sexta-feira, 31 de março de 2006

quinta-feira, 30 de março de 2006

As duas ordens

No Parlamento era temido pela sua eloquência, e muitas vezes utilizava a frase “Para o meu partido, essa matéria está na ordem do dia”.
Até ao dia em que um deputado adversário lhe retorquiu: “Essa matéria está, deveria dizer V. Exa., na ordem da noite”.
Surpreendido, ficou às escuras... e sem palavras.

quarta-feira, 29 de março de 2006

terça-feira, 28 de março de 2006

sexta-feira, 24 de março de 2006

The End

O primeiro, que era um pessimista, disse: Isto é o princípio do fim!
O segundo, que era um optimista, respondeu: Não, é apenas o fim do princípio.
O terceiro, que tinha andado a ler um livro de estórias zen, concluiu: Seja lá o que for, vamos mas é jantar!

quinta-feira, 23 de março de 2006

A Fábula do Quorum


PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO
Comunicado Interno

Assunto: Falta de quorum

Chegou ao conhecimento da Administração a ocorrência, por mais de uma vez, de atrasos no início de reuniões ou até do adiamento das mesmas por motivo de falta de quorum.
Pelo desprestígio que acarreta para a nossa Instituição, esta situação tem que ser imediatamente corrigida.
Assim, na sua reunião de ontem, o Conselho de Administração decidiu autorizar a abertura imediata de um concurso internacional de fornecimento de quorum, para reuniões pequenas, médias e grandes, por forma a que a quantidade de quorum em armazém seja reposta a um nível que permita o regular funcionamento da Instituição. O Serviço de Aprovisionamento recebeu instruções expressas no sentido de atribuir prioridade máxima a esta tarefa. Uma vez normalizada a situação, deve ser dado conhecimento imediato a todos os centros de custo.
De qualquer forma, e porque na actual conjuntura é necessário um rigoroso controlo das despesas, todos os Serviços se devem esforçar por não gastar quorum para além do estritamente necessário. Assim, depois de efectuado o reabastecimento, qualquer pedido de quorum deve ser adequadamente justificado pelo chefe do Serviço, devendo a respectiva requisição ser preenchida em triplicado e dar entrada no Serviço de Aprovisionamento com o mínimo de 15 dias de antecedência. Os pedidos serão analisados por uma Comissão que terá um representante de cada Serviço e será presidida pelo Administrador com o pelouro das Despesas Internas. Da decisão desta Comissão não haverá recurso.
No que respeita ao Departamento Educacional, se for necessário, desde que devidamente autorizado e com a finalidade exclusiva de obtenção de quorum, poderá o tradicional "quarto de hora académico" ser substituído pela "meia hora académica".

O Presidente do Conselho de Administração

(assinatura ilegível)

terça-feira, 21 de março de 2006

Pôr do sol na aldeia

Ao fundo do quintal
Um cão roía um osso
E o dia angustiado
Afogou-se no poço.

sexta-feira, 17 de março de 2006

Geomorfologia

Onda a onda
o tempo arranca
pedaços às escarpas da memória.

Brusco e violento às vezes
outras
surdo e lento
mas na mesma eficiente.

Os fragmentos rolam
para a base
mais exposta à acção erosiva.

E a rocha firme assim
se desagrega
até não ficar mais do que a areia
de alguma coisa
que foi boa, ou grande, ou bela
e que escorre lentamente entre os dedos do tempo.

terça-feira, 14 de março de 2006

Stuff that dreams are made of

Na terra dos sonhos, os sonhos não dormem. Ao princípio da noite, deslizam até à região onde habitam os humanos. E entrando na cabeça dos que dormem, desarrumam-lhes os pensamentos, trazem recordações armazenadas nos sótãos da memória e misturam-nas com factos actuais, e divertem-se com isso. Outros, mais amargos, povoam-lhes as mentes com imagens assustadoras. Outros ainda, em geral os mais velhos, gostam de levar a calma às mentes agitadas dos humanos e fazem-nos sonhar águas pacíficas em cálidas paisagens tropicais. Alimentam-se de fragmentos da alma humana, mas pouco de cada vez, se não as mentes secam e deixam de sonhar.
Ficam com eles até que começam a despertar, para saborear o sentimento de estranheza que deles se apodera quando pensam, “Onde é que fui arranjar um sonho tão estranho?”, e juntam-se depois à volta da fogueira, que é negra, e espalha negrume para afastar a luz do dia que entretanto nasceu, e trocam entre si as experiências que tiveram nessa noite, e dessa forma ocupam o tempo até que novamente anoitece, e mais uma vez deslizam em direcção aos humanos...

terça-feira, 7 de março de 2006

Penso, logo...?

"Um penso rápido!", pensou rapidamente o pensador, quando se cortou a fazer a barba. Mas como lá em casa só tinha pensos lentos, antes que lhe acudissem esvaiu-se em pensamentos...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

As chaves

O molho de chaves caiu-me da mão, mas em vez de ficar no chão, como eu esperava, atravessou-o e passou ao plano da realidade imediatamente abaixo. Quando tentei apanhá-lo, fugiu novamente para o plano seguinte. Embora me desagradasse, tive que ir atrás dele, através dos sucessivos planos da realidade.
Se não apanho as chaves, como vou entrar em casa?

sábado, 25 de fevereiro de 2006

Descrição do Objecto Obscuro

É redondo. De uma redondez total, não tem ponta por onde se pegue, apenas se pode observar pousado numa superfície, e mesmo aí é preciso ter cautela, pois pode facilmente rolar. É também escorregadio ao tacto, as mãos deslizam sobre ele, não há aderência, poderíamos chamar-lhe untuoso, se essa não fosse uma designação já um pouco gasta.
Observêmo-lo então, com o máximo possível de detalhe. Na sua superfície – porque o objecto não tem interior, não tem fundo – inscrevem-se palavras. Por vezes uma palavra salienta-se, dando a ideia que poderíamos usá-la para pegar no objecto, para lhe dar um sentido. Mas se o tentarmos, logo verificamos que essa palavra se junta às palavras vizinhas, mistura-se com elas, dilui-se no mar de palavras que cobrem a superfície do objecto.
Essas palavras não se destinam a cumprir qualquer função de comunicação, mas apenas a dar a ilusão disso. As palavras estão lá para fazer vibrar sentimentos na mente de quem olha/ouve o objecto: os cérebros têm zonas que entram em ressonância com palavras de diferentes tipos, pelo que a escolha das palavras que compõem o objecto é criteriosa, e é geralmente feita recorrendo a especialistas, pagos a peso de ouro.
Assim, há uma classe de palavras que se destinam a fazer vibrar as convoluções nacional-patrioteiras, outras os medos/temores irracionais, outras ainda a matriz mágico-religiosa que constitui o substracto de muitas das nossas emoções.
O objecto que tenho vindo a descrever faz parte do nosso quotidiano, tendendo a surgir com mais frequência em períodos especiais do nosso viver colectivo, chamados “campanhas eleitorais”. É conhecido pelo nome de “discurso político”.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Chuva

Uma chuva chovia no molhado.
Veio outra chuva e disse-lhe:
-Vai chover para ali, onde ainda não choveu.
E a primeira disse:
-Desculpa, tens razão, estava distraída.
E lá foi.
Embora haja excepções, as chuvas são geralmente bem educadas e obedientes ao que lhes dizem as outras chuvas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Dionísio e os relógios

Dionísio começou um dia a não gostar de relógios. A achar irritantes aqueles objectos, que insistiam em modificar o ritmo segundo o qual ele gostava de viver.
O relógio de pulso foi o primeiro: mesmo capaz de funcionar a 60 metros de profundidade (tinha sido comprado quando Dionísio era praticante de caça submarina) não sobreviveu à acção do triturador da cozinha. Em boa verdade, este também não, porque a caixa do relógio era de aço inox de alta resistência.
Aos outros dois relógios que repousavam pacificamente na gaveta da mesa-de-cabeceira, nem o facto de estarem parados (eram modelos já antigos, mecânicos) lhes valeu: quando foram parar ao caixote do lixo, a acção do quebra-nozes já os tinha tornado irreconhecíveis. No entretanto, caminho semelhante tinha seguido o relógio de parede da cozinha (previamente esquartejado com o cutelo dos bifes). Os relógios digitais do micro-ondas e do forno do fogão foram cirurgicamente apagados com o picador de gelo.
Até este ponto, a esposa de Dionísio foi conseguindo gerir o medo que lhe provocava o comportamento anómalo do marido. Mas quando o seu relógio de pulso preferido (caixa em ouro de 18 quilates, prenda de casamento de um tio já falecido) foi aterrar na lareira acesa, meteu meia dúzia de peças de roupa numa mala e foi para casa dos pais, felizmente ainda vivos. Ele está louco, mamã, soluçava a pobre senhora. De facto, acender a lareira num dia de Agosto em que o Instituto Meteorológico assinalava uma temperatura de 41 ºC dificilmente deixava lugar a outro diagnóstico.
E assim Dionísio continuou eliminando todos os sinais de contagem do tempo. Ainda tentou alvejar com uma carabina de pressão de ar o relógio da torre da igreja que se via da janela da sala, mas verificada a inutilidade desse esforço, resignou-se a correr os pesados cortinados para o afastar da vista.
Afundado num sofá, na sala quase às escuras, Dionísio tinha sossegado, o silêncio à sua volta actuando como um calmante para o seu cérebro cansado. Foi então que do núcleo mais central desse silêncio começou a surgir um ritmo, um batimento, uma pulsação regular, como se um monstruoso relógio se tivesse instalado dentro de si próprio. Quando teve consciência da origem daquele pulsar terrificante, Dionísio soube o que tinha a fazer. Como um autómato telecomandado, levantou-se, foi à cozinha, trouxe a faca de trinchar, tornou a sentar-se no sofá, procurou no lado esquerdo do peito o local onde o batimento era mais forte, apoiou aí a ponta da lâmina e lenta mas firmemente, empurrou a faca. Nos breves instantes até perder a consciência, Dionísio sentiu uma paz a invadi-lo, como se finalmente o tempo estivesse a parar...
Foi com essa expressão pacífica no rosto, como se dormisse, que a polícia, alertada pelos vizinhos, o foi encontrar três dias depois.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006