quinta-feira, 25 de maio de 2006

Dia não

Vi logo que ia ser um dia chato quando a begónia não me deu os bons-dias. Eu sei que estive uma semana sem lhe deitar água, mas já lhe podia ter passado a birra.
Saí de casa e o pastor alemão da vivenda em frente estava triste porque tinha perdido o dono. Murmurei umas palavras de circunstância, fiz-lhe uma festa na cabeça e fui à vida.
Entrei na pastelaria e a máquina de café não se calava. Tinha ido na noite anterior ao baile dos electrodomésticos e tinha encontrado lá uma cafeteira que nem vos conto... e dava silvos de vapor para nos fazer imaginar!
O patrão não se atrevia a mandá-la calar, com medo que ela executasse a hipoteca que lhe tinha ganho a jogar às cartas.
Paguei com moedas de 6 cêntimos, e enquanto ele contava o dinheiro, saí, bati os braços e afastei-me a voar.
Que dia!

sábado, 20 de maio de 2006

FU’BOL

(Uma modesta contribuição para a futebolite, que se espalha rapidamente pelo país, e para a qual o Ministério da Saúde não dispõe de qualquer tipo de vacina.)

Ao som das pancadas na porta do quarto, olhei à volta rápido, não fosse tar à vista algum dos trecos que fazem o velho ficar com arrepios. Mas não: o spray de amoníaco, a corrente e a soqueira, já tava tudo arrumado no blusão; a faquinha no lugar dela, dentro do cano da bota direita. Tudo nos conformes!
- Entra, vô!
Ele entrou a arrastar os pés, que é a maneira como ficou a andar depois do enfarte. Os velhos são todos uns chatos – quando falamos dos velhos entre a malta cuspimos sempre para o lado com ar de nojo – mas o meu avô até é um cota assim-assim. Às vezes até conta umas tretas com piada, como aquela dá bué d'anos levar o meu pai ao estádio ver o fu'bol. E eu perguntei-lhe:
- Mas não podiam ver em casa, não havia caixotes?
E sabem o que me respondeu?
- Havia, mas muita gente gostava de ir ver ao estádio.
Isto são de certeza desvaneios do velho; às vezes também se põe a dizer que quando era novo um meco podia sair de casa à noite sozinho e desarmado; eu dou-lhe o desconto, e como ele não mexe com a minha vida, vamo-nos dando bem.
Sobre a morte do meu pai é que nunca consegui arrancar-lhe nada de jeito: diz que ele pertencia às milícias populares de auto-defesa (já perguntei ao Jaime, qué o caixa d’óculos lá do grupo, qu’até vai à mediateca ler livros, se sabia o quisso era, mas ele népias), qu'entraram numa luta com traficantes de droga e que o meu pai levou umas naifadas e chegou já morto ao hospital. Não percebo porque é que havia traficantes de uma coisa que se compra no hiper e fico cada vez mais convencido que o velho se está a passar.
O velho olhou à volta, devagar, como faz sempre, observando com mais vagar o poster a anunciar o mega concerto dos Morte em stock, o cartaz dos Furacões Verdes no lugar de honra, por cima da cama, e a minha última aquisição, a caveira em PVC fluorescente que me serve de luz de cabeceira, abafada da última vez que a malta foi arejar ao shoping.
- Então vais ao jogo?
- Tá claro, vô; temos umas contas a ajustar com os encarnadinhos (isto é o que a malta chama aos Vermelhos Vivos e que os gajos passam-se completamente!)…
- Tem calma, rapaz e não te metas em sarilhos...
Deu-me uma pancadinha no ombro e saiu do quarto; ouvi-lhe os passos arrastados e ainda o clic do caixote, acendendo automaticamente quando ele entrou na sala.
Vesti o colete e corri o fecho; pouca gente diria que por baixo do tecido preto, havia uma malha de aço capaz de parar uma bala ou uma faca. As “cuecas blindadas”, como a malta dizia na galhofa, já estavam vestidas debaixo das calças de couro.
Peguei no capacete e no blusão, atirei um té logo, vô ao passar pela porta da sala, onde ele tava já alapado frente ao caixote e desci a escada para a garagem. Sabia que ele ia ficar a ver a transmissão do jogo mas já não sei se ele topa mesmo como as coisas se passam no estádio... Bem, ele sabe que o árbitro é uma espécie de realizador de TV, a olhar para os monitores que lhe mostram as imagens enviadas pelas robocâmaras que andam pelo campo e ajudado por um banco de filtros neuronais capaz de identificar, em tempo real, a legalidade de qualquer jogada. E que um jogador que apanha um vermelho leva uma injecção que o deixa a rastejar durante 2 meses. Mas não sei se ele topa que o campo propriamente dito está totalmente dentro de uma bolha bué grande de Restran, a mesma cena de que são feitas as janelas dos carros dos gajos importantes…
E isso é o que o caixote leva a casa de cada um, são os bonecos deste jogo totalmente isolado. Mas pa nós, o que interessa é o que se passa nas bancadas! Na última vez entre nós e os encarnadinhos ganharam eles por 5 a 3 (sem contar com os feridos); hoje vamos ter que tirar a desforra!
Há outra transmissão que é feita do estádio, mas dessa o velho não sabe e não sou eu que lhe vou dizer; é a da batalha nas bancadas, e para se receber é preciso montar um descodificador acoplado à antena (ainda no mês passado estivemos a instalar uma treta dessas em casa do antigo chefe do nosso grupo, que ficou paraplégico no último jogo contra os Demónios da Foz). E a massa nas apostas em relação à porrada é muito mais do que a das apostas sobre o resultado do jogo!
Claro que eu também topo que isto do fu'bol é uma treta e é um ganda negócio e que são as multinacionais que estão por trás de tudo, da compra e venda de jogadores, das apostas, dos direitos de transmissão dos jogos, da venda das bandeiras, dos lenços, dos bonés… Ainda na semana passada, no bar onde a malta costuma parar, um gajo começou com esta conversa, e a malta foi ouvindo, uns curtindo, outros menos, mas o gajo já tava a ficar nublado e quando começou a dizer que azuis, encarnados, verdes era tudo a mesma trampa caímos-lhe em cima, levou uma carga de porrada e quando os seguranças do bar chegaram à festa já ele tinha alguns ossos partidos e já a malta se tinha pirado!
Na garagem, visto o blusão, ponho o capacete (especialmente desenhado para “choques não rodoviários”, dizia a publicidade), testo as pilhas do emissor-receptor, e cavalgo a minha Honda-Kawa. Rodo a chave, puxo um bocado pelo faz-barulho e aos 90 dB o sensor abre o portão. Deslizo pela rampa, checando pelo espelho o portão a fechar-se atrás de mim. Entro no acesso à CREL-2 e oriento-me para o local da cerimónia preparatória, respirando o ar quente do fim da tarde. Para mim, aquelas fantochadas com fogueiras, archotes e cruzes suásticas não dizem nada, mas a malta grama à brava e fica tudo na maior... E hoje vamos precisar da força toda, porque parece que os encarnadinhos também decretaram mobilização geral, e eu vou berrar tão alto como os outros…
Tiro duas pastilhas do bolso do blusão e meto-as na boca, onde se dissolvem lentamente. Uma espécie de formigueiro começa a passar-me nas veias, abro o gás, e enquanto o asfalto desliza cada vez mais depressa debaixo das rodas, começo a cantar na força máxima o hino dos Furacões Verdes...

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Sondagens

Joaquim Casquinha Limão era um cidadão exemplar. Fiel de armazém numa empresa importadora de electrodomésticos, casado, tinha um filho a frequentar o secundário. Regularizava pontualmente a sua situação fiscal, o que até nem era difícil, uma vez que o IRS era mensalmente retido pelo seu empregador: Importações Ilimitadas – Electrodomésticos Globais, SARL. Exercia também religiosamente o seu direito de voto sempre que os acontecimentos do universo político lhe davam tal oportunidade. Mas no emprego abstinha-se de emitir opiniões sobre a condução da causa pública – até porque o seu chefe tinha em geral opiniões diferentes das suas – mantendo as suas conversas limitadas à discussão dos jogos da Super-Liga, ou por vezes, vá lá, aos da Taça de Portugal.
Com o avizinhar das eleições, Joaquim Limão ficava atento a tudo o que pudesse contribuir para o seu esclarecimento. Uma manhã, ao conduzir em direcção ao emprego, a estação de rádio que escutava habitualmente deu-lhe a ouvir os resultados da última sondagem efectuada. A notícia começava “Os portugueses acham que” e seguia por aí fora. Distraiu-se um pouco com as percentagens – que de resto na sondagem seguinte já seriam provavelmente diferentes – mas a sua atenção focou-se novamente quando o locutor começou, “nos termos da lei”, a ler a ficha técnica. E aí houve um pormenor de que tomou consciência pela primeira vez. Tinham sido feitas 813 entrevistas por telefone; e este número, quando junto à frase do início da notícia, fez iniciar no seu espírito uma linha de raciocínio que viria a ter consequências relevantes.
Joaquim era bom a fazer contas de cabeça, uma capacidade muito útil na sua profissão. Vamos supor que foram 1000 entrevistas, para facilitar, pensou ele. Como somos mais ou menos 10 milhões, cada entrevistado representa – pequena pausa para o cálculo – 10 mil portugueses. DEZ MIL PORTUGUESES!
Joaquim Limão, que de entrevistas pelo telefone só tinha a experiência de alguns telefonemas para sua casa onde umas meninas o tentavam convencer que ele tinha sido premiado em concursos que ele desconhecia, e que só precisava de ir receber o prémio a uma morada que lhe davam e – não, não podemos enviar pelo correio – ficou de repente fascinado por este processo em que as respostas de uma pessoa ao telefone representavam dez mil dos seus concidadãos. Dez mil! E se responder de forma errada, há dez mil portugueses cuja opinião é contabilizada erradamente. E as consequências disto ao nível da imagem que o país faz de si próprio? Será que o entrevistado tem consciência da responsabilidade que pesa nos seus ombros enquanto responde? A estatística é uma coisa fantástica, pensou Joaquim, que tinha um temor reverencial por tudo o que fosse ciência.
Dois dias depois, estava Joaquim Limão alapado na poltrona em frente à TV a assistir ao início do concurso “Quem quer ser milionário” – normalmente acertava na pergunta antes do concorrente, o que levava o seu filho a perguntar-lhe inúmeras vezes por que é que ele não concorria – quando o telefone tocou. Deslocou-se ao átrio da entrada para atender e às primeiras palavras do outro lado da linha apercebeu-se que era uma entrevista para uma sondagem. Meio aturdido, deu o seu consentimento. Mas quando veio a primeira pergunta:
- Acha que o actual primeiro ministro acredita no Pai Natal? – Joaquim, que ia fornecer honestamente a sua opinião, parou para pensar. Será que o que eu vou dizer representa o que pensa o vizinho do 3º esquerdo? E o porteiro do prédio? E o senhor António do talho? E o senhor Lopes da tabacaria? E o senhor Jacinto, do lugar de hortaliça? E os restantes, muitos dos quais não conheço, para perfazer os dez mil que eu represento neste momento?
E perante esta multidão de honestas dúvidas, a resposta de Joaquim Casquinha Limão foi uma nada explícita “Não sabe / Não responde”. E a mesma à pergunta seguinte. E à seguinte. E assim sucessivamente.
Até à última pergunta da entrevista.

sábado, 6 de maio de 2006

Promessas...

Ela tinha as promessas na estante da sala, em cima de um paninho bordado, ao lado da fotografia do casamento.
Um dia ele chegou bêbado, e atirou com tudo, fotografia e promessas, para o chão.
- Todas as promessas quebradas - chorava ela, inconsolável, apanhando os cacos.

domingo, 30 de abril de 2006

O Processo

(Palestra proferida em Setembro de 2032, na Universidade de Jornalismo da Grande Lisboa, na abertura da cerimónia de entrega dos diplomas aos novos mestres)

Caros novos colegas

Quando eu, jovem estagiário recém saído desta Escola, comecei a cobrir no ano longínquo de 2002 o então chamado "processo da pedofilia", nunca me poderia ter passado pela cabeça que estaria aqui, trinta anos mais tarde, a falar-vos na qualidade de Bastonário da Ordem dos Jornalistas.

Aquilo que começou por ser um processo mediático, envolvendo uma dúzia de figuras públicas, e que vocês certamente estudaram em "Introdução ao jornalismo" no primeiro semestre do vosso curso, foi aumentando de tamanho à medida que iam surgindo novas acusações de corrupção, branqueamento de capitais, alteração de resultados eleitorais, "inside trading", narcotráfico, fuga ao fisco, associação criminosa, levando ao que veio a ser chamado o "megaprocesso" e que hoje é simplesmente "O Processo". "Uma teia de podridão espalhando-se pela sociedade" ou "Um cancro minando o tecido social" são frases típicas surgidas na imprensa da época. O número de pessoas envolvidas foi naturalmente também crescendo de forma exponencial, e mesmo não sendo o responsável da secção de astrologia do jornal onde trabalho, arriscaria a previsão de que qualquer de vós conhece certamente uma pessoa, e provavelmente mais, relacionada com este processo como réu, testemunha, advogado, juiz, procurador ou funcionário judicial.
Para isto contribuiu de forma decisiva a lei aprovada em 2005 que passou a impedir a prescrição dos crimes de pedofilia. O âmbito desta lei, de acordo com a nossa forma tão portuguesa de legislar, foi sendo sucessivamente ampliado através de portarias, despachos, comunicados, declarações em conferências de imprensa, entrevistas durante sessões de lançamento de livros, etc., de tal forma que um eminente consultor jurídico declarou recentemente que hoje a única ofensa passível de prescrição é provavelmente cuspir no chão.
Em 2003, quando os primeiros suspeitos foram formalmente acusados, o processo tinha alguns milhares de páginas. Dez anos mais tarde, devido à clarividência do colectivo de juízes instrutores, foi alugado um hangar no aeroporto de Lisboa para armazenar o processo.
Em 2016, ano em que fui eleito Bastonário da Ordem, houve uma cerimónia pública que assinalou o milhão de páginas.
E recentemente foi decidido pelo Ministério da Justiça a anexação de um segundo hangar ao lado do primeiro, porque neste começa a ser difícil a entrada das viaturas que transportam os documentos a anexar ao processo. Diz-se que os funcionários superiores do Ministério se referem ao tamanho de "O Processo" não em número de páginas mas em metros cúbicos. E consta que foi nomeada uma comissão para estudar a possibilidade de transferir o tribunal para o Pavilhão Atlântico no Parque das Nações.
As implicações ao nível das profissões jurídicas foram enormes: multiplicaram-se como cogumelos teses de mestrado e de doutoramento sobre "O Processo", sobretudo porque depois da extinção do segredo de justiça em 2006 todo o material constante do processo passou a ser de consulta pública; foram criadas seis ou sete novas faculdades de direito, havendo mesmo alguns profissionais do foro com mais de vinte anos de actividade que nunca trabalharam noutros casos. E os recém licenciados deixaram de ter dificuldade em encontrar estágios de advocacia.
Quanto a nós, jornalistas, algo de semelhante aconteceu: a cobertura dada aos acontecimentos foi aumentando regularmente em todos os media, e foi necessário destacar mais e mais jornalistas para trabalhar em exclusivo no assunto que ia ocupando mais páginas nos jornais e mais horas na televisão. Eu próprio preciso de fazer um esforço para me lembrar quando foi a última vez que escrevi alguma coisa que não fosse sobre "O Processo".
Mas qual é o problema principal no que respeita ao nosso trabalho? O cansaço do público! Os pormenores técnicos de um processo jurídico são em geral fastidiosos; ao fim de pouco tempo, recursos, audições, interrogatórios, inquirições, tudo isto se confunde na cabeça do cidadão comum. O que o público gosta é de opiniões sobre os arguidos (sobretudo de pessoas que mal os conhecem) , detalhes anatómicos dos mesmos, depoimentos de ascendentes, descendentes ou colaterais até ao 3º ou 4º grau, sempre que possível apimentados... Isso é o que o público gosta. Mas cansa-se com facilidade...
E é isso que nos leva à procura permanente de novos ângulos de abordagem do assunto. Quando filmar com teleobjectiva a chegada dos réus ao tribunal se tornou trivial, alguns métodos realmente engenhosos foram desenvolvidos para dar ao público o que ele queria – um grande plano da cara de um réu. Jornalistas disfarçados de funcionários judiciais, de elementos das forças de segurança... Houve mesmo uma estação de televisão que contratou um suicida para se atirar contra o carro celular que transportava um dos réus, com uma câmara de vídeo disfarçada num dos botões do casaco. Este caso foi analisado pela Comissão de Ética da nossa Ordem e a estação em causa sofreu uma admoestação registada.
Nos últimos dias o aspecto mais salientado tem sido a competição entre as cadeias de televisão. Tudo começou quando o carro de exteriores de uma pisou o cabo que alimentava a parabólica da outra. O operador de câmara desta reagiu, enfiando a objectiva pelo pára-brisas do carro. O motorista respondeu com um golpe de karate que enviou directamente o operador de câmara para o hospital do Alcoitão. A situação escalou, com alguns feridos e mortos de parte a parte, a tal ponto que as equipas de reportagem vão agora trabalhar de capacete e colete à prova de bala, acompanhadas de vários guarda-costas e com ambulâncias e paramédicos em stand-by. Ontem e hoje aconteceram apenas algumas escaramuças, a horas convenientes para o directo nos telejornais.
E o futuro? Ninguém sabe, ele será construído por vocês. Façam coisas, e se com isso aumentarem as audiências, saberão que estão no bom caminho. Sobretudo nunca esqueçam o lema desta Escola: "Dar ao público o que o público gosta e quer".
Muito obrigado pela vossa atenção.


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quarta-feira, 26 de abril de 2006

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Contribuição (atrasada) para o primeiro de Abril

Universidade das Berlengas, S.A.

Licenciatura em Engenharia da Comunicação Social

Teste da disciplina "Paradoxos e Inverdades"

O teste inclui 8 perguntas de resposta múltipla e uma pergunta de desenvolvimento. Identifique a folha da prova com o seu nome (verdadeiro!).
Duração da prova: 3 horas.

Pergunta 1
"Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo". O autor desta frase era:
a) Fabricante de material ortopédico
b) Professor de Religião e Moral no ensino secundário
c) Técnico de fisioterapia
d) Dr. Horsleuy, que em 1936 começou a utilizar o pentotal sódico (vulgo "soro da verdade") em interrogatórios

Pergunta 2
Um hipotético presidente de um hipotético país afirmou: "Menti mas foi por uma boa causa". Pode concluir que:
a) Como, por hipótese, nunca se envolve em más causas ele mentirá sempre
b) Ele será incapaz de mentir por uma má causa, pelo que nessas circunstâncias falará sempre verdade
c) Sempre que ele afirmar que mentiu é suposto as pessoas acreditarem que ele está a falar verdade
d) Seria capaz de comprar a esse hipotético presidente um carro em segunda mão

Pergunta 3
Após análise da frase "Mentir com quantos dentes tem na boca" pode concluir
a) Que um bebé recém-nascido fala sempre verdade
b) Que uma galinha é incapaz de mentir
c) Que uma pessoa que já só tenha metade dos dentes só pode dizer meias mentiras
d) Que a alteração ao Código Penal que propõe que só possam ser convocadas como testemunhas pessoas desdentadas tem possibilidade de ser aprovada por unanimidade no Parlamento

Pergunta 4
Um hipotético primeiro ministro declarou "[Nome do país] está em guerra". Desta frase pode deduzir:
a) Que esse hipotético primeiro ministro não sabe que é uma competência da Assembleia da República "Autorizar o Presidente da República a declarar a guerra e a fazer paz"
b) Que esse hipotético primeiro ministro não sabe o que é uma competência da Assembleia da República
c) Que esse hipotético primeiro ministro não sabe
d) Que esse hipotético primeiro ministro não


Pergunta 5
Há alguns anos, um político brasileiro fez a seguinte declaração "Eu roubo mas construo". Pode deduzir desta frase
a) Que há uma relação de causa-efeito entre as actividades "roubar" e "construir"
b) Que a actividade da construção civil tem geneticamente componentes predadoras
c) Que na sequência desta afirmação o cara deveria ter sido preso
d) Que preciso de saber mais detalhes("roubo" o quê? a quem? e "construo" o quê? para quem?) para me poder pronunciar

Pergunta 6
A sua reacção à recente notícia de que existiriam num hipotético país 200.000 pessoas com fome é
a) Quantos são? Quantos são? Eles que venham!
b) Mandá-los pôr todos em fila para poder contá-los como deve ser
c) Reeditar a famosa frase que contribuiu para que Maria Antonieta perdesse a cabeça: "Se não têm pão, dêem-lhes croissants".
d) Propor ao Ministério da Ciência um projecto de investigação para estudar quantitativamente a influência da privação de alimentos na saúde de uma população.

Pergunta 7
Alguns críticos tem falado de um número exagerado de estádios de futebol construídos num hipotético país para um hipotético campeonato. Os defensores pelo contrário consideram que ocorreu um proveitoso investimento. A sua opinião é
a) Tornar obrigatória a prática do futebol na população em geral por forma a conseguir a ocupação dos estádios a 100 por cento
b) Transformar os estádios em explorações agrícolas: hortaliças entre as quatro linhas e plantação de vinha em socalcos nas bancadas
c) Utilizar os estádios para recriar espectáculos como os do Coliseu da Roma antiga, com o povo a votar quem seria atirado aos leões. Esta actividade, além de constituir um saudável entretenimento, permitiria reduzir substancialmente o orçamento do Zoo de Lisboa e outros parques similares.
d) Demolir os estádios depois do hipotético campeonato, porque tanto a construção como a demolição contam para o PIB.

Pergunta 8
Não se conseguiram encontrar as "armas de destruição massiva". Podemos daí concluir
a) Que essas armas nunca existiram
b) Que essas armas existiam, mas foram partidas aos pedacinhos e esses pedacinhos distribuídos por toda a população para impedir a localização
c) Que me tenho que ver livre daquela encomenda postal que recebi há dois anos e meio, sem remetente, e que guardei na arrecadação
d) Armas quê?

Pergunta de desenvolvimento
Faça uma listagem dos possíveis lugares onde as armas de destruição massiva possam estar escondidas. Seja exaustivo. Limite a sua resposta a 200 páginas A4.

Boa sorte!

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Rise lag

Durante muito tempo levantei-me cedo. Não era CEDO, mas cedinho: por volta das sete. E estava habituado a isso. Mas o pior dos hábitos é que podem degenerar em vícios. E foi o que me aconteceu: viciei-me em levantar-me cedo. Era uma sensação de felicidade, sair à rua e vê-la quase deserta, o ar lavado pelo frio da madrugada. E pouco a pouco fui antecipando a hora de levantar: às seis, e ver passar os autocarros ainda com as luzes interiores acesas, as janelas dos escritórios iluminadas para o trabalho do pessoal da limpeza, às cinco, às quatro, encontrar os noctívagos recém saídos dos bares e discotecas, às três, às duas, cruzar-me com os camiões do lixo na sua recolha diária...
A minha mulher não esteve para me aturar, saiu de casa e pediu o divórcio. Mas o pior foi que a agudização do vício levou à overdose: hoje em dia estou a levantar-me ANTES de me deitar!

quinta-feira, 6 de abril de 2006

A consciência

Foi durante o período antes da ordem do dia que o deputado deu por falta da sua consciência. Procurou nos bolsos, na pasta, mas não a encontrou. Ficou preocupado.
Na primeira oportunidade, saiu do hemiciclo e foi à secção de perdidos e achados. Perguntou ao funcionário se alguém teria encontrado uma consciência. Fizeram-no entrar pela porta ao lado do guichet e levaram-no a um compartimento onde havia guarda-chuvas, telemóveis, muitos dossiers, muitos envelopes A4 de papel castanho, e numa prateleira ao fundo algumas consciências.
- Essas estão aí porque os donos nunca vieram procurá-las.
O deputado observou mas nenhuma era a sua. Notou no chão uma caixa fechada. Perante o seu olhar interrogativo, o funcionário disse:
- Aí dentro estão vergonhas. Há pessoas que perdem a vergonha. E nunca vêm cá à procura dela. Vergonhas e consciências que não são reclamadas, ao fim de um ano são incineradas.
O deputado apalpou o bolso e suspirou aliviado. Ainda tinha a sua vergonha. O problema era a consciência.
Agradeceu ao funcionário e saiu à procura, pensando onde diabo poderia ter deixado a consciência.

terça-feira, 4 de abril de 2006

SMSes (4)

Serei sempre tua! disse ela rodando o filtro. E eu teu, disse ele regulando o laser.
Isto é ficção, rosnou um crítico.
Científica! cuspiu com desdém o outro.

domingo, 2 de abril de 2006

A laranja

A laranja ficou verde de indignação quando descobriu que tinham pintado o céu de azul e o tronco da árvore de castanho, quando laranja seria obviamente a cor apropriada. E tão indignada estava que começou a agitar-se no ramo onde estava pendurada.
Passou o Artur que vinha da escola, olhou-a curioso e... chamou-lhe um figo!

sexta-feira, 31 de março de 2006

quinta-feira, 30 de março de 2006

As duas ordens

No Parlamento era temido pela sua eloquência, e muitas vezes utilizava a frase “Para o meu partido, essa matéria está na ordem do dia”.
Até ao dia em que um deputado adversário lhe retorquiu: “Essa matéria está, deveria dizer V. Exa., na ordem da noite”.
Surpreendido, ficou às escuras... e sem palavras.

quarta-feira, 29 de março de 2006

terça-feira, 28 de março de 2006

sexta-feira, 24 de março de 2006

The End

O primeiro, que era um pessimista, disse: Isto é o princípio do fim!
O segundo, que era um optimista, respondeu: Não, é apenas o fim do princípio.
O terceiro, que tinha andado a ler um livro de estórias zen, concluiu: Seja lá o que for, vamos mas é jantar!

quinta-feira, 23 de março de 2006

A Fábula do Quorum


PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO
Comunicado Interno

Assunto: Falta de quorum

Chegou ao conhecimento da Administração a ocorrência, por mais de uma vez, de atrasos no início de reuniões ou até do adiamento das mesmas por motivo de falta de quorum.
Pelo desprestígio que acarreta para a nossa Instituição, esta situação tem que ser imediatamente corrigida.
Assim, na sua reunião de ontem, o Conselho de Administração decidiu autorizar a abertura imediata de um concurso internacional de fornecimento de quorum, para reuniões pequenas, médias e grandes, por forma a que a quantidade de quorum em armazém seja reposta a um nível que permita o regular funcionamento da Instituição. O Serviço de Aprovisionamento recebeu instruções expressas no sentido de atribuir prioridade máxima a esta tarefa. Uma vez normalizada a situação, deve ser dado conhecimento imediato a todos os centros de custo.
De qualquer forma, e porque na actual conjuntura é necessário um rigoroso controlo das despesas, todos os Serviços se devem esforçar por não gastar quorum para além do estritamente necessário. Assim, depois de efectuado o reabastecimento, qualquer pedido de quorum deve ser adequadamente justificado pelo chefe do Serviço, devendo a respectiva requisição ser preenchida em triplicado e dar entrada no Serviço de Aprovisionamento com o mínimo de 15 dias de antecedência. Os pedidos serão analisados por uma Comissão que terá um representante de cada Serviço e será presidida pelo Administrador com o pelouro das Despesas Internas. Da decisão desta Comissão não haverá recurso.
No que respeita ao Departamento Educacional, se for necessário, desde que devidamente autorizado e com a finalidade exclusiva de obtenção de quorum, poderá o tradicional "quarto de hora académico" ser substituído pela "meia hora académica".

O Presidente do Conselho de Administração

(assinatura ilegível)

terça-feira, 21 de março de 2006

Pôr do sol na aldeia

Ao fundo do quintal
Um cão roía um osso
E o dia angustiado
Afogou-se no poço.

sexta-feira, 17 de março de 2006

Geomorfologia

Onda a onda
o tempo arranca
pedaços às escarpas da memória.

Brusco e violento às vezes
outras
surdo e lento
mas na mesma eficiente.

Os fragmentos rolam
para a base
mais exposta à acção erosiva.

E a rocha firme assim
se desagrega
até não ficar mais do que a areia
de alguma coisa
que foi boa, ou grande, ou bela
e que escorre lentamente entre os dedos do tempo.

terça-feira, 14 de março de 2006

Stuff that dreams are made of

Na terra dos sonhos, os sonhos não dormem. Ao princípio da noite, deslizam até à região onde habitam os humanos. E entrando na cabeça dos que dormem, desarrumam-lhes os pensamentos, trazem recordações armazenadas nos sótãos da memória e misturam-nas com factos actuais, e divertem-se com isso. Outros, mais amargos, povoam-lhes as mentes com imagens assustadoras. Outros ainda, em geral os mais velhos, gostam de levar a calma às mentes agitadas dos humanos e fazem-nos sonhar águas pacíficas em cálidas paisagens tropicais. Alimentam-se de fragmentos da alma humana, mas pouco de cada vez, se não as mentes secam e deixam de sonhar.
Ficam com eles até que começam a despertar, para saborear o sentimento de estranheza que deles se apodera quando pensam, “Onde é que fui arranjar um sonho tão estranho?”, e juntam-se depois à volta da fogueira, que é negra, e espalha negrume para afastar a luz do dia que entretanto nasceu, e trocam entre si as experiências que tiveram nessa noite, e dessa forma ocupam o tempo até que novamente anoitece, e mais uma vez deslizam em direcção aos humanos...

terça-feira, 7 de março de 2006

Penso, logo...?

"Um penso rápido!", pensou rapidamente o pensador, quando se cortou a fazer a barba. Mas como lá em casa só tinha pensos lentos, antes que lhe acudissem esvaiu-se em pensamentos...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

As chaves

O molho de chaves caiu-me da mão, mas em vez de ficar no chão, como eu esperava, atravessou-o e passou ao plano da realidade imediatamente abaixo. Quando tentei apanhá-lo, fugiu novamente para o plano seguinte. Embora me desagradasse, tive que ir atrás dele, através dos sucessivos planos da realidade.
Se não apanho as chaves, como vou entrar em casa?

sábado, 25 de fevereiro de 2006

Descrição do Objecto Obscuro

É redondo. De uma redondez total, não tem ponta por onde se pegue, apenas se pode observar pousado numa superfície, e mesmo aí é preciso ter cautela, pois pode facilmente rolar. É também escorregadio ao tacto, as mãos deslizam sobre ele, não há aderência, poderíamos chamar-lhe untuoso, se essa não fosse uma designação já um pouco gasta.
Observêmo-lo então, com o máximo possível de detalhe. Na sua superfície – porque o objecto não tem interior, não tem fundo – inscrevem-se palavras. Por vezes uma palavra salienta-se, dando a ideia que poderíamos usá-la para pegar no objecto, para lhe dar um sentido. Mas se o tentarmos, logo verificamos que essa palavra se junta às palavras vizinhas, mistura-se com elas, dilui-se no mar de palavras que cobrem a superfície do objecto.
Essas palavras não se destinam a cumprir qualquer função de comunicação, mas apenas a dar a ilusão disso. As palavras estão lá para fazer vibrar sentimentos na mente de quem olha/ouve o objecto: os cérebros têm zonas que entram em ressonância com palavras de diferentes tipos, pelo que a escolha das palavras que compõem o objecto é criteriosa, e é geralmente feita recorrendo a especialistas, pagos a peso de ouro.
Assim, há uma classe de palavras que se destinam a fazer vibrar as convoluções nacional-patrioteiras, outras os medos/temores irracionais, outras ainda a matriz mágico-religiosa que constitui o substracto de muitas das nossas emoções.
O objecto que tenho vindo a descrever faz parte do nosso quotidiano, tendendo a surgir com mais frequência em períodos especiais do nosso viver colectivo, chamados “campanhas eleitorais”. É conhecido pelo nome de “discurso político”.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Chuva

Uma chuva chovia no molhado.
Veio outra chuva e disse-lhe:
-Vai chover para ali, onde ainda não choveu.
E a primeira disse:
-Desculpa, tens razão, estava distraída.
E lá foi.
Embora haja excepções, as chuvas são geralmente bem educadas e obedientes ao que lhes dizem as outras chuvas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Dionísio e os relógios

Dionísio começou um dia a não gostar de relógios. A achar irritantes aqueles objectos, que insistiam em modificar o ritmo segundo o qual ele gostava de viver.
O relógio de pulso foi o primeiro: mesmo capaz de funcionar a 60 metros de profundidade (tinha sido comprado quando Dionísio era praticante de caça submarina) não sobreviveu à acção do triturador da cozinha. Em boa verdade, este também não, porque a caixa do relógio era de aço inox de alta resistência.
Aos outros dois relógios que repousavam pacificamente na gaveta da mesa-de-cabeceira, nem o facto de estarem parados (eram modelos já antigos, mecânicos) lhes valeu: quando foram parar ao caixote do lixo, a acção do quebra-nozes já os tinha tornado irreconhecíveis. No entretanto, caminho semelhante tinha seguido o relógio de parede da cozinha (previamente esquartejado com o cutelo dos bifes). Os relógios digitais do micro-ondas e do forno do fogão foram cirurgicamente apagados com o picador de gelo.
Até este ponto, a esposa de Dionísio foi conseguindo gerir o medo que lhe provocava o comportamento anómalo do marido. Mas quando o seu relógio de pulso preferido (caixa em ouro de 18 quilates, prenda de casamento de um tio já falecido) foi aterrar na lareira acesa, meteu meia dúzia de peças de roupa numa mala e foi para casa dos pais, felizmente ainda vivos. Ele está louco, mamã, soluçava a pobre senhora. De facto, acender a lareira num dia de Agosto em que o Instituto Meteorológico assinalava uma temperatura de 41 ºC dificilmente deixava lugar a outro diagnóstico.
E assim Dionísio continuou eliminando todos os sinais de contagem do tempo. Ainda tentou alvejar com uma carabina de pressão de ar o relógio da torre da igreja que se via da janela da sala, mas verificada a inutilidade desse esforço, resignou-se a correr os pesados cortinados para o afastar da vista.
Afundado num sofá, na sala quase às escuras, Dionísio tinha sossegado, o silêncio à sua volta actuando como um calmante para o seu cérebro cansado. Foi então que do núcleo mais central desse silêncio começou a surgir um ritmo, um batimento, uma pulsação regular, como se um monstruoso relógio se tivesse instalado dentro de si próprio. Quando teve consciência da origem daquele pulsar terrificante, Dionísio soube o que tinha a fazer. Como um autómato telecomandado, levantou-se, foi à cozinha, trouxe a faca de trinchar, tornou a sentar-se no sofá, procurou no lado esquerdo do peito o local onde o batimento era mais forte, apoiou aí a ponta da lâmina e lenta mas firmemente, empurrou a faca. Nos breves instantes até perder a consciência, Dionísio sentiu uma paz a invadi-lo, como se finalmente o tempo estivesse a parar...
Foi com essa expressão pacífica no rosto, como se dormisse, que a polícia, alertada pelos vizinhos, o foi encontrar três dias depois.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Sobre Italo Calvino (fragmento)

O cartógrafo que desenha mapas do mundo real usa como ferramenta principal uma caneta de ponta fina, porque as fronteiras entre os países, contestadas ou não, são linhas, que estabelecem um corte territorial, uma descontinuidade administrativa, política, por vezes cultural, mas (quase) sempre autoritária.
Quem pretendesse mapear o território literário, teria que usar um pincel e trabalhar sobre papel poroso, mais uma aguarela do que um desenho à pena, porque as fronteiras entre géneros são frequentemente mal definidas, difusas, por vezes reivindicadas por partidários dos dois (ou mais) géneros limítrofes, mas suficientemente amplas para que alguns autores consigam viver dentro delas.
E se numa noite de inverno um viajante iniciasse a travessia de uma dessas fronteiras, na sua caminhada entre duas cidades invisíveis, poderia seguir o atalho dos ninhos de aranha e entrando no bosque, olhando para cima, ter a sorte de avistar o barão trepador, ou mais adiante encontrar uma das metades do visconde cortado ao meio. Neste caso, deverá certificar-se de qual das metades se trata, pois isso poderá ter consequências no desenrolar da sua história pessoal.
Se pelo contrário o destino o fizer encontrar o cavaleiro inexistente – façanha desde logo notável – este poderá conduzi-lo ao castelo dos destinos cruzados, e talvez à porta esteja Italo Calvino que, sorrindo, lhe pegará no braço e o conduzirá numa visita guiada enquanto lhe conta como Palomar se perdeu em devaneios numa loja de queijos, o que poderá querer significar – mas isto está aberto à discussão – que a literatura (também) é para comer.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Silly Season

Adriano, o jornalista de serviço na estação XXL, estava preocupado: para o noticiário das 8 tinha recebido quatro notícias das agências, às 9 só tinha tido duas, às 10 uma e tinha conseguido respigar um fait-divers de um dos matutinos. Às 10 e trinta e cinco, era claro que as fontes de informação tinham secado, isto é, nada acontecia, e Adriano começou a ficar angustiado ante a perspectiva de chegar ao noticiário das 11 sem ter notícias para dar, o que seria um acontecimento inédito na XXL (“a estação sempre em cima do acontecimento! Pam! Pam! Pam!”).
Às 10 e 45 tomou uma decisão: tinha de haver pelo menos uma notícia. Meteu no leitor um CD dos Ugly Boys, começando com a faixa “There’s going to be trouble”. Olhou em volta, viu o cinzeiro de pé alto, tomou-lhe o peso. Com o cinzeiro bem agarrado na mão esquerda (Adriano era canhoto) saiu do estúdio, desceu a escada e quando chegou à rua, observou com ar apreciativo a fila de carros estacionados ao longo do passeio. Metodicamente, usando o cinzeiro como uma clava, foi deixando marcas em todos: o BMW azul ficou com o pára-brisas estilhaçado, o Corsa com uma porta metida dentro, o Peugeot sem o farol direito e o vidro de uma janela, e assim sucessivamente, vidros partidos, chapa amolgada, sem verdadeiramente apontar, limitando-se a dar balanço ao cinzeiro e fazê-lo bater como calhava. Ao fim de 12 ou 13 parou, deu meia-volta e regressou calmamente ao estúdio. Vários populares se aproximavam agora dos carros danificados e ao fundo da rua despontavam o subchefe Eleutério, ainda a abotoar os botões do blusão e o guarda Rodolfo, que alguém tinha ido chamar à esquadra, a dois quarteirões de distância.
Quase em cima das 11, Adriano meteu a publicidade do alinhamento, o indicativo do noticiário, o sinal horário, e com a sua voz bem timbrada começou:
Há poucos minutos, por razões ainda não esclarecidas, um indivíduo danificou várias viaturas estacionadas ao longo da Rua das Sardinheiras. Para o efeito utilizou um objecto pesado, que algumas testemunhas disseram tratar-se de uma barra de ferro.
Fez uma pequena pausa e ouviu, através da porta entreaberta da cabina, as pancadas na porta do estúdio, com uma firmeza que claramente identificava o braço da Lei. Então concluiu a notícia:
A PSP tomou conta da ocorrência e procede a diligências no sentido de identificar o autor deste acto de vandalismo. Em próximos noticiários, a XXL apresentará os novos desenvolvimentos deste caso. E agora, mais uma faixa do último trabalho dos Ugly Boys: “It´s all over, baby!”.
Enquanto se levantava para ir abrir a porta, Adriano sentia-se orgulhoso: tinha conseguido evitar o pior dos males – um noticiário sem notícias! – e tinha inclusivamente deixado matéria para o colega que viria rendê-lo daí a pouco. Nas consequências que viriam para si próprio nem pensava. Tendo sido o melhor aluno do Curso de Jornalismo, ainda conseguia citar de memória o parágrafo inicial do manual da disciplina “Ética Profissional”: Na sua missão sagrada de informar o público, o jornalista tem por vezes de fazer sacrifícios pessoais…

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Crime e Castigo na Era do Consumismo

Almerindo, o consumidor quase-ideal, circulava pelos corredores do hipermercado com o seu carrinho já quase cheio. Era uma actividade que lhe dava um enorme prazer (excepto no fim do mês, com toda a gente a queimar os ordenados e os inevitáveis encontrões) e perante uma prateleira cheia, fosse do que fosse, reagia como o cãozinho de Pavlov: exibia um comportamento compulsivo que o levava a pegar no(a) pacote ou lata ou caixa ou embalagem e juntá-lo(a) a tudo o que já transportava.
À entrada da secção “Faça Você Mesmo”, Almerindo viu um esplendoroso kit que incluía um berbequim, uma rebarbadora e uma lixadeira, três jogos de brocas, mais umas caixas com buchas e parafusos, tudo por 129,99 €. Oferta limitada!
Almerindo não era propriamente um engenhocas (na realidade era até um pouco desajeitado com as mãos) mas quando viu aquele kit na caixa colorida, com oferta da maleta de transporte, soube que sempre o tinha (inconscientemente) desejado e soube imediatamente que tinha de o levar.
Ao lado, fazendo figura de parente pobre, havia uma versão reduzida (só o berbequim e um jogo de brocas) por 49,99 €. Uma ideia brilhante surgiu no cérebro de Almerindo, e passá-la à prática foi uma questão de segundos: a etiqueta com o código de barras do preço mais baixo foi habilmente descolada e colada de novo sobre a de preço mais elevado!
No instante em que consumava tão nefando acto, Almerindo foi surpreendido por uma súbita aparição: precedido por dois anjos, surgiu perante os seus olhos o deus dos hipermercados!
Os anjos vinham na forma de duas meninas, de mini-saia e patins em linha, transportando uma faixa com letras fluorescentes que dizia: “Ponha o carro à frente dos bois / Compre agora e pague depois!”.
O deus dos hipermercados estava de fato e gravata, tinha em cada mão um telemóvel e ao pescoço um colar feito de cartões de crédito Gold. O rosto era estranhamente parecido com a cara do Eng. Belmiro. Quando falou, as suas palavras atraíram a atenção de Almerindo com o efeito magnético de um slogan publicitário:
- Almerindo, meu filho, tentar diminuir o lucro de uma grande superfície é um crime inominável, pelo qual vais ser punido. Ficas condenado a repetir até à eternidade o gesto sagrado de encher o carrinho das compras, porque quando te aproximares da caixa ele ficará subitamente vazio e terás que voltar ao princípio.
E numa de exibição de conhecimentos mitológicos, acrescentou:
- E mudarei o teu nome para Sísifo.
Abriu os braços, as meninas agitaram a faixa, os cartões Gold brilharam com uma luz fortíssima, que obrigou Almerindo a fechar os olhos. Quando os abriu, deus e anjos tinham desaparecido, deixando no ar o cheiro característico da secção “Perfumaria e Cosmética”.
E desde então Almerindo/Sísifo, errando pelo hipermercado, coloca no carrinho detergente, after shave, arroz, massa, cerveja e água tónica, salsichas e manteiga, queijo e pickles, vinho, água mineral, pão e croissants, e tudo o mais que pelo caminho vai encontrando e quando se aproxima da caixa o carrinho fica vazio e ele tem que voltar ao princípio. É estranho como nenhum dos outros clientes dá conta, mas as penas eternas se calhar são mesmo assim, só o condenado dá por elas, ou então os outros clientes também estão condenados, condenados ao consumo. Almerindo pensa que provavelmente é esta a verdade, e vai tecendo estes pensamentos enquanto continua a percorrer os corredores entre prateleiras e a encher o carrinho, continuamente, per sæcula sæculorum

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Fumo


Na calma
irritação
quotidiana

O poeta fabricou
o seu
poema

Com os dedos
da bolsa
das palavras

Tirou algumas
poucas
que estão caras

Enrolou
lentamente
cuidadoso

Em papel
ordinário
de rascunho

Molhou-o
com a língua
e apertou

Como vira
fazer
ao seu avô

Acendeu
e puxou
umas fumaças

Engasgou-se
e fartou-se
de tossir

Um amigo que via
disse
então

Vê lá se apanhas
cancro
no pulmão

Mas visto que
não pode
publicá-lo

Que há-de o poeta fazer
senão
fumá-lo?

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Narciso


Narciso cansou-se de se mirar em charcos e ribeiros. Tornou-se urbano e arranjou um emprego. Polidor de espelhos!
O patrão estava feliz. Nunca lhe tinha aparecido um empregado apaixonado pelo trabalho. Até fazia horas extraordinárias de graça!
Um dia Narciso fez uma experiência. Esperou com ansiedade pela saída dos restantes empregados e do patrão. Pegou nos últimos dois espelhos que tinha polido, cada um com dois metros de altura por um de largura (encomendados por uma loja de pronto-a-vestir) e posicionou-os em frente um do outro, as superfícies tão paralelas quanto possível. Descalçou os sapatos e as meias, despiu a roupa e, completamente nu, colocou-se no meio dos espelhos.
Quando olhou a sua imagem multiplicada até ao infinito, uma onda de prazer com uma intensidade que não supunha possível fez vibrar cada nervo do seu corpo, fez ressoar cada neurónio do seu cérebro...
Morreu de overdose.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

A Passagem

Desde pequenos que sabíamos o que iria acontecer, e visitávamos muitas vezes a floresta, onde cuidávamos dos que já tinham passado antes de nós: varríamos as folhas do chão, arrancávamos ervas, tirávamos um ou outro ramo seco. Sabíamos que naquela forma viveríamos muitos anos, e que a nossa existência móvel, na sua curta duração, era de facto uma espécie de pré-vida.
E no entanto, é sempre um choque quando aparecem os primeiros sintomas: uma manhã, sem qualquer aviso, os pés começam a arrastar-se no chão, todos os movimentos são mais lentos, e sabemos que o momento da passagem se aproxima. Caminhamos então em direcção à floresta, acompanhados pelos nossos amigos, e durante o percurso o esforço para andar vai sendo cada vez maior, os nossos membros vão perdendo a flexibilidade da carne e adquirindo aos poucos a rigidez da madeira, de tal forma que quando chegamos ao local onde ficaremos plantados é um alívio podermos parar. E assentamos os pés firmes no chão, e os nossos amigos ajudam-nos a colocar os braços na posição mais adequada, e olhamos o que nos rodeia pela última vez antes de as nossas retinas ficarem opacas e as pálpebras rígidas, e entra nos nossos pulmões a última inspiração. Sentimos as raízes a sair-nos dos pés e a entrar na terra à procura de nutrientes, o fluido que nos percorre as veias vai-se tornando seiva, o calor do sol sobre o nosso corpo começa a provocar a transformação das células superficiais para poderem realizar a fotosíntese, e chegam-nos subtis mensagens de saudação daqueles que passaram antes de nós e que nos rodeiam. E vem o pôr do sol, e ficamos meio adormecidos para passar a noite, esperando pela madrugada, e os pássaros ainda não vêm dormir no nosso corpo porque ainda não cresceram ramos nos nossos braços, mas isso acontecerá rapidamente, e então seremos árvores completas, e viveremos longamente...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Os agás

- Como tenho verificado que com alguma frequência vocês escrevem “há” sem agá, cheguei à conclusão que deve haver um défice de agás na vossa colecção de letras, pelo que trouxe uns quantos agás para colmatar essa falta.
E juntando a acção à palavra, tirou um envelope A4 da pasta e despejou sobre a mesa uma enorme quantidade de agás recortados de jornais.
Nenhum dos alunos sequer sorriu.
- O sentido de humor já não é o que era! - exclamou o professor desalentado...

sábado, 28 de janeiro de 2006

Inverno


Chegou primeiro o Frio e assentou arraiais. Tinha congelado uns ribeiros, para se entreter, quando ouviu ao longe o Vento. Este aproximou-se rapidamente e cumprimentou-o, com um assobio gelado. Em terceiro lugar veio a Chuva, ensopando tudo em volta, e finalmente apareceu a Neve, vestindo um manto branco acabado de estrear.
A Chuva e a Neve não se entendiam bem e começaram a discutir, mas o Vento, com um sopro forte, mandou-as calar.
Era a Assembleia Geral de constituição do clube Inverno. O artigo 1º dos Estatutos dizia:
“Para que o Clube esteja aberto, é necessária a presença de pelo menos um dos sócios no pleno gozo dos seus direitos”.
E o artigo 2º:
“O clube fechará para balanço quando aparecer de forma insistente e incómoda o Sol, o Calor, ou qualquer outro desses desmancha-prazeres”.
Já não me lembro do resto: nunca tive grande queda para memorizar textos jurídicos...

O'pra elas!





Gent, Bélgica, 2004

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

SMSes (3)

- O quê? perguntou um.
- What? asked another.
- Krrumpf# @(q£ §=g.
- Com que então uma torre para chegar ao céu - resmungou a divindade com um riso raivoso..

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Equívocos

Queria inscrever-se no karaté mas fê-lo por engano no karaoke.
Quando uns tempos mais tarde foi atacado na rua, em vez de responder com um tsuki, saiu-lhe o “Love me tender” do Elvis Presley...
É o que dá não se saber japonês!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Estória com gatos

Estavam três gatos no beiral do telhado: um gato filósofo, um gato artista e um gato comum.
O gato filósofo foi o que miou primeiro. Dissertou detalhadamente sobre o significado da vida de gato, e o modo como ela contribui para o equilíbrio do universo. Tinha feito um retiro espiritual num mosteiro zen, e tinha aprendido sobre o yin e o yang, e o desprendimento, e a iluminação que se atinge depois de muito meditar e se conseguir ver para além das ilusões.
Em seguida miou o gato artista, e disse da suprema beleza da noite com o luar a brilhar sobre os telhados, de como o miar de uma gata com cio representava, para ouvidos artisticamente treinados, música das esferas, do prazer estético que se podia fruir observando um salto bem preparado do ramo da árvore para cima do muro.
Miou por último o gato comum, que disse que tinha apreciado os miados dos seus distintos colegas, mas que todos os seus considerandos eram vazios de sentido se ao escutá-los ele não tivesse já um pardalito ou pelo menos um ratinho a aconchegar-lhe o estômago. Filosofia e arte muito bem, mas não de barriga vazia!
Ouvindo isto, os dois distintos colegas não puderam deixar de miar longamente, expressando a mais profunda concordância.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Eleições no País da Simetria

O partido no poder tinha sido, nos últimos anos, o Partido Simétrico (PS). O que era óbvio para quem visitasse o país: os edifícios mais recentes eram rigorosamente simétricos; nos automóveis, a frente e a traseira confundiam-se; qualquer monumento, construção, estrutura exibia uma ou mais formas de simetria.
Do programa do partido constava, naturalmente, a procura e adopção da simetria em todos os aspectos da vida – qualquer militante ou simpatizante usava roupas irrepreensivelmente simétricas e mesmo o cabelo era sempre penteado com risca ao meio. Qualquer pequena irregularidade – uma borbulha, um sinal, uma verruga, enfim qualquer pequena falha da natureza, ela própria considerada essencialmente simétrica – era imediatamente corrigida cirurgicamente, afim de manter a simetria no mundo.
No plano social, o número de pobres era rigorosamente igual ao número de ricos; o número de estúpidos igualava o número de inteligentes; enfim, um país rigorosamente dividido ao meio, uma igualdade de um lado e outro da mediana. A fazer fé, naturalmente, nas estatísticas do governo, que, por outro lado, era sistematicamente acusado pela oposição de viciar as estatísticas.
Em virtude dos seus princípios programáticos, o PS era obviamente um partido rigorosamente centrista.
A oposição era constituída pelo Partido Hemi-Simétrico (PHS) – da direita, ou da direita moderada, consoante os comentadores – pelo Partido Assimétrico (PA) – da esquerda, ou da esquerda moderada, segundo outros comentadores – e pelo Partido Anti-Simétrico (PAS) – da esquerda radical, de acordo com todos os comentadores.
O Partido Hemi-Simétrico (PHS) era adepto da simetria, mas de uma forma mais sofisticada. Assim, por exemplo, não achavam necessário que houvesse igual número de ricos e de pobres, mas sim que o número de ricos vezes as respectivas fortunas fosse igual ao número de pobres vezes o valor das respectivas míseras posses. Desta forma, argumentavam, ocorreria a concentração de capital imprescindível para que o país desse o necessário salto em frente.
O Partido Assimétrico (PA) era de opinião que simetria ou assimetria era uma questão de gosto pessoal. Era uma espécie de mistura de cidadãos simétricos, desiludidos com algumas simetrices exageradas do PS, e de cidadãos que tinham sido anti-simétricos na sua juventude, mas que se tinham entretanto cansado dos excessos da anti-simetria.
O Partido Anti-Simétrico (PAS) era uma espécie de PS ao contrário. Qualquer acção de um anti-simétrico procurava deliberadamente a não-simetria. A sua casa teria forçosamente a porta de um lado e as janelas do outro, estas de preferência de tamanhos diferentes. As suas roupas teriam que ser ferozmente anti-simétricas – casacos com uma manga vermelha e outra verde estiveram na moda durante algum tempo. Penteados com risca ao lado, em casos extremos um lado da cabeça rapado, piercings só de um lado da cara...
Com a aproximação das eleições, o país foi surpreendido pelo aparecimento de um novo partido: o Partido Supra-Simétrico (PSS).
Quase da noite para o dia, surgindo praticamente do nada, começou a ser motivo de conversas de rua, de comentários dos opinion makers, de artigos de primeira página nos jornais mais conceituados. Porque o seu programa político veio introduzir um corte radical no universo consensual, um paradigm shift na paisagem ideológica dominante. Muito resumidamente, afirmava que todas as controvérsias em torno da simetria e das diversas facções de não-simetria ficavam sem sentido (“um mero exercício de futilidade”) quando examinadas a partir de um espaço de dimensionalidade mais elevada. Esta declaração, apresentada pelo porta-voz do partido na conferência de imprensa de lançamento, constitui obviamente uma simplificação; a argumentação detalhada, apresentada em “A Supra-Simetria: Um Programa de Governo”, desenrolava-se ao longo de 185 páginas de expressões matemáticas, separadas apenas, de onde em onde, por expressões do tipo “portanto”, “daqui, como é evidente” ou “segue-se que”.
A publicação do programa teve na sociedade civil um efeito demolidor. Olhando aquelas páginas e páginas de densa notação matemática, as pessoas pensavam: “Não percebo nada, estes tipos devem ser muito inteligentes... Devem ser capazes de governar bem o país... Vou votar neles!”
E foi assim que, contrariamente às previsões de todos os analistas, mas de acordo com os comentários dos mesmos analistas após a publicação dos resultados, o PSS averbou uma tremenda vitória, obtendo a maioria absoluta.
A sessão inaugural da nova legislatura logo mostrou a diferença de postura do novo poder. Os seus deputados, em vez de ocuparem uma posição central no hemiciclo, como sempre fazia o PS, distribuíram-se aleatoriamente pela sala, desta forma mostrando estarem acima das implicações do conceito de simetria.
A primeira medida do novo parlamento, aguardada com grande expectativa, foi a aprovação de uma lei destinada a facultar a todos os cidadãos de maior idade uma licenciatura em Matemática, para que pudessem compreender, em toda a sua profundidade, o programa do PSS. Esta decisão foi muito bem recebida pelos departamentos de Matemática de todas as universidades do país. A esta, outras leis se seguiram, de igual importância estratégica e cada uma delas mais inovadora do que a anterior.
Porém, com o passar do tempo, foi emergindo no país profundo um vago sentimento de mal-estar. Uma parte dos cidadãos queixava-se que estudar Matemática era cansativo, atribuindo em geral as culpas aos professores que não explicavam bem as matérias; mas a generalidade ressentia-se sobretudo do facto de todas as questões importantes serem decididas na capital.
Propulsionado pelo recém-aparecido PANS (Partido Anarco-Simétrico, que alguns analistas mais formais recusavam considerar um partido pelo facto de, assumidamente, não ter programa; o que se aproximava mais de um programa era um site que mantinham na Web onde qualquer pessoa podia escrever o que lhe apetecesse...), um abaixo-assinado divulgado na SimNet reuniu em tempo recorde as assinaturas necessárias para forçar o parlamento a realizar um referendo.
Este referendo, com o título (escolhido pelos proponentes e obviamente provocatório) “Simetria? O que é isso?”, foi ganho de forma inequívoca pelos partidários da regionalização, sendo desta forma decidido que cada região teria o grau de simetria que entendesse.
Ficou célebre, na campanha que antecedeu o referendo, um debate televisivo em que, quando um dos participantes disse “A simetria quer-se como o sal na comida, nem de mais, nem de menos”, um outro retorquiu “Pois eu, como tenho a tensão arterial alta, prefiro sem sal nenhum!”.
E assim, uns anos mais tarde, o país era como um mosaico, com as diferentes regiões exibindo diversas posições com respeito à simetria: desde as fundamentalistas supra-simétricas, às ferozmente simétricas ou anti-simétricas, passando por diversos graus intermédios.
Como este panorama político se alterava quase sempre que havia eleições (que com alguma frequência, e por razões diversas, eram antecipadas) surgiu uma nova profissão no mercado de trabalho, os engenheiros simetrizadores, licenciados em Engenharia Simetrizeira. Estes profissionais eram especialistas em simetrizar tudo aquilo que, na opinião dos decisores políticos, não era simétrico ou não o era em grau suficiente; também estavam habilitados, num contexto diferente, a des-simetrizar ou assimetrizar tudo o que fosse demasiado simétrico para o poder em exercício.
Sendo uma profissão que rapidamente passou a gozar de grande prestígio social, os requisitos de entrada nas faculdades onde se ensinava este novo ramo da engenharia eram os mais elevados de todo o ensino superior. A Ordem dos Engenheiros Simetrizadores era um dos organismos profissionais mais importantes, com forte influência (demasiada influência, havia quem dissesse, entre dentes) em todos os sectores da vida económico-social, e o seu Bastonário frequentava com naturalidade os corredores do poder.
Foi por esta altura que um famoso político, já na reforma, que matava o tempo escrevendo a sua auto-biografia, instado por um jornalista a comentar as profundas mudanças que tinham varrido o país no espaço de uma geração, respondeu, de forma lapidar, com a frase que o faria entrar na História:
- É a vida!...



Nota final: O autor declara que esta estória, como todas as estórias, deve certamente ter uma moral, mas que ele (autor), embora se tenha esforçado, não a conseguiu descobrir.

    Continue a ler...

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

domingo, 15 de janeiro de 2006

Diferente

A palavra “diferente” era muito vaidosa... Só por ser diferente! Estava sempre a dizer mal das palavras “igual”, “semelhante”, “parecida”, “idêntica” e outras que tais, só porque não eram diferentes. Já nenhuma palavra a podia aturar!
Ora no país das palavras resolveram organizar um concurso de beleza. E “diferente” foi das primeiras palavras a inscrever-se. No seu íntimo, sentia que já tinha ganho o concurso. Pois se ela era diferente de todas as outras, o júri não podia deixar de ter isso como o critério mais importante na selecção. E o nervosismo foi crescendo à medida que a data do concurso ia ficando próxima.
E “diferente” resolveu acentuar as suas diferenças, para aumentar a vantagem sobre as competidoras. E foi-se tornando cada vez mais diferente. E quando chegou o concurso, foi eliminada logo na primeira volta, pois de tão diferente que estava, já não se percebia o que significava. E o primeiro prémio foi atribuído à palavra “simples”, que na sua simplicidade nunca imaginara pudesse alguma vez vir a ganhar.
“Diferente” chorou lágrimas amargas. Mas curiosamente, as suas lágrimas não eram diferentes; eram iguaizinhas às lágrimas das outras candidatas excluídas.

Gotcha!


(Bratislava, Eslováquia)

sábado, 14 de janeiro de 2006

SMSes (2)

- Vão chegar animais, disse a planta à pedra. Eles movem-se.
- Qual é a vantagem, quando se pode estar quieta ao sol?
E riram-se ambas, um enorme riso estático.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Os Colunáveis

(para lembrar Eça de Queirós)

Abra-se qualquer revista dita “social” e lá estão eles, nas páginas centrais (um verdadeiro zoo!), exibindo-se à admiração pacóvia dos leitores.
Ele são festas de aniversário, ele são inaugurações, ele são casamentos ou baptizados, qualquer pretexto é bom para arreganhar os dentes na direcção do fotógrafo (algumas só com meia boca, não vá a plástica desfazer-se!)…
E os nomes, senhores, que parecem saídos de um infantário: Lili, Mané, Jójó, Zézé, Kiki… Como é possível levar a sério criaturas que se identificam com tais alcunhas?
Vou dizer-vos como eu gostaria de ver as referidas páginas.
Aquela foto com dois senhores de copo na mão, rindo à gargalhada, levaria a seguinte legenda:
“O Comendador Sicrano conta ao Dr. Beltrano como o uso de imigrantes ilegais no seu último empreendimento imobiliário fez aumentar substancialmente a sua conta bancária (domiciliada na Suiça).”
E aqueloutra com três senhoras sorridentes, duas jovens e uma já entradota:
“Dona Fulana, na secretaria do colégio onde os seus meninos estudam, antes de receber o subsídio a que tem direito, em virtude dos diminutos rendimentos constantes da sua declaração de IRS. Enquanto espera, descreve às amigas as férias que passou na nêve e queixa-se do horror que é parquear o Terrano.”
Uma corja, senhores! Portugal está doente!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

SMSes (1)

– Enloureceste? – perguntou o marido à mulher quando esta regressou do cabeleireiro.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Vermelho

Para alguns é o martírio
Para outros revolução
Para uns capa de toureiro
Outros trazem à memória
Sangue espalhado no chão.
Um cartão no futebol
Ou um carro de bombeiros
E mais isto, mais aquilo...
Curioso como pode
Uma mera oscilação
Do campo electromagnético
Com um comprimento de onda
De 700 nanometros
Representar tanta coisa
Para tanta e tanta gente?
Se calhar porque esta gente
Sendo embora semelhante
É toda ela
Diferente.

Conclave de Palavras

— Uma estória é uma fila de palavras – sentenciou a LITERATA.
— Mas é importante quem vai à frente ou atrás – precisou a ORDENADORA.
— O regulamento estabelece um limite máximo de 200 palavras – debitou a JURISTA.
— Eu gosto muito de estórias, e uma vez era para entrar numa, mas depois o autor... –começou a PALAVROSA.
— Shiu, tá calada! – interrompeu-a a AUTORITÁRIA.
— Vamos ajudar o autor? – propôs a VOLUNTÁRIA.
— E o que ganhamos com isso? – perguntou a EGOÍSTA.
— Aparecemos impressas, em Times New Roman, ou talvez em Arial... – respondeu a VAIDOSA.
— Eu não faço favores a ninguém! – avançou a CASMURRA.
— Só participa quem quiser... – disse a CONTEMPORIZADORA.
— Podemos votar... – propôs a DEMOCRATA.
— Boa, boa! – disse a ENTUSIASTA.
A votação, alargada a todas as palavras do dicionário do Word, processou-se com velocidade electrónica.
— Resultado da votação: 5000 a favor, 5000 contra! – anunciou a ESCRUTINADORA.
Ouviram-se insultos ao sistema operativo Windows, acusações de corrupção ao programa Excel, que tinha apurado os resultados, enfim, uma balbúrdia!
O autor acordou! Levantou a cabeça do teclado, olhou o monitor sem perceber nada, mas gravou o ficheiro, para enviar na manhã seguinte para o concurso literário.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Explicação (como se fosse necessária...)

Este blogue nasceu (quase) por acaso. Pretendia escrever um comentário no Caderno de Contos do Luís Filipe Silva e pouco depois o Blogger estava a pedir-me um nome para o blogue a criar. Uma hesitação, um impulso (por que não?) e pronto!
Por razões de simetria, outro impulso pode acabar com ele. Vivemos entre impulsos, é o que é...