 2006

Bonecas Russas

O quadro representa um homem que pinta um quadro, onde está pintado um homem que pinta um quadro, onde está pintado um homem que pinta um quadro, onde...
Desta série infinita, o primeiro termo da série, que a si próprio se pensa como "o pintor", mas que designaremos de uma forma mais geral como pintor1 (pintor índice um) conseguiu escapar-se; é ele que circula pela exposição, com indumentária de artista ma non tropo, recebendo cumprimentos da crítica e dos felizardos que receberam convite para a vernissage. Enquanto troca palavras de circunstância, não se apercebe que o pintor2 se esforça desesperadamente por se libertar da prisão bi-dimensional em que se encontra encerrado. Está cansado de estar na mesma posição há tanto tempo, mas a tela prende-o de uma forma rígida, quase absoluta.
Se o pintor1 se apercebesse disto, teria razão para ficar extremamente preocupado; mais, se tomasse consciência das implicações, pegaria num maçarico e queimaria a tela até não ficar mais do que um resíduo de material carbonizado. Porque se o pintor2 se conseguir libertar, esse facto irá despoletar uma terrível sequência de acontecimentos: o pintor3 passará ao nível onde anteriormente se encontrava o pintor2 e tentará por sua vez passar ao espaço tri-dimensional. O que agora acontecerá de forma mais simples, pois a velocidade de passagem para espaços de dimensão mais elevada é uma função exponencial do número de passagens anteriores. E é fácil (embora angustiante) visualizar a sucessão infinita de pintores a deslocar-se de tela para tela, com velocidade cada vez mais elevada, e a materializar-se (melhor, a tri-dimensionalizar-se) no meio da exposição, todos eles cópias perfeitas do pintor1 - afinal o quadro é um auto-retrato - o pânico generalizado, a desvalorização subsequente (sim, porque se o valor comercial de uma obra é proporcional à sua raridade, o mesmo se passará em relação ao artista!).
O pintor (pintor1 na nossa nomenclatura), segurando na mão esquerda um gin tonic e na direita um cigarro cujo fumo desenha complicadas figuras enquanto ele faz gestos para reforçar os seus argumentos, passou agora pela frente da tela, discutindo o post-moderno com o responsável do suplemento "Artes e Letras" de um conhecido semanário. Olhou para o quadro e teve a sensação que a tela não estava perfeitamente lisa, parecendo repuxada nalguns sítios. Tomou nota mentalmente para no dia seguinte falar ao moldureiro, para que tenha mais cuidado quando se trata de trabalhos para uma exposição...


(Menção Honrosa nos Jogos Florais da Junta de Freguesia de S. Domingos de Benfica em Outubro de 1997. Publicado no Vol. 1, Nº 2 do fanzine Hyperdrivezine, editado por Ricardo Loureiro, Verão 2004 )

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Contos à distância de um click(4):

Operação (muito) especial


As Brigadas FC entraram em animação suspensa porque que o seu comandante, Rogério Ribeiro, tem andado a "comandar" outras coisas, em particular a sonhar em infravermelho.
Esta "Operação..." deve o seu nascimento aos nomes interessantes de algumas ruas de Torremolinos...

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Contos à distância de um click (3):

A Pedra

Repescado do Arquivo da Storm Magazine, dirigido por Helena Vasconcelos, onde se publica ficção e muito mais. Não há como verificar...

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Neve

No Inverno
a neve apaga
os sinais nos caminhos da memória

O processo é todavia lento
ao princípio, e parece que somente
uma camada branca vai cobrindo
os marcos familiares

Mas em breve o viajante
que percorreu mil vezes esses trilhos
se perde na brancura indefinida

Para quando a Primavera?

domingo, 9 de julho de 2006

Aconteceu no Fitness Center

O famoso artista estacionou o Rolls-Royce na garagem do Fitness Center. Tirou os óculos de sol Alain Mikli, que colocou na bolsa apropriada, ao lado do terminal GPS.
Subiu no elevador, cumprimentou a recepcionista que lhe dirigiu um largo sorriso e encaminhou-se para o gabinete onde costuma mudar de roupa. Despiu o blusão Martin Margiela e a t-shirt da CUSTO. Tirou do pulso o relógio Jaquet Droz, modelo GENEVE, que colocou no pequeno cofre destinado a esse fim. Juntou-lhe a carteira Prada, a caneta Montblanc Solitaire Royal e o Nokia N91 e fechou o cofre. Descalçou os sapatos Louis Vuitton, as meias Cole Haan, tirou os jeans Galliano e as cuecas Calvin Klein.
Quando o personal trainer bateu à porta do gabinete, não obteve resposta. Entrou, e dentro do compartimento apenas encontrou diversas peças de roupa.
E de repente, surge-lhe na memória uma frase ouvida ao famoso artista num talk show televisivo recente. Questionado sobre as roupas que comprava – "os trapinhos" como ele dizia – tinha afirmado ao entrevistador:
“Bem vês, nós somos o que vestimos!”

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Contos à distância de um click (2):
Eu Blogo, Tu Blogas

Segue-se o Tecnofantasia, "filho" do Luís Filipe Silva, um dos (poucos) autores portugueses de FC publicados em livro. Aproveitem o fim de semana para dar por lá uma volta, e verão que vale a pena...

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Contos à distância de um click (1):

Crónica Marciana ou A Explicação da Guerra

Inicia-se aqui uma ronda por alguns ciberlocais onde alguns contos que tenho escrito têm encontrado abrigo.
Começo pelo E-nigma, onde o Jorge Candeias iniciou um projecto que, embora com algumas interrupções, tem tido um papel importante na divulgação da F&FC portuguesas.
Outros se seguirão...

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Problemas com o Mercado

As suspeitas de Adérito Gomes, funcionário da Inspecção e Vigilância das Actividades Económicas, começaram quando os preços dos combustíveis deixaram de estar fixados pelo governo e a suposta concorrência não os fez diminuir mas, pelo contrário, provocou o seu aumento.
“Passa-se qualquer coisa de estranho com o Mercado”, pensou o inspector Gomes, e passou a observá-lo com mais atenção.
As suspeitas avolumaram-se quando soube que com a liberalização parcial da venda dos produtos farmacêuticos, os preços médios dos medicamentos de venda sem receita tinham subido.
“Então e o Mercado ?”, questionou-se novamente o inspector num dos seus períodos de reflexão, que tinha lugar enquanto bebia a bica no fim do almoço.
E a observação atenta do Mercado mostrou que ele almoçava com banqueiros, passeava nos iates de grandes industriais, e este comportamento levou a Inspecção a abrir formalmente uma investigação.
A brigada passou a vigiar o Mercado vinte e quatro horas por dia, e no quinto dia surgiu a oportunidade que esperavam: às duas da manhã, observaram-no a sair do clube nocturno mais in da capital, cujo dono tinha ligações conhecidas a paraísos fiscais um pouco por todo o mundo. Deixaram-no entrar no carro (um topo de gama, comprado duas semanas antes) e arrancar, e mandaram-no parar.
Fizeram-no soprar no balão, e como a taxa de alcoolémia ultrapassava o permitido, puderam legalmente levá-lo para a sede da Inspecção para interrogatório.
A experiência dos inspectores permitiu-lhes em pouco tempo detectar um caso claro de usurpação fraudulenta de identidade, desaparecendo todas as dúvidas quando o falso Mercado não soube dizer o que era a “lei da oferta e da procura”.
A partir daí o interrogatório endureceu um pouco e com mais vinte minutos sabiam os nomes de todos os cúmplices e o local onde estava sequestrado o verdadeiro Mercado: na casa forte do Banco Glocal, cujo PDG andava havia algum tempo na mira da Inspecção, devido a umas operações obscuras no offshore da Madeira.
Obtido um mandado de busca, uma brigada de choque fez uma visita surpresa à sede do Banco, conseguindo libertar o Mercado.
Um tanto enfraquecido pelo período de cativeiro, o Mercado meteu uns dias de baixa para se recompor, e enquanto isso todas as OPAs, privatizações, deslocalizações e coisas semelhantes ficaram em standby.
Até a Globalização, embora a contragosto, foi obrigada a meter férias.

domingo, 18 de junho de 2006

Coincidências

No próprio dia em que Italo Calvino me diz (Seis propostas para o próximo milénio, ed. Teorema, 3ª edição, pg. 67) Eu desejaria reunir uma colecção de contos de uma única frase, ou de uma só linha, se possível, descubro que o número zero da Minguante já não está "Em construção". Se gosta do tipo de textos que aparecem por aqui, deve gostar do conteúdo desta revista on-line de micro-narrativas.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

O texto seguinte, concorrente a um "passatempo" para textos "à la Eça", foi publicado no Diário de Notícias em Agosto de 2000. Como o tempo passa...
Fui tirá-lo da gaveta porque verifiquei hoje no Público que a) não foram 250, mas cerca de 900 e b) que afinal estava tudo inocente.

Conclusão: mesmo Eça de Queirós se pode enganar!

Salvé, pais exemplares...

Como foi amplamente noticiado nas gazetas, uma epidemia pareceu recentemente abater-se sobre a cidade berço da nacionalidade. Na véspera de se apresentarem a exame, cerca de 250 jovens encontraram-se subitamente doentes. E pareceu ser coisa séria, porque em declarações ao DN uma mãe disse que a filha estava stressada (e é difícil encontrar mezinha para tão grave doença…) e que em Setembro certamente ainda estaria e o pai de outro aluno, por sinal médico, disse que não sabia o que o filho tinha!
O caso apresentava também alguns aspectos jurídicos controversos, suficientes para manter entretidos alguns bacharéis em Direito durante bastante tempo.
No entanto veio a concluir-se mais tarde que se tinha tratado apenas de uma aplicação prática de educação para a vida, em que algumas centenas de pais demostraram, em primeiro lugar e de forma eficaz que as leis existem para ser contornadas, contribuindo assim para dar continuidade à geração de espertalhões que têm feito avançar este país; e em segundo lugar mostrando na prática como funciona a maravilhosa instituição do atestado. Gostaria assim de publicamente louvar os pais das crianças em causa, que de forma tão eficaz estão contribuindo para a educação (sobretudo ética) dos seus rebentos.

terça-feira, 6 de junho de 2006

sexta-feira, 26 de maio de 2006

Notícia de abertura

Em conferência de imprensa, a que assistiu o embaixador de Israel nos Estados Unidos, um porta-voz da “Igreja dos Onze Apóstolos do Final dos Tempos” anunciou que a Igreja tinha chegado a um acordo extra-judicial com o Estado de Israel, através do qual desistia do processo instaurado contra aquele Estado no tribunal de Broken Bow, Nebraska, relativo à execução de Jesus Cristo.
A importância envolvida no acordo não foi revelada.
Na mesma altura foi anunciada a abertura de um processo contra o Estado Italiano, referente ao mesmo homicídio.
- Ao fim e ao cabo, Roma era a potência ocupante. Como tal, era responsável por tudo que ocorria no território. E os executantes directos foram soldados romanos – esclareceu o referido porta-voz.
O embaixador da Itália, contactado por telefone, recusou-se a tecer quaisquer comentários antes de consultar o seu governo.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Dia não

Vi logo que ia ser um dia chato quando a begónia não me deu os bons-dias. Eu sei que estive uma semana sem lhe deitar água, mas já lhe podia ter passado a birra.
Saí de casa e o pastor alemão da vivenda em frente estava triste porque tinha perdido o dono. Murmurei umas palavras de circunstância, fiz-lhe uma festa na cabeça e fui à vida.
Entrei na pastelaria e a máquina de café não se calava. Tinha ido na noite anterior ao baile dos electrodomésticos e tinha encontrado lá uma cafeteira que nem vos conto... e dava silvos de vapor para nos fazer imaginar!
O patrão não se atrevia a mandá-la calar, com medo que ela executasse a hipoteca que lhe tinha ganho a jogar às cartas.
Paguei com moedas de 6 cêntimos, e enquanto ele contava o dinheiro, saí, bati os braços e afastei-me a voar.
Que dia!

sábado, 20 de maio de 2006

FU’BOL

(Uma modesta contribuição para a futebolite, que se espalha rapidamente pelo país, e para a qual o Ministério da Saúde não dispõe de qualquer tipo de vacina.)

Ao som das pancadas na porta do quarto, olhei à volta rápido, não fosse tar à vista algum dos trecos que fazem o velho ficar com arrepios. Mas não: o spray de amoníaco, a corrente e a soqueira, já tava tudo arrumado no blusão; a faquinha no lugar dela, dentro do cano da bota direita. Tudo nos conformes!
- Entra, vô!
Ele entrou a arrastar os pés, que é a maneira como ficou a andar depois do enfarte. Os velhos são todos uns chatos – quando falamos dos velhos entre a malta cuspimos sempre para o lado com ar de nojo – mas o meu avô até é um cota assim-assim. Às vezes até conta umas tretas com piada, como aquela dá bué d'anos levar o meu pai ao estádio ver o fu'bol. E eu perguntei-lhe:
- Mas não podiam ver em casa, não havia caixotes?
E sabem o que me respondeu?
- Havia, mas muita gente gostava de ir ver ao estádio.
Isto são de certeza desvaneios do velho; às vezes também se põe a dizer que quando era novo um meco podia sair de casa à noite sozinho e desarmado; eu dou-lhe o desconto, e como ele não mexe com a minha vida, vamo-nos dando bem.
Sobre a morte do meu pai é que nunca consegui arrancar-lhe nada de jeito: diz que ele pertencia às milícias populares de auto-defesa (já perguntei ao Jaime, qué o caixa d’óculos lá do grupo, qu’até vai à mediateca ler livros, se sabia o quisso era, mas ele népias), qu'entraram numa luta com traficantes de droga e que o meu pai levou umas naifadas e chegou já morto ao hospital. Não percebo porque é que havia traficantes de uma coisa que se compra no hiper e fico cada vez mais convencido que o velho se está a passar.
O velho olhou à volta, devagar, como faz sempre, observando com mais vagar o poster a anunciar o mega concerto dos Morte em stock, o cartaz dos Furacões Verdes no lugar de honra, por cima da cama, e a minha última aquisição, a caveira em PVC fluorescente que me serve de luz de cabeceira, abafada da última vez que a malta foi arejar ao shoping.
- Então vais ao jogo?
- Tá claro, vô; temos umas contas a ajustar com os encarnadinhos (isto é o que a malta chama aos Vermelhos Vivos e que os gajos passam-se completamente!)…
- Tem calma, rapaz e não te metas em sarilhos...
Deu-me uma pancadinha no ombro e saiu do quarto; ouvi-lhe os passos arrastados e ainda o clic do caixote, acendendo automaticamente quando ele entrou na sala.
Vesti o colete e corri o fecho; pouca gente diria que por baixo do tecido preto, havia uma malha de aço capaz de parar uma bala ou uma faca. As “cuecas blindadas”, como a malta dizia na galhofa, já estavam vestidas debaixo das calças de couro.
Peguei no capacete e no blusão, atirei um té logo, vô ao passar pela porta da sala, onde ele tava já alapado frente ao caixote e desci a escada para a garagem. Sabia que ele ia ficar a ver a transmissão do jogo mas já não sei se ele topa mesmo como as coisas se passam no estádio... Bem, ele sabe que o árbitro é uma espécie de realizador de TV, a olhar para os monitores que lhe mostram as imagens enviadas pelas robocâmaras que andam pelo campo e ajudado por um banco de filtros neuronais capaz de identificar, em tempo real, a legalidade de qualquer jogada. E que um jogador que apanha um vermelho leva uma injecção que o deixa a rastejar durante 2 meses. Mas não sei se ele topa que o campo propriamente dito está totalmente dentro de uma bolha bué grande de Restran, a mesma cena de que são feitas as janelas dos carros dos gajos importantes…
E isso é o que o caixote leva a casa de cada um, são os bonecos deste jogo totalmente isolado. Mas pa nós, o que interessa é o que se passa nas bancadas! Na última vez entre nós e os encarnadinhos ganharam eles por 5 a 3 (sem contar com os feridos); hoje vamos ter que tirar a desforra!
Há outra transmissão que é feita do estádio, mas dessa o velho não sabe e não sou eu que lhe vou dizer; é a da batalha nas bancadas, e para se receber é preciso montar um descodificador acoplado à antena (ainda no mês passado estivemos a instalar uma treta dessas em casa do antigo chefe do nosso grupo, que ficou paraplégico no último jogo contra os Demónios da Foz). E a massa nas apostas em relação à porrada é muito mais do que a das apostas sobre o resultado do jogo!
Claro que eu também topo que isto do fu'bol é uma treta e é um ganda negócio e que são as multinacionais que estão por trás de tudo, da compra e venda de jogadores, das apostas, dos direitos de transmissão dos jogos, da venda das bandeiras, dos lenços, dos bonés… Ainda na semana passada, no bar onde a malta costuma parar, um gajo começou com esta conversa, e a malta foi ouvindo, uns curtindo, outros menos, mas o gajo já tava a ficar nublado e quando começou a dizer que azuis, encarnados, verdes era tudo a mesma trampa caímos-lhe em cima, levou uma carga de porrada e quando os seguranças do bar chegaram à festa já ele tinha alguns ossos partidos e já a malta se tinha pirado!
Na garagem, visto o blusão, ponho o capacete (especialmente desenhado para “choques não rodoviários”, dizia a publicidade), testo as pilhas do emissor-receptor, e cavalgo a minha Honda-Kawa. Rodo a chave, puxo um bocado pelo faz-barulho e aos 90 dB o sensor abre o portão. Deslizo pela rampa, checando pelo espelho o portão a fechar-se atrás de mim. Entro no acesso à CREL-2 e oriento-me para o local da cerimónia preparatória, respirando o ar quente do fim da tarde. Para mim, aquelas fantochadas com fogueiras, archotes e cruzes suásticas não dizem nada, mas a malta grama à brava e fica tudo na maior... E hoje vamos precisar da força toda, porque parece que os encarnadinhos também decretaram mobilização geral, e eu vou berrar tão alto como os outros…
Tiro duas pastilhas do bolso do blusão e meto-as na boca, onde se dissolvem lentamente. Uma espécie de formigueiro começa a passar-me nas veias, abro o gás, e enquanto o asfalto desliza cada vez mais depressa debaixo das rodas, começo a cantar na força máxima o hino dos Furacões Verdes...

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Sondagens

Joaquim Casquinha Limão era um cidadão exemplar. Fiel de armazém numa empresa importadora de electrodomésticos, casado, tinha um filho a frequentar o secundário. Regularizava pontualmente a sua situação fiscal, o que até nem era difícil, uma vez que o IRS era mensalmente retido pelo seu empregador: Importações Ilimitadas – Electrodomésticos Globais, SARL. Exercia também religiosamente o seu direito de voto sempre que os acontecimentos do universo político lhe davam tal oportunidade. Mas no emprego abstinha-se de emitir opiniões sobre a condução da causa pública – até porque o seu chefe tinha em geral opiniões diferentes das suas – mantendo as suas conversas limitadas à discussão dos jogos da Super-Liga, ou por vezes, vá lá, aos da Taça de Portugal.
Com o avizinhar das eleições, Joaquim Limão ficava atento a tudo o que pudesse contribuir para o seu esclarecimento. Uma manhã, ao conduzir em direcção ao emprego, a estação de rádio que escutava habitualmente deu-lhe a ouvir os resultados da última sondagem efectuada. A notícia começava “Os portugueses acham que” e seguia por aí fora. Distraiu-se um pouco com as percentagens – que de resto na sondagem seguinte já seriam provavelmente diferentes – mas a sua atenção focou-se novamente quando o locutor começou, “nos termos da lei”, a ler a ficha técnica. E aí houve um pormenor de que tomou consciência pela primeira vez. Tinham sido feitas 813 entrevistas por telefone; e este número, quando junto à frase do início da notícia, fez iniciar no seu espírito uma linha de raciocínio que viria a ter consequências relevantes.
Joaquim era bom a fazer contas de cabeça, uma capacidade muito útil na sua profissão. Vamos supor que foram 1000 entrevistas, para facilitar, pensou ele. Como somos mais ou menos 10 milhões, cada entrevistado representa – pequena pausa para o cálculo – 10 mil portugueses. DEZ MIL PORTUGUESES!
Joaquim Limão, que de entrevistas pelo telefone só tinha a experiência de alguns telefonemas para sua casa onde umas meninas o tentavam convencer que ele tinha sido premiado em concursos que ele desconhecia, e que só precisava de ir receber o prémio a uma morada que lhe davam e – não, não podemos enviar pelo correio – ficou de repente fascinado por este processo em que as respostas de uma pessoa ao telefone representavam dez mil dos seus concidadãos. Dez mil! E se responder de forma errada, há dez mil portugueses cuja opinião é contabilizada erradamente. E as consequências disto ao nível da imagem que o país faz de si próprio? Será que o entrevistado tem consciência da responsabilidade que pesa nos seus ombros enquanto responde? A estatística é uma coisa fantástica, pensou Joaquim, que tinha um temor reverencial por tudo o que fosse ciência.
Dois dias depois, estava Joaquim Limão alapado na poltrona em frente à TV a assistir ao início do concurso “Quem quer ser milionário” – normalmente acertava na pergunta antes do concorrente, o que levava o seu filho a perguntar-lhe inúmeras vezes por que é que ele não concorria – quando o telefone tocou. Deslocou-se ao átrio da entrada para atender e às primeiras palavras do outro lado da linha apercebeu-se que era uma entrevista para uma sondagem. Meio aturdido, deu o seu consentimento. Mas quando veio a primeira pergunta:
- Acha que o actual primeiro ministro acredita no Pai Natal? – Joaquim, que ia fornecer honestamente a sua opinião, parou para pensar. Será que o que eu vou dizer representa o que pensa o vizinho do 3º esquerdo? E o porteiro do prédio? E o senhor António do talho? E o senhor Lopes da tabacaria? E o senhor Jacinto, do lugar de hortaliça? E os restantes, muitos dos quais não conheço, para perfazer os dez mil que eu represento neste momento?
E perante esta multidão de honestas dúvidas, a resposta de Joaquim Casquinha Limão foi uma nada explícita “Não sabe / Não responde”. E a mesma à pergunta seguinte. E à seguinte. E assim sucessivamente.
Até à última pergunta da entrevista.

sábado, 6 de maio de 2006

Promessas...

Ela tinha as promessas na estante da sala, em cima de um paninho bordado, ao lado da fotografia do casamento.
Um dia ele chegou bêbado, e atirou com tudo, fotografia e promessas, para o chão.
- Todas as promessas quebradas - chorava ela, inconsolável, apanhando os cacos.

domingo, 30 de abril de 2006

O Processo

(Palestra proferida em Setembro de 2032, na Universidade de Jornalismo da Grande Lisboa, na abertura da cerimónia de entrega dos diplomas aos novos mestres)

Caros novos colegas

Quando eu, jovem estagiário recém saído desta Escola, comecei a cobrir no ano longínquo de 2002 o então chamado "processo da pedofilia", nunca me poderia ter passado pela cabeça que estaria aqui, trinta anos mais tarde, a falar-vos na qualidade de Bastonário da Ordem dos Jornalistas.

Aquilo que começou por ser um processo mediático, envolvendo uma dúzia de figuras públicas, e que vocês certamente estudaram em "Introdução ao jornalismo" no primeiro semestre do vosso curso, foi aumentando de tamanho à medida que iam surgindo novas acusações de corrupção, branqueamento de capitais, alteração de resultados eleitorais, "inside trading", narcotráfico, fuga ao fisco, associação criminosa, levando ao que veio a ser chamado o "megaprocesso" e que hoje é simplesmente "O Processo". "Uma teia de podridão espalhando-se pela sociedade" ou "Um cancro minando o tecido social" são frases típicas surgidas na imprensa da época. O número de pessoas envolvidas foi naturalmente também crescendo de forma exponencial, e mesmo não sendo o responsável da secção de astrologia do jornal onde trabalho, arriscaria a previsão de que qualquer de vós conhece certamente uma pessoa, e provavelmente mais, relacionada com este processo como réu, testemunha, advogado, juiz, procurador ou funcionário judicial.
Para isto contribuiu de forma decisiva a lei aprovada em 2005 que passou a impedir a prescrição dos crimes de pedofilia. O âmbito desta lei, de acordo com a nossa forma tão portuguesa de legislar, foi sendo sucessivamente ampliado através de portarias, despachos, comunicados, declarações em conferências de imprensa, entrevistas durante sessões de lançamento de livros, etc., de tal forma que um eminente consultor jurídico declarou recentemente que hoje a única ofensa passível de prescrição é provavelmente cuspir no chão.
Em 2003, quando os primeiros suspeitos foram formalmente acusados, o processo tinha alguns milhares de páginas. Dez anos mais tarde, devido à clarividência do colectivo de juízes instrutores, foi alugado um hangar no aeroporto de Lisboa para armazenar o processo.
Em 2016, ano em que fui eleito Bastonário da Ordem, houve uma cerimónia pública que assinalou o milhão de páginas.
E recentemente foi decidido pelo Ministério da Justiça a anexação de um segundo hangar ao lado do primeiro, porque neste começa a ser difícil a entrada das viaturas que transportam os documentos a anexar ao processo. Diz-se que os funcionários superiores do Ministério se referem ao tamanho de "O Processo" não em número de páginas mas em metros cúbicos. E consta que foi nomeada uma comissão para estudar a possibilidade de transferir o tribunal para o Pavilhão Atlântico no Parque das Nações.
As implicações ao nível das profissões jurídicas foram enormes: multiplicaram-se como cogumelos teses de mestrado e de doutoramento sobre "O Processo", sobretudo porque depois da extinção do segredo de justiça em 2006 todo o material constante do processo passou a ser de consulta pública; foram criadas seis ou sete novas faculdades de direito, havendo mesmo alguns profissionais do foro com mais de vinte anos de actividade que nunca trabalharam noutros casos. E os recém licenciados deixaram de ter dificuldade em encontrar estágios de advocacia.
Quanto a nós, jornalistas, algo de semelhante aconteceu: a cobertura dada aos acontecimentos foi aumentando regularmente em todos os media, e foi necessário destacar mais e mais jornalistas para trabalhar em exclusivo no assunto que ia ocupando mais páginas nos jornais e mais horas na televisão. Eu próprio preciso de fazer um esforço para me lembrar quando foi a última vez que escrevi alguma coisa que não fosse sobre "O Processo".
Mas qual é o problema principal no que respeita ao nosso trabalho? O cansaço do público! Os pormenores técnicos de um processo jurídico são em geral fastidiosos; ao fim de pouco tempo, recursos, audições, interrogatórios, inquirições, tudo isto se confunde na cabeça do cidadão comum. O que o público gosta é de opiniões sobre os arguidos (sobretudo de pessoas que mal os conhecem) , detalhes anatómicos dos mesmos, depoimentos de ascendentes, descendentes ou colaterais até ao 3º ou 4º grau, sempre que possível apimentados... Isso é o que o público gosta. Mas cansa-se com facilidade...
E é isso que nos leva à procura permanente de novos ângulos de abordagem do assunto. Quando filmar com teleobjectiva a chegada dos réus ao tribunal se tornou trivial, alguns métodos realmente engenhosos foram desenvolvidos para dar ao público o que ele queria – um grande plano da cara de um réu. Jornalistas disfarçados de funcionários judiciais, de elementos das forças de segurança... Houve mesmo uma estação de televisão que contratou um suicida para se atirar contra o carro celular que transportava um dos réus, com uma câmara de vídeo disfarçada num dos botões do casaco. Este caso foi analisado pela Comissão de Ética da nossa Ordem e a estação em causa sofreu uma admoestação registada.
Nos últimos dias o aspecto mais salientado tem sido a competição entre as cadeias de televisão. Tudo começou quando o carro de exteriores de uma pisou o cabo que alimentava a parabólica da outra. O operador de câmara desta reagiu, enfiando a objectiva pelo pára-brisas do carro. O motorista respondeu com um golpe de karate que enviou directamente o operador de câmara para o hospital do Alcoitão. A situação escalou, com alguns feridos e mortos de parte a parte, a tal ponto que as equipas de reportagem vão agora trabalhar de capacete e colete à prova de bala, acompanhadas de vários guarda-costas e com ambulâncias e paramédicos em stand-by. Ontem e hoje aconteceram apenas algumas escaramuças, a horas convenientes para o directo nos telejornais.
E o futuro? Ninguém sabe, ele será construído por vocês. Façam coisas, e se com isso aumentarem as audiências, saberão que estão no bom caminho. Sobretudo nunca esqueçam o lema desta Escola: "Dar ao público o que o público gosta e quer".
Muito obrigado pela vossa atenção.


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