sexta-feira, 26 de maio de 2006

Notícia de abertura

Em conferência de imprensa, a que assistiu o embaixador de Israel nos Estados Unidos, um porta-voz da “Igreja dos Onze Apóstolos do Final dos Tempos” anunciou que a Igreja tinha chegado a um acordo extra-judicial com o Estado de Israel, através do qual desistia do processo instaurado contra aquele Estado no tribunal de Broken Bow, Nebraska, relativo à execução de Jesus Cristo.
A importância envolvida no acordo não foi revelada.
Na mesma altura foi anunciada a abertura de um processo contra o Estado Italiano, referente ao mesmo homicídio.
- Ao fim e ao cabo, Roma era a potência ocupante. Como tal, era responsável por tudo que ocorria no território. E os executantes directos foram soldados romanos – esclareceu o referido porta-voz.
O embaixador da Itália, contactado por telefone, recusou-se a tecer quaisquer comentários antes de consultar o seu governo.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Dia não

Vi logo que ia ser um dia chato quando a begónia não me deu os bons-dias. Eu sei que estive uma semana sem lhe deitar água, mas já lhe podia ter passado a birra.
Saí de casa e o pastor alemão da vivenda em frente estava triste porque tinha perdido o dono. Murmurei umas palavras de circunstância, fiz-lhe uma festa na cabeça e fui à vida.
Entrei na pastelaria e a máquina de café não se calava. Tinha ido na noite anterior ao baile dos electrodomésticos e tinha encontrado lá uma cafeteira que nem vos conto... e dava silvos de vapor para nos fazer imaginar!
O patrão não se atrevia a mandá-la calar, com medo que ela executasse a hipoteca que lhe tinha ganho a jogar às cartas.
Paguei com moedas de 6 cêntimos, e enquanto ele contava o dinheiro, saí, bati os braços e afastei-me a voar.
Que dia!

sábado, 20 de maio de 2006

FU’BOL

(Uma modesta contribuição para a futebolite, que se espalha rapidamente pelo país, e para a qual o Ministério da Saúde não dispõe de qualquer tipo de vacina.)

Ao som das pancadas na porta do quarto, olhei à volta rápido, não fosse tar à vista algum dos trecos que fazem o velho ficar com arrepios. Mas não: o spray de amoníaco, a corrente e a soqueira, já tava tudo arrumado no blusão; a faquinha no lugar dela, dentro do cano da bota direita. Tudo nos conformes!
- Entra, vô!
Ele entrou a arrastar os pés, que é a maneira como ficou a andar depois do enfarte. Os velhos são todos uns chatos – quando falamos dos velhos entre a malta cuspimos sempre para o lado com ar de nojo – mas o meu avô até é um cota assim-assim. Às vezes até conta umas tretas com piada, como aquela dá bué d'anos levar o meu pai ao estádio ver o fu'bol. E eu perguntei-lhe:
- Mas não podiam ver em casa, não havia caixotes?
E sabem o que me respondeu?
- Havia, mas muita gente gostava de ir ver ao estádio.
Isto são de certeza desvaneios do velho; às vezes também se põe a dizer que quando era novo um meco podia sair de casa à noite sozinho e desarmado; eu dou-lhe o desconto, e como ele não mexe com a minha vida, vamo-nos dando bem.
Sobre a morte do meu pai é que nunca consegui arrancar-lhe nada de jeito: diz que ele pertencia às milícias populares de auto-defesa (já perguntei ao Jaime, qué o caixa d’óculos lá do grupo, qu’até vai à mediateca ler livros, se sabia o quisso era, mas ele népias), qu'entraram numa luta com traficantes de droga e que o meu pai levou umas naifadas e chegou já morto ao hospital. Não percebo porque é que havia traficantes de uma coisa que se compra no hiper e fico cada vez mais convencido que o velho se está a passar.
O velho olhou à volta, devagar, como faz sempre, observando com mais vagar o poster a anunciar o mega concerto dos Morte em stock, o cartaz dos Furacões Verdes no lugar de honra, por cima da cama, e a minha última aquisição, a caveira em PVC fluorescente que me serve de luz de cabeceira, abafada da última vez que a malta foi arejar ao shoping.
- Então vais ao jogo?
- Tá claro, vô; temos umas contas a ajustar com os encarnadinhos (isto é o que a malta chama aos Vermelhos Vivos e que os gajos passam-se completamente!)…
- Tem calma, rapaz e não te metas em sarilhos...
Deu-me uma pancadinha no ombro e saiu do quarto; ouvi-lhe os passos arrastados e ainda o clic do caixote, acendendo automaticamente quando ele entrou na sala.
Vesti o colete e corri o fecho; pouca gente diria que por baixo do tecido preto, havia uma malha de aço capaz de parar uma bala ou uma faca. As “cuecas blindadas”, como a malta dizia na galhofa, já estavam vestidas debaixo das calças de couro.
Peguei no capacete e no blusão, atirei um té logo, vô ao passar pela porta da sala, onde ele tava já alapado frente ao caixote e desci a escada para a garagem. Sabia que ele ia ficar a ver a transmissão do jogo mas já não sei se ele topa mesmo como as coisas se passam no estádio... Bem, ele sabe que o árbitro é uma espécie de realizador de TV, a olhar para os monitores que lhe mostram as imagens enviadas pelas robocâmaras que andam pelo campo e ajudado por um banco de filtros neuronais capaz de identificar, em tempo real, a legalidade de qualquer jogada. E que um jogador que apanha um vermelho leva uma injecção que o deixa a rastejar durante 2 meses. Mas não sei se ele topa que o campo propriamente dito está totalmente dentro de uma bolha bué grande de Restran, a mesma cena de que são feitas as janelas dos carros dos gajos importantes…
E isso é o que o caixote leva a casa de cada um, são os bonecos deste jogo totalmente isolado. Mas pa nós, o que interessa é o que se passa nas bancadas! Na última vez entre nós e os encarnadinhos ganharam eles por 5 a 3 (sem contar com os feridos); hoje vamos ter que tirar a desforra!
Há outra transmissão que é feita do estádio, mas dessa o velho não sabe e não sou eu que lhe vou dizer; é a da batalha nas bancadas, e para se receber é preciso montar um descodificador acoplado à antena (ainda no mês passado estivemos a instalar uma treta dessas em casa do antigo chefe do nosso grupo, que ficou paraplégico no último jogo contra os Demónios da Foz). E a massa nas apostas em relação à porrada é muito mais do que a das apostas sobre o resultado do jogo!
Claro que eu também topo que isto do fu'bol é uma treta e é um ganda negócio e que são as multinacionais que estão por trás de tudo, da compra e venda de jogadores, das apostas, dos direitos de transmissão dos jogos, da venda das bandeiras, dos lenços, dos bonés… Ainda na semana passada, no bar onde a malta costuma parar, um gajo começou com esta conversa, e a malta foi ouvindo, uns curtindo, outros menos, mas o gajo já tava a ficar nublado e quando começou a dizer que azuis, encarnados, verdes era tudo a mesma trampa caímos-lhe em cima, levou uma carga de porrada e quando os seguranças do bar chegaram à festa já ele tinha alguns ossos partidos e já a malta se tinha pirado!
Na garagem, visto o blusão, ponho o capacete (especialmente desenhado para “choques não rodoviários”, dizia a publicidade), testo as pilhas do emissor-receptor, e cavalgo a minha Honda-Kawa. Rodo a chave, puxo um bocado pelo faz-barulho e aos 90 dB o sensor abre o portão. Deslizo pela rampa, checando pelo espelho o portão a fechar-se atrás de mim. Entro no acesso à CREL-2 e oriento-me para o local da cerimónia preparatória, respirando o ar quente do fim da tarde. Para mim, aquelas fantochadas com fogueiras, archotes e cruzes suásticas não dizem nada, mas a malta grama à brava e fica tudo na maior... E hoje vamos precisar da força toda, porque parece que os encarnadinhos também decretaram mobilização geral, e eu vou berrar tão alto como os outros…
Tiro duas pastilhas do bolso do blusão e meto-as na boca, onde se dissolvem lentamente. Uma espécie de formigueiro começa a passar-me nas veias, abro o gás, e enquanto o asfalto desliza cada vez mais depressa debaixo das rodas, começo a cantar na força máxima o hino dos Furacões Verdes...

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Sondagens

Joaquim Casquinha Limão era um cidadão exemplar. Fiel de armazém numa empresa importadora de electrodomésticos, casado, tinha um filho a frequentar o secundário. Regularizava pontualmente a sua situação fiscal, o que até nem era difícil, uma vez que o IRS era mensalmente retido pelo seu empregador: Importações Ilimitadas – Electrodomésticos Globais, SARL. Exercia também religiosamente o seu direito de voto sempre que os acontecimentos do universo político lhe davam tal oportunidade. Mas no emprego abstinha-se de emitir opiniões sobre a condução da causa pública – até porque o seu chefe tinha em geral opiniões diferentes das suas – mantendo as suas conversas limitadas à discussão dos jogos da Super-Liga, ou por vezes, vá lá, aos da Taça de Portugal.
Com o avizinhar das eleições, Joaquim Limão ficava atento a tudo o que pudesse contribuir para o seu esclarecimento. Uma manhã, ao conduzir em direcção ao emprego, a estação de rádio que escutava habitualmente deu-lhe a ouvir os resultados da última sondagem efectuada. A notícia começava “Os portugueses acham que” e seguia por aí fora. Distraiu-se um pouco com as percentagens – que de resto na sondagem seguinte já seriam provavelmente diferentes – mas a sua atenção focou-se novamente quando o locutor começou, “nos termos da lei”, a ler a ficha técnica. E aí houve um pormenor de que tomou consciência pela primeira vez. Tinham sido feitas 813 entrevistas por telefone; e este número, quando junto à frase do início da notícia, fez iniciar no seu espírito uma linha de raciocínio que viria a ter consequências relevantes.
Joaquim era bom a fazer contas de cabeça, uma capacidade muito útil na sua profissão. Vamos supor que foram 1000 entrevistas, para facilitar, pensou ele. Como somos mais ou menos 10 milhões, cada entrevistado representa – pequena pausa para o cálculo – 10 mil portugueses. DEZ MIL PORTUGUESES!
Joaquim Limão, que de entrevistas pelo telefone só tinha a experiência de alguns telefonemas para sua casa onde umas meninas o tentavam convencer que ele tinha sido premiado em concursos que ele desconhecia, e que só precisava de ir receber o prémio a uma morada que lhe davam e – não, não podemos enviar pelo correio – ficou de repente fascinado por este processo em que as respostas de uma pessoa ao telefone representavam dez mil dos seus concidadãos. Dez mil! E se responder de forma errada, há dez mil portugueses cuja opinião é contabilizada erradamente. E as consequências disto ao nível da imagem que o país faz de si próprio? Será que o entrevistado tem consciência da responsabilidade que pesa nos seus ombros enquanto responde? A estatística é uma coisa fantástica, pensou Joaquim, que tinha um temor reverencial por tudo o que fosse ciência.
Dois dias depois, estava Joaquim Limão alapado na poltrona em frente à TV a assistir ao início do concurso “Quem quer ser milionário” – normalmente acertava na pergunta antes do concorrente, o que levava o seu filho a perguntar-lhe inúmeras vezes por que é que ele não concorria – quando o telefone tocou. Deslocou-se ao átrio da entrada para atender e às primeiras palavras do outro lado da linha apercebeu-se que era uma entrevista para uma sondagem. Meio aturdido, deu o seu consentimento. Mas quando veio a primeira pergunta:
- Acha que o actual primeiro ministro acredita no Pai Natal? – Joaquim, que ia fornecer honestamente a sua opinião, parou para pensar. Será que o que eu vou dizer representa o que pensa o vizinho do 3º esquerdo? E o porteiro do prédio? E o senhor António do talho? E o senhor Lopes da tabacaria? E o senhor Jacinto, do lugar de hortaliça? E os restantes, muitos dos quais não conheço, para perfazer os dez mil que eu represento neste momento?
E perante esta multidão de honestas dúvidas, a resposta de Joaquim Casquinha Limão foi uma nada explícita “Não sabe / Não responde”. E a mesma à pergunta seguinte. E à seguinte. E assim sucessivamente.
Até à última pergunta da entrevista.

sábado, 6 de maio de 2006

Promessas...

Ela tinha as promessas na estante da sala, em cima de um paninho bordado, ao lado da fotografia do casamento.
Um dia ele chegou bêbado, e atirou com tudo, fotografia e promessas, para o chão.
- Todas as promessas quebradas - chorava ela, inconsolável, apanhando os cacos.

domingo, 30 de abril de 2006

O Processo

(Palestra proferida em Setembro de 2032, na Universidade de Jornalismo da Grande Lisboa, na abertura da cerimónia de entrega dos diplomas aos novos mestres)

Caros novos colegas

Quando eu, jovem estagiário recém saído desta Escola, comecei a cobrir no ano longínquo de 2002 o então chamado "processo da pedofilia", nunca me poderia ter passado pela cabeça que estaria aqui, trinta anos mais tarde, a falar-vos na qualidade de Bastonário da Ordem dos Jornalistas.

Aquilo que começou por ser um processo mediático, envolvendo uma dúzia de figuras públicas, e que vocês certamente estudaram em "Introdução ao jornalismo" no primeiro semestre do vosso curso, foi aumentando de tamanho à medida que iam surgindo novas acusações de corrupção, branqueamento de capitais, alteração de resultados eleitorais, "inside trading", narcotráfico, fuga ao fisco, associação criminosa, levando ao que veio a ser chamado o "megaprocesso" e que hoje é simplesmente "O Processo". "Uma teia de podridão espalhando-se pela sociedade" ou "Um cancro minando o tecido social" são frases típicas surgidas na imprensa da época. O número de pessoas envolvidas foi naturalmente também crescendo de forma exponencial, e mesmo não sendo o responsável da secção de astrologia do jornal onde trabalho, arriscaria a previsão de que qualquer de vós conhece certamente uma pessoa, e provavelmente mais, relacionada com este processo como réu, testemunha, advogado, juiz, procurador ou funcionário judicial.
Para isto contribuiu de forma decisiva a lei aprovada em 2005 que passou a impedir a prescrição dos crimes de pedofilia. O âmbito desta lei, de acordo com a nossa forma tão portuguesa de legislar, foi sendo sucessivamente ampliado através de portarias, despachos, comunicados, declarações em conferências de imprensa, entrevistas durante sessões de lançamento de livros, etc., de tal forma que um eminente consultor jurídico declarou recentemente que hoje a única ofensa passível de prescrição é provavelmente cuspir no chão.
Em 2003, quando os primeiros suspeitos foram formalmente acusados, o processo tinha alguns milhares de páginas. Dez anos mais tarde, devido à clarividência do colectivo de juízes instrutores, foi alugado um hangar no aeroporto de Lisboa para armazenar o processo.
Em 2016, ano em que fui eleito Bastonário da Ordem, houve uma cerimónia pública que assinalou o milhão de páginas.
E recentemente foi decidido pelo Ministério da Justiça a anexação de um segundo hangar ao lado do primeiro, porque neste começa a ser difícil a entrada das viaturas que transportam os documentos a anexar ao processo. Diz-se que os funcionários superiores do Ministério se referem ao tamanho de "O Processo" não em número de páginas mas em metros cúbicos. E consta que foi nomeada uma comissão para estudar a possibilidade de transferir o tribunal para o Pavilhão Atlântico no Parque das Nações.
As implicações ao nível das profissões jurídicas foram enormes: multiplicaram-se como cogumelos teses de mestrado e de doutoramento sobre "O Processo", sobretudo porque depois da extinção do segredo de justiça em 2006 todo o material constante do processo passou a ser de consulta pública; foram criadas seis ou sete novas faculdades de direito, havendo mesmo alguns profissionais do foro com mais de vinte anos de actividade que nunca trabalharam noutros casos. E os recém licenciados deixaram de ter dificuldade em encontrar estágios de advocacia.
Quanto a nós, jornalistas, algo de semelhante aconteceu: a cobertura dada aos acontecimentos foi aumentando regularmente em todos os media, e foi necessário destacar mais e mais jornalistas para trabalhar em exclusivo no assunto que ia ocupando mais páginas nos jornais e mais horas na televisão. Eu próprio preciso de fazer um esforço para me lembrar quando foi a última vez que escrevi alguma coisa que não fosse sobre "O Processo".
Mas qual é o problema principal no que respeita ao nosso trabalho? O cansaço do público! Os pormenores técnicos de um processo jurídico são em geral fastidiosos; ao fim de pouco tempo, recursos, audições, interrogatórios, inquirições, tudo isto se confunde na cabeça do cidadão comum. O que o público gosta é de opiniões sobre os arguidos (sobretudo de pessoas que mal os conhecem) , detalhes anatómicos dos mesmos, depoimentos de ascendentes, descendentes ou colaterais até ao 3º ou 4º grau, sempre que possível apimentados... Isso é o que o público gosta. Mas cansa-se com facilidade...
E é isso que nos leva à procura permanente de novos ângulos de abordagem do assunto. Quando filmar com teleobjectiva a chegada dos réus ao tribunal se tornou trivial, alguns métodos realmente engenhosos foram desenvolvidos para dar ao público o que ele queria – um grande plano da cara de um réu. Jornalistas disfarçados de funcionários judiciais, de elementos das forças de segurança... Houve mesmo uma estação de televisão que contratou um suicida para se atirar contra o carro celular que transportava um dos réus, com uma câmara de vídeo disfarçada num dos botões do casaco. Este caso foi analisado pela Comissão de Ética da nossa Ordem e a estação em causa sofreu uma admoestação registada.
Nos últimos dias o aspecto mais salientado tem sido a competição entre as cadeias de televisão. Tudo começou quando o carro de exteriores de uma pisou o cabo que alimentava a parabólica da outra. O operador de câmara desta reagiu, enfiando a objectiva pelo pára-brisas do carro. O motorista respondeu com um golpe de karate que enviou directamente o operador de câmara para o hospital do Alcoitão. A situação escalou, com alguns feridos e mortos de parte a parte, a tal ponto que as equipas de reportagem vão agora trabalhar de capacete e colete à prova de bala, acompanhadas de vários guarda-costas e com ambulâncias e paramédicos em stand-by. Ontem e hoje aconteceram apenas algumas escaramuças, a horas convenientes para o directo nos telejornais.
E o futuro? Ninguém sabe, ele será construído por vocês. Façam coisas, e se com isso aumentarem as audiências, saberão que estão no bom caminho. Sobretudo nunca esqueçam o lema desta Escola: "Dar ao público o que o público gosta e quer".
Muito obrigado pela vossa atenção.


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quarta-feira, 26 de abril de 2006

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Contribuição (atrasada) para o primeiro de Abril

Universidade das Berlengas, S.A.

Licenciatura em Engenharia da Comunicação Social

Teste da disciplina "Paradoxos e Inverdades"

O teste inclui 8 perguntas de resposta múltipla e uma pergunta de desenvolvimento. Identifique a folha da prova com o seu nome (verdadeiro!).
Duração da prova: 3 horas.

Pergunta 1
"Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo". O autor desta frase era:
a) Fabricante de material ortopédico
b) Professor de Religião e Moral no ensino secundário
c) Técnico de fisioterapia
d) Dr. Horsleuy, que em 1936 começou a utilizar o pentotal sódico (vulgo "soro da verdade") em interrogatórios

Pergunta 2
Um hipotético presidente de um hipotético país afirmou: "Menti mas foi por uma boa causa". Pode concluir que:
a) Como, por hipótese, nunca se envolve em más causas ele mentirá sempre
b) Ele será incapaz de mentir por uma má causa, pelo que nessas circunstâncias falará sempre verdade
c) Sempre que ele afirmar que mentiu é suposto as pessoas acreditarem que ele está a falar verdade
d) Seria capaz de comprar a esse hipotético presidente um carro em segunda mão

Pergunta 3
Após análise da frase "Mentir com quantos dentes tem na boca" pode concluir
a) Que um bebé recém-nascido fala sempre verdade
b) Que uma galinha é incapaz de mentir
c) Que uma pessoa que já só tenha metade dos dentes só pode dizer meias mentiras
d) Que a alteração ao Código Penal que propõe que só possam ser convocadas como testemunhas pessoas desdentadas tem possibilidade de ser aprovada por unanimidade no Parlamento

Pergunta 4
Um hipotético primeiro ministro declarou "[Nome do país] está em guerra". Desta frase pode deduzir:
a) Que esse hipotético primeiro ministro não sabe que é uma competência da Assembleia da República "Autorizar o Presidente da República a declarar a guerra e a fazer paz"
b) Que esse hipotético primeiro ministro não sabe o que é uma competência da Assembleia da República
c) Que esse hipotético primeiro ministro não sabe
d) Que esse hipotético primeiro ministro não


Pergunta 5
Há alguns anos, um político brasileiro fez a seguinte declaração "Eu roubo mas construo". Pode deduzir desta frase
a) Que há uma relação de causa-efeito entre as actividades "roubar" e "construir"
b) Que a actividade da construção civil tem geneticamente componentes predadoras
c) Que na sequência desta afirmação o cara deveria ter sido preso
d) Que preciso de saber mais detalhes("roubo" o quê? a quem? e "construo" o quê? para quem?) para me poder pronunciar

Pergunta 6
A sua reacção à recente notícia de que existiriam num hipotético país 200.000 pessoas com fome é
a) Quantos são? Quantos são? Eles que venham!
b) Mandá-los pôr todos em fila para poder contá-los como deve ser
c) Reeditar a famosa frase que contribuiu para que Maria Antonieta perdesse a cabeça: "Se não têm pão, dêem-lhes croissants".
d) Propor ao Ministério da Ciência um projecto de investigação para estudar quantitativamente a influência da privação de alimentos na saúde de uma população.

Pergunta 7
Alguns críticos tem falado de um número exagerado de estádios de futebol construídos num hipotético país para um hipotético campeonato. Os defensores pelo contrário consideram que ocorreu um proveitoso investimento. A sua opinião é
a) Tornar obrigatória a prática do futebol na população em geral por forma a conseguir a ocupação dos estádios a 100 por cento
b) Transformar os estádios em explorações agrícolas: hortaliças entre as quatro linhas e plantação de vinha em socalcos nas bancadas
c) Utilizar os estádios para recriar espectáculos como os do Coliseu da Roma antiga, com o povo a votar quem seria atirado aos leões. Esta actividade, além de constituir um saudável entretenimento, permitiria reduzir substancialmente o orçamento do Zoo de Lisboa e outros parques similares.
d) Demolir os estádios depois do hipotético campeonato, porque tanto a construção como a demolição contam para o PIB.

Pergunta 8
Não se conseguiram encontrar as "armas de destruição massiva". Podemos daí concluir
a) Que essas armas nunca existiram
b) Que essas armas existiam, mas foram partidas aos pedacinhos e esses pedacinhos distribuídos por toda a população para impedir a localização
c) Que me tenho que ver livre daquela encomenda postal que recebi há dois anos e meio, sem remetente, e que guardei na arrecadação
d) Armas quê?

Pergunta de desenvolvimento
Faça uma listagem dos possíveis lugares onde as armas de destruição massiva possam estar escondidas. Seja exaustivo. Limite a sua resposta a 200 páginas A4.

Boa sorte!

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Rise lag

Durante muito tempo levantei-me cedo. Não era CEDO, mas cedinho: por volta das sete. E estava habituado a isso. Mas o pior dos hábitos é que podem degenerar em vícios. E foi o que me aconteceu: viciei-me em levantar-me cedo. Era uma sensação de felicidade, sair à rua e vê-la quase deserta, o ar lavado pelo frio da madrugada. E pouco a pouco fui antecipando a hora de levantar: às seis, e ver passar os autocarros ainda com as luzes interiores acesas, as janelas dos escritórios iluminadas para o trabalho do pessoal da limpeza, às cinco, às quatro, encontrar os noctívagos recém saídos dos bares e discotecas, às três, às duas, cruzar-me com os camiões do lixo na sua recolha diária...
A minha mulher não esteve para me aturar, saiu de casa e pediu o divórcio. Mas o pior foi que a agudização do vício levou à overdose: hoje em dia estou a levantar-me ANTES de me deitar!

quinta-feira, 6 de abril de 2006

A consciência

Foi durante o período antes da ordem do dia que o deputado deu por falta da sua consciência. Procurou nos bolsos, na pasta, mas não a encontrou. Ficou preocupado.
Na primeira oportunidade, saiu do hemiciclo e foi à secção de perdidos e achados. Perguntou ao funcionário se alguém teria encontrado uma consciência. Fizeram-no entrar pela porta ao lado do guichet e levaram-no a um compartimento onde havia guarda-chuvas, telemóveis, muitos dossiers, muitos envelopes A4 de papel castanho, e numa prateleira ao fundo algumas consciências.
- Essas estão aí porque os donos nunca vieram procurá-las.
O deputado observou mas nenhuma era a sua. Notou no chão uma caixa fechada. Perante o seu olhar interrogativo, o funcionário disse:
- Aí dentro estão vergonhas. Há pessoas que perdem a vergonha. E nunca vêm cá à procura dela. Vergonhas e consciências que não são reclamadas, ao fim de um ano são incineradas.
O deputado apalpou o bolso e suspirou aliviado. Ainda tinha a sua vergonha. O problema era a consciência.
Agradeceu ao funcionário e saiu à procura, pensando onde diabo poderia ter deixado a consciência.

terça-feira, 4 de abril de 2006

SMSes (4)

Serei sempre tua! disse ela rodando o filtro. E eu teu, disse ele regulando o laser.
Isto é ficção, rosnou um crítico.
Científica! cuspiu com desdém o outro.

domingo, 2 de abril de 2006

A laranja

A laranja ficou verde de indignação quando descobriu que tinham pintado o céu de azul e o tronco da árvore de castanho, quando laranja seria obviamente a cor apropriada. E tão indignada estava que começou a agitar-se no ramo onde estava pendurada.
Passou o Artur que vinha da escola, olhou-a curioso e... chamou-lhe um figo!

sexta-feira, 31 de março de 2006

quinta-feira, 30 de março de 2006

As duas ordens

No Parlamento era temido pela sua eloquência, e muitas vezes utilizava a frase “Para o meu partido, essa matéria está na ordem do dia”.
Até ao dia em que um deputado adversário lhe retorquiu: “Essa matéria está, deveria dizer V. Exa., na ordem da noite”.
Surpreendido, ficou às escuras... e sem palavras.

quarta-feira, 29 de março de 2006

terça-feira, 28 de março de 2006